Mark I – O Primeiro Tanque de Guerra da História
Em 15 de setembro de 1916, no setor de Flers-Courcelette, no front ocidental da Primeira Guerra Mundial, algo nunca antes visto avançou sobre a terra devastada da Somme. Eram máquinas de formato losangular, cobertas de chapas de aço, cuspindo fumaça e disparando metralhadoras — lentas, barulhentas, mecânicamente precárias, mas absolutamente aterrorizantes para os soldados alemães que as viam surgir do nevoeiro da manhã. Alguns abandonaram suas trincheiras sem disparar um único tiro. Um observador britânico descreveu a cena como “um pesadelo de ferro movendo-se sobre a lama”. Esses veículos eram os tanques Mark I, e naquele dia a guerra mecanizada havia nascido.
O Mark I foi o primeiro tanque a entrar em combate na história. Desenvolvido em segredo pelo governo britânico entre 1915 e 1916, ele representou a resposta da Grã-Bretanha ao colapso tático provocado pela guerra de trincheiras: um veículo blindado, autopropulsionado, capaz de cruzar arame farpado, superar valas e resistir ao fogo de metralhadoras. Apesar de seus defeitos estruturais graves — superaquecimento, visibilidade quase nula, tripulação submetida a condições de trabalho brutais —, o Mark I demonstrou que o impasse das trincheiras podia ser rompido por meios mecânicos.
Este artigo examina em profundidade a origem do Mark I: os problemas táticos que levaram à sua criação, o processo de desenvolvimento técnico, as figuras que o conceberam, seu desempenho em combate, seus limites reais e seu legado para a história da guerra blindada. Ao final, ficará claro por que o Mark I não foi apenas uma inovação bélica, mas o ponto de partida de uma revolução militar cujos ecos chegam até o século XXI.
A Primeira Guerra Mundial expôs, de forma brutal, os limites das doutrinas militares do século XIX diante das tecnologias do século XX. Infantaria avançando em formação, cavalaria carregando sobre campo aberto — tudo isso foi aniquilado pela metralhadora e pela artilharia de fogo indireto. O resultado foi a trincheira: um sistema de defesa quase impenetrável que transformou o front ocidental em uma linha de 700 quilômetros onde dezenas de milhares de homens podiam morrer por um ganho territorial de alguns metros. Foi nesse contexto que o tanque nasceu — não como visão futurista, mas como solução desesperada para um problema tático imediato.
A Crise da Guerra de Trincheiras e a Busca por uma Solução
O Impasse do Front Ocidental
Quando os exércitos alemão e aliado se entrincheiraram ao longo do front ocidental no outono de 1914, os comandantes de ambos os lados enfrentaram um problema para o qual não tinham resposta doutrinária: como atravessar uma zona de morte varrida por metralhadoras, artilharia e arame farpado sem ser destruído antes de alcançar as linhas inimigas?
As batalhas de 1915 tornaram a questão urgente. Em Neuve Chapelle, Artois e Loos, os britânicos atacaram com coragem e foram dizimados. A artilharia podia destruir as trincheiras, mas não podia ocupá-las — e assim que os canhões calavam, as metralhadoras sobreviventes varriam o campo novamente. O gás venenoso, introduzido pelos alemães em Ypres em abril de 1915, criou terror mas não resolveu o problema tático. A guerra estava presa.
Foi nesse contexto que surgiu a ideia de uma máquina blindada autopropulsionada capaz de cruzar obstáculos, resistir a projéteis de fuzil e metralhadora, e criar brechas nas defesas inimigas. A ideia não era inteiramente nova — escritores como H.G. Wells havia especulado sobre veículos de guerra mecanizados em ficção científica desde 1903 —, mas sua implementação prática exigiu a pressão catastrófica de uma guerra total.
Os Pioneiros do Projeto
A paternidade do tanque britânico é disputada entre vários indivíduos, mas os nomes centrais são Ernest Swinton, Maurice Hankey e, crucialmente, Winston Churchill — então Primeiro Lorde do Almirantado.
Ernest Swinton, oficial do exército britânico e correspondente de guerra, foi provavelmente o primeiro a articular com clareza, em outubro de 1914, a necessidade de um veículo blindado sobre lagartas capaz de cruzar trincheiras. Sua proposta inicial foi rejeitada pelo Alto Comando do Exército, que considerou a ideia impraticável. Swinton então encaminhou suas ideias ao Comitê de Defesa Imperial, onde encontrou apoio em Maurice Hankey, secretário do comitê.
Churchill, ao receber o memorando de Hankey, reagiu com entusiasmo atípico para a burocracia militar. Usando verbas do Almirantado — o que gerou controvérsia, já que a ideia era claramente um projeto do exército, não da marinha —, Churchill estabeleceu em fevereiro de 1915 o Landships Committee (Comitê de Navios Terrestres), encarregado de desenvolver protótipos. A nomenclatura naval não era acidental: ajudava a disfarçar a natureza do projeto e a justificar o uso de recursos da marinha.
O engenheiro William Tritton, da empresa William Foster & Co., de Lincoln, e o tenente da Marinha Walter Wilson foram designados para transformar os conceitos em metal. Tritton era um especialista em maquinaria agrícola; Wilson tinha experiência com transmissões mecânicas. A combinação de engenharia civil e militar produziu o veículo que mudaria a guerra.
Do Protótipo ao Campo de Batalha: Desenvolvimento Técnico do Mark I
Little Willie e o Nascimento do Design Losangular
O primeiro protótipo, chamado informalmente de “Little Willie”, foi completado em setembro de 1915. Era um veículo sobre lagartas, pesando cerca de 14 toneladas, mas apresentava um problema fundamental: não conseguia cruzar as largas valas que caracterizavam as trincheiras do front ocidental. As especificações militares exigiam que o veículo cruzasse valas de pelo menos 2,4 metros de largura e subisse obstáculos de 1,4 metro de altura — requisitos que Little Willie simplesmente não atendia.
Mark I no The Tank Museum em Bovington,
Dorset, Inglaterra
A solução veio de uma insight de design radical: abandonar o casco retangular convencional e adotar um formato losangular, com lagartas que envolviam toda a extensão do veículo numa moldura romboidal. Esse design aumentava dramaticamente o comprimento de contato das lagartas com o solo, permitindo ao veículo cruzar valas largas e superar obstáculos mais altos. O Little Willie não conseguia transpor adequadamente aberturas de aproximadamente três metros — exatamente o que as trincheiras do front ocidental exigiam. A resposta foi o novo protótipo, chamado de “Mother” (ou “Big Willie”), construído em dezembro de 1915: moveu-se por meios próprios pela primeira vez em 13 de janeiro de 1916, e funcionou.
A demonstração formal em Hatfield Park, a partir de 29 de janeiro de 1916, diante de representantes militares e civis de alto escalão — incluindo o Secretário de Estado para a Guerra Lord Kitchener e membros do gabinete —, foi um sucesso suficiente para garantir um pedido de 150 unidades. O veículo havia se transformado de protótipo experimental em arma de guerra.
Especificações Técnicas do Mark I
O Mark I era um veículo de dimensões e peso consideráveis para a época. Pesava 28 toneladas, media 9,9 metros de comprimento, 4,1 metros de largura e 2,4 metros de altura. Era movido por um motor Daimler de seis cilindros com 105 cavalos de potência — potência modesta para o peso do veículo, o que resultava em velocidade máxima de apenas 6 km/h em terreno plano, e frequentemente menos em condições de combate.
O Mark I existia em duas variantes principais: o “Male” (Macho), armado com dois canhões navais QF de 6 libras (57 mm) alojados nos chamados “sponsons” — casamatas fixas projetadas para fora das laterais do casco, sem rotação —, além de quatro metralhadoras Hotchkiss; e o “Female” (Fêmea), que substituía os canhões por metralhadoras adicionais, com um total de seis metralhadoras. A distinção era operacional: o Male destinava-se a destruir posições defensivas e abrigos; o Female, a suprimir infantaria e metralhadoras inimigas. Na prática, as unidades eram frequentemente emparelhadas nas operações.
A tripulação era composta por oito homens: um comandante, um condutor, dois soldados responsáveis pelas marchas de direção (cada um controlando uma lagarta), e quatro artilheiros. As condições internas eram quase inimagináveis: o calor gerado pelo motor podia ultrapassar 50°C; os vapores de combustível e gases de pólvora se acumulavam no compartimento; o barulho era ensurdecedor; e a visibilidade era feita por pequenas fendas de observação. Não havia ventilação adequada e a comunicação entre os tripulantes era feita por sinais, pois a voz era inaudível. Casos de intoxicação por monóxido de carbono eram frequentes.
A Engenharia dos Problemas
O Mark I era um veículo de primeira geração, e seus problemas técnicos eram correspondentemente sérios. A transmissão exigia quatro homens para operar: o condutor principal acionava os embreagens e o acelerador, enquanto dois soldados manipulavam as alavancas de freio e as marchas de cada lagarta individualmente — um processo que demandava coordenação constante e comunicação por sinais.
As lagartas eram propensas a se desprender, especialmente em terreno muito irregular ou muito encharcado. O motor superaquecia facilmente. Os sponsons eram desmontáveis para transporte ferroviário, mas sua reinstalação em campo era um processo trabalhoso. A manutenção exigia habilidades mecânicas que a maioria dos soldados não possuía, e as peças de reposição tardavam a chegar ao front.
Apesar de tudo isso, o Mark I funcionava suficientemente bem para representar uma ruptura genuína — e era isso que importava.
Baptismo de Fogo: Flers-Courcelette, Setembro de 1916
A Decisão de Usar Antes da Hora
A batalha do Somme já se arrastava há dois meses e meio quando o general britânico Douglas Haig decidiu empregar os tanques na ofensiva de Flers-Courcelette, em 15 de setembro de 1916. A decisão foi controversa então e permanece objeto de debate historiográfico. Os defensores de Haig argumentam que a situação no Somme demandava qualquer vantagem disponível, e que o emprego experimental dos tanques gerou informações valiosas para usos futuros. Os críticos — e entre eles estava o próprio Swinton — argumentam que Haig desperdiçou o elemento surpresa ao usar os tanques prematuramente, em número insuficiente e sem doutrina tática adequada.
De 49 tanques designados para a operação, apenas 32 estavam em condições de cruzar a linha de partida no dia do ataque. Desses 32, apenas 18 efetivamente entraram em ação contra as posições alemãs; os demais quebraram mecanicamente, ficaram presos na lama ou foram imobilizados antes de alcançar o inimigo. A sequência — 49 designados, 32 na linha, 18 em combate — ilustra, com precisão aritmética, a fragilidade mecânica do Mark I. A dispersão ao longo de um front de vários quilômetros diluiu ainda mais o impacto.
O Ataque e seu Impacto
Ainda assim, onde os tanques funcionaram, o efeito foi dramático. Em Flers, um Mark I avançou pelo centro da aldeia enquanto a infantaria o seguia. Relatos alemães da época descrevem pânico e abandono de posições. A famosa observação de que um tanque avançava pelas ruas de Flers “com o exército britânico atrás dele em jubilo” foi feita por um piloto do Royal Flying Corps observando a ação do ar — e, embora carregue algum exagero, sintetiza com precisão o impacto psicológico daquele momento.
O avanço territorial em Flers-Courcelette foi de 2 a 4 quilômetros em alguns setores — modesto em termos absolutos, mas substancial para os padrões do front ocidental em 1916. Os analistas militares aliados concluíram que os tanques tinham potencial real, mas que seu emprego futuro exigiria concentração maior, melhor planejamento e veículos mecanicamente mais confiáveis.
Os alemães, por sua vez, inicialmente subestimaram a ameaça — uma subestimação que lhes custaria caro nos anos seguintes.
As Condições Humanas Dentro do Mark I
A Tripulação e suas Experiências
A historiografia dos tanques frequentemente se concentra na dimensão técnica e tática, negligenciando a experiência humana dos tripulantes — um aspecto que merece atenção analítica própria.
Os homens que tripulavam o Mark I operavam em condições que desafiam a descrição. A temperatura interna, já mencionada, era extrema. Os gases de combustão e a fumaça da pólvora tornavam o ar irrespirável em combate prolongado. Os projéteis inimigos que não penetravam o aço criavam lascas metálicas — os chamados “bullet splash” — que ricocheteavam pelo interior do compartimento, causando ferimentos nos olhos e no rosto. Os tripulantes passaram a usar óculos de proteção e capacetes especiais — precursores funcionais dos equipamentos de proteção individual modernos.
O barulho do motor, dos disparos e dos impactos externos criava um ambiente de desorientação permanente. A comunicação dentro do tanque dependia de toques, sinais com as mãos e, eventualmente, de tubos acústicos primitivos. Navegar dentro do veículo, mantendo noção de direção e posição no campo de batalha, era extraordinariamente difícil — especialmente considerando que as fendas de observação eram minúsculas e frequentemente cobertas de lama.
A fadiga era outro fator crítico. Uma operação de combate de algumas horas esgotava completamente a tripulação, tanto pelo esforço físico de operar os controles quanto pelo peso psicológico do combate em condições extremas. Relatos de época descrevem esgotamento profundo, tremores, dificuldade de concentração e incapacidade de retornar ao serviço após determinadas missões — manifestações que a medicina da época classificava como “shell shock” e que a psiquiatria contemporânea enquadraria de forma diferente, mas que testemunham o custo humano real de operar esses veículos. O ruído intenso podia provocar danos auditivos.
Do Mark I às Versões Posteriores: A Evolução Acelerada
Mark II, III, IV e V
A experiência operacional de Flers-Courcelette gerou imediatamente demandas por melhorias. O Mark II e o Mark III, produzidos em pequenas quantidades, foram essencialmente veículos de treinamento com modificações menores nas lagartas e blindagem. O Mark IV, introduzido em 1917 e utilizado na batalha de Cambrai, representou uma melhoria substancial: blindagem mais espessa, sistema de combustível mais seguro, sponsons menores que permitiam desmontagem mais fácil para transporte.
O Mark IV foi o tanque britânico mais produzido da guerra — cerca de 1.220 unidades —, e sua atuação em Cambrai, em novembro de 1917, representou o primeiro emprego em massa de tanques na história. As fontes divergem sobre o número exato de veículos em combate — estimativas confiáveis variam entre 378 e pouco mais de 400 Mark IV —, mas o princípio operacional era inédito: concentração blindada sem preparação artilharia prévia, buscando velocidade e surpresa em vez do desgaste lento que havia caracterizado a Somme. As linhas alemãs foram rompidas em profundidade que parecia impossível apenas um ano antes. Cambrai antecipou a doutrina da guerra blindada que dominaria o século XX.
O Mark V, de 1918, finalmente resolveu o problema da transmissão: um único condutor podia operar o veículo, sem necessidade de assistentes para as marchas das lagartas. Isso simplificou dramaticamente a operação e aumentou a eficiência tática.
A Resposta Alemã
Os alemães levaram tempo surpreendentemente longo para desenvolver sua própria resposta blindada. O A7V, único tanque produzido pela Alemanha durante a Primeira Guerra, entrou em serviço em março de 1918 — quase dois anos depois dos primeiros Mark I em combate. Foram encomendadas 100 unidades, mas apenas 20 chegaram a ser construídas — número que por si só resume a incapacidade industrial e doutrinária alemã de responder à ameaça blindada aliada. O primeiro combate entre tanques da história ocorreu em 24 de abril de 1918, em Villers-Bretonneux, quando um Mark IV Male britânico enfrentou e inutilizou o A7V alemão de designação Nixe — um duelo breve, mas historicamente inaugural.
A disparidade de produção é reveladora: ao final da guerra, os aliados tinham produzido mais de 6.000 tanques; a Alemanha, apenas 20 do modelo próprio. A Alemanha compensou parcialmente capturando e reutilizando tanques aliados, mas nunca desenvolveu uma força blindada comparável. A subestimação alemã da ameaça blindada em 1916 e 1917 foi um erro estratégico significativo — embora historiadores como Hew Strachan apontem que os recursos industriais alemães, já sobrecarregados pela produção de artilharia e munição, dificilmente teriam permitido uma produção blindada em escala diferente.
Legado Histórico: O Mark I e a Revolução da Guerra Blindada
A Doutrina que Nasceu da Lama
O legado mais importante do Mark I não foi tático, mas doutrinário. Ele demonstrou que a guerra mecanizada era possível e que o problema da trincheira tinha solução tecnológica. Essa percepção libertou o pensamento militar de uma geração de teóricos.
J.F.C. Fuller, oficial britânico que participou diretamente das operações de tanques no final da guerra, desenvolveu o Plano 1919 — uma proposta de ofensiva blindada em massa que jamais chegou a ser executada, pois o armistício veio antes. Fuller, junto com Basil Liddell Hart, publicou nas décadas seguintes uma série de trabalhos sobre mobilidade, concentração de força blindada e desorganização do comando inimigo por penetração profunda. Essas ideias circularam amplamente no debate militar europeu do entre-guerras.
A relação entre esses teóricos britânicos e a doutrina alemã que produziu as campanhas de 1939–1940 é real, mas não deve ser simplificada numa linha de causalidade direta. A doutrina alemã resultou de uma evolução mais ampla, que incluía a tradição do Auftragstaktik (tática de missão), as lições operacionais da própria guerra e a contribuição de figuras como Heinz Guderian. O que se pode afirmar com segurança é que Fuller e Liddell Hart ajudaram a estabelecer o vocabulário conceitual com o qual a guerra mecanizada passou a ser pensada — e que esse vocabulário foi lido, debatido e adaptado em vários países, inclusive na Alemanha. É uma ironia historiográfica que a nação que mais tardiamente adotou o tanque tenha sido a que mais eficazmente desenvolveu sua doutrina no período seguinte.
O Mark I e a Segunda Guerra Mundial
O fio que liga o Mark I ao T-34 soviético, ao Sherman americano e ao Panzer IV alemão é direto, embora não linear. Cada geração de tanques resolveu os problemas das gerações anteriores e criou novos. A blindagem melhorou, a velocidade aumentou, a transmissão foi aperfeiçoada, o armamento tornou-se mais poderoso e preciso. Mas o conceito fundamental — um veículo blindado, autopropulsionado, capaz de combinar proteção, potência de fogo e mobilidade — permaneceu o mesmo desde que Tritton e Wilson o implementaram em metal em Lincoln, em 1915.
A Segunda Guerra Mundial confirmou, de forma definitiva, que o tanque era o veículo central do combate terrestre moderno. As batalhas de Kursk, El Alamein e Normandia são impensáveis sem a linhagem que começa no Mark I. O que era uma gambiarra improvisada para resolver o problema das trincheiras tornou-se o elemento dominante da doutrina militar por décadas.
Avaliação Historiográfica
A historiografia do tanque Mark I oscila entre duas tendências interpretativas. A primeira, triunfalista, celebra o Mark I como uma genialidade britânica que deu a resposta ao impasse da trincheira e abriu caminho para a vitória aliada. A segunda, mais crítica, aponta para os erros de emprego — especialmente a decisão de Haig de usar os tanques em Flers antes que houvesse doutrina, número ou confiabilidade mecânica suficientes —, e argumenta que o potencial do Mark I foi desperdiçado pela rigidez do Alto Comando.
A posição mais equilibrada — sustentada pela documentação do Tank Museum e pela historiografia de especialistas como David Fletcher e John Keegan, ainda que por vias distintas — reconhece ambas as verdades sem subordinar uma à outra: o Mark I foi uma inovação genuína e consequente, e seu emprego inicial foi subótimo. O que importa é que a inovação sobreviveu aos seus próprios erros de introdução — um padrão recorrente na história da tecnologia militar, do mosquete ao avião a jato.
Conclusão
O Mark I foi imperfeito em quase todos os sentidos técnicos possíveis. Era lento, mecânicamente instável, sufocante para seus tripulantes, difícil de navegar e frequentemente inutilizável pela lama que definia o front ocidental. E, ainda assim, foi suficientemente funcional para provar um ponto que mudou a história da guerra: obstáculos físicos podiam ser superados por máquinas, e a metralhadora — o símbolo do impasse moderno — tinha um adversário à altura.
A batalha de Flers-Courcelette, em setembro de 1916, foi um ensaio cheio de imperfeições. Mas ensaios existem para isso. Do Mark I derivaram o Mark IV de Cambrai, o Mark V do final da guerra, e de lá, pela via dos teóricos e pelos campos de batalha da Segunda Guerra, todos os tanques modernos. O veículo losangular fumegante que cruzou a terra devastada da Somme carregava dentro de si não apenas oito homens suando e sufocando, mas o embrião de uma nova forma de fazer guerra.
A história raramente começa com perfeição. Começa com necessidade, engenhosidade e coragem de testar algo novo sob fogo real. O Mark I foi exatamente isso — e por isso seu lugar na história militar é permanente.

FAQ — Perguntas Frequentes sobre o Mark I
O que foi o tanque Mark I? O Mark I foi o primeiro tanque a ser usado em combate na história, desenvolvido pelo governo britânico entre 1915 e 1916 e empregado pela primeira vez em 15 de setembro de 1916, na batalha de Flers-Courcelette, durante a Primeira Guerra Mundial.
Por que o tanque foi inventado? O tanque foi desenvolvido como resposta ao impasse da guerra de trincheiras no front ocidental. A combinação de arame farpado, valas e metralhadoras tornava avanços de infantaria extremamente custosos. O tanque foi concebido para cruzar esses obstáculos enquanto protegia seus tripulantes do fogo inimigo.
Quem inventou o Mark I? O desenvolvimento envolveu múltiplos indivíduos. Ernest Swinton propôs o conceito inicial; Winston Churchill, como Primeiro Lorde do Almirantado, financiou o projeto; e os engenheiros William Tritton e Walter Wilson transformaram o conceito em veículo funcional. O protótipo “Mother” foi construído pela empresa William Foster & Co., de Lincoln.
Quantas pessoas tripulavam o Mark I? O Mark I tinha uma tripulação de oito homens: um comandante, um condutor principal, dois soldados responsáveis pelas marchas de cada lagarta, e quatro artilheiros distribuídos nos sponsons e nas metralhadoras.
Qual era a diferença entre o Mark I “Male” e o “Female”? O Mark I “Male” (Macho) era armado com dois canhões navais de 6 libras nos sponsons laterais, além de metralhadoras. O “Female” (Fêmea) substituía os canhões por metralhadoras adicionais. O Male destinava-se a destruir posições e abrigos; o Female, a suprimir infantaria inimiga.
O Mark I foi eficaz em batalha? Seu desempenho foi misto. Em Flers-Courcelette, obteve resultados locais significativos — causou pânico entre as tropas alemãs e permitiu avanços que seriam impossíveis sem ele. Mas o número de veículos era insuficiente, a confiabilidade mecânica era baixa, e a doutrina tática estava em sua infância. Sua principal contribuição foi demonstrar o potencial do tanque para emprego futuro.
Por que os alemães demoraram a desenvolver seu próprio tanque? A Alemanha subestimou inicialmente a ameaça representada pelos tanques aliados, acreditando que barreiras antitanque e artilharia seriam suficientes para neutralizá-los. Somou-se a isso a sobrecarga industrial alemã e a prioridade dada a outros sistemas de armas. O único tanque alemão da guerra, o A7V, só entrou em serviço em março de 1918. Embora 100 unidades tivessem sido encomendadas, apenas 20 foram efetivamente construídas — número que sintetiza a incapacidade alemã de responder à ameaça blindada em escala.
Qual foi o legado do Mark I para guerras posteriores? O Mark I estabeleceu o conceito fundamental do tanque moderno e estimulou um debate doutrinário que influenciou o desenvolvimento da guerra blindada no entre-guerras. Teóricos britânicos como J.F.C. Fuller e Basil Liddell Hart publicaram trabalhos sobre mobilidade e concentração blindada que circularam amplamente na Europa. A doutrina alemã de 1939–1940 resultou de uma evolução mais ampla — que incluía tradições militares próprias e figuras como Guderian —, mas as ideias desenvolvidas a partir da experiência do Mark I fizeram parte desse processo.
Quantos Mark I foram produzidos? Foram produzidas 150 unidades do Mark I, divididas entre as versões Male e Female. No total, ao longo da guerra, os britânicos produziram mais de 2.600 tanques de todos os modelos, enquanto os aliados em conjunto chegaram a mais de 6.000 unidades.
O Mark I ainda existe hoje? Sim. Um único exemplar do Mark I sobrevive atualmente, preservado no Tank Museum de Bovington, na Inglaterra. O veículo é o último sobrevivente dos 150 Mark I produzidos durante a Primeira Guerra Mundial. O museu também preserva importante documentação relacionada ao desenvolvimento dos primeiros tanques. Quanto ao protótipo Mother, seu destino exato permanece incerto: durante muito tempo se acreditou que tivesse sido desmontado durante a Segunda Guerra Mundial, mas pesquisas recentes levantaram a possibilidade de que tenha sido enterrado em Bovington. Até o momento, porém, não há confirmação definitiva. O protótipo Little Willie, por sua vez, sobreviveu e também pode ser visto no Tank Museum.
Leituras Recomendadas
FLETCHER, David. Landships: British Tanks in the First World War. Londres: HMSO, 1984.
KEEGAN, John. The Face of Battle: A Study of Agincourt, Waterloo and the Somme. Londres: Jonathan Cape, 1976.
FULLER, J.F.C. Tanks in the Great War, 1914–1918. Londres: John Murray, 1920.
HARRIS, J.P. Men, Ideas and Tanks: British Military Thought and Armoured Forces, 1903–1939. Manchester: Manchester University Press, 1995.
SWINTON, Ernest D. Eyewitness: Being Personal Reminiscences of Certain Phases of the Great War, Including the Genesis of the Tank. Londres: Hodder and Stoughton, 1932.

