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Dario III, o último rei persa

Na primavera de 334 a.C., um exército macedônio de pouco mais de 40 mil homens cruzou o Helesponto. À sua frente, um jovem rei de 22 anos alimentava ambições que pareciam desproporcionais à realidade: conquistar o Império Aquemênida, a maior estrutura política que o mundo antigo havia produzido até então. Do outro lado, havia um monarca que governava territórios que se estendiam do Egeu até o Indo, das estepes da Ásia Central até o deserto da Líbia. Dario III, terceiro desse nome entre os reis persas, era o soberano de uma civilização com dois séculos de domínio ininterrupto sobre o Oriente Próximo. Três anos depois, ele fugiria pela segunda vez de um campo de batalha, abandonando sua família, seu tesouro e a dignidade do cargo que ocupava.

Infográfico sobre Dario III, último rei do Império Aquemênida, e suas guerras contra Alexandre, o Grande, entre 336 e 330 a.C.
Dario III foi o último rei do Império Aquemênida. Seu reinado, entre 336 e 330 a.C., foi marcado pela invasão de Alexandre, o Grande, pelas derrotas em Isso e Gaugamela e pelo colapso do domínio persa.

Dario III é frequentemente reduzido a um símbolo de derrota — o antagonista conveniente da narrativa alexandrina, o governante fraco que entregou um império consolidado por Ciro, Cambises e Dario I. Essa leitura, contudo, distorce tanto o personagem quanto o contexto histórico. Dario III não era um monarca inepto: era um político experiente, sobrevivente de uma corte que funcionava como campo minado permanente, e um comandante que tentou, por mais de uma vez, adaptar suas forças a um adversário radicalmente diferente de qualquer coisa que a tradição militar persa havia enfrentado.

Este artigo examina a trajetória de Dario III desde sua ascensão improvável ao trono até sua morte ignominiosa nas estepes bactriana. No caminho, analisa as batalhas de Isso e Gaugamela, as decisões estratégicas que moldaram o conflito com Alexandre, e o debate historiográfico sobre as causas reais da queda aquemênida. A pergunta central não é apenas por que Dario perdeu — mas o que sua derrota revela sobre a natureza dos impérios, das lideranças em crise e da violência que reorganiza o mundo.

O Império Aquemênida que Dario III herdou era, em termos territoriais e administrativos, uma das mais sofisticadas estruturas de poder que a Antiguidade produziu. Fundado por Ciro II no século VI a.C., o império havia desenvolvido um sistema de satrapias que permitia governar povos radicalmente distintos sem a necessidade de homogeneização cultural forçada. A Estrada Real, o sistema de comunicações e o modelo tributário eram instrumentos de coesão que funcionavam há gerações. Mas a corte aquemênida também era um ambiente de intrigas endêmicas, conspirações palacianas e violência interna — e foi precisamente nesse ambiente que Dario III emergiu.

Mapa histórico das satrapias do Império Persa Aquemênida durante o reinado de Dario I, por volta de 500 a.C., mostrando as divisões administrativas do império, principais cidades, estados tributários e áreas de influência, com destaque para regiões como Pérsia, Média, Babilônia, Egito, Lídia, Armênia, Pártia, Sogdiana e Hindush.
Organizado em satrapias durante as reformas administrativas de Dario I, o Império Persa tornou-se uma das estruturas governamentais mais eficientes da Antiguidade, administrando territórios que se estendiam da Trácia ao Vale do Indo.

Ascensão ao trono: sobrevivência como pré-condição do poder

O nome original de Dario III era Codomano. Ele não era filho de rei nem herdeiro direto da linha principal dos Aquemênidas — era um membro lateral da família real, descendente de Artaxerxes II por uma linha colateral. Sua ascensão ao trono em 336 a.C. foi produto de uma sequência de assassinatos que eliminou praticamente todos os candidatos à sucessão.

O eunuco Bagoas — não confundir com o favorito macedônio de Alexandre — foi o arquiteto dessa limpeza dinástica. Vizir de enorme poder durante o reinado de Artaxerxes III, Bagoas havia envenenado o próprio monarca em 338 a.C., colocado no trono o jovem Arsés e depois o eliminou também quando o novo rei tentou afirmar autonomia. Codomano foi escolhido como substituto por parecer controlável — um nobre de prestígio suficiente para legitimar o cargo, mas sem base de poder própria que ameaçasse o vizir.

O cálculo de Bagoas revelou-se equivocado. Segundo Diodoro Sículo, quando o eunuco tentou envenenar o novo rei, Dario III forçou-o a ingerir o próprio veneno. A anedota pode conter elementos apócrifos, mas aponta para algo relevante: Dario não era um fantoche passivo. Ele sobreviveu à corte aquemênida — o ambiente político mais letal do mundo antigo — e consolidou sua posição antes de Alexandre cruzar o Helesponto.

Há um dado biográfico que os autores clássicos registram com admiração: antes de tornar-se rei, Codomano havia se destacado como soldado. Durante as campanhas de Artaxerxes III contra os cadúsios — povo das margens do Mar Cáspio —, ele teria derrotado em combate singular o campeão inimigo, ato que lhe conferiu reputação militar considerável. Pierre Briant, o historiador francês cuja obra De Cyrus à Alexandre permanece como referência fundamental sobre o período, sustenta que Dario III era um homem capaz e que sua derrota deve ser compreendida em termos estruturais, não de incompetência pessoal.

O problema é que Dario assumiu o trono em 336 a.C., no exato momento em que o mundo estava mudando de eixo. Na Macedônia, Filipe II acabara de ser assassinado. Seu filho Alexandre, com 20 anos, herdava um exército reformado, uma aristocracia militar de alta coesão e uma missão pan-helênica de vingança contra a Pérsia — narrativa construída para legitimar a expansão macedônia no mundo grego. Dario III e Alexandre II subiram ao poder quase simultaneamente. Um deles não sobreviveria ao encontro.

Infográfico comparando a falange hoplítica grega e a falange macedônica de Filipe II, mostrando sarissas, formação das fileiras, cavalaria dos hetairoi e equipamentos militares macedônicos.
Infográfico explicando como a falange macedônica revolucionou a guerra no mundo antigo durante o reinado de Filipe II.

O primeiro confronto: Isso e o problema da geografia

Em 334 a.C., Alexandre derrotou os sátrapas persas no Grânico, estabelecendo o controle macedônio sobre a Anatólia ocidental. A batalha foi travada sem a presença de Dario — a resistência foi organizada pelos governadores locais, e a decisão do rei de não intervir pessoalmente nesse estágio refletia tanto a distância logística quanto a avaliação de que aquela era uma incursão limitada, não diferente das expedições espartanas do século anterior que haviam sido eventualmente contidas.

Infográfico histórico da Batalha do Granico mostrando o avanço oblíquo macedônio de Alexandre contra a cavalaria persa às margens do rio Granico em 334 a.C.
A Batalha do Granico marcou a primeira grande vitória de Alexandre contra o Império Persa. O confronto revelou a eficiência da cavalaria macedônica e quase custou a vida do rei, salvo por Clito, o Negro.

Essa avaliação revelou-se errônea. Alexandre avançou pela costa anatólica, tomou Sardes, Éfeso, Mileto e Halicarnasso. A Estrada Real — cujo significado para a coesão imperial foi ameaçada em seus pontos de conexão ocidentais. Dario compreendeu que precisava agir diretamente.

O encontro decisivo ocorreu em 333 a.C., na planície de Isso, no extremo nordeste do Mediterrâneo, onde a costa síria se curva em direção à Anatólia. A escolha do terreno foi o primeiro grande erro estratégico persa — ou, dependendo da interpretação, a tragédia de um terreno que foi disputado sem o planejamento adequado.

O exército de Dario era numericamente superior ao macedônio. As estimativas antigas chegam a cifras fantasiosas — Diodoro fala em 400 mil homens, o que é demograficamente impossível. Historiadores modernos convergem para números entre 100 e 150 mil combatentes persas, contra aproximadamente 40 a 45 mil macedônios. A superioridade numérica, contudo, foi neutralizada pela topografia: a planície de Isso era estreita, encaixada entre o mar e as montanhas, o que impediu os persas de desdobrar suas forças em largura e explorar o flanco.

Infográfico da Batalha de Isso em 333 a.C. entre Alexandre, o Grande, e Dario III, com mapa, exércitos, etapas da batalha e consequências.
Infográfico da Batalha de Isso, travada em 333 a.C. entre o exército macedônio de Alexandre, o Grande, e as forças persas de Dario III. O terreno estreito entre o Mediterrâneo e as montanhas limitou a vantagem numérica persa e favoreceu a ofensiva macedônia.

A falange macedônia — formação de lanças longas, as sarissas, que criavam uma muralha de metal impenetrável para cavalaria frontal — operava com máxima eficiência em terreno aberto e relativamente plano. Em Isso, Dario foi privado do espaço que sua cavalaria pesada precisava para operar. Quando Alexandre liderou pessoalmente a Companheiros — a cavalaria de elite macedônia — em carga diagonal contra o centro persa, Dario rompeu. O rei persa fugiu do campo de batalha em sua carruagem, abandonando não apenas as tropas, mas sua mãe, sua esposa Estateira e suas filhas, que foram capturadas pelos macedônios.

A fuga de Isso tornou-se o símbolo definitivo do caráter de Dario III na tradição clássica. O mosaico de Alexandre, descoberto em Pompeia e provavelmente cópia de uma pintura do século IV a.C., captura o momento com precisão iconográfica: Alexandre em carga impetuosa, Dario virando a carruagem em pânico, os persas se fragmentando ao redor. É uma construção ideológica, não uma fotografia — mas revela como a Antiguidade codificou esse encontro.

A.B. Bosworth, em seu estudo sobre as campanhas de Alexandre, argumenta que a decisão de Dario de engajar em Isso foi estrategicamente defensável: ele havia interceptado as linhas de comunicação macedônias, forçando Alexandre a lutar em condições desfavoráveis. O problema foi a execução — a rigidez tática persa diante do dinamismo macedônio, e possivelmente a inexperiência de Dario em comandar pessoalmente um exército de campo em grande escala.


As negociações e a recusa de Alexandre

Após Isso, Dario fez algo que os historiadores tendem a subestimar: tentou negociar. Enviou embaixadores a Alexandre propondo um acordo. Os termos evoluíram ao longo das tratativas. Numa versão registrada por Diodoro e Arriano, Dario ofereceu território a oeste do Eufrates, o pagamento de um resgate substancial pela família capturada e uma aliança matrimonial. Em outra versão, a oferta chegou a incluir todo o território a oeste do rio Hális — ou seja, a Anatólia inteira.

Alexandre recusou. O general Parmenião teria dito: “Se eu fosse Alexandre, aceitaria esses termos.” Alexandre respondeu: “Eu também aceitaria, se fosse Parmenião.” A anedota, possivelmente apócrifa, sintetiza a lógica alexandrina: não havia ponto de chegada negociável porque o objetivo não era territorial, mas total. Alexandre não queria uma fatia do Império Aquemênida — queria o império inteiro.

Essa recusa teve consequências profundas. Dario percebeu que estava diante de um adversário que não operava pela lógica convencional da guerra como instrumento de barganha política. Não havia concessão que satisfizesse Alexandre — o que significava que a única saída era militar. Dario usou os dois anos seguintes, entre Isso e a batalha final, para reconstituir seu exército, recrutar novos contingentes e, crucialmente, selecionar um terreno diferente para o próximo confronto.


Gaugamela: a batalha preparada e a derrota definitiva

A Batalha de Gaugamela, travada em 1º de outubro de 331 a.C. perto de Arbela (atual Irbil, no norte do Iraque), foi o confronto decisivo da guerra. Desta vez, Dario escolheu o terreno com cuidado. A planície de Gaugamela era ampla, aberta, e havia sido alisada deliberadamente para permitir que as carruagens com foices — uma inovação persa que Alexandre nunca havia enfrentado antes — operassem com máxima eficiência. Dario havia aprendido, ao menos parcialmente, a lição de Isso.

O exército persa em Gaugamela era provavelmente o maior que Dario jamais reuniu. Arriano estima 40 mil de cavalaria e um milhão de infantaria — números impossíveis que estudiosos modernos reduzem a algo entre 100 e 250 mil combatentes totais, com ênfase numa cavalaria muito superior à macedônia em número. Dario também trouxe elefantes indianos — novidade que visava desorientar os cavalos macedônios — e as carruagens com foices nas laterais.

A batalha começou com Dario tentando envolver os flancos macedônios. Alexandre respondeu com uma manobra oblíqua clássica: marchando em diagonal para a direita, esticando a linha persa até criar uma brecha. Quando a abertura apareceu no centro persa, Alexandre lançou os Companheiros em carga direta — novamente pessoalmente liderando o ataque.

O detalhe que a historiografia tem enfatizado é que Dario desta vez não estava perdendo no momento em que decidiu fugir. O flanco esquerdo macedônio havia sido penetrado; a bagagem de Alexandre estava sendo saqueada; o general Parmenião enviou mensagens pedindo socorro urgente. A batalha estava em equilíbrio quando Dario rompeu. Ernst Badian e outros historiadores do século XX debateram extensamente essa questão: fugiu Dario por covardia pessoal, ou por reconhecer que, se fosse capturado ou morto, o império colapsaria independentemente do resultado da batalha?

A segunda interpretação tem mais consistência com a lógica imperial aquemênida. O rei não era apenas um comandante militar — era o eixo simbólico e administrativo de uma estrutura que dependia de sua pessoa para funcionar. A fuga pode ter sido, paradoxalmente, uma tentativa de preservar as condições para uma resistência continuada. O problema é que funcionou como o oposto: a retirada de Dario desintegrou a coesão do exército persa e sinalizou, para as satrapias, que o centro havia cedido.


A dissolução do império e a fuga final

Após Gaugamela, o colapso foi rápido. Babilônia se rendeu sem resistência. Susa abriu suas portas. Persépolis, a capital cerimonial do império, caiu em janeiro de 330 a.C. — Alexandre a incendiou num gesto que mesclava simbolismo político (vingança pela queima de Atenas em 480 a.C.) e possivelmente excesso alcoólico, conforme sugere Plutarco, embora a motivação exata permaneça debatida.

Dario fugiu para o leste, em direção à Média e depois à Báctria, tentando reorganizar a resistência nas satrapias orientais. Mas sua autoridade havia se evaporado. Besso, sátrapa da Báctria e primo do rei, liderou um golpe interno. Em julho de 330 a.C., enquanto o exército persa em retirada era perseguido de perto pela cavalaria macedônia, Besso e seus associados apunhalaram Dario III e o deixaram agonizando numa carroça.

O momento da morte de Dario foi registrado pelos autores antigos com dramaticidade calculada. Segundo a tradição, Alexandre chegou ao local pouco depois — encontrando o rei ainda vivo ou recém-falecido. Independentemente da precisão dos detalhes, o episódio serviu a Alexandre politicamente: ele ordenou que o corpo de Dario fosse transportado a Persépolis e sepultado com honras reais. Ao fazer isso, estava sinalizando às elites persas que ele era o legítimo sucessor dos Aquemênidas, não um saqueador — mas o herdeiro natural de uma tradição imperial que ele pretendia continuar sob nova direção.

Besso foi capturado posteriormente, julgado segundo os costumes persas e executado de forma brutal — mutilação e desmembramento, penalidade reservada para o assassinato de um rei. A punição foi também um gesto de legitimação: Alexandre vingava Dario como um rei vinga seu predecessor.


Por que o império caiu? O debate historiográfico

A queda do Império Aquemênida diante de Alexandre é um dos problemas historiográficos mais persistentes da Antiguidade. As interpretações variam amplamente.

A tradição clássica, preservada em Arriano, Plutarco e Diodoro, tende a enfatizar a superioridade de Alexandre — seu gênio militar, sua temeridade pessoal, sua capacidade de inspirar tropas. Essa narrativa tem o problema de ser produzida por autores que escreviam séculos após os eventos, a partir de fontes que já haviam sido filtradas pela memória alexandrina.

A historiografia do século XX deslocou o problema. George Cawkwell argumentou que o império aquemênida estava estruturalmente enfraquecido pelas guerras civis dinásticas do século IV a.C. — os conflitos entre Artaxerxes II e Ciro o Jovem, a expedição dos Dez Mil, as revoltas das satrapias ocidentais. O império que Dario III herdou já não era o monolito de Dario I: era uma estrutura com fissuras internas significativas.

Pierre Briant vai mais longe e questiona o próprio enquadramento da questão. Para Briant, o Império Aquemênida não “caiu” no sentido de um colapso civilizacional — foi conquista militar seguida de continuidade administrativa. Alexandre manteve a estrutura de satrapias, nomeou persas para cargos importantes, adotou trajes e protocolos aquemênidas (a proskynesis, a genuflexão ritual, gerou escândalo entre os macedônios) e apresentou-se como legítimo herdeiro de Ciro. O que terminou não foi a civilização persa, mas uma dinastia específica.

Há também a questão da assimetria tática. A falange macedônia com sarissas era uma inovação relativamente recente, desenvolvida por Filipe II a partir de modelos tebanos. Os exércitos persas não haviam enfrentado nada equivalente. As forças aquemênidas dependiam de infantaria leve, arqueiros e cavalaria — excelentes para as guerras convencionais do Oriente Próximo, mas vulneráveis à muralha de lanças que os macedônios apresentavam em campo aberto.

Isso não significa que os persas não tentaram adaptar-se. Memnão de Rodes, mercenário grego a serviço de Dario, havia proposto antes de Isso uma estratégia de terra arrasada: recuar, devastar os recursos do território, evitar batalhas campais e desgastar os macedônios por privação logística. A proposta foi rejeitada — possivelmente porque destruir as próprias satrapias era politicamente inaceitável para um império que dependia da lealdade local. Esse dilema entre eficiência militar e manutenção da coesão política é um dos problemas mais recorrentes na história dos grandes impérios.


A família de Dario e o tratamento macedônio

Um aspecto frequentemente negligenciado é o destino da família real persa capturada em Isso. A mãe de Dario, Sisigâmbis, sua esposa Estateira e suas filhas ficaram sob custódia macedônia por anos. Os autores antigos registram que Alexandre as tratou com respeito — não as escravizou nem as humilhou, manteve seu status e sua corte reduzida.

Esse tratamento tinha motivação política clara: Alexandre precisava da legitimidade que as mulheres da família real poderiam conferir. Casou-se com Roxana, princesa bactriana, e depois com Estateira II, filha de Dario — incorporando literalmente o sangue aquemênida à sua linhagem.

A relação entre Alexandre e Sisigâmbis tornou-se, na tradição clássica, um dos pontos mais carregados de pathos do período. Quando a notícia da morte de Alexandre chegou em 323 a.C., Sisigâmbis teria se recusado a comer e morrido poucos dias depois — escolhendo acompanhar o conquistador de seu filho na morte mais do que retornar ao mundo que havia sido destruído. A anedota, presente em Diodoro e Quinto Cúrcio, é possivelmente literária, mas captura a estranheza da situação: a mãe do último rei da Pérsia lamentando mais o conquistador do que o conquistado.


O legado de Dario III: entre a história e a memória

A memória histórica de Dario III foi construída, em grande medida, pelos vencedores. As fontes primárias sobre Alexandre — Arriano, Plutarco, Diodoro, Quinto Cúrcio — todas escreveram séculos depois dos eventos, a partir de fontes que não são imparciais. O historiador Calístenes de Olinto, sobrinho de Aristóteles que acompanhou a campanha, produziu uma narrativa oficial do ponto de vista macedônio antes de ser executado pelo próprio Alexandre.

O que sabemos sobre Dario III vem, portanto, filtrado por uma perspectiva que tinha interesse em apresentá-lo como adversário à altura — suficientemente poderoso para que a vitória sobre ele fosse gloriosa — mas também como inferior, para que a superioridade macedônia parecesse natural.

A historiografia persa do período é praticamente inexistente. Não há relatos do ponto de vista aquemênida que tenham sobrevivido. As inscrições e documentos administrativos persas do período fornecem contexto institucional, mas não perspectiva narrativa. Isso cria uma assimetria radical nas fontes que os historiadores modernos precisam constantemente compensar.

A reabilitação historiográfica de Dario III começa no século XX com trabalhos como os de Briant e Badian, que situam sua derrota no contexto estrutural do império e questionam a narrativa de colapso inevitável. Nessa leitura, Dario não foi um monarca incompetente que entregou um império sólido — foi um governante razoável que enfrentou uma combinação específica de pressões que poucos sistemas políticos da época teriam suportado: um exército inovador liderado por um comandante de gênio genuíno, operando em velocidade e com flexibilidade tática sem precedentes.

Não há como saber o que teria acontecido se Dario houvesse aceito a batalha em terreno diferente, ou implementado a estratégia de Memnão, ou se Alexandre houvesse morrido em uma das situações em que esteve em perigo real — no Grânico, em Isso, no cerco de Tiro, em Gaugamela. A história contrafactual é exercício intelectual legítimo, mas não muda os fatos: Dario III foi o último rei da Pérsia aquemênida, e com sua morte em 330 a.C., uma tradição imperial de dois séculos chegou ao fim.


Conclusão: o peso de um fim de era

A trajetória de Dario III condensa, em menos de seis anos de reinado, a crise terminal de uma das civilizações mais duradouras da Antiguidade. Ele não foi o responsável pelos problemas estruturais que encontrou ao subir ao trono — as intrigas palacianas, a erosão da coesão das satrapias ocidentais, a incapacidade de adaptar a doutrina militar persa às inovações macedônias. Mas foi quem os enfrentou no momento em que eles convergiam com a maior força militar que o mundo mediterrânico havia produzido.

O que Dario III representa, em sentido mais amplo, é a fragilidade dos impérios diante da contingência histórica. O Império Aquemênida havia sobrevivido a invasões, revoltas internas, guerras com as cidades-estado gregas e crises dinásticas. O que não sobreviveu foi a combinação específica de um adversário radicalmente novo e uma liderança que, por mais capaz que fosse, não tinha instrumentos para responder a ele.

A morte de Dario numa carroça, apunhalado por seus próprios subordinados enquanto fugia pela Báctria, é uma das imagens mais carregadas da história antiga. Não porque Dario fosse necessariamente um mau rei — mas porque sintetiza o que acontece quando uma ordem estabelecida enfrenta uma força que não respeita as regras que a tornavam possível.


FAQ – Perguntas Frequentes sobre Dario III

Quem foi Dario III? Dario III foi o último rei do Império Aquemênida da Pérsia, reinando de 336 a.C. até sua morte em 330 a.C. Seu nome original era Codomano, e ele ascendeu ao trono após uma série de assassinatos que eliminou os demais herdeiros.

Por que Dario III perdeu para Alexandre? A derrota de Dario III resultou de uma combinação de fatores: a superioridade tática da falange macedônia com sarissas, o gênio militar de Alexandre, a topografia desfavorável em Isso, e fragilidades estruturais do Império Aquemênida acumuladas ao longo do século IV a.C.

O que aconteceu com Dario III após a Batalha de Gaugamela? Após a derrota em Gaugamela, Dario fugiu para o leste em direção à Báctria, tentando reorganizar a resistência. Em julho de 330 a.C., foi assassinado por Besso, sátrapa da Báctria, que tentou assumir o controle do que restava do império.

Como foi a Batalha de Isso? A Batalha de Isso ocorreu em 333 a.C., numa planície estreita entre o mar e as montanhas do nordeste do Mediterrâneo. A topografia impediu os persas de explorar sua superioridade numérica. Alexandre liderou carga direta contra o centro persa, e Dario fugiu, deixando sua família capturada.

Dario III era um bom rei? A historiografia moderna, especialmente a obra de Pierre Briant, tende a reabilitar Dario III como governante capaz que enfrentou circunstâncias extraordinárias. Ele sobreviveu a uma corte altamente perigosa, eliminou o vizir Bagoas que pretendia controlá-lo, e tentou adaptar sua estratégia após cada derrota.

Por que Alexandre incendiou Persépolis? O incêndio de Persépolis em 330 a.C. teve motivação tanto simbólica — vingança pela queima de Atenas pelos persas em 480 a.C. — quanto política. Algumas fontes antigas, como Plutarco, sugerem que a decisão também teve componente de excesso durante uma celebração, mas o debate historiográfico sobre a motivação exata continua.

O que aconteceu com a família de Dario III? A família de Dario III — sua mãe Sisigâmbis, sua esposa Estateira e suas filhas — foi capturada após Isso e tratada com respeito por Alexandre. Posteriormente, Alexandre casou-se com Estateira II, filha de Dario, incorporando o sangue aquemênida à sua própria linhagem dinástica.

Qual foi o último ato político de Dario III? Além de tentar reorganizar militarmente a resistência nas satrapias orientais, Dario enviou embaixadas a Alexandre após Isso oferecendo condições de paz, incluindo territórios e aliança matrimonial. Alexandre recusou todas as ofertas, sinalizando que seu objetivo era a conquista total do império.


Leituras Recomendadas

ARRIANO. Anábase de Alexandre. Tradução e introdução de P.A. Brunt. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library), 1976.

BRIANT, Pierre. From Cyrus to Alexander: A History of the Persian Empire. Tradução de Peter T. Daniels. Winona Lake: Eisenbrauns, 2002.

BOSWORTH, A.B. Conquest and Empire: The Reign of Alexander the Great. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.

CAWKWELL, George. The Greek Wars: The Failure of Persia. Oxford: Oxford University Press, 2005.

PLUTARCO. Vidas Paralelas: Alexandre e César. Tradução de Hélio Vaz de Mello. São Paulo: Ediouro, 2004.

Fernando Rocha

Fernando Rocha, formado em Direito pela PUC/RS e apaixonado por história, é o autor e criador deste site dedicado a explorar e compartilhar os fascinantes acontecimentos do passado. Ele se dedica a pesquisar e escrever sobre uma ampla gama de tópicos históricos, desde eventos políticos e culturais até figuras influentes que moldaram o curso da humanidade."

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