Batalha de Gaugamela: a vitória que destruiu o Império Persa
Era 1º de outubro de 331 a.C. O sol nascia sobre a planície de Gaugamela, na Mesopotâmia, e Dario III, Rei dos Reis, observava de seu carro de guerra o exército mais numeroso que o Império Aquemênida jamais havia mobilizado. Centenas de milhares de homens — persas, bactrianos, indianos, citas, egípcios — aguardavam em formação. No lado oposto, com talvez quarenta e sete mil soldados, Alexandre da Macedônia ajustava sua armadura e dava as últimas instruções a seus generais. O desequilíbrio numérico era brutal. O resultado, porém, foi o oposto do que a lógica dos números sugeria.
A Batalha de Gaugamela foi a batalha decisiva da campanha de Alexandre contra a Pérsia. Nela, o jovem rei macedônio derrotou Dario III e efetivamente encerrou o Império Aquemênida como potência político-militar. Em termos estratégicos e táticos, é considerada uma das batalhas mais bem executadas da história militar antiga — talvez de toda a história militar ocidental.
Este artigo examina Gaugamela em profundidade: o contexto que levou ao confronto, a disposição das forças, a mecânica tática da batalha, os momentos de crise, a fuga de Dario e as consequências políticas e históricas de uma vitória que reconfigurou o mundo antigo. Serão discutidas também as principais divergências historiográficas sobre os números envolvidos, a cronologia dos eventos e o papel individual de Alexandre no desfecho.
Gaugamela não foi apenas uma batalha. Foi o ponto de inflexão que transformou um reino macedônio periférico em um império que se estendia do Mediterrâneo até o Indo — e que moldou, de forma duradoura, o mundo helenístico e as civilizações que vieram depois.
O Contexto: Por que Gaugamela foi Inevitável
A Campanha de Alexandre até 331 a.C.
Quando Alexandre cruzou o Helesponto em 334 a.C., a campanha contra a Pérsia era, em sua retórica oficial, a continuação da guerra de vingança pelo saque persa de Atenas em 480 a.C. Mas as motivações eram mais complexas: a consolidação do poder macedônio sobre a Grécia, o controle das rotas comerciais do Mediterrâneo oriental e, no caso específico de Alexandre, uma ambição pessoal de dimensões quase míticas, alimentada desde a infância por Aristóteles e pelas narrativas homéricas.
A primeira grande batalha da campanha foi travada no rio Granico (334 a.C.), onde Alexandre derrotou os sátrapas persas do litoral anatólico. A segunda foi em Isso (333 a.C.), onde enfrentou Dario III pela primeira vez. Mesmo com o exército persa tendo cortado suas linhas de suprimento, Alexandre venceu ao romper diretamente o centro persa com a cavalaria dos Companheiros. Dario fugiu, abandonando sua família — mãe, esposa e filhos — no campo de batalha.
Após Isso, Alexandre não perseguiu Dario para o interior. Em vez disso, virou para o sul, conquistou a Fenícia (incluindo o longo cerco de Tiro, em 332 a.C.), avançou sobre o Egito e fundou Alexandria. A estratégia era isolar o Império Persa de seus recursos marítimos antes de avançar para o coração da Mesopotâmia. Em 331 a.C., tendo garantido o flanco ocidental, Alexandre estava finalmente pronto para o confronto decisivo.
A Preparação de Dario III
Dario sabia que Isso havia sido uma derrota parcial. O terreno acidentado do vale cilício havia impedido que sua superioridade numérica se convertesse em vantagem real. Para o próximo confronto, ele escolheu cuidadosamente o local: a planície de Gaugamela, próxima à cidade de Arbela (atual Erbil, no Iraque), no território da Assíria. O terreno foi deliberadamente aplainado para permitir o movimento de carros de guerra com foices e a manobra de elefantes de guerra — armas que, em campo aberto, poderiam ser devastadoras contra a falange macedônia.
Dario mobilizou recursos de todo o império. As estimativas antigas variam enormemente: Arriano fala em um milhão de infantes e quarenta mil cavaleiros, números que a historiografia moderna considera muito exagerados. Estimativas contemporâneas, baseadas em análises logísticas e comparativas, sugerem um total entre duzentos e cinquenta mil e trezentos e cinquenta mil homens, embora alguns historiadores, como A. B. Bosworth, trabalhem com números ainda mais conservadores, próximos de cem a cento e cinquenta mil combatentes efetivos. O que é indiscutível é que o exército persa superava numericamente o macedônio em proporção significativa — provavelmente de três a seis para um.
Entre os recursos especiais mobilizados por Dario estavam duzentos carros de guerra com foices nas rodas, quinze elefantes de guerra indianos, a cavalaria pesada bactrianacomandada por Bessus, a cavalaria cita e as unidades de infantaria grega mercenária — que, ironicamente, eram treinadas nos mesmos métodos do exército macedônio.
As Forças em Campo: Composição e Disposição
O Exército Macedônio
Alexandre chegou a Gaugamela com aproximadamente quarenta e sete mil homens, divididos entre infantaria pesada, cavalaria e tropas auxiliares. O núcleo do exército era a falange macedônia, organizada nos batalhões de taxeis (infantaria pesada com sarissas, lanças de até seis metros). Cada taxis era composto por aproximadamente quinhentos a mil e quinhentos homens, e a falange como um todo formava um bloco central quase impenetrável em terreno firme.

À direita da falange, Alexandre posicionou a cavalaria dos Companheiros (hetairoi), a elite montada da Macedônia, com Alexandre pessoalmente no comando da ala direita. Esta era a força de golpe decisivo — cavalaria pesada capaz de rompimento frontal e exploração de brechas. À esquerda, o general Parmenião comandava a cavalaria tessaliana e outras unidades aliadas gregas.
Uma inovação tática crucial de Alexandre em Gaugamela foi o uso de uma linha oblíqua de reservas posicionada nos flancos e na retaguarda — infantaria leve e cavalaria capaz de girar e enfrentar ameaças de envolvimento. Alexandre antecipava que o exército persa tentaria envolver seus flancos, dada a enorme superioridade numérica, e preparou contra-medidas específicas para esse cenário.
O Exército Persa
Dario posicionou o exército persa em uma linha muito mais longa do que a macedônia. Ao centro, ele próprio, no carro de guerra, rodeado pela guarda real (melophori), pela cavalaria real e pelos mercenários gregos. Nas alas, a poderosa cavalaria bactrianaà esquerda (sob Bessus) e a cavalaria síria e mesopotâmica à direita. Na frente, os carros de guerra com foices e os elefantes.
A estratégia persa era explícita: usar a superioridade numérica para envolver ambos os flancos macedônios simultaneamente, enquanto os carros de guerra desorganizavam a falange central e permitiam à infantaria persa romper o centro.
A Batalha: Mecânica e Momentos Decisivos
A Noite Antes: O Conselho de Guerra
Na noite anterior à batalha, segundo Arriano, Parmenião sugeriu a Alexandre um ataque noturno, aproveitando a desorganização do exército persa acampado. Alexandre recusou com a frase que se tornaria célebre: “Não roubaria minha vitória.” A historiografia divide-se sobre a interpretação. Alguns, como Peter Green, leem isso como vaidade ou propaganda. Outros, como Bosworth, argumentam que havia razões táticas sólidas: um ataque noturno contra um exército de tamanho desconhecido, em terreno que os persas conheciam melhor, poderia resultar em desastre. A batalha deveria ser vencida de forma inquestionável para que a legitimidade da conquista fosse universal.
Dario, por sua vez, não dormiu. Manteve seu exército em formação durante a noite, temendo exatamente o ataque noturno que Alexandre recusara. Os soldados persas chegaram ao dia da batalha fatigados.
A Abertura: O Movimento para a Direita
A batalha começou com Alexandre executando um movimento lateral deliberado para a direita, conduzindo todo o seu exército obliquamente em direção à ala esquerda persa. O objetivo era múltiplo: sair do terreno aplainado por Dario (que havia sido preparado especialmente para os carros de guerra), forçar o exército persa a se mover — desorganizando sua formação cuidadosamente preparada — e criar uma abertura no centro persa à medida que a ala esquerda se esticasse para acompanhar o movimento macedônio.
Dario ordenou que a cavalaria bactrianaavançasse para deter o movimento lateral. A batalha começou nos flancos antes de se generalizar no centro.
A Carga dos Carros de Guerra
Quando a infantaria persa finalmente avançou, os carros de guerra com foices foram lançados contra a falange. Este foi um dos momentos mais estudados da batalha. Os macedônios haviam treinado especificamente para este cenário: ao invés de manter a formação rígida, abriram corredores e deixaram os carros passarem, atacando os condutores com lanças e flechas. Os cavalos foram atingidos ou desviados. O ataque dos carros, que deveria ser a arma decisiva de Dario, foi neutralizado com perdas mínimas para os macedônios.
A Brecha no Centro Persa
O movimento decisivo veio quando a cavalaria bactriana, tentando envolver a ala direita de Alexandre, criou uma lacuna no centro-esquerda da linha persa. Alexandre, que havia estado contendo os ataques na ala direita, identificou a abertura. Em um dos movimentos mais estudados da história militar, ele girou a cavalaria dos Companheiros para dentro, em direção ao centro, formando uma cunha (wedge formation) apontada diretamente para Dario.
A carga foi devastadora. A cavalaria real persa foi varrida, e Alexandre chegou a distância de lança do próprio Dario. O que aconteceu a seguir é objeto de debate historiográfico, mas Arriano descreve que Dario fugiu — inicialmente em seu carro, depois a cavalo. A fuga do rei foi o colapso psicológico do exército persa. Quando o centro desapareceu, as unidades nas alas, ainda combatendo, perderam a coerência e começaram a recuar.
A Crise na Ala Esquerda: Parmenião e o Momento de Decisão
Enquanto Alexandre avançava em perseguição a Dario, chegou uma mensagem urgente de Parmenião, na ala esquerda: a cavalaria persa havia rompido a linha e estava atacando o acampamento macedônio. A ala esquerda corria risco de colapso. Alexandre foi forçado a interromper a perseguição e voltar para socorrer Parmenião.
Este episódio gerou uma das mais antigas polêmicas sobre Gaugamela. Os antigos — especialmente as fontes favoráveis a Alexandre — minimizavam a crise na ala esquerda ou a atribuíam à incompetência de Parmenião. Historiadores modernos, como Heckel e Yardley, argumentam que a situação era genuinamente crítica e que a decisão de Alexandre de abandonar a perseguição foi tática e correta: uma vitória incompleta que custasse o centro do exército seria catastrófica. A batalha foi salva pela cavalaria tessaliana, que resistiu até a chegada de Alexandre, e pela debandada geral que a fuga de Dario havia desencadeado nas unidades persas.
As Consequências Imediatas: Arbela, Persépolis e o Fim dos Aquemênidas
A Perseguição e a Fuga de Dario
Alexandre chegou tarde demais para capturar Dario em Arbela. O rei persa fugiu para o leste, para a Média, com um pequeno grupo de companheiros. Seguiu-se uma sequência de meses em que Alexandre avançava e Dario recuava cada vez mais para o interior do império, perdendo apoio e legitimidade a cada semana.
Em 330 a.C., Dario foi assassinado por Bessus, seu próprio sátrapa da Báctria, que então se autoproclamou rei sob o nome de Artaxerxes V. A morte de Dario privou Alexandre de um triunfo formal, mas também resolveu o problema dinástico: Alexandre podia agora se apresentar como o legítimo herdeiro e vingador do rei legítimo persa, assassinado por um rebelde. Ele perseguiu Bessus até a Ásia Central, capturou-o e o executou em 329 a.C.
A Tomada das Capitais Persas
Após Gaugamela, o caminho para as grandes cidades do império estava aberto. Babilônia se rendeu sem resistência, e Alexandre foi recebido com honras reais. Susa também caiu pacificamente, entregando um tesouro calculado em cinquenta mil talentos de prata — uma riqueza quase incompreensível para os padrões macedônios.
A tomada de Persépolis, a capital cerimonial dos Aquemênidas, teve um desfecho controverso: Alexandre permitiu o saque da cidade e, num episódio que ele próprio mais tarde descreveu como um erro, o incêndio do Palácio de Persépolis. A tradição antiga, registrada por Diodoro, Plutarco e Curcio Rufo, atribui o incêndio a um impulso durante um banquete, possivelmente sugerido pela hetaira ateniense Taís, que pediu a Alexandre que vingasse a queima de Atenas pelos persas em 480 a.C. Arriano é mais cético sobre essa versão dramática. Independentemente da motivação, o incêndio foi um ato político: sinalizava o fim da dinastia Aquemênida.
A Dimensão Tática: O que Tornou Alexandre Invencível
A Falange e a Cavalaria: A Tática da Bigorna e o Martelo
O sistema tático macedônio que Alexandre herdou de seu pai Filipe II é frequentemente descrito com a metáfora do martelo e da bigorna: a falange (bigorna) prende e imobiliza o inimigo pela frente enquanto a cavalaria (martelo) golpeia o flanco ou a retaguarda. Em Gaugamela, essa dinâmica atingiu seu apogeu.
O que distinguia Alexandre de seus contemporâneos não era apenas o sistema em si, mas sua capacidade de ler o campo de batalha em tempo real e identificar o momento exato para lançar o golpe decisivo. A janela de oportunidade criada pela lacuna no centro persa durou poucos minutos. Alexandre a viu, tomou a decisão imediata e agiu com velocidade que não deixou tempo para resposta.
A Disciplina da Falange
A falange macedônia era extraordinariamente difícil de quebrar de frente. Com sarissas de seis metros, os soldados das primeiras cinco fileiras podiam engajar o inimigo simultaneamente, formando uma barreira de pontas de lança quase impenetrável para infantaria convencional. Mas a falange tinha vulnerabilidades: era lenta, inflexível em terreno acidentado e exposta nos flancos.
Em Gaugamela, a planície escolhida por Dario paradoxalmente favoreceu a falange tanto quanto favorecia os carros persas. O terreno firme permitiu que os taxeis mantivessem a coesão. E quando os carros atacaram, a disciplina para abrir corredores controlados — em vez de debandada — demonstrou um nível de treinamento que nenhum exército persa conseguia igualar.
A Cavalaria dos Companheiros
Os hetairoi eram cavalaria pesada equipada com lanças e treinada para o choque frontal — algo incomum no mundo antigo, onde a cavalaria era usada principalmente para exploração e perseguição. Sob Alexandre, a cavalaria dos Companheiros tornou-se uma arma de ruptura: capaz de penetrar formações inimigas e atingir centros de comando.
A formação em cunha (embolon) usada na carga decisiva de Gaugamela concentrava o impulso em um único ponto, maximizando o choque e minimizando a exposição lateral. É uma solução tática elegante que ilustra o tipo de pensamento que tornava o sistema macedônio superior.
Historiografia: O que as Fontes Dizem — e o que Silenciam
As Fontes Antigas
As principais fontes sobre Gaugamela são Arriano (Anábase de Alexandre), Plutarco (Vida de Alexandre), Diodoro Sículo (Biblioteca Histórica) e Quinto Cúrcio Rufo (Histórias de Alexandre). Nenhum deles é contemporâneo de Alexandre: Arriano escreveu no século II d.C., Plutarco na virada do século I para o II d.C., Diodoro no século I a.C. e Cúrcio Rufo provavelmente no século I d.C.
Todos dependem de fontes perdidas: principalmente Ptolomeu (general de Alexandre que escreveu memórias) e Aristóbulo (engenheiro que participou da campanha). A versão de Ptolomeu, que favorecia Alexandre e minimizava Parmenião, é considerada a base principal de Arriano. A versão de Cúrcio é mais crítica de Alexandre e possivelmente reflete fontes hostis. A historiografia moderna trabalha com esse mosaico de fontes tendenciosas, tentando reconstituir os eventos por triangulação e análise crítica.
O Problema dos Números
Os números fornecidos pelas fontes antigas para o exército de Dario são claramente inflados. Arriano menciona um milhão de infantes e quarenta mil cavaleiros. Plutarco fala em números ainda maiores. Essas cifras são consideradas impossíveis pelas análises logísticas modernas: seria necessário um território de centenas de quilômetros quadrados apenas para alimentar e fornecer água a tal contingente.
A. B. Bosworth, em seu estudo definitivo sobre as campanhas de Alexandre, estima o exército persa em cerca de duzentos mil homens no total, com talvez metade disso em combatentes efetivos de primeira linha. Peter Green trabalha com estimativas similares. Ernst Badian foi mais cético ainda, sugerindo que o exército persa efetivo pode ter sido comparável em tamanho ao macedônio, com a diferença sendo qualitativa, não apenas quantitativa.
A questão importa historiograficamente porque afeta a interpretação da vitória: se Alexandre derrotou um exército de um milhão, a explicação deve ser quase inteiramente tática; se derrotou um exército de duzentos mil com quarenta e sete mil, a explicação pode incluir componentes logísticos, de moral e de coerência de comando.
O Legado de Gaugamela: Um Mundo Reconfigurado
O Fim do Império Aquemênida
O Império Aquemênida havia durado mais de duzentos anos — de Ciro, o Grande (550 a.C.) até a morte de Dario III (330 a.C.). Em seu apogeu, era o maior império que o mundo antigo havia visto, estendendo-se do Egeu até o Indo e do Cáucaso até o Egito. Sua administração por satrapias era um modelo de governança imperial que influenciou todos os impérios subsequentes na região.
Gaugamela não destruiu imediatamente todas as estruturas administrativas persas. Alexandre foi suficientemente pragmático para manter muitos sátrapas persas em seus cargos, adotar elementos do protocolo cerimonial aquemênida e casar-se com Roxana, princesa bactriana, como parte de uma política deliberada de legitimação persa. O que terminou em Gaugamela foi a soberania política aquemênida e a capacidade militar de resistência organizada.
A Helenização do Oriente Próximo
As consequências de longo prazo de Gaugamela e da conquista macedônia foram a criação do mundo helenístico — um conjunto de reinos sucessores que combinavam cultura grega com tradições locais persas, egípcias, mesopotâmicas e da Ásia Central. Esta fusão cultural foi um dos processos mais determinantes da história do mundo antigo.
A língua grega tornou-se o koiné — a língua franca do Mediterrâneo oriental e do Oriente Próximo por séculos. As cidades fundadas por Alexandre (das quais Alexandrias foram as mais famosas, mas havia dezenas) tornaram-se centros de troca cultural. O judaísmo helenístico que produziu a tradução da Bíblia para o grego (a Septuaginta), a filosofia estoica que conectou gregos, romanos e sírios, o budismo greco-bactriano — todos são filhos intelectuais do mundo criado em Gaugamela.
A Influência sobre Roma
O modelo de Alexandre influenciou profundamente Roma. Generais romanos — Pompeu, Júlio César, Marco Antônio — conscientemente se espelhavam em Alexandre. Plutarco escreve que César, ao ver uma estátua de Alexandre em Cádis, chorou ao perceber que Alexandre havia conquistado o mundo na mesma idade em que ele ainda não havia feito nada de notável. A tática da falange foi adaptada para a legião. As campanhas de Gaugamela foram estudadas como modelos de estratégia operacional.
Mais diretamente, a fragmentação do império de Alexandre após sua morte em 323 a.C. criou os reinos helenísticos — os selêucidas, os ptolomeus, os antigônidas — que foram o contexto geopolítico em que Roma se expandiu para o oriente. Sem Gaugamela, não haveria helenismo; sem helenismo, a expansão romana teria sido radicalmente diferente.
Conclusão: Gaugamela e o Peso de uma Tarde de Outono
Gaugamela durou algumas horas. O exército persa — maior, melhor suprido e posicionado no terreno que seus próprios comandantes haviam escolhido — foi destruído por uma força menor, mais coesa e liderada por um homem de vinte e cinco anos que transformava percepção instantânea em decisão imediata.
O que torna Gaugamela notável na história militar não é apenas a vitória em si, mas a estrutura da vitória: a preparação meticulosa aliada à flexibilidade de execução, a combinação de armas que se amplificavam mutuamente, a capacidade de gerir uma crise simultânea em duas alas enquanto se perseguia o ponto de colapso inimigo. Por isso Gaugamela continua sendo estudada em academias militares até hoje.
Mas o legado de Gaugamela transcende a história militar. A batalha foi o gatilho de uma das maiores transformações culturais da Antiguidade. O mundo que emergiu dela — helenístico, híbrido, cosmopolita, conectado — foi o substrato sobre o qual o cristianismo se difundiu, em que a filosofia grega encontrou o pensamento persa e indiano, e que moldou, de formas que ainda não compreendemos completamente, o mundo medieval e moderno. Uma tarde de outono na planície assíria mudou o eixo da civilização.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre a Batalha de Gaugamela
O que foi a Batalha de Gaugamela? Foi o confronto militar decisivo entre Alexandre, o Grande, da Macedônia, e Dario III, rei do Império Persa, travado em 1º de outubro de 331 a.C. na planície de Gaugamela, na Mesopotâmia (atual Iraque). A vitória macedônia encerrou o poder aquemênida e abriu caminho para a conquista do Oriente Próximo e da Ásia Central por Alexandre.
Por que Dario escolheu Gaugamela para a batalha? Dario selecionou deliberadamente o terreno: uma planície ampla e aplainada que permitiria o uso eficaz de seus carros de guerra com foices e daria vantagem à sua superioridade numérica em cavalaria. O local foi escolhido para corrigir o erro de Isso, onde o terreno estreito havia neutralizado o exército persa.
Qual era a diferença numérica entre os dois exércitos? As fontes antigas exageram enormemente os números persas, chegando a mencionar um milhão de homens. A historiografia moderna estima o exército de Dario entre cem mil e trezentos mil combatentes, contra aproximadamente quarenta e sete mil macedônios. A proporção era significativamente desfavorável para Alexandre, mas a qualidade tática e a coerência de comando compensaram o desequilíbrio.
Por que Dario fugiu durante a batalha? A cavalaria dos Companheiros, liderada por Alexandre, rompeu o centro persa e avançou diretamente em direção ao carro de Dario. A fuga do rei — possivelmente motivada por trauma da derrota anterior em Isso, além do colapso imediato ao seu redor — desencadeou a debandada geral do exército persa, pois o centro de comando havia desaparecido.
O que foi a “cunha” tática usada por Alexandre? A formação em cunha (embolon) era uma disposição de cavalaria em formato triangular, com a ponta apontada para o inimigo, que concentrava o choque em um único ponto de impacto. Alexandre usou esta formação para penetrar a lacuna que havia se aberto no centro-esquerda persa e atingir diretamente Dario.
Como Alexandre neutralizou os carros de guerra com foices? Os macedônios haviam treinado para enfrentar exatamente este recurso. Quando os carros carregaram, a falange abriu corredores controlados, deixando os carros passarem enquanto os flancos atacavam os cavalos e condutores. A maioria dos carros foi destruída ou capturada sem causar baixas significativas à infantaria.
Qual foi o papel de Parmenião em Gaugamela? Parmenião comandou a ala esquerda macedônia, enfrentando forte pressão da cavalaria persa da ala direita. Em dado momento, enviou uma mensagem urgente a Alexandre pedindo reforços. Isso forçou Alexandre a interromper a perseguição a Dario e retornar. As fontes antigas, tendenciosas a favor de Alexandre, criticaram Parmenião; a historiografia moderna tende a reconhecer que a situação na ala esquerda era genuinamente grave.
Gaugamela foi a última batalha de Alexandre contra os persas? Foi a última batalha em campo aberto de grande escala. Após Gaugamela, a resistência organizada persa entrou em colapso. Houve combates subsequentes — especialmente na Ásia Central contra Bessus e as tribos citas — mas nunca mais um confronto de escala comparável a Gaugamela.
Quais foram as consequências de longo prazo de Gaugamela? O fim do Império Aquemênida, a criação do mundo helenístico, a difusão da língua e cultura gregas pelo Oriente Próximo e Ásia Central, e o estabelecimento das condições culturais e políticas que moldaram o desenvolvimento posterior do judaísmo helenístico, do estoicismo, do budismo greco-bactriano, do Império Romano e, indiretamente, do cristianismo.
Gaugamela ainda é estudada militarmente? Sim. A batalha é parte do currículo de academias militares em todo o mundo, especialmente como modelo de manobra oblíqua, uso combinado de armas, exploração de brechas táticas e liderança no ponto de decisão. A carga da cavalaria dos Companheiros é citada como exemplo clássico de timing e concentração de força.
Leituras Recomendadas
ARRIANO. Anábase de Alexandre. Tradução e introdução de P. A. Brunt. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library), 1976. 2v.
BOSWORTH, A. B. Conquest and Empire: The Reign of Alexander the Great. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.
GREEN, Peter. Alexander of Macedon, 356–323 B.C.: A Historical Biography. Berkeley: University of California Press, 1991.
HECKEL, Waldemar. The Conquests of Alexander the Great. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.
FOX, Robin Lane. Alexandre, o Grande. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

