Atenas: A Cidade-Estado que Inventou a Política Ocidental
Em 480 a.C., quando as chamas persas consumiam a Acrópole e os atenienses assistiam do mar à destruição de sua cidade, poucos imaginariam que aquela polis voltaria a dominar o mundo mediterrâneo em menos de uma geração. A derrota física foi total. A resposta política foi ainda mais reveladora: em vez de capitular, Atenas reconstruiu tudo — e dessa reconstrução emergiu não apenas uma cidade, mas um modelo de organização humana que ainda hoje estrutura o vocabulário da vida pública ocidental.
Atenas foi a mais influente das poleis gregas. Não a maior em território, não a mais poderosa militarmente em todos os períodos, não a mais rica em recursos naturais — mas a que produziu uma síntese política, cultural e intelectual sem precedentes na Antiguidade. A democracia ateniense, o direito à palavra pública, a filosofia como modo de vida coletivo: tudo isso nasceu ali, na encosta de uma colina calcária no sudeste da Ática.
Este artigo percorre a trajetória de Atenas desde suas origens micênicas até o ocaso da democracia clássica, passando pela reforma de Sólon, a tirania dos Pisistrátidas, a revolução cleistênica, o apogeu do século V a.C. e a crise estrutural que se seguiu à Guerra do Peloponeso. Ao longo do caminho, examina também o que a cidade significava para quem vivia nela — e para quem estava excluído de seu projeto político.
O tema interessa não apenas como curiosidade do passado, mas como exercício de compreensão histórica: as tensões que Atenas enfrentou entre liberdade e exclusão, entre império e democracia, entre identidade coletiva e pluralismo interno, continuam sendo as tensões fundamentais de qualquer ordem política que se pretenda democrática.
As Origens: De Aldeia Micênica a Capital da Ática
O sítio de Atenas já era habitado no período Neolítico, mas sua presença histórica começa a tomar forma durante a Idade do Bronze, quando a Acrópole funcionava como centro palacial micênico. As escavações realizadas ao longo do século XX revelaram camadas de ocupação contínua, e os poemas homéricos fazem referência a Atenas como participante — ainda que secundária — da Guerra de Troia.
Com o colapso da civilização micênica por volta de 1200 a.C., o que os historiadores chamam de Idade das Trevas Grega se instalou sobre a Ática. As redes comerciais se fragmentaram, a escrita Linear B desapareceu, e a população da região diminuiu significativamente. Atenas, nesse período, parece ter sobrevivido melhor do que outras cidades, talvez por sua posição geográfica menos exposta às rotas de invasão que devastaram Micenas e Tirinto.
A recuperação começou por volta do século IX a.C., e o período arcaico (700–480 a.C.) marca o surgimento da polis ateniense em sua forma reconhecível. A sinecismo — o processo de unificação política das comunidades da Ática sob a autoridade de Atenas — é atribuído pela tradição a Teseu, mas os historiadores modernos entendem que foi um processo gradual, estendido por séculos, e não um ato fundador singular. O resultado foi uma cidade-estado com território invulgarmente amplo para os padrões gregos: cerca de 2.500 km², incorporando o Pireu, a planície de Maratona e a região da Laurião, cujas minas de prata se revelariam estratégicas séculos mais tarde.

Essa amplitude territorial teve consequências profundas. Ao contrário de Esparta, que dependia de uma população servil (os hilotas) para sustentar sua classe guerreira, Atenas pôde desenvolver uma economia mais diversificada, baseada na agricultura familiar, na produção de cerâmica e azeite para exportação, e, progressivamente, no comércio marítimo. A relação com o mar seria central em toda a história subsequente da cidade.
Sólon e a Construção da Ordem Legal
O século VII a.C. ateniense foi marcado por tensões sociais intensas. A aristocracia dos eupatridas controlava a terra e os cargos públicos. Os camponeses endividados enfrentavam a escravidão por dívidas — uma prática que transformava homens livres em propriedade de seus credores. A pressão por reformas crescia, e o risco de uma tirania militar como alternativa ao colapso social era real.
Em 594 a.C., Sólon foi eleito arconte com poderes extraordinários e autoridade para reformar a constituição. O que ele fez é, até hoje, objeto de debate historiográfico. A tradição o apresenta como sábio moderado, o homem que encontrou o equilíbrio entre facções irreconciliáveis. A análise moderna é mais matizada.
Sólon aboliu a escravidão por dívidas — a seisachtheia, ou “sacudida de fardos” — e cancelou as hipotecas que pesavam sobre os camponeses. Reorganizou a sociedade ateniense em quatro classes censitárias baseadas na produção agrícola, abrindo cargos antes reservados à nobreza para os novos ricos. Criou a Helieia, um tribunal popular onde cidadãos comuns podiam julgar causas antes monopolizadas pelas famílias aristocráticas.
O que Sólon não fez é igualmente revelador: não redistribuiu a terra. Os grandes proprietários mantiveram suas propriedades, e os pobres que haviam perdido tudo no processo de endividamento não recuperaram seus lotes. A reforma foi suficiente para aliviar a tensão imediata, mas não para resolver as desigualdades estruturais que alimentavam o conflito. Sólon sabia disso — seus poemas, que nos chegaram em fragmentos, revelam um homem consciente dos limites do que era politicamente possível.
A historiografia do século XX debateu intensamente se Sólon deve ser visto como o precursor da democracia ou como um conservador que preservou os fundamentos da ordem aristocrática. A resposta mais honesta é: ambos. Ele criou mecanismos institucionais que, desenvolvidos por gerações posteriores, tornariam possível a democracia — mas seu projeto imediato era estabilizar, não revolucionar.
Pisístrato e a Tirania como Modernização
A instabilidade política que se seguiu às reformas solonianas produziu, após décadas de conflito entre facções regionais, a tirania de Pisístrato, que assumiu o controle de Atenas em 561 a.C. — com interrupções — e governou até sua morte em 527 a.C. Seus filhos Hípias e Hiparco o sucederam, até que a tirania foi derrubada em 510 a.C. com apoio espartano.
A tirania ateniense é um caso paradigmático de como essa forma de governo — condenada pela filosofia política posterior — pode funcionar como agente de modernização. Pisístrato não aboliu formalmente as instituições de Sólon; ele as manteve, mas esvaziou seu poder real enquanto controlava os resultados políticos. Ao mesmo tempo, promoveu ativamente o desenvolvimento econômico da cidade.
Sob sua liderança, Atenas expandiu sua influência no Mar Egeu, desenvolveu rotas comerciais e estabeleceu colônias estratégicas. A Panateneias, festival religioso em honra a Atena, foi reorganizada e monumentalizada, transformando-se em instrumento de identidade coletiva e soft power. A tradição atribui à iniciativa de Pisístrato a compilação e padronização dos poemas homéricos — um ato de política cultural que associava Atenas à herança pan-helênica.
O governo dos Pisistrátidas também foi período de intensa atividade construtiva. Templos, fontes públicas, obras de infraestrutura urbana: a cidade física de Atenas começa a tomar forma nesse período. O paradoxo é notável: a fundação material da cidade democrática foi em parte obra de um tirano.
A historiografia moderna tende a rejeitar a visão ingênua — presente em algumas fontes antigas — de Pisístrato como simples usurpador. Ao mesmo tempo, não ignora que seu governo suprimiu a oposição política e que a transição para a democracia exigiu sua derrubada violenta. A complexidade da tirania ateniense é um lembrete de que os processos históricos raramente seguem trajetórias lineares de evolução.
Clístenes e a Invenção da Democracia
A derrubada de Hípias em 510 a.C. abriu uma crise de poder. A aristocracia, liderada pelo clã dos Alcmeônidas — ao qual o próprio Clístenes pertencia —, esperava recuperar sua posição dominante. O que aconteceu em seguida foi uma das viradas mais inesperadas da história política.
Diante da resistência de seu rival Iságoras e do bloqueio das reformas pelo Conselho oligárquico, Clístenes fez o que nenhum aristocrata havia feito antes: apelou diretamente ao povo. Em 508/507 a.C., com apoio popular, implementou reformas que transformaram radicalmente a estrutura política de Atenas.
A reforma central foi a reorganização do corpo cívico em dez tribos artificiais, cada uma reunindo cidadãos de diferentes regiões da Ática — costa, interior e cidade. Esse design era deliberadamente anti-oligárquico: ao misturar cidadãos de origens geográficas distintas, Clístenes fragmentou as redes de clientelismo regional que sustentavam o poder das grandes famílias aristocráticas.
Criou também a Bulé, conselho de 500 membros — 50 por tribo — escolhidos por sorteio, que preparava a agenda da Assembleia. O sorteio é um elemento fundamental: não é um mecanismo de seleção por mérito, mas de distribuição do poder. Ao selecionar representantes por sorteio entre os cidadãos elegíveis, o sistema garantia que qualquer ateniense livre poderia, em algum momento, exercer função governativa. Era uma concepção de igualdade política radical para os padrões de qualquer época.
O ostracismo — mecanismo pelo qual a Assembleia podia votar pelo exílio temporário de qualquer cidadão considerado perigoso para a democracia — foi também introduzido nesse período, embora seu uso efetivo tenha começado mais tarde. É uma instituição ambígua: ao mesmo tempo proteção contra a tirania e arma de perseguição política.
Clístenes não é, na tradição antiga, celebrado com o mesmo entusiasmo de Sólon. As fontes são mais escassas, e sua figura permanece menos vívida. Mas os historiadores modernos reconhecem nele o arquiteto da democracia ateniense no sentido técnico: foi ele quem criou as instituições que dariam ao demos poder real, não apenas formal.
O Século V a.C.: Apogeu, Guerra e Império
O período que vai das Guerras Médicas (490–479 a.C.) ao fim da Guerra do Peloponeso (404 a.C.) é o coração da Atenas clássica — e também seu paradoxo mais profundo. Foi o momento de maior florescimento cultural e intelectual, e também o período em que a democracia ateniense se tornou inseparável de um projeto imperial.
As Guerras Médicas e a Construção da Identidade Ateniense
A vitória sobre os persas em Maratona (490 a.C.) e, sobretudo, a batalha naval de Salamina (480 a.C.) foram eventos formativos para a identidade ateniense. Em Maratona, os atenienses combateram praticamente sozinhos contra um exército persa numericamente superior. Em Salamina, foi a frota ateniense — construída com os lucros das minas de prata de Laurião, por decisão do político Temístocles — que determinou o resultado da guerra.

A decisão de construir a frota teve consequências políticas diretas. Os tetas, a classe mais baixa dos cidadãos livres, eram o principal contingente dos remadores da frota. Ao tornarem-se indispensáveis para a defesa da cidade, adquiriram peso político crescente — e as reformas democráticas que se seguiram refletiram em parte essa nova realidade. Efialtes e, depois de seu assassinato, Péricles reduziram os poderes do Areópago — tribunal aristocrático com funções de supervisão política — transferindo suas atribuições para órgãos populares.
Péricles e a Democracia Imperial
Péricles dominou a vida política ateniense entre 461 e 429 a.C. Não como tirano — ele era eleito regularmente estratego, posto militar que nenhum impedimento formal o proibia de ocupar repetidamente —, mas por influência política e capacidade retórica. Tucídides, que não era seu admirador incondicional, registra que Atenas era nominalmente uma democracia, mas na prática governada pelo primeiro cidadão.
Sob Péricles, a democracia ateniense atingiu seu ponto de maior extensão formal. O misthós — pagamento para participação em funções públicas, incluindo o serviço como jurado — permitia que cidadãos sem recursos participassem ativamente da vida política sem sacrificar sua subsistência. Era uma política redistributiva embutida nas instituições democráticas.
Ao mesmo tempo, Péricles endureceu a lei da cidadania (451 a.C.), restringindo o status de cidadão aos nascidos de pai e mãe atenienses. A medida é lida de duas formas pela historiografia: como resposta à inflação do corpo cívico e à necessidade de preservar os privilégios da cidadania, ou como expressão de um nacionalismo étnico emergente. Qualquer que seja a interpretação, o efeito prático foi a exclusão de um número significativo de residentes que anteriormente teriam acesso à cidadania.
O Império Ateniense — a Confederação de Delos, transformada progressivamente em instrumento de dominação — é o outro lado da medalha pericleana. Os tributos pagos pelos aliados financiaram a reconstrução da Acrópole com o Partenon e outros monumentos. Tucídides registra que os aliados atenienses reclamavam que Atenas usava o tesouro comum para embelezar sua própria cidade “como uma mulher vaidosa coberta de pedras preciosas”. A metáfora é reveladora: o esplendor de Atenas era inseparável de sua vocação imperial.

A Vida na Polis: Quem Era o Cidadão Ateniense
Qualquer análise da democracia ateniense exige confrontar diretamente sua estrutura de exclusão. O corpo cívico — os que tinham direito à palavra na Assembleia, ao voto, ao cargo — representava uma minoria da população total de Atenas.
As estimativas variam, mas no século V a.C. a população total da Ática era de aproximadamente 250.000 a 300.000 pessoas. Os cidadãos adultos do sexo masculino eram talvez 30.000 a 40.000. Os restantes eram mulheres (excluídas da vida política), metecos (estrangeiros residentes, livres mas sem direitos políticos plenos) e escravos — que constituíam entre um terço e metade da população total.
A escravidão ateniense é um tema que a historiografia do século XX passou a tratar com maior seriedade após décadas de minimização. Os escravos trabalhavam nas minas de Laurião em condições documentadas como brutais, serviam em residências privadas, em oficinas artesanais e como policiais públicos. A democracia ateniense não existiu apesar da escravidão: em certa medida, ela existiu por causa dela. O tempo livre que permitia aos cidadãos participar da Assembleia e dos tribunais era sustentado pelo trabalho escravo.
As mulheres atenienses de famílias respeitáveis viviam em reclusão relativa — o gineceu era o espaço doméstico feminino por excelência. Não votavam, não falavam na Assembleia, não podiam assinar contratos sem a mediação de um tutor masculino. Ao mesmo tempo, tinham papel ritual reconhecido nos festivais religiosos, e a literatura — a tragédia de Sófocles e Eurípides, a comédia de Aristófanes — mostra personagens femininas de complexidade notável, o que sugere que a realidade vivida era mais matizada do que as prescrições legais indicam.
Os metecos incluíam figuras como o filósofo Aristóteles e o rétor Lísias — homens que contribuíram decisivamente para a cultura ateniense sem jamais ter direito à cidadania. Pagavam impostos, podiam ser convocados para o serviço militar, mas não votavam e não podiam possuir terras. A cidade que inventou a igualdade política mantinha uma hierarquia de status rigidamente definida.
A Crise: Guerra do Peloponeso e o Fim do Apogeu
A Guerra do Peloponeso (431–404 a.C.) foi o evento que encerrou o século de ouro ateniense. Tucídides — que a viveu e a narrou — a entendeu como resultado de uma causa profunda: o medo que o crescimento do poder ateniense gerava em Esparta e seus aliados. A análise estrutural tucididiana permanece uma das mais influentes da historiografia ocidental.
A estratégia de Péricles era defensiva: evitar a batalha terrestre com o exército espartano, concentrar recursos na frota, atacar as costas do Peloponeso e aguardar o desgaste do inimigo. A peste que devastou Atenas em 430 a.C. — vitimando o próprio Péricles em 429 — desfez os cálculos. A doença matou entre um quarto e um terço da população, incluindo parte significativa dos remadores da frota.
A morte de Péricles abriu espaço para lideranças mais erráticas. A Expedição à Sicília (415–413 a.C.) foi o episódio mais catastrófico: uma força naval imensa enviada para conquistar Siracusa foi destruída quase por completo, representando uma perda de recursos humanos e materiais da qual Atenas jamais se recuperou plenamente.
A derrota final veio em 404 a.C., quando a frota ateniense foi capturada na batalha de Egos Pótamos e Esparta impôs uma paz humilhante. Os Trinta Tiranos — oligarquia pró-espartana — governaram Atenas por um breve período de terror antes de serem derrubados pela restauração democrática em 403 a.C.
A historiografia debateu extensamente se a democracia ateniense foi responsável pela derrota na Guerra do Peloponeso. A visão de que as decisões populares eram irracionais e demagógicas — presente em Tucídides e amplificada por críticos modernos — foi contestada por historiadores como Josiah Ober, que argumentam que o sistema democrático produzia, na média, decisões coletivas de qualidade comparável às das oligarquias. O debate continua aberto.
A Filosofia como Produto Político
Não seria possível discutir Atenas sem abordar sua produção intelectual — e a relação entre essa produção e o contexto político que a tornou possível.
Sócrates, que viveu entre 470 e 399 a.C., é a figura central. Não deixou escritos; o que sabemos dele vem de Platão, Xenofonte e Aristófanes — fontes que apresentam imagens às vezes contraditórias. O Sócrates de Platão é o filósofo que questiona as certezas, que desmonta argumentos, que insiste em que a vida não examinada não vale a pena ser vivida. O Sócrates de Aristófanes, nas Nuvens, é um charlatão cômico.

O julgamento e a condenação de Sócrates em 399 a.C. — acusado de impiedade e de corromper a juventude — é o evento mais debatido da história intelectual antiga. Para alguns, foi o momento em que a democracia voltou seus mecanismos contra a liberdade de pensamento. Para outros, reflete a tensão real entre a identidade coletiva da polis e o questionamento radical das normas compartilhadas. A democracia restaurada de 403 a.C. era frágil, traumatizada pela tirania e pelas derrotas militares — e Sócrates, com suas associações com figuras como Alcibíades e Crítias, era percebido como ameaça política real, não apenas filosófica.
Platão, discípulo de Sócrates, reagiu ao julgamento do mestre produzindo a mais influente crítica da democracia da história: na República, a democracia é caracterizada como o regime do desejo sem limite, predecessor inevitável da tirania. Platão propõe em seu lugar o governo dos filósofos — os que conhecem o Bem. É uma posição profundamente antidemocrática, e sua influência sobre o pensamento político ocidental é difícil de superestimar.
Aristóteles, por sua vez, analisa os regimes políticos com maior distanciamento empírico na Política. Sua sistematização das formas de governo — monarquia, aristocracia, república e suas degenerações — estruturou o vocabulário político europeu por dois milênios. Que essa obra tenha sido produzida por um meteco, excluído da cidadania ateniense, é uma das ironias mais produtivas da história intelectual.
O Legado de Atenas: Democracia, Exclusão e Herança
O legado de Atenas para o mundo ocidental é imenso e profundamente ambíguo. A democracia ateniense foi o primeiro experimento histórico de autogoverno popular em escala urbana — e esse experimento incluiu mecanismos de deliberação coletiva, alternância de poder e accountability institucional que continuam sendo referências.
Ao mesmo tempo, foi um regime construído sobre exclusão sistemática. As mulheres, os escravos e os estrangeiros residentes — que juntos compunham a maioria absoluta da população — não tinham lugar no projeto democrático. Celebrar Atenas sem reconhecer isso é fazer história apologética.
A questão que os historiadores continuam debatendo é: qual é a relação entre essas duas dimensões? Eram a democracia e a escravidão aspectos acidentalmente combinados, ou havia uma conexão estrutural entre eles? A posição de Moses Finley — de que a escravidão em massa e a cidadania igualitária foram desenvolvimentos paralelos e interdependentes no mundo grego — permanece influente, ainda que contestada em seus detalhes.
O que parece claro é que Atenas não pode ser lida como simples origem ou antepassado das democracias modernas. As diferenças são tão importantes quanto as semelhanças. A democracia ateniense era direta, não representativa; excluía a maioria; estava embutida em uma estrutura de valores comunitários e religiosos que as democracias liberais modernas rejeitam ou transformaram radicalmente. Usá-la como espelho simples do presente é distorcer tanto o passado quanto o presente.
O que Atenas oferece, ao contrário, é um caso histórico de máxima complexidade: uma cidade que pensou profundamente sobre a política, que criou instituições originais, que produziu arte e filosofia de alcance universal — e que, ao mesmo tempo, sustentou seu florescimento sobre o trabalho de pessoas às quais nunca reconheceu plena humanidade política. Essa tensão não é um defeito a ser desculpado: é o coração do problema que Atenas nos deixou como herança.
Conclusão
Atenas não foi o berço da democracia no sentido de uma origem pura e luminosa. Foi o laboratório onde, pela primeira vez na história conhecida, seres humanos experimentaram sistematicamente formas de autogoverno coletivo em escala urbana — e enfrentaram, sem ter respostas definitivas, as contradições que esse projeto gerava.
A tensão entre liberdade e exclusão, entre identidade coletiva e pluralismo, entre poder popular e competência técnica: essas não são questões que Atenas resolveu. São questões que Atenas formulou com suficiente clareza para que ainda hoje possamos reconhecê-las nas nossas próprias disputas políticas. Essa é, talvez, sua contribuição mais duradoura — não um modelo a imitar, mas um problema a continuar pensando.
O Partenon permanece de pé — parcialmente — na Acrópole. É uma ruína que sobreviveu a séculos de reutilizações, bombardeios e intempéries. Como a democracia ateniense, é uma estrutura que nunca foi completamente acabada, que sofreu danos irreparáveis, e que ainda assim continua sendo o ponto de referência a partir do qual medimos o que viemos a chamar de política.
FAQ
O que foi a democracia ateniense? A democracia ateniense foi um sistema de governo desenvolvido em Atenas a partir das reformas de Clístenes (508/507 a.C.), no qual os cidadãos adultos do sexo masculino tinham direito de voto na Assembleia, podiam ocupar cargos públicos por sorteio e participar dos tribunais populares. Era uma democracia direta — os cidadãos votavam pessoalmente, sem representantes eleitos.
Quem podia ser cidadão em Atenas? Após a lei de Péricles de 451 a.C., apenas homens nascidos de pai e mãe atenienses podiam ser cidadãos plenos. Mulheres, escravos e metecos (estrangeiros residentes) estavam excluídos do corpo cívico, independentemente de quanto tempo vivessem na cidade.
Qual a diferença entre Sólon e Clístenes? Sólon (594 a.C.) reformou a ordem social e legal ateniense, abolindo a escravidão por dívidas e criando classes censitárias. Clístenes (508/507 a.C.) reorganizou a estrutura política criando as dez tribos artificiais e a Bulé de 500, estabelecendo as bases institucionais da democracia. Sólon preparou o terreno; Clístenes edificou o sistema.
Por que Atenas perdeu a Guerra do Peloponeso? As causas são múltiplas: a morte de Péricles e a consequente fragmentação da liderança política, a devastação causada pela peste de 430 a.C., o desastre da Expedição à Sicília (415–413 a.C.) que destruiu uma frota inteira, e o apoio financeiro persa à Esparta, que permitiu a esta construir uma frota capaz de enfrentar Atenas no mar.
O que foi o ostracismo? O ostracismo era um mecanismo político pelo qual os cidadãos atenienses podiam votar pelo exílio temporário — de dez anos — de qualquer pessoa considerada perigosa para a democracia. Os votantes gravavam o nome do candidato ao exílio em cacos de cerâmica (ostraka). Não havia acusação formal nem julgamento; era um instrumento de precaução política, não de punição por crime.
Atenas foi sempre democrática? Não. A democracia ateniense foi precedida por séculos de governo aristocrático e por um período de tirania (os Pisistrátidas, 561–510 a.C.). Durante a Guerra do Peloponeso, a democracia foi temporariamente suspensa duas vezes: pelo regime dos Quatrocentos (411 a.C.) e pelos Trinta Tiranos (404–403 a.C.). A democracia foi restaurada em 403 a.C. e persistiu, com modificações, até a dominação macedônica no final do século IV a.C.
Qual foi o papel da filosofia na Atenas democrática? A filosofia ateniense — Sócrates, Platão, Aristóteles — desenvolveu-se em relação direta com o contexto político da polis. Sócrates questionava as certezas dos cidadãos na praça pública; Platão construiu uma crítica sistemática da democracia; Aristóteles analisou os regimes políticos empiricamente. A filosofia não era atividade separada da política: era, em muitos casos, uma forma de intervenção política.
O Império Ateniense é compatível com a democracia? Esse é um dos problemas centrais da historiografia sobre Atenas. A Confederação de Delos, criada após as Guerras Médicas, tornou-se progressivamente um instrumento de dominação ateniense. Os recursos do império financiaram as obras democráticas de Péricles — incluindo o pagamento para participação política. Democracia interna e imperialismo externo coexistiram e, em certa medida, se sustentaram mutuamente.
Leituras Recomendadas
FINLEY, Moses I. Democracia antiga e moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Brasília: Editora UnB, 2001.
OBER, Josiah. Mass and Elite in Democratic Athens: Rhetoric, Ideology, and the Power of the People. Princeton: Princeton University Press, 1989.
KAGAN, Donald. Péricles de Atenas e o nascimento da democracia. São Paulo: Nova Alexandria, 2005.

