Batu Khan: o neto de Gêngis Khan que aterrorizou a Europa
No inverno de 1240, o silêncio das florestas russas foi estilhaçado pelo rugido das máquinas de cerco chinesas posicionadas diante das muralhas de Kiev. Enquanto os cidadãos se refugiavam na Igreja dos Dízimos, as catapultas de Batu Khan golpeavam a “Mãe das Cidades Russas” com uma ferocidade que transformava pedra e orgulho em escombros. A queda de Kiev não foi apenas a derrota de um principado, mas o sepultamento definitivo de uma era; sobre as cinzas da metrópole ortodoxa, Batu não ergueu apenas um domínio militar, mas a infraestrutura de ferro da Horda Dourada. Onde antes floresciam rotas comerciais e linhagens dinásticas, passaria a reinar o tributo e o terror do Yasa, estendendo a sombra do arco mongol das margens do Dniepre até as profundezas da Ásia Central.
Batu Khan não foi apenas um conquistador. Foi o arquiteto do Ulus de Jochi — a entidade política que os historiadores ocidentais chamaram de Horda de Ouro —, o estado mongol mais longevo de todos, com influência direta sobre a Rússia por mais de dois séculos. Enquanto outros descendentes de Gêngis Khan dilapidavam impérios em guerras fratricidas, Batu construiu uma estrutura de governo estável o suficiente para sobreviver a ele por gerações.
Este artigo reconstrói a trajetória de Batu Khan desde sua formação nas estepes até a consolidação do seu khanato na região do Volga: as campanhas militares, as decisões políticas, o modelo de dominação que impôs sobre os povos eslavos e turcos, e o legado que moldou a história da Rússia, da Polônia e da Europa oriental. Ao longo da análise, distingue-se o que as fontes primárias registram, o que a historiografia interpreta e onde permanecem lacunas.
Batu Khan é uma figura que escapa às categorias simples. Não era o general mais brilhante de seu tempo — esse título pertencia ao seu comandante Subutai. Não era o líder mais carismático da linhagem de Gêngis — seu primo Möngke tinha mais apoio entre os noyans. Era, no entanto, um político de rara habilidade, capaz de converter vitórias militares em poder duradouro numa época em que esse equilíbrio era extraordinariamente difícil de alcançar.
Origens e formação: o peso de ser neto de Gêngis Khan
Batu nasceu por volta de 1207–1209, filho de Jochi, o primogênito de Gêngis Khan, e de uma das esposas de Jochi, provavelmente de origem kunita. Sua data exata de nascimento não é registrada nas fontes — nem mesmo o Yuán Shǐ (a história dinástica yuan) oferece precisão nesse ponto. O que as fontes concordam é que ele cresceu numa posição ambígua e potencialmente perigosa.
O problema central residia na linhagem de seu pai, Jochi. Sobre ele pairava uma sombra de dúvida alimentada pela crueldade da política nômade: rumores — instigados com veneno por seu tio, Chagatai — sugeriam que Jochi não era sangue do sangue de Gêngis Khan, fruto da captura de sua mãe, Börte, pela tribo dos Merkits. Embora o Grande Khan jamais o tivesse repudiado publicamente, a legitimidade de Jochi era uma ferida aberta na unidade do império. Quando Jochi morreu em 1227 — poucos meses antes do próprio Gêngis — o khanato herdado por Batu era o mais extenso territorialmente, mas o de menor prestígio entre os filhos.
Esse contexto de legitimidade questionável marcou profundamente a trajetória de Batu. Para historiadores como Timothy May, em The Mongol Empire: A Historical Encyclopedia (2016), Batu precisou construir sua autoridade através de ações concretas — vitórias militares, alianças e demonstração de competência administrativa — num grau que seus primos com linhagem menos problemática não necessitavam. Havia algo de compensatório, mas também de estratégico, na energia com que Batu conduziu as campanhas do oeste.
O ulus herdado de Jochi situava-se nas estepes do Cazaquistão atual e em partes da Sibéria ocidental. Era um território enorme, mas pouco consolidado. As populações turkicas da região — Cumanos, Kipchaks, Bashkirs — eram parcialmente subordinadas, mas não plenamente integradas. Batu cresceu nesse ambiente de fronteira instável, aprendendo a negociar com chefes tribais, a manejar a diplomacia das estepes tanto quanto a força militar.
Quando o Grande Kurultai de 1235 — o conselho supremo dos príncipes mongóis — decidiu lançar uma grande campanha a oeste, Batu foi designado comandante nominal da expedição. A decisão era política tanto quanto militar: era preciso dar ao herdeiro de Jochi a oportunidade de demonstrar seu valor e consolidar seu ulus. O verdadeiro planejamento estratégico ficou a cargo de Subutai, o general que havia realizado o grande reconhecimento da Europa oriental em 1221–1223 e que conhecia o terreno como poucos.
A Grande Campanha Ocidental (1236–1242): da Bulgária do Volga à Adriática
A campanha que os historiadores ocidentais chamam de invasão mongol da Europa foi, do ponto de vista mongol, uma extensão lógica do processo de conquista das estepes eurasianas. Batu não estava “invadindo a Europa” no sentido em que os cronistas medievais entenderam — estava submetendo povos e territórios que seu avô havia deixado incompletos.
A campanha começou em 1236 com a destruição do Khanato da Bulgária do Volga, um estado islâmico relativamente sofisticado que havia conseguido repelir os mongóis em 1223. Desta vez, sem possibilidade de resistência. A destruição foi deliberada e completa: as cidades foram queimadas, a população redistribuída ou morta, as elites eliminadas. Era o padrão mongol de intimidação aplicado com consistência.

Em 1237, Batu voltou sua atenção para os principados russos. A fragmentação política da Rus’ de Kiev — dividida em dezenas de principados em conflito permanente — tornou impossível uma resistência coordenada. As cidades caíram uma a uma: Ryazan em dezembro de 1237, Vladimir em fevereiro de 1238, seguida de Suzdal, Rostov, Yaroslavl. Novgorod foi poupada — provavelmente pela chegada do degelo primaveril, que tornava os pântanos ao redor da cidade intransitáveis para a cavalaria.
O saque de Kiev em 1240 foi o golpe simbólico mais significativo. Kiev era a cidade-mãe da Rus’, o centro político e religioso do mundo eslavo oriental. Sua destruição enviou uma mensagem inequívoca: nenhuma fortaleza, nenhuma tradição política, nenhuma santidade religiosa era obstáculo para os mongóis. O cronista papal Giovanni da Pian del Carpine, que viajou pela região em 1245, descreveu os campos cobertos de ossos à beira das estradas.
A campanha de 1241 foi a fase mais audaciosa. Batu dividiu suas forças em múltiplos grupos de ataque: uma coluna ao norte avançou sobre a Polônia e derrotou o exército polaco-alemão em Legnica (9 de abril de 1241); a coluna principal atravessou os Cárpatos e entrou na Hungria. Em Mohi (11 de abril de 1241), Batu e Subutai cercaram e destruíram o exército húngaro de Béla IV numa manobra de pinça que demonstrava o nível de coordenação logística dos mongóis.
Para historiadores como John Man (Genghis Khan: Life, Death and Resurrection, 2004) e David Morgan (The Mongols, 1986), o que se seguiu é igualmente revelador: os mongóis não avançaram para além da Dalmácia. As razões são debatidas. A versão clássica — que o recuo foi motivado pela morte do Grão-Khan Ögedei em dezembro de 1241, obrigando os príncipes a retornar para o kurultai — é parcialmente verdadeira, mas insuficiente. Batu não foi ao kurultai; ficou nas estepes do Volga.
Timothy May e Peter Jackson (The Mongols and the West, 2005) argumentam que havia razões estratégicas concretas: a Europa ocidental, com seu terreno fragmentado por rios, florestas e castelos de pedra, não era adequada para a cavalaria mongol da mesma forma que as estepes abertas. Os mongóis haviam chegado ao limite de sua zona de conforto logístico. As dificuldades de abastecimento numa campanha de inverno prolongada, combinadas com a resistência inesperada de algumas cidades húngaras, tornavam a continuidade da campanha custosa sem garantia de retorno adequado.
Batu havia cumprido o objetivo: as estepes ao norte do Mar Negro e o Cáucaso estavam sob controle mongol. Voltar para consolidar esse domínio era mais racional do que arriscar tudo numa aventura ocidental de rendimentos incertos.
A fundação da Horda de Ouro: construindo um estado nas estepes
O termo “Horda de Ouro” (Zolotaya Orda em russo) não foi usado pelos próprios mongóis durante o período de Batu. A denominação aparece em fontes russas posteriores e pode derivar da tenda dourada (orda) onde Batu recebia seus visitantes. Os próprios mongóis referiam-se ao estado como Ulus de Jochi ou simplesmente como o khanato do oeste.
Batu estabeleceu sua capital em Sarai, na margem esquerda do Volga, próxima à cidade atual de Astrakhan. A escolha do local era estratégica: no coração das estepes, com acesso ao Volga como via fluvial de comunicação e comércio, na interseção entre o mundo islâmico ao sul e os principados eslavos ao norte. Sarai cresceu rapidamente para uma cidade de dezenas de milhares de habitantes — um fenômeno que surpreendeu os viajantes medievais que esperavam encontrar apenas tendas nômades.
O modelo de governo adotado por Batu era um equilíbrio pragmático. Para os povos das estepes — Kipchaks, Cumanos, grupos turcos — havia assimilação gradual: os mongóis eram minoria e progressivamente absorveram a língua e alguns costumes turcos, embora mantivessem a estrutura política mongol. Para os principados russos, Batu estabeleceu um sistema de dominação indireta: os príncipes russos permaneciam no poder, mas deviam comparecer a Sarai para receber o yarlik (patente de autoridade), pagar tributo regular e fornecer recrutas militares quando solicitado.
Esse modelo de dominação indireta foi analisado extensamente pela historiografia. Charles Halperin (Russia and the Golden Horde, 1985) argumenta que a relação entre os príncipes russos e a Horda foi mais complexa do que a narrativa de simples opressão sugere. Muitos príncipes usaram a Horda como alavanca política contra seus rivais internos: Alexandre Nevsky, por exemplo, cultivou ativamente uma relação de cooperação com Batu precisamente porque isso lhe dava vantagem sobre outros príncipes. A Horda não era apenas um peso externo — era um ator dentro da política interna russa.
A economia da Horda de Ouro dependia de três pilares: o tributo dos principados conquistados, o comércio nas rotas que atravessavam as estepes eurasianas, e a pecuária nômade das estepes. Batu e seus sucessores tiveram o cuidado de não destruir as estruturas econômicas que geravam essa renda. Cidades como Vladimir e Suzdal foram reconstruídas após o saque inicial — não por altruísmo, mas porque cidades funcionais pagavam mais tributo que ruínas.
Batu e a política intra-mongol: rivalidades e poder
Uma dimensão frequentemente subestimada da trajetória de Batu é sua posição no complexo jogo político do Império Mongol. Como herdeiro de Jochi — o filho de legitimidade duvidosa —, Batu precisava navegar com cuidado entre as facções rivais da família.
A tensão mais documentada foi com seu primo Güyük, filho de Ögedei. Durante a campanha ocidental de 1241, os dois tiveram um confronto direto durante um banquete — provavelmente relacionado a disputas sobre crédito pelas vitórias e sobre hierarquia. Segundo Juvaini e Rashid al-Din, Güyük abandonou a campanha furioso. Quando Güyük foi eleito Grão-Khan em 1246, a relação com Batu azedou ainda mais: havia rumores de que Güyük se preparava para uma campanha militar contra o ulus do Volga.
A morte de Güyük em 1248 — de causas que as fontes descrevem como “doença”, possivelmente exacerbada pelo alcoolismo — foi politicamente conveniente para Batu. Havia suspeitas, não comprovadas, de envenenamento. O que é documentado é que Batu utilizou o período de interregno que se seguiu para manobrar habilmente: apoiou a candidatura de Möngke, da linhagem de Tolui, para o trono de Grão-Khan, rompendo com a tendência de alternância entre filhos de Ögedei. Essa aliança Batu-Möngke foi decisiva para o resultado do Kurultai de 1251 e garantiu a Batu influência desproporcional sobre a política central mongol.
Thomas Allsen (Mongol Imperialism, 1987) destaca que Batu, nesse período, era provavelmente o príncipe mongol mais poderoso depois do Grão-Khan — e em alguns aspectos mais autônomo, dado que seu ulus estava longe do centro do poder. A habilidade de Batu em transformar a fragilidade inicial de sua linhagem numa posição de força central é um dos elementos mais notáveis de sua trajetória política.
O sistema militar da Horda: como Batu mantinha o controle
O poder militar da Horda de Ouro sob Batu não dependia apenas da supremacia tática dos guerreiros mongóis — que era real, mas declinava à medida que a população mongol se diluía nas estepes. Dependia de um sistema de recrutamento e organização que integrava povos conquistados ao exército mongol de forma eficiente.
O modelo era o sistema decimal herdado de Gêngis Khan: unidades de dez, cem, mil e dez mil guerreiros (arban, jagun, minghan, tümen), cada uma com comandantes responsáveis. O que Batu adaptou foi a composição étnica dessas unidades: os Kipchaks e outros grupos turcos foram progressivamente incorporados, transformando o exército da Horda num exército predominantemente turco com comando mongol no topo.
Para os principados russos, o sistema militar tinha implicações concretas. O censo (perepis’) realizado pelos mongóis entre 1257 e 1259 servia precisamente para calcular a base tributária e o potencial de recrutamento. Homens em idade militar podiam ser requisitados — e muitos soldados russos serviram em campanhas mongóis na China e no Oriente Médio. Era um sistema de extração que ia além do tributo financeiro.
A cavalaria ligeira continuava sendo o elemento central da arte de guerra mongol. Mas Batu e seus comandantes haviam aprendido, na campanha europeia, as limitações dessa cavalaria contra fortifications de pedra bem defendidas. A Horda manteve engenheiros de cerco — muitos deles chineses ou persas capturados — como componente permanente de seu aparato militar.
Religião, cultura e a questão da identidade da Horda
Batu Khan era, pelas fontes disponíveis, praticante do xamanismo tradicional mongol — ou, mais precisamente, adepto de uma forma de espiritualidade das estepes que reconhecia poderes divinos em forças naturais e ancestrais. Ele não era budista, não era islâmico, não era cristão. No entanto, seu khanato abrigava populações de todas essas tradições religiosas, e Batu demonstrou uma tolerância pragmática que seus descendentes eventualmente abandonariam.
Giovanni da Pian del Carpine, o frade franciscano enviado pelo papa Inocêncio IV que passou pela corte de Batu em 1245 a caminho de Karakorum, descreve o khan como alguém que recebia emissários de múltiplas tradições religiosas sem demonstrar preferência exclusiva. Essa abertura não era filosófica — era política. Grupos religiosos distintos recebiam privilégios fiscais ou proteções em troca de lealdade e cooperação.
A Igreja Ortodoxa Russa, por exemplo, recebeu dos mongóis isenção de tributos — uma concessão extraordinária que permitiu ao clero ortodoxo sobreviver e até prosperar durante o período da dominação mongol. Pesquisadores como Donald Ostrowski (Muscovy and the Mongols, 1998) argumentam que essa proteção foi central para o papel crescente da Igreja como instituição de continuidade cultural russa durante os séculos XIII e XIV.
A questão da islamização da Horda de Ouro é relevante mas posterior a Batu. Foi Berke Khan, irmão de Batu que governou de 1257 a 1267, que converteu ao Islã — o primeiro governante mongol de uma das grandes divisões do império a fazê-lo. Essa mudança transformou progressivamente a identidade da Horda, mas foi um processo gradual que se completou apenas no século XIV, sob Özbeg Khan (1313–1341).
Dominação da Rússia: mecanismos concretos de controle
Entender como Batu controlava os principados russos exige ir além da imagem de saques e destruição. O sistema era mais sofisticado — e mais duradouro — do que a narrativa popular sugere.
O mecanismo central era o yarlik, o decreto de investidura emitido pelo khan. Nenhum príncipe russo podia governar sem ele. Isso criava uma dependência estrutural: cada vez que um príncipe morria, seus herdeiros precisavam comparecer a Sarai — uma viagem de semanas ou meses — para receber confirmação. Na corte, estavam sujeitos aos rituais de submissão (passagem entre fogueiras purificatórias, prostração diante do khan) que reforçavam simbolicamente a hierarquia.
O segundo mecanismo era o baskak: um representante mongol instalado em cada principado para supervisionar a coleta de tributos e reportar atividades políticas. Os baskaki eram os olhos da Horda no território russo, e sua presença era uma lembrança constante da soberania mongol. Com o tempo — especialmente após revoltas em 1257–1259 contra o censo —, os baskaki foram progressivamente substituídos pela delegação da coleta aos próprios príncipes russos, tornando o sistema ainda mais opaco e, paradoxalmente, mais estável.
O tributo (vykup ou dan’) era exigido em várias formas: prata, peles, mel, cera — os produtos de maior valor comercial da economia russa medieval. Estimar o impacto econômico é difícil, mas historiadores como Janet Martin (Medieval Russia 980–1584, 1995) argumentam que o fluxo contínuo de recursos para a Horda foi um fator significativo no subdesenvolvimento relativo dos principados russos no período.
Ao mesmo tempo, é importante evitar o determinismo: os principados russos não estagnaram completamente. Novgorod, que pagou tributo mas nunca foi ocupada militarmente, manteve seu dinamismo comercial. Moscou, paradoxalmente, usou sua relação cooperativa com a Horda para eliminar rivais e se tornar o principado dominante — um processo que culminaria, séculos depois, na derrubada da própria dominação mongol.
O recuo da Adriática e o debate historiográfico
Voltamos à questão que abre este artigo: por que Batu parou? Por que, em 1242, após demonstrar que nenhum exército europeu podia detê-lo, o khan recuou para as estepes?
A resposta mais simples — a morte de Ögedei — é insuficiente por si só. Batu não foi ao kurultai de 1246 que elegeu Güyük. Se o dever político o obrigava a comparecer, ele poderia tê-lo feito em 1242. Não o fez.
Peter Jackson propõe que Batu calculou que a conquista permanente da Europa central e ocidental não era viável com os recursos disponíveis. A logística de manter guarnições em territórios densamente urbanizados, com populações hostis e castelos de pedra, era qualitativamente diferente de controlar as estepes abertas. O custo de ocupação seria maior que o retorno em tributos.
Há também a hipótese — menos desenvolvida, mas não descartável — de que Batu enfrentava pressões internas no seu próprio ulus. As estepes ao norte do Cáspio e do Mar Negro ainda não estavam completamente pacificadas. Os Cumanos haviam fugido em grande número para a Hungria e continuavam sendo um foco de resistência. Consolidar o que havia sido conquistado era mais urgente do que expandir além do Danúbio.
A historiografia russa do século XIX, particularmente na tradição de Nikolai Karamzin, tendeu a ver o recuo mongol como uma espécie de salvação providencial da Europa ocidental às custas do sofrimento russo — uma narrativa que servia a propósitos identitários claros. A historiografia soviética complicou esse quadro ao enfatizar a resistência popular russa. A historiografia ocidental contemporânea tende a ser mais cética em relação a grandes narrativas salvacionistas e prefere análises estruturais.
O que permanece é um fato: Batu escolheu consolidar em vez de expandir. Essa escolha definiu o contorno geopolítico da Europa oriental pelos séculos seguintes.
Os últimos anos e o legado imediato
Batu Khan morreu em data incerta — provavelmente entre 1255 e 1256. As fontes divergem, e nenhuma oferece circunstâncias detalhadas. Ele foi sucedido brevemente por seu filho Sartaq (que pode ter sido cristão nestoriano), que morreu logo em seguida, e depois por seu irmão Berke.
O que Batu deixou era notável pela sua solidez. O Ulus de Jochi era o estado mongol mais estável e mais duradouro. Enquanto o Império Mongol central se fragmentou em guerras civis após a morte de Möngke (1259) e o khanato do Ilkhanato persa entrou em colapso no início do século XIV, a Horda de Ouro persistiu em formas variadas até o século XVI — com sua última sobrevivência direta, o Khanato da Crimeia, existindo até 1783.
A influência sobre a Rússia foi profunda e duradoura — e permanece debatida. A chamada “questão mongol” na historiografia russa — até que ponto o período de dominação mongol moldou negativamente o desenvolvimento político e cultural russo — é um campo de controvérsia que vai de historiadores como Lev Gumilev (que via a relação russo-mongol de forma positiva, quase simbiótica) a outros que veem no despotismo czarista uma herança direta das práticas políticas da Horda.
Conclusão: o construtor de estados nas margens do mundo
Batu Khan não foi o mais feroz dos netos de Gêngis Khan, nem o mais carismático, nem o que avançou mais longe. Foi, provavelmente, o mais eficaz em converter conquista em governo duradouro.
Sua trajetória revela algo sobre a natureza do poder mongol que a ênfase nos massacres tende a obscurecer: a conquista era apenas o primeiro capítulo. O segundo — a construção de estruturas que mantivessem o controle sem presença militar constante — era igualmente decisivo, e foi nesse segundo capítulo que Batu demonstrou competência incomum.
O sistema que estabeleceu nas estepes do Volga combinou dominação direta sobre as populações das estepes com dominação indireta sobre os principados russos, tolerância religiosa pragmática com exigência implacável de tributo, e mobilidade militar com fixidez administrativa em Sarai. Era uma síntese funcional, não uma solução elegante, e funcionou por gerações.
O recuo da Adriática, que a Europa medieval interpretou como milagre ou como misericórdia, foi na verdade uma decisão calculada de um governante que entendia os limites do que havia conquistado. Batu Khan foi, antes de tudo, um realista — numa época em que o realismo político, nas estepes eurasianas, tinha consequências que moldavam o destino de continentes.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre Batu Khan
1. Quem foi Batu Khan? Batu Khan (c. 1207–1255) foi o neto de Gêngis Khan, filho de Jochi, e fundador do Ulus de Jochi — a entidade política conhecida como Horda de Ouro. Governou as estepes ao norte do Mar Negro e do Cáspio e impôs dominação sobre os principados russos por décadas.
2. Qual foi o papel de Batu Khan na invasão da Europa? Batu foi o comandante nominal da Grande Campanha Ocidental (1236–1242). O planejamento estratégico foi largamente obra de Subutai. Sob sua liderança, os mongóis destruíram os principados russos, derrotaram exércitos poloneses e húngaros, e chegaram ao Adriático antes de recuar para as estepes.
3. Por que Batu Khan não continuou a conquista da Europa ocidental? As razões são debatidas. A morte do Grão-Khan Ögedei em 1241 é frequentemente citada, mas Batu não foi ao kurultai de sucessão. Historiadores como Peter Jackson argumentam que a Europa ocidental — com terreno fragmentado e cidades fortemente muradas — não era viável para a cavalaria mongol nas escalas logísticas disponíveis.
4. O que foi a Horda de Ouro? A Horda de Ouro (Ulus de Jochi) foi o khanato mongol estabelecido por Batu nas estepes eurasianas, com capital em Sarai, no Volga. Foi o estado mongol mais duradouro, sobrevivendo em formas variadas até o século XVI. Dominou os principados russos por mais de dois séculos e exerceu influência sobre as rotas comerciais entre a Europa e a Ásia.
5. Qual era a relação entre Batu Khan e os príncipes russos? Era uma relação de dominação indireta: os príncipes russos mantinham seus tronos mas dependiam do yarlik (decreto de investidura) emitido pelo khan, pagavam tributo regular e forneciam recrutas militares. Alguns príncipes, como Alexandre Nevsky, cultivaram ativamente essa relação para obter vantagens políticas internas.
6. Batu Khan era religioso? Qual era sua fé? Batu era praticante de formas tradicionais de espiritualidade das estepes, associadas ao xamanismo mongol. Demonstrou tolerância pragmática com todas as religiões — inclusive isentando a Igreja Ortodoxa Russa de tributos. A islamização da Horda foi posterior, iniciada por seu irmão Berke Khan.
7. Qual foi o impacto da dominação mongol sobre a Rússia? É um tema debatido. O impacto incluiu destruição imediata de cidades, extração sistemática de tributos e recursos, e reorientação das rotas comerciais. No longo prazo, alguns historiadores veem na estrutura da Horda influências sobre práticas políticas russas posteriores. Outros, como Donald Ostrowski, questionam relações causais diretas entre o período mongol e o despotismo posterior.
8. Como Batu Khan morreu? As fontes não registram com clareza as circunstâncias de sua morte. Provavelmente morreu entre 1255 e 1256, possivelmente de causas naturais relacionadas à saúde debilitada — há referências a gota nas fontes. Foi sucedido por seu filho Sartaq e depois por seu irmão Berke.
9. Qual a diferença entre Batu Khan e Gêngis Khan? Gêngis Khan foi o fundador e o unificador do Império Mongol, responsável pelas conquistas que criaram o maior império contíguo da história. Batu Khan foi um dos herdeiros desse império, responsável por sua expansão a oeste e pela fundação do Ulus de Jochi. Se Gêngis foi o construtor do sistema imperial, Batu foi um de seus arquitetos regionais mais bem-sucedidos.
10. A Horda de Ouro sobreviveu a Batu Khan? Sim — e foi o estado mongol mais duradouro. A Horda de Ouro perdurou como entidade política até o século XV, quando se fragmentou em khanatos menores (Cazã, Astrakhan, Crimeia). O Khanato da Crimeia, último descendente direto, existiu até 1783, quando foi incorporado ao Império Russo.
Leituras recomendadas
ALLSEN, Thomas T. Mongol Imperialism: The Policies of the Grand Qan Möngke in China, Russia, and the Islamic Lands, 1251–1259. Berkeley: University of California Press, 1987.
HALPERIN, Charles J. Russia and the Golden Horde: The Mongol Impact on Medieval Russian History. Bloomington: Indiana University Press, 1985.
JACKSON, Peter. The Mongols and the West, 1221–1410. London: Pearson Longman, 2005.
MARTIN, Janet. Medieval Russia, 980–1584. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
MORGAN, David. The Mongols. Oxford: Blackwell, 1986.

