A Invasão Mongol da China: Como o Maior Império Nômade da História Conquistou o Gigante do Oriente
Em 1211, Gengis Khan cruzou a Grande Muralha com um exército que os cronistas chineses da época comparavam a uma nuvem de gafanhotos — numeroso, implacável e capaz de consumir tudo o que encontrava pela frente. O Império Jin, herdeiro de séculos de tradição militar e administrativo, mobilizou centenas de milhares de soldados para conter o avanço. A resposta mongol foi devastadora: em menos de duas décadas, cidades que levaram gerações para construir foram reduzidas a cinzas, e populações que somavam milhões foram dizimadas ou forçadas à submissão. Zhongdu, a capital imperial, caiu em 1215. Quando os mongóis partiram, a cidade ainda fumegava.
A conquista mongol da China não foi um evento único, mas um processo que durou mais de setenta anos — de 1211 a 1279 — e envolveu três impérios distintos: o Xixia dos tangutos, o Jin dos jurchen e o Song do sul. Cada um exigiu estratégias diferentes, campanhas específicas e, no caso do Song, décadas de guerra de desgaste que só terminou com a batalha naval de Yamen. O resultado foi a fundação da dinastia Yuan por Kublai Khan, o primeiro governo estrangeiro a controlar a China integralmente.
Este artigo examina as etapas dessa conquista, as razões pelas quais o maior exército do mundo oriental não conseguiu deter os nômades do norte, as transformações militares e administrativas que os mongóis precisaram operar para vencer uma civilização urbana e agrícola, e o legado duradouro — tanto destrutivo quanto transformador — que a dominação mongol deixou na China. Ao longo do texto, serão incorporadas as principais interpretações historiográficas sobre o tema, incluindo o debate sobre o impacto demográfico e a questão da adaptação cultural dos conquistadores.
A conquista da China pelos mongóis é, em muitos sentidos, o estudo de caso mais rigoroso sobre como um poder nômade pode superar as vantagens estruturais de uma civilização estabelecida. Não foi apenas força bruta: foi adaptação tática, uso estratégico de expertise técnica capturada e uma capacidade de aprendizado institucional que diferenciava os mongóis de outras ondas de invasão estepária.
O Mundo Antes da Tempestade: China Dividida e a Ascensão de Gengis Khan
No início do século XIII, o território que hoje chamamos de China estava politicamente fragmentado. O norte era controlado pela dinastia Jin, fundada pelos jurchen — um povo altaico que havia conquistado a China do Norte em 1125, derrubando os Song do Norte e empurrando a corte imperial para o sul do rio Yangtze. O noroeste era dominado pelo reino Xixia, fundado pelo povo tanguto. E o sul, vasto e populoso, permanecia sob os Song, que governavam a região mais rica e urbanizada do mundo medieval.
Essa fragmentação não era apenas política — era também cultural e militar. Os Jin haviam adotado amplamente a cultura chinesa, incluindo o sistema burocrático mandarinal, a escrita, as artes e, crucialmente, a dependência da infantaria sedentária como espinha dorsal do exército. Essa sinização progressiva, embora fortalecesse a administração imperial, enfraquecia a flexibilidade militar que havia permitido a conquista jurchen original. Os Jin construíram uma vasta rede de fortalezas na fronteira norte, confiando que muros e guarnições permanentes seriam suficientes para conter qualquer ameaça estepária.
Enquanto isso, na Mongólia, Temüjin — o futuro Gengis Khan — passava as primeiras décadas de sua vida unificando, pela combinação de carisma, violência calculada e alianças matrimoniais, as tribos dispersas da estepe. Em 1206, no kurultai que o proclamou Gengis Khan (“Governante Universal”), o novo líder tinha sob seu comando uma máquina de guerra sem precedentes: uma cavalaria altamente móvel, organizada em unidades decimais (arban, zuun, myangan, tumen), disciplinada por um código de leis próprio — o Yasa — e motivada por uma ideologia de conquista legitimada pelo Tengri, o céu eterno.
A relação entre mongóis e Jin já era tensa antes das grandes campanhas. Os Jin exigiam tributos dos mongóis e haviam executado ancestrais de Gengis Khan. A guerra que se seguiu tinha, portanto, tanto uma dimensão geopolítica quanto um componente de vingança dinástica — embora os historiadores modernos, como Timothy May e Michal Biran, alertem contra uma leitura excessivamente personalista que obscureça as motivações estruturais da expansão mongol, incluindo a necessidade econômica de butim e pastagens para uma confederação tribal em crescimento acelerado.
A Guerra contra o Xixia e o Jin: Laboratório da Conquista Mongol
A campanha contra o reino Xixia (1205–1227) serviu como prelúdio e aprendizado. Os tangutos controlavam a rota da Seda e tinham experiência em combate de fronteira. Mas o aspecto mais relevante para o que viria a seguir era arquitetônico: o Xixia possuía cidades amuralhadas que a cavalaria mongol não podia tomar por assalto direto.
Gengis Khan reconheceu a limitação e agiu em consequência. Durante as guerras iniciais contra o Jin (a partir de 1211), os mongóis capturaram engenheiros e especialistas em maquinário de cerco — inicialmente chineses e kitans, e mais tarde persas e árabes. A incorporação de técnicos de cerco ao exército mongol foi uma das decisões estratégicas mais consequentes da história militar medieval. Trabucos de contrapeso, torres de assalto, túneis de mina e foguetes incendiários passaram a compor o arsenal mongol, transformando um exército pensado para a mobilidade na estepe em uma força capaz de reduzir fortalezas.
A campanha contra o Jin foi longa e brutal. Entre 1211 e 1234, os mongóis devastaram sistematicamente o norte da China. A queda de Zhongdu em 1215 foi acompanhada de saques e massacres que os cronistas da época registraram com horror. O historiador John of Plano Carpini, que visitou a Mongólia em 1246, descreveu campos cobertos de ossos às margens das antigas cidades Jin. As estimativas de mortalidade variam enormemente na historiografia — alguns demógrafos, como William McNeill, sugeriram quedas populacionais de 30% a 50% no norte da China durante este período, embora esses números sejam contestados por pesquisadores que apontam limitações nas fontes disponíveis.
A estratégia mongol contra o Jin combinou múltiplos vetores: incursões de cavalaria que destruíam a base agrícola e cortavam o abastecimento das cidades; cerco prolongado das grandes urbes; uso de populações conquistadas como mão de obra forçada e escudo humano em campanhas subsequentes; e diplomacia agressiva para isolar os Jin de possíveis aliados. Os Song do sul, que inicialmente poderia ter se aliado aos Jin contra o inimigo comum, optaram por colaborar com os mongóis — um erro estratégico que se tornaria evidente apenas depois que a dinastia Jin foi completamente destruída em 1234.
É preciso notar que Gengis Khan não viveu para ver a queda definitiva do Jin. Ele morreu em 1227 durante a campanha final contra o Xixia — as circunstâncias exatas de sua morte permanecem debatidas, com relatos que vão de uma queda de cavalo a doença ou ferimento em batalha. O projeto de conquista da China foi herdado por seus sucessores.
O Intervalo e a Virada: Ögedei, Möngke e a Guerra contra os Song
Com a morte de Gengis Khan e a subsequente divisão do império entre seus filhos, a conquista da China entrou em uma fase de consolidação e reorientação. Ögedei Khan (r. 1229–1241), segundo filho de Gengis e seu sucessor designado, completou a campanha contra o Jin e começou a organizar o aparato administrativo dos territórios conquistados. Foi sob Ögedei que Yelu Chucai, um burocrático kitano a serviço dos mongóis, convenceu o Khan de que era mais lucrativo taxar as populações agrícolas do que simplesmente destruí-las — uma virada conceitual fundamental que salvou parte da China setentrional de um destino ainda mais catastrófico.
A conquista dos Song do sul, porém, revelou-se uma empresa de ordem completamente diferente. O sul da China era topograficamente oposto à estepe: rios caudalosos, arrozais inundados, florestas densas e uma rede urbana com cidades que somavam centenas de milhares de habitantes. A cavalaria mongol, que era a arma definitiva na planície aberta, encontrava dificuldades enormes nesse terreno. Os Song possuíam, além disso, uma marinha de guerra desenvolvida, com o uso de pólvora e bombas incendiárias que tornavam os rios e lagos uma barreira real.
A guerra contra os Song foi iniciada formalmente após o rompimento da aliança mongol-Song em 1235, quando os mongóis atacaram o sul usando a derrota do Jin como trampolim. As campanhas iniciais obtiveram ganhos territoriais, mas encontraram resistência organizada. Os Song reformaram seu exército, recrutaram generais competentes como Yu Jie e Meng Gong, e transformaram cidades como Xiangyang em fortalezas praticamente inexpugnáveis.
Foi o grande Khan Möngke (r. 1251–1259) quem tentou resolver o impasse com uma campanha pessoal. Möngke reorganizou a estratégia em múltiplas frentes, incluindo um ataque pelo sudoeste através do Yunnan — conquistado em 1253 pelo jovem Kublai — para flanquear os Song pelo sul. Mas Möngke morreu em 1259, possivelmente de disenteria, durante o cerco de Diaoyu, uma fortaleza Song nas montanhas do Sichuan. Sua morte desencadeou uma crise sucessória que interrompeu temporariamente a campanha e mudaria o curso da história mongol.
Kublai Khan e o Projeto Imperial: Da Conquista à Dominação
A guerra civil entre Kublai Khan e seu irmão Ariq Böke (1260–1264) pela sucessão ao grande khanato revelou uma tensão estrutural que definiria o restante da conquista da China: o dilema da sinização. Kublai havia crescido cercado de conselheiros confucionistas, adotava estilos administrativos chineses e via o projeto de conquista do sul como uma questão de legitimidade imperial — não apenas de butim. Ariq Böke representava a facção conservadora mongol, que temia que a adoção de costumes sedentários corromperia a identidade guerreira da confederação.
Kublai venceu a guerra civil, mas o debate nunca foi completamente resolvido. Ele fundou a dinastia Yuan em 1271, adotando o sistema de títulos imperiais chineses e estabelecendo a capital em Khanbaliq (a futura Pequim). Ao mesmo tempo, manteve a hierarquia étnica que colocava os mongóis no topo da estrutura social, seguidos pelos “semu” (povos da Ásia Central e ocidentais), depois os chineses do norte e, por fim, os chineses do sul — os antigos súditos Song, considerados os menos confiáveis politicamente.
A queda dos Song foi selada pelo cerco de Xiangyang (1267–1273), uma das operações militares mais longas e engenhosas da era mongol. A cidade controlava o acesso ao rio Han e, por extensão, à planície central do sul. Os mongóis construíram uma frota fluvial, bloquearam os suprimentos e, quando a resistência ameaçava se prolongar indefinidamente, trouxeram engenheiros persas — enviados pelo Il-Khan Abaqa — com trabucos de contrapeso de grande alcance que quebraram as muralhas e a moral dos defensores. Xiangyang capitulou em 1273.
Com o caminho aberto, o general Bayan liderou o avanço final sobre o sul. A capital Song, Lin’an (atual Hangzhou), caiu em 1276, e a corte fugiu progressivamente para o sul. Os últimos resistentes Song foram derrotados na Batalha de Yamen (1279), uma batalha naval no delta do rio das Pérolas, em que a frota leal a um imperador criança foi destruída. O ministro-leal Lu Xiufu teria jogado o jovem imperador ao mar antes de se suicidar — um ato que se tornaria símbolo da resistência Song na memória cultural chinesa posterior.
A conquista estava completa. Pela primeira vez na história, toda a China estava sob controle estrangeiro.
Mecanismos da Conquista: Por Que os Mongóis Venceram
A questão central que os historiadores tentaram responder ao longo de gerações é: como um povo nômade sem tradição urbana ou agrícola foi capaz de subjugar a civilização mais populosa e tecnologicamente avançada do mundo medieval?
A resposta não é simples, mas alguns vetores explicativos se destacam na historiografia.
A superioridade tática da cavalaria mongol é o fator mais óbvio, mas frequentemente mal compreendido. Não se tratava apenas de velocidade — tratava-se de uma doutrina operacional que combinava reconhecimento extensivo, mobilidade estratégica, disciplina de comunicação via mensageiros e uma capacidade de concentrar forças em pontos decisivos que seus adversários raramente conseguiam antecipar. A tática da tulugma — o envolvimento de flanco com retirada simulada para atrair o inimigo para uma armadilha — foi usada repetidamente com sucesso.
A adaptação tecnológica foi igualmente decisiva. Os mongóis não tinham orgulho etnocêntrico em relação às técnicas de outros povos — ao contrário, copiavam, adaptavam e aprimoravam sistematicamente qualquer vantagem que encontravam. Engenheiros chineses, persas e europeus serviam em seus exércitos. O uso de fogo grego, de bombas de pólvora e de guerra biológica primitiva (catapultagem de cadáveres de animais sobre as muralhas de cidades sitiadas) foi documentado em múltiplas campanhas.
A fragmentação política da China foi um fator estrutural que os mongóis exploraram conscientemente. A rivalidade entre Jin e Song foi manipulada diplomaticamente — os Song foram aliados contra os Jin e depois conquistados quando já não havia mais nenhuma potência capaz de lhes oferecer apoio. A política de “dividir para conquistar” era articulada e deliberada.
O terror como instrumento político merece análise cuidadosa para evitar anacronismo. O massacre de populações que resistiam servia a uma função estratégica precisa: sinalizar para as cidades seguintes que a capitulação imediata garantia sobrevivência, enquanto a resistência garantia destruição. Muitas cidades e regiões se renderam sem combate após receberem notícias do destino de seus vizinhos. Esse mecanismo reduzia os custos da conquista a longo prazo, mesmo que gerasse destruição extrema no curto prazo.
O Impacto Demográfico e o Debate Historiográfico
Nenhum aspecto da conquista mongol da China é mais debatido do que seu custo humano. As estimativas variam de forma considerável dependendo das fontes e metodologias utilizadas.
Os censos imperiais disponíveis — imprecisos por natureza, mas os únicos instrumentos disponíveis — sugerem uma queda populacional dramática no norte da China entre o início do século XIII e meados do mesmo século. A população registrada sob o Jin teria sido de cerca de 45 a 50 milhões de pessoas; estimativas para o mesmo território décadas após a conquista mongol apontam números significativamente menores, embora as comparações diretas sejam metodologicamente problemáticas dado que as categorias censitárias mudaram.
O historiador Nicola Di Cosmo e outros especialistas contemporâneos advertem contra aceitar acriticamente os números mais dramáticos, que às vezes circulam em divulgação popular. Parte da queda nos registros reflete migração massiva para o sul — os Song absorveram ondas de refugiados do norte —, colapso do aparato burocrático que realizava os censos e mudanças na definição de quem era contabilizado. Dito isso, a destruição foi real e de escala enorme: cidades foram literalmente apagadas do mapa, sistemas de irrigação cuidadosamente construídos ao longo de séculos foram abandonados, e regiões inteiras do norte da China levaram gerações para recuperar seus níveis populacionais anteriores.
O debate tem implicações além do número: toca na questão de se a conquista mongol deve ser caracterizada como um genocídio no sentido analítico moderno, uma categoria que os historiadores medievalistas geralmente evitam aplicar retroativamente sem cuidado, mas que continua sendo discutida em fóruns acadêmicos. A posição mais consensual é que a destruição foi consequência instrumental de uma estratégia de terror e butim, não um projeto de eliminação étnica sistematicamente planejado — uma distinção importante, ainda que não atenuante em termos do sofrimento produzido.
A Dinastia Yuan: Conquista, Adaptação e Resistência Cultural
A fundação da Yuan por Kublai Khan em 1271 inaugurou um experimento histórico único: o governo de uma elite nômade sobre a civilização mais burocraticamente sofisticada do mundo. O resultado foi uma síntese instável, marcada por tensões permanentes entre a identidade mongol e as demandas pragmáticas de governar a China.
Kublai manteve e expandiu o aparato burocrático chinês, mas reservou os cargos mais altos para mongóis e “semu” (pessoas da Ásia Central, persas, árabes e alguns europeus como Marco Polo). Os exames imperiais confucianos, que eram o mecanismo tradicional de recrutamento da burocracia chinesa, foram suspensos por décadas — uma ruptura com séculos de tradição que gerou ressentimento profundo nas elites letradas.
A economia Yuan apresentou características ambivalentes. O comércio floresceu de forma sem precedentes: a Pax Mongolica — a paz relativa imposta pelo controle mongol sobre a maior parte da Eurásia — permitiu uma circulação de mercadorias, ideias e pessoas entre o Mediterrâneo e o Pacífico que não tinha paralelo histórico. Marco Polo, Ibn Battuta e outros viajantes deixaram relatos que documentam a intensidade dessas trocas. A seda, a porcelana e as especiarias chinesas chegavam à Europa com maior regularidade; a prata e as técnicas ocidentais penetravam no Oriente.
Ao mesmo tempo, a pressão fiscal sobre os camponeses foi intensa, e experimentos monetários — como a expansão massiva do papel-moeda sem lastro suficiente — geraram inflação e instabilidade econômica nas décadas finais da dinastia. A combinação de desastres naturais (inundações, fome) com uma administração percebida como estrangeira e extratora criou as condições para as rebeliões que eventualmente derrubaram os Yuan.
A Rebelião do Turbante Vermelho (1351–1368), que combinou elementos budistas milenaristas, ressentimentos camponeses e aspirações de elites regionais deslocadas, foi o veículo da derrubada Yuan. Zhu Yuanzhang, filho de camponeses pobres que havia sobrevivido a fomes e se tornado líder rebelde, fundou a dinastia Ming em 1368 e expulsou os últimos governantes Yuan para a estepe — invertendo, de certa forma, o movimento histórico que havia começado um século e meio antes.
Legado: O Que a Conquista Mongol Mudou na China
A conquista mongol da China deixou marcas que se estendem bem além do período Yuan. Alguns historiadores, como Frederick Hok-ming Cheung, argumentam que o trauma da dominação estrangeira aprofundou a desconfiança das elites Ming em relação ao mundo exterior, contribuindo para as políticas de fechamento comercial e naval que caracterizaram partes do período Ming — um contraste marcante com a abertura cosmopolita que havia caracterizado os Tang e os Song.
A reconfiguração étnica do norte da China foi permanente em alguns aspectos: populações mongóis se estabeleceram em várias regiões, e elementos culturais mongóis — culinários, linguísticos, indumentários — foram incorporados à cultura chinesa do norte de formas que persistem até hoje. O hotpot, prato emblemático da culinária chinesa contemporânea, tem raízes históricas nos costumes alimentares dos nômades da estepe.
No plano institucional, a Yuan deixou contribuições administrativas que a Ming parcialmente adotou, incluindo sistemas de comunicação (os yam, postos de cavalos e mensageiros distribuídos pelo território), mecanismos de controle territorial e experiências com papel-moeda que a Ming inicialmente continuou antes de abandonar após crises inflacionárias.
A Grande Muralha — na forma que conhecemos hoje — é em grande medida uma resposta Ming à ameaça mongol. Os Tang e os Song não haviam investido maciçamente em defesas de fronteira estática; foi a experiência traumática da conquista Yuan que convenceu os fundadores da Ming da necessidade de uma barreira física robusta contra os nômades do norte, gerando o projeto de construção em tijolo e pedra que produziu a muralha que os turistas visitam hoje.
No plano historiográfico mais amplo, a conquista mongol da China permanece um estudo de caso central para questões que transcendem a história medieval: como impérios nômades governam sociedades sedentárias; quais são os limites da adaptação cultural de conquistadores; e em que medida destruição e transformação são processos inseparáveis na história.
Conclusão: A Conquista Como Paradoxo
A invasão mongol da China é um evento que resiste à simplificação. Foi, sem dúvida, uma das maiores catástrofes humanas do mundo medieval — em escala de destruição, deslocamento e morte, poucos episódios históricos se comparam. Mas foi também o evento que integrou a China à maior rede comercial e cultural que o mundo havia visto até aquele momento, que trouxe para o continente técnicas, populações e perspectivas de uma extensão geográfica impossível antes da Pax Mongolica.
Os mongóis chegaram como destruidores e ficaram como administradores. Vieram como nômades e gradualmente adotaram estruturas sedentárias. Conquistaram a China e, em muitos sentidos, a China os conquistou de volta — transformando os netos dos guerreiros que devastaram Zhongdu em imperadores que patrocinavam a poesia confucionista e mandavam construir templos budistas.
A dinastia Yuan durou menos de um século como poder efetivo. Mas o século que durou foi suficiente para alterar de forma permanente a demografia, a cultura, a economia e a geopolítica do leste asiático. Entender a conquista mongol da China não é apenas entender um episódio de violência histórica — é entender como o contato, mesmo o contato brutal, remodela civilizações de formas que nenhuma das partes originalmente prevê.
FAQ – Perguntas Frequentes Sobre a Invasão Mongol da China
O que foi a conquista mongol da China? Foi o processo pelo qual os mongóis, sob Gengis Khan e seus sucessores, conquistaram os três estados que dividiam o território chinês no século XIII: o reino Xixia, a dinastia Jin e a dinastia Song do sul. O processo durou de 1211 a 1279 e resultou na fundação da dinastia Yuan por Kublai Khan.
Por que os mongóis conseguiram conquistar a China, que era militarmente mais desenvolvida? A combinação de superioridade tática da cavalaria, adaptação tecnológica (especialmente no uso de máquinas de cerco), exploração da divisão política entre os estados chineses e uso sistemático do terror como ferramenta política foram os principais fatores. Os mongóis também aprenderam rapidamente com povos conquistados, incorporando engenheiros e técnicos de diferentes culturas.
Qual foi o impacto demográfico da invasão mongol? Os registros disponíveis indicam quedas populacionais significativas, especialmente no norte da China. Estimativas variam amplamente — de perdas de 20% a mais de 40% da população em certas regiões — mas os historiadores modernos advertem que parte da queda nos censos reflete migração para o sul e colapso burocrático, não apenas mortalidade direta.
Quanto tempo durou a conquista da China pelos mongóis? O processo foi longo: as primeiras campanhas contra o Xixia começaram em 1205, a guerra contra o Jin se estendeu de 1211 a 1234, e a conquista dos Song do sul durou de 1235 a 1279 — totalizando quase três quartos de século.
O que foi a dinastia Yuan? Foi a dinastia fundada por Kublai Khan em 1271, após a conquista da maior parte da China. Foi a primeira vez que toda a China foi governada por uma dinastia de origem estrangeira. Durou até 1368, quando foi derrubada pela Rebelião do Turbante Vermelho e substituída pela dinastia Ming.
Como os mongóis conseguiram cercar cidades amuralhadas, sendo um povo de cavaleiros? Os mongóis compensaram sua falta de tradição em guerra de cerco capturando engenheiros e especialistas técnicos das populações conquistadas — chineses, kitans, persas e árabes. Com esses especialistas, construíram trabucos, torres de assalto e outros equipamentos que lhes permitiram reduzir fortalezas como Zhongdu e Xiangyang.
O que foi a Batalha de Yamen? Foi a batalha naval travada em 1279 no delta do rio das Pérolas (atual Guangdong), em que a frota mongol destruiu os últimos navios leais à dinastia Song. Marcou o fim da resistência Song e a completa submissão da China ao controle Yuan. O jovem imperador Song teria sido afogado por seu ministro-leal para evitar a captura.
A conquista mongol beneficiou a China de alguma forma? Historicamente, os estudiosos apontam que o período Yuan facilitou uma integração comercial e cultural sem precedentes entre a China e o resto da Eurásia — a chamada Pax Mongolica. O comércio na Rota da Seda atingiu volumes sem precedentes, e a troca de tecnologias, culturas e ideias foi intensa. Isso, porém, não apaga o custo humano imenso da conquista.
Por que a dinastia Yuan durou tão pouco? A combinação de tensões étnicas estruturais (a hierarquia que desfavorecia os chineses do sul), instabilidade econômica gerada por experimentos monetários mal gerenciados, desastres naturais recorrentes e a percepção de que o governo Yuan era estrangeiro e extrator alimentou rebeliões populares que culminaram na ascensão da Ming em 1368.
Qual é a relação entre a conquista mongol e a Grande Muralha da China? A Grande Muralha em sua forma atual — construída em tijolo e pedra — é em grande parte uma criação da dinastia Ming, construída precisamente como resposta ao trauma da conquista mongol. Os Ming, determinados a nunca mais serem subjugados por nômades do norte, investiram décadas e recursos enormes na construção de uma barreira física que diferenciava suas fronteiras.
Leituras Recomendadas
LANE, George. Genghis Khan and Mongol Rule. Westport: Greenwood Press, 2004.
MAY, Timothy. The Mongol Conquests in World History. London: Reaktion Books, 2012.
MAN, John. Kublai Khan: The Mongol King Who Remade China. London: Bantam Press, 2006.
ROSSABI, Morris. Khubilai Khan: His Life and Times. Berkeley: University of California Press, 1988.
WEATHERFORD, Jack. Genghis Khan and the Making of the Modern World. New York: Crown Publishers, 2004.

