Marco Polo: a verdadeira viagem, fatos, dúvidas e legado
Em 1298, dentro de uma cela na prisão de Gênova, um mercador veneziano capturado em combate naval começou a ditar suas memórias a um companheiro de cárcere chamado Rustichello da Pisa. Não havia nada de heroico naquele momento: Marco Polo era apenas mais um prisioneiro de guerra, derrotado na Batalha de Curzola, aguardando um destino incerto. Ainda assim, o que ele relatou ali — quase duas décadas de viagens pela Ásia, pela corte do grande khan mongol e por terras que nenhum europeu havia descrito com tamanho detalhe — transformaria aquele texto em um dos documentos mais influentes da história da cartografia, do comércio e da imaginação ocidental sobre o Oriente.
Quem foi Marco Polo, afinal? Ele foi um mercador e viajante veneziano do século XIII que, junto do pai Niccolò e do tio Maffeo, percorreu a Rota da Seda até a China sob domínio mongol, viveu por anos sob a proteção do imperador Kublai Khan e, ao retornar a Veneza, teve seus relatos registrados no livro conhecido como “Il Milione” ou “Livro das Maravilhas”.
Este artigo reconstrói a trajetória de Marco Polo a partir das fontes disponíveis, examina o contexto comercial e político que tornou sua viagem possível, discute as controvérsias historiográficas sobre a veracidade de seus relatos e avalia o impacto duradouro de sua narrativa sobre a geografia, a cartografia e a percepção europeia da Ásia. Também são analisadas as diferentes versões manuscritas do texto, a relação de Marco Polo com a corte mongol e os debates acadêmicos contemporâneos sobre os limites entre experiência vivida e compilação de relatos de terceiros.
A viagem de Marco Polo não ocorreu no vácuo. Ela foi possível porque, no século XIII, o Império Mongol havia unificado boa parte da Eurásia sob uma estrutura política que, paradoxalmente, favorecia o trânsito de mercadores e viajantes entre extremos do continente — fenômeno que historiadores chamam de Pax Mongolica. Compreender Marco Polo exige, portanto, compreender também esse momento específico de conectividade euroasiática, sem o qual sua jornada teria sido impensável.
Contexto histórico: Veneza, a Rota da Seda e a Pax Mongolica
No século XIII, Veneza era uma das principais potências comerciais do Mediterrâneo. A cidade havia construído sua riqueza sobre o comércio marítimo com o Levante, mantendo entrepostos em Constantinopla e em diversas cidades costeiras do Oriente Médio. Famílias mercantis venezianas, como os Polo, operavam redes de comércio que se estendiam até o Mar Negro, ponto de contato com as rotas terrestres que levavam à Ásia Central.
O pai de Marco, Niccolò Polo, e seu tio Maffeo Polo já haviam realizado uma primeira viagem ao território mongol antes do nascimento documentado da segunda expedição, chegando à corte de Kublai Khan, neto de Gêngis Khan e fundador da dinastia Yuan na China. Essa primeira viagem, motivada por oportunidades comerciais ligadas ao comércio de pedras preciosas e outros bens de luxo, estabeleceu contatos que seriam decisivos para a viagem seguinte, à qual o jovem Marco se juntaria.
O que tornou essa travessia possível, em termos estruturais, foi a configuração política da Eurásia sob o domínio mongol. Após as conquistas de Gêngis khan e seus sucessores no século XIII, formou-se um conjunto de khanatos que, embora frequentemente rivais entre si, mantinham relativa segurança nas rotas terrestres interiores. Historiadores como Peter Jackson e David Morgan descrevem esse período como um momento de excepcional permeabilidade entre o Ocidente latino e o Extremo Oriente, algo que não se repetiria com a mesma intensidade até a era das grandes navegações.
A Rota da Seda, nesse contexto, não era uma via única, mas uma rede de caminhos terrestres e oásis que conectavam o Mediterrâneo Oriental à China, passando por regiões como a Pérsia, o Turquestão e o deserto de Gobi. Mercadores, missionários religiosos — sobretudo franciscanos — e diplomatas circulavam por essas rotas com uma frequência que seria impensável em séculos anteriores, quando a fragmentação política da Ásia Central tornava as viagens de longa distância extremamente arriscadas.
É importante notar que Marco Polo não foi o único, nem o primeiro, europeu a alcançar a corte mongol. Frades como Giovanni da Pian del Carpine e Guilherme de Rubrouck já haviam viajado à Ásia Central décadas antes, deixando relatos próprios. O que distingue Marco Polo não é a originalidade da viagem em si, mas a extensão de sua permanência, a posição privilegiada que ocupou junto à corte de Kublai Khan e o nível de detalhe — geográfico, comercial e cultural — registrado em seu relato.
A viagem: de Veneza à corte de Kublai Khan
A segunda viagem dos Polo teve início por volta de 1271, quando Niccolò e Maffeo retornaram ao Oriente levando consigo o jovem Marco, então com aproximadamente dezessete anos. O grupo partiu de Veneza em direção ao porto de Acre, no Levante, de onde seguiu por terra através da Pérsia, do Afeganistão e das montanhas do Pamir, até alcançar as planícies da Ásia Central e, finalmente, o território sob controle mongol na China.
A travessia foi longa e penosa. O relato descreve a passagem por desertos como o de Lop, na bacia do Tarim, conhecido por fenômenos sonoros que os viajantes interpretavam como vozes de espíritos — um exemplo do modo como Marco Polo combinava observação empírica e folclore local em sua narrativa. Essa mescla entre relato factual e elementos maravilhosos é um dos pontos centrais de debate entre os historiadores que analisam o texto.
Ao chegar à corte de Kublai Khan, provavelmente entre 1274 e 1275, os Polo foram recebidos com interesse pelo imperador, que mantinha política de atrair estrangeiros capazes de fornecer informações úteis sobre regiões distantes de seu império. Segundo o relato, Marco teria permanecido a serviço do khan por aproximadamente dezessete anos, desempenhando funções administrativas e, possivelmente, diplomáticas — embora o alcance exato de seus cargos seja objeto de controvérsia historiográfica, já que não há confirmação independente nas fontes chinesas da época.
Durante esse período, Marco Polo teria viajado por diversas regiões do império, incluindo partes da China, Birmânia, e possivelmente o Sudeste Asiático, relatando observações sobre administração pública, sistemas fiscais, produção de papel-moeda, organização postal e práticas religiosas locais. Esses relatos, ainda que eivados de exageros e imprecisões pontuais, fornecem um dos retratos mais detalhados disponíveis sobre a administração da dinastia Yuan vista por um observador externo.
A organização administrativa mongol descrita por Marco Polo
Um dos aspectos mais valorizados pelos historiadores no relato de Marco Polo é a descrição do sistema administrativo mongol-chinês sob Kublai Khan. O texto descreve, por exemplo, o uso de papel-moeda garantido pelo Estado — uma inovação que impressionou profundamente o veneziano, acostumado ao sistema metálico europeu. Essa descrição é considerada, por especialistas como Igor de Rachewiltz, um dos registros europeus mais antigos e detalhados sobre práticas monetárias asiáticas.
O relato também detalha o sistema de estações postais (yam), que permitia comunicação rápida entre regiões distantes do império por meio de mensageiros a cavalo que se revezavam em postos fixos. Esse sistema, segundo Marco Polo, garantia que notícias e ordens imperiais pudessem percorrer milhares de quilômetros em poucos dias — uma eficiência administrativa que contrastava fortemente com os padrões europeus da época.

A descrição da capital Cambaluc (atual Pequim) como centro urbano planejado, com ruas largas e organização geométrica, também chamou atenção dos primeiros leitores europeus do texto, acostumados a cidades medievais de traçado irregular. Embora alguns detalhes possam ter sido exagerados ou mal compreendidos na tradução cultural, o núcleo dessas descrições é corroborado por fontes chinesas independentes sobre a capital Yuan.
O retorno e a captura em Gênova
Por volta de 1291, os Polo iniciaram a viagem de retorno à Europa, partindo por via marítima através do Oceano Índico, escoltando uma princesa mongol destinada a um casamento dinástico na Pérsia. Essa rota marítima, descrita com detalhes sobre Sumatra, o sul da Índia e Ceilão (atual Sri Lanka), constitui outra parte significativa do relato, na qual Marco Polo descreve práticas comerciais, fauna local e organização política de reinos costeiros raramente mencionados em fontes europeias da época.
Após anos de viagem, o grupo retornou a Veneza por volta de 1295, encontrando dificuldade inicial em ser reconhecido pelos próprios familiares, segundo relatos posteriores — embora esse episódio específico tenha caráter mais anedótico do que documentalmente sólido. Pouco tempo depois, Marco Polo envolveu-se no conflito naval entre Veneza e Gênova, sendo capturado na Batalha de Curzola, em 1298, e levado prisioneiro a Gênova.
Foi durante esse cativeiro que Marco Polo ditou seu relato a Rustichello da Pisa, escritor já conhecido por obras de cunho cavalheiresco. Essa coautoria é central para entender o texto resultante: Rustichello não foi um mero escriba passivo, mas provavelmente moldou estilisticamente a narrativa, incorporando convenções literárias do romance medieval europeu às memórias de Marco Polo. Esse processo de mediação textual ajuda a explicar por que o “Livro das Maravilhas” mistura registro descritivo com elementos de maravilhamento típicos da literatura de viagens medieval.
“Il Milione”: o livro e suas versões
O título mais conhecido da obra, “Il Milione”, tem origem incerta. Algumas interpretações associam o nome a um apelido da família Polo (“Emilione”), enquanto outras o relacionam à percepção de exagero nas histórias contadas por Marco — como se o relato fosse repleto de “milhões” de maravilhas. Independentemente da origem exata do título, o fato é que não existe um único manuscrito original do texto: o que sobreviveu até hoje são cópias e traduções divergentes, produzidas em diferentes línguas e períodos, cada uma com variações significativas de conteúdo.
Essa multiplicidade de versões é um dos maiores desafios para os historiadores que estudam a obra. Estudiosos como A. C. Moule e Paul Pelliot, responsáveis por edições críticas influentes no século XX, identificaram mais de cento e cinquenta manuscritos com diferenças substanciais entre si, alguns mais sóbrios e descritivos, outros com acréscimos claramente fantasiosos inseridos por copistas posteriores. Isso significa que separar o que seria “autenticamente” relatado por Marco Polo do que foi adicionado, modificado ou suprimido por copistas e tradutores é uma tarefa filológica complexa e ainda em desenvolvimento.
A obra circulou inicialmente em francês-italiano (uma variante linguística comum em textos comerciais e literários da época), sendo posteriormente traduzida para latim, toscano e outras línguas vernáculas europeias. Essa circulação ampla, favorecida pela invenção posterior da impressão, contribuiu para que o texto se tornasse uma das principais fontes de informação — ainda que parcial e por vezes imprecisa — sobre a Ásia disponível aos europeus letrados dos séculos XIV e XV.
Estrutura e conteúdo do relato
O “Livro das Maravilhas” está organizado, de modo geral, em três grandes blocos temáticos: a descrição da viagem de ida, com foco na Pérsia, Ásia Central e nas regiões fronteiriças do império mongol; a descrição detalhada da China sob domínio de Kublai Khan, incluindo aspectos administrativos, econômicos e culturais; e, por fim, a descrição da viagem de retorno por via marítima, incluindo o Sudeste Asiático, a India e regiões da costa africana oriental.
Em diversos trechos, o texto intercala descrições factualmente plausíveis — como rotas comerciais, produtos e práticas religiosas — com relatos que misturam observação direta e tradição oral local, incluindo referências a criaturas fantásticas e fenômenos que hoje seriam classificados como folclore regional reinterpretado. Esse caráter híbrido é precisamente o que torna o texto um objeto de estudo simultaneamente histórico e literário.
Controvérsias historiográficas: Marco Polo esteve mesmo na China?
Nem todos os historiadores aceitam de forma acrítica que Marco Polo tenha vivido tudo o que descreveu. A historiadora britânica Frances Wood, em obra publicada na década de 1990 intitulada “Did Marco Polo Go to China?”, levantou questionamentos importantes sobre a ausência de menções a Marco Polo nas fontes administrativas chinesas da dinastia Yuan, bem como sobre a omissão de elementos cotidianos marcantes da China da época — como o uso generalizado de pauzinhos para comer, a prática do enfaixamento dos pés femininos ou a Grande Muralha em sua forma então existente.
Essa ausência de detalhes considerados “óbvios” para quem teria vivido tantos anos no território levou Wood a sugerir que Marco Polo poderia ter compilado relatos de outros viajantes e mercadores, sem necessariamente ter alcançado pessoalmente todos os lugares descritos — tendo talvez se limitado a regiões da Pérsia e da Ásia Central, com o restante baseado em fontes indiretas, possivelmente persas.
Essa hipótese, contudo, não é consenso. Historiadores como Igor de Rachewiltz e Hans Ulrich Vogel contestaram os argumentos de Wood, apontando que a ausência de menção em fontes chinesas é esperada, já que estrangeiros que não ocupavam altos cargos mandarinais raramente eram registrados nominalmente em documentos administrativos. Vogel, em particular, desenvolveu uma análise detalhada sobre a precisão das descrições de Marco Polo a respeito de moedas, sal e receitas fiscais chinesas, concluindo que o nível de detalhe técnico apresentado seria difícil de obter sem experiência direta ou acesso a fontes administrativas internas muito específicas — o que reforça, em sua leitura, a plausibilidade da presença prolongada de Marco Polo no território.
A divergência entre essas correntes ilustra bem os limites do método histórico aplicado a fontes únicas e fragmentadas. Não existe, até o momento, evidência documental chinesa que confirme inequivocamente a presença de Marco Polo, mas também não existe evidência que a refute de modo conclusivo. O mais prudente, do ponto de vista historiográfico, é tratar o relato como uma fonte majoritariamente baseada em experiência direta, mas sujeita a lacunas, mediação literária de Rustichello e possível incorporação de relatos de terceiros em trechos específicos — sobretudo naqueles referentes a regiões que Marco Polo provavelmente não visitou pessoalmente, como partes da África Oriental ou do extremo Sudeste Asiático.
Marco Polo e Kublai Khan: relação política e diplomática
A relação descrita entre Marco Polo e o imperador Kublai Khan é um dos elementos mais discutidos do relato. Segundo o texto, o Khan teria apreciado particularmente os relatos do jovem veneziano sobre as regiões que visitava em nome do império, valorizando sua capacidade de observação e narrativa — distinta da de embaixadores e funcionários locais, que se limitavam a relatórios administrativos sucintos.
Essa narrativa, embora possivelmente embelezada, é consistente com práticas conhecidas da corte mongol sob a dinastia Yuan, que costumava empregar estrangeiros em funções específicas, sobretudo aqueles sem vínculos com facções políticas internas chinesas, o que os tornava, paradoxalmente, mais confiáveis para certas tarefas administrativas delicadas. Esse fenômeno é documentado por historiadores especializados na dinastia Yuan, como Morris Rossabi, que descreve a política de Kublai Khan de cooptar talentos estrangeiros — incluindo persas, uigures e europeus — como estratégia de governança em um império multicultural vasto.
Não há, contudo, confirmação independente sobre o cargo exato ocupado por Marco Polo na administração mongol. O relato sugere funções relacionadas a viagens de inspeção e possivelmente coleta de informações fiscais ou comerciais, mas a ausência de registros administrativos específicos torna esse ponto permanentemente sujeito a interpretação. Rossabi, de modo cauteloso, sugere que é plausível que Marco Polo tenha desempenhado funções menores, mas relevantes, sem necessariamente ocupar altos postos mandarinais — o que explicaria a falta de registros nominais.
O impacto de Marco Polo na cartografia e na exploração europeia
O efeito mais duradouro do relato de Marco Polo sobre a história europeia talvez não tenha sido imediato, mas sim diferido por gerações, manifestando-se de forma decisiva na cartografia dos séculos XIV e XV. Mapas-múndi produzidos nesse período, como o Atlas Catalão (1375), incorporam diretamente informações derivadas do “Livro das Maravilhas”, especialmente no que se refere à localização aproximada da China, da Índia e de ilhas do Sudeste Asiático, regiões praticamente desconhecidas em mapas europeus anteriores.
Essa influência cartográfica teve consequência direta sobre o imaginário geográfico que orientou exploradores posteriores. É amplamente aceito pela historiografia que Cristóvão Colombo possuía um exemplar anotado do “Livro das Maravilhas”, utilizando as descrições de Marco Polo sobre o Catai (China) e o Cipango (Japão) como referência para calcular — de forma equivocada, como se sabe hoje — a distância entre a Europa e o leste asiático ao planejar sua viagem transatlântica de 1492.
Esse erro de cálculo, derivado em parte da superestimação das distâncias orientais presentes no relato de Marco Polo combinada com subestimações geográficas próprias de Colombo, ilustra de forma contundente como um texto medieval de viagem pôde influenciar diretamente decisões que resultariam, indiretamente, no contato europeu com o continente americano. Trata-se de um exemplo clássico de como fontes historiográficas imprecisas podem, ainda assim, gerar consequências históricas concretas e duradouras.
Além do impacto cartográfico direto, o relato de Marco Polo contribuiu para consolidar, no imaginário europeu medieval e renascentista, a percepção da Ásia como espaço de riqueza extraordinária — sobretudo em especiarias, seda e metais preciosos — alimentando o interesse comercial que, décadas depois, motivaria as expedições marítimas portuguesas e espanholas em busca de rotas alternativas para o comércio asiático, evitando os intermediários árabes e venezianos que dominavam o comércio terrestre.
A recepção crítica ao longo dos séculos
Nos séculos imediatamente posteriores à sua circulação, o “Livro das Maravilhas” foi recebido com misto de fascínio e desconfiança. Muitos contemporâneos consideravam os relatos exagerados, a ponto de a expressão “as maravilhas de Marco Polo” ter se tornado, em certos contextos, sinônimo de exagero ou fantasia — interpretação que, segundo alguns estudiosos, teria inclusive influenciado a origem popular do apelido “Il Milione”.
Com o avanço dos estudos orientalistas nos séculos XVIII e XIX, e sobretudo com a tradução e comparação do texto com fontes chinesas e persas independentes, grande parte das descrições de Marco Polo passou a ser reavaliada como substancialmente plausível, ainda que sujeita a exageros pontuais e mediação literária. Esse processo de revalorização historiográfica consolidou Marco Polo não apenas como figura folclórica, mas como fonte primária relevante para o estudo da Ásia sob domínio mongol — embora sempre com as ressalvas metodológicas adequadas a uma fonte de natureza híbrida entre relato pessoal e compilação literária.
Marco Polo e os limites do conhecimento geográfico medieval europeu
Para compreender plenamente a relevância do relato de Marco Polo, é necessário situar o estado do conhecimento geográfico europeu antes de sua circulação. A cartografia europeia medieval, fortemente influenciada por tradições bíblicas e por mapas conhecidos como mappae mundi, organizava o espaço terrestre segundo critérios simbólico-religiosos mais do que empíricos, frequentemente posicionando Jerusalém no centro do mundo conhecido e atribuindo características fantásticas a regiões distantes, como a presença de monstros ou povos lendários nas margens do mapa.
O relato de Marco Polo, ao oferecer descrições geográficas baseadas — ainda que parcialmente — em experiência direta de deslocamento por terras asiáticas, representou uma ruptura parcial com esse modelo simbólico, introduzindo elementos de observação empírica que, gradualmente, contribuiriam para a transição cartográfica rumo a mapas mais orientados por critérios de navegação e comércio, como os portulanos que se popularizariam nos séculos seguintes.
Essa transição não foi imediata nem completa: muitos mapas produzidos décadas após a circulação do “Livro das Maravilhas” continuaram a incorporar elementos fantásticos extraídos do próprio texto de Marco Polo, especialmente em relação a criaturas e fenômenos descritos em regiões periféricas de sua narrativa, como partes da Índia e do Sudeste Asiático. Isso demonstra que a influência de Marco Polo sobre a cartografia europeia foi simultaneamente positiva, ao introduzir dados geográficos inéditos, e ambígua, ao perpetuar elementos de fantasia que ainda demorariam séculos para serem definitivamente abandonados pela cartografia científica.
Conclusão: o legado de um relato entre fato e narrativa
A trajetória de Marco Polo ocupa um lugar paradoxal na historiografia: trata-se, simultaneamente, de uma das fontes europeias mais detalhadas sobre a Ásia mongol do século XIII e de um texto cuja autenticidade integral jamais poderá ser comprovada de forma definitiva. Essa ambiguidade não diminui sua relevância histórica — ao contrário, é justamente essa tensão entre experiência vivida, mediação literária e compilação de relatos de terceiros que torna o “Livro das Maravilhas” um objeto de estudo tão rico para historiadores, filólogos e historiadores da cartografia.
O legado mais concreto de Marco Polo não reside na precisão absoluta de cada detalhe narrado, mas no papel estrutural que seu relato desempenhou na ampliação do horizonte geográfico europeu, alimentando tanto o imaginário popular quanto decisões concretas de exploração marítima séculos depois. Sua influência sobre cartógrafos catalães, sobre Colombo e sobre gerações de leitores que viram na Ásia um espaço de riqueza e possibilidade comercial, demonstra como um único relato de viagem pôde reverberar muito além de sua época e de seu autor original.
Ao mesmo tempo, os debates historiográficos contemporâneos sobre a veracidade integral da viagem de Marco Polo lembram que toda fonte histórica, mesmo as mais influentes, deve ser submetida a escrutínio crítico constante. Marco Polo não foi um cronista neutro nem um cartógrafo científico: foi um mercador, narrador e — possivelmente — funcionário estrangeiro de um império vasto e multicultural, cujas memórias, registradas em condições peculiares de cativeiro, tornaram-se, contra todas as probabilidades, uma das pontes textuais mais duradouras entre a Europa medieval e a Ásia mongol.
FAQ – Perguntas frequentes sobre Marco Polo
Quem foi Marco Polo? Marco Polo foi um mercador e viajante veneziano do século XIII, autor (por meio de dictado) do “Livro das Maravilhas”, relato de suas viagens pela Ásia sob domínio mongol, incluindo longa permanência na corte de Cublai Cã.
Marco Polo realmente esteve na China? A maioria dos historiadores considera plausível que Marco Polo tenha vivido na China sob a dinastia Yuan, mas há divergência historiográfica significativa, sobretudo a partir dos questionamentos levantados pela historiadora Frances Wood, contestados por outros especialistas como Hans Ulrich Vogel.
O que é o “Livro das Maravilhas”? É o relato de viagem dictado por Marco Polo a Rustichello da Pisa durante seu cativeiro em Gênova, descrevendo sua jornada pela Ásia, a administração mongol sob Cublai Cã e regiões do Sudeste Asiático e Índia visitadas durante o retorno marítimo a Veneza.
Qual a diferença entre Marco Polo e outros viajantes europeus da época, como Guilherme de Rubrouck? Diferentemente de frades como Rubrouck, cuja viagem teve caráter diplomático-religioso e duração mais curta, Marco Polo permaneceu cerca de dezessete anos na Ásia, em contexto comercial e supostamente administrativo, produzindo um relato mais extenso e detalhado sobre a vida cotidiana e econômica do império mongol.
Por que o livro é chamado “Il Milione”? A origem do título é incerta. Hipóteses incluem associação a um apelido da família Polo (“Emilione”) ou à percepção de exagero nas histórias narradas, como se fossem repletas de “milhões” de maravilhas.
Qual foi o papel da Pax Mongolica na viagem de Marco Polo? A relativa estabilidade política instaurada pelo Império Mongol sobre boa parte da Eurásia no século XIII facilitou o trânsito de mercadores e viajantes entre o Mediterrâneo e a China, condição estrutural sem a qual a viagem dos Polo teria sido extremamente mais arriscada ou inviável.
Marco Polo influenciou Cristóvão Colombo? Sim. É historiograficamente aceito que Colombo possuía um exemplar anotado do “Livro das Maravilhas” e utilizou suas descrições do Catai e do Cipango como referência geográfica ao planejar sua viagem transatlântica de 1492.
Existe um manuscrito original do livro de Marco Polo? Não. Não há manuscrito original sobrevivente; existem mais de cento e cinquenta cópias e traduções divergentes, o que torna a reconstrução do texto “autêntico” um desafio filológico permanente.
Qual foi a relação de Marco Polo com Cublai Cã? Segundo o relato, Marco Polo teria servido à corte de Cublai Cã por aproximadamente dezessete anos, possivelmente em funções de observação e relatório sobre regiões do império, embora não haja confirmação documental independente sobre cargos específicos.
Como Marco Polo morreu? Marco Polo retornou a Veneza após o cativeiro em Gênova, dedicando-se a negócios mercantis na cidade, e faleceu em 1324, já reconhecido — ainda que com ressalvas de incredulidade por parte de alguns contemporâneos — como autor de um dos relatos de viagem mais influentes da Idade Média.
Referências bibliográficas
POLO, Marco. O livro das maravilhas. Tradução e notas de Eugênio Amado. Porto Alegre: L&PM, 2007.
WOOD, Frances. Did Marco Polo go to China?. Boulder: Westview Press, 1996.
ROSSABI, Morris. Khubilai Khan: His Life and Times. Berkeley: University of California Press, 1988.
JACKSON, Peter. The Mongols and the West, 1221-1410. Harlow: Pearson Longman, 2005.
VOGEL, Hans Ulrich. Marco Polo Was in China: New Evidence from Currencies, Salts and Revenues. Leiden: Brill, 2013.

