História antigaImpério Persa

Cilindro de Ciro: propaganda persa ou direitos humanos?

No ano 539 a.C., um escriba babilônico, trabalhando a serviço dos novos senhores da cidade, gravou em argila cozida um texto que misturava propaganda política, justificativa religiosa e memória administrativa. O objeto, hoje conhecido como Cilindro de Ciro, foi enterrado nas fundações de um templo e permaneceu esquecido por mais de dois milênios, até ser desenterrado por arqueólogos britânicos em 1879, em meio às ruínas de Babilônia, no atual Iraque.

A pergunta mais comum sobre o objeto é direta: o Cilindro de Ciro é uma declaração de direitos humanos? A resposta historiográfica é não — trata-se de um texto de propaganda real, escrito segundo convenções literárias mesopotâmicas muito anteriores ao reinado de Ciro, que buscava legitimar a conquista persa da Babilônia perante a elite sacerdotal e a população local, e não um documento jurídico universal.

Fotografia do Cilindro de Ciro, artefato de argila com inscrições cuneiformes em acadiano, produzido após a conquista da Babilônia por Ciro, o Grande, em 539 a.C.
O Cilindro de Ciro, descoberto na Babilônia e atualmente preservado no British Museum, registra a conquista da cidade por Ciro II e suas políticas em relação aos povos incorporados ao Império Persa.

Este artigo reconstrói a trajetória completa do artefato: o contexto da conquista de Babilônia por Ciro II, o conteúdo do texto cuneiforme linha a linha, as convenções literárias mesopotâmicas que o moldaram, a história de sua descoberta moderna e, sobretudo, o debate historiográfico sobre seu uso político no século XX, quando o objeto foi transformado em símbolo de tolerância religiosa e direitos humanos por governos e organismos internacionais. Também serão discutidas as leituras críticas que relativizam essa interpretação, devolvendo o cilindro ao seu lugar de origem: a tradição mesopotâmica de inscrições reais de fundação.

Compreender o Cilindro de Ciro exige, portanto, dois movimentos simultâneos: ler o texto como os babilônios do século VI a.C. o leriam, situado entre a tradição de Sargão da Acádia e a de Nabucodonosor II, e entender por que, séculos depois, ele se tornou um dos objetos mais politizados do acervo do Museu Britânico, citado em discursos na ONU e reproduzido em réplicas oferecidas a chefes de Estado.

O contexto histórico: a conquista persa de Babilônia

Para entender o Cilindro de Ciro é necessário primeiro reconstituir a conjuntura política da Babilônia no final do reinado de Nabonido, último rei nativo do Império Neobabilônico. Nabonido assumiu o trono em 556 a.C. em circunstâncias incertas — provavelmente um golpe palaciano — e governou de maneira considerada incomum pelos padrões babilônicos, afastando-se da capital por longos períodos para residir no oásis de Tayma, na Arábia.

Essa ausência prolongada teve consequências religiosas e políticas graves. O culto a Marduk, divindade tutelar de Babilônia, ficou sem a presença regular do rei nas festividades do Ano Novo (o Akitu), cerimônia que dependia da participação direta do monarca para sua validade ritual. Paralelamente, Nabonido promoveu o culto ao deus-lua Sin, de Harran, em detrimento do clero de Marduk, gerando atrito com o sacerdócio mais poderoso da cidade.

A historiografia diverge sobre o peso relativo dessas tensões religiosas na queda de Babilônia. Autores como Paul-Alain Beaulieu sustentam que o conflito entre Nabonido e o sacerdócio de Marduk foi real, mas alertam que boa parte das fontes que descrevem essa hostilidade — incluindo o próprio Cilindro de Ciro e a chamada “Crônica de Nabonido” — foram produzidas após a conquista persa, sob patrocínio do novo regime, o que as torna fontes interessadas, não relatos neutros.

Enquanto isso, Ciro II, rei da Pérsia desde aproximadamente 559 a.C., expandia seu domínio sobre o planalto iraniano após derrotar os medos e, em seguida, o reino da Lídia, na Anatólia. A campanha contra a Babilônia ocorreu em 539 a.C. Segundo as fontes — tanto a Crônica de Nabonido quanto o próprio cilindro — a cidade de Sippar caiu sem resistência significativa, e Babilônia propriamente foi tomada por um general persa, Ugbaru (identificado por alguns autores com o Gobrias mencionado por Xenofonte), antes da entrada triunfal de Ciro algumas semanas depois.

A narrativa oficial persa, refletida no cilindro, apresenta a conquista como um acolhimento pacífico: o povo babilônico teria recebido Ciro como libertador, e o próprio deus Marduk o teria escolhido para restaurar a ordem religiosa corrompida por Nabonido. Trata-se de um esquema retórico clássico — o usurpador legítimo escolhido pela divindade contra o rei ímpio — que remonta a séculos de tradição mesopotâmica e que será detalhado na seção seguinte.

A descoberta arqueológica e a reconstituição do texto

O Cilindro de Ciro foi descoberto em março de 1879 por Hormuzd Rassam, arqueólogo assírio-britânico que conduzia escavações no sítio de Babilônia a serviço do Museu Britânico. O objeto foi encontrado nas fundações do Esagila, o grande templo dedicado a Marduk, prática consistente com a tradição mesopotâmica de depositar inscrições de fundação sob estruturas religiosas e palacianas como registro permanente para a posteridade e para os deuses.

Infográfico sobre o Templo de Esagila, principal santuário da antiga Babilônia dedicado ao deus Marduque, apresentando sua história, linha do tempo, localização, arquitetura e importância religiosa.
Infográfico do História em Cortes mostrando a história do Templo de Esagila, o principal centro religioso da Babilônia e um dos monumentos mais importantes da Mesopotâmia antiga.

O artefato é um cilindro de argila cozida, com aproximadamente 22 centímetros de comprimento, coberto por um texto cuneiforme em acádico babilônico distribuído em 45 linhas. O objeto foi adquirido pelo Museu Britânico, onde permanece como peça central da coleção mesopotâmica, catalogado sob o número BM 90920.

A reconstituição completa do texto não foi imediata. Em 1970 e novamente nos anos 1970, fragmentos adicionais foram identificados em coleções da Universidade Yale e do próprio Museu Britânico, permitindo a Paul-Richard Berger e, posteriormente, Irving Finkel reconstruírem partes do início do texto que haviam sido perdidas ou mal interpretadas nas primeiras transcrições do século XIX. Essa reconstituição progressiva é relevante porque revisões na leitura de certas linhas alteraram, ao longo do século XX, a compreensão de passagens específicas — um lembrete de que textos cuneiformes raramente chegam completos e que sua tradução é um processo cumulativo, sujeito a correções.

Irving Finkel, curador do Museu Britânico responsável por estudos recentes sobre o objeto, demonstrou que dois fragmentos adicionais, mantidos na coleção de Yale desde o início do século XX sem identificação correta, pertenciam de fato ao mesmo cilindro — uma descoberta que só foi confirmada décadas depois, quando moldes de gesso permitiram o encaixe físico das peças. Esse episódio ilustra como a documentação de coleções antigas, dispersas entre museus distintos, pode obscurecer conexões textuais por gerações.

O conteúdo do texto: estrutura e conteúdo linha a linha

O texto do cilindro pode ser dividido em três blocos temáticos, seguindo a análise padrão adotada por especialistas como Amélie Kuhrt e Finkel.

O primeiro bloco: a denúncia de Nabonido

As linhas iniciais do cilindro — justamente as mais danificadas e só integralmente reconstituídas com os fragmentos de Yale — descrevem, na terceira pessoa, os males cometidos por um rei anônimo (identificado contextualmente como Nabonido) contra Babilônia. O texto acusa esse rei de impor trabalhos forçados à população, de negligenciar os cultos tradicionais e de afastar a imagem de Marduk das celebrações apropriadas, provocando a ira do próprio deus contra a cidade.

Esse recurso retórico — atribuir a queda de um rei à ira divina provocada por sua própria impiedade — não foi inventado pelos persas. Ele reproduz quase literalmente o esquema da “Profecia de Marduk” e de outras composições babilônicas anteriores, nas quais a divindade abandona sua cidade por causa da incompetência ou impiedade do governante, apenas para retornar quando um novo rei legítimo é escolhido. Mario Liverani e outros assiriólogos identificam esse padrão como parte de uma tradição literária de “narrativas de legitimação dinástica”, empregada por conquistadores mesopotâmicos havia séculos.

O segundo bloco: a escolha divina de Ciro e a conquista

A segunda parte do texto narra como Marduk, irado com Nabonido, “buscou em todas as terras um governante justo” e encontrou Ciro, rei de Anshan, a quem proclamou rei de toda a terra. O texto descreve então a entrada de Ciro em Babilônia sem combate, recebido com alegria pela população, e relata que ele próprio assumiu títulos tradicionais da realeza babilônica.

É nesta seção que o texto passa, em determinado ponto, para a primeira pessoa — Ciro passa a falar diretamente, em um recurso retórico que reforça a legitimidade ao apresentar o próprio rei como narrador de seus feitos. Essa transição de terceira para primeira pessoa é característica de inscrições reais mesopotâmicas e não deve ser lida como inconsistência editorial, mas como convenção literária deliberada.

Ciro reivindica títulos que incluem “rei da Babilônia, rei de Sumer e Acádia, rei dos quatro cantos do mundo”, numa fórmula que repete quase exatamente a titulatura usada séculos antes por Sargão da Acádia e por Hamurabi. A apropriação desses títulos demonstra que Ciro — ou, mais precisamente, os escribas babilônicos a seu serviço — buscava inserir o novo rei estrangeiro dentro da tradição política local, e não apresentá-lo como um conquistador externo rompendo com a ordem mesopotâmica.

O terceiro bloco: as medidas de restauração

A terceira parte do texto, a mais citada em contextos modernos, descreve as ações concretas atribuídas a Ciro após a conquista: o retorno de imagens divinas que Nabonido havia removido de seus santuários originais para Babilônia, a reconstrução de templos e a permissão para que populações deportadas retornassem às suas terras de origem.

A passagem mais célebre afirma que Ciro devolveu “deuses” — ou seja, suas estátuas de culto — a cidades como Susa, Ešnunna e outras, e que permitiu o retorno de populações antes deslocadas. É essa passagem que, no século XX, passou a ser associada à narrativa bíblica do retorno dos judeus do exílio babilônico, descrita no livro de Esdras, embora o cilindro não mencione judeus, Jerusalém ou o Templo de Salomão em nenhuma de suas linhas preservadas.

A relação entre o cilindro e o “Édito de Ciro” mencionado na Bíblia é, portanto, uma inferência histórica plausível — já que ambos os textos descrevem políticas de restauração religiosa coerentes com práticas documentadas de Ciro em outros contextos — mas não uma correspondência textual direta. Lester Grabbe e outros historiadores bíblicos têm enfatizado essa distinção, alertando contra a equiparação automática entre o cilindro e o édito relatado pelos textos hebraicos.

Convenções literárias mesopotâmicas: por que o cilindro não é único

Um ponto frequentemente negligenciado em divulgações populares é que o Cilindro de Ciro não é um gênero textual inédito. Ele pertence a uma categoria bem documentada de inscrições reais conhecidas como “inscrições de fundação” ou “inscrições de construção”, produzidas por reis mesopotâmicos havia mais de mil anos antes de Ciro, com estrutura retórica notavelmente estável: o rei se apresenta com títulos elaborados, denuncia (explícita ou implicitamente) o governante anterior, narra sua escolha divina e descreve obras de restauração religiosa e arquitetônica.

Exemplos anteriores incluem inscrições de Assurbanipal e de Nabucodonosor II, que também descrevem reconstrução de templos e devoção aos deuses locais em termos quase idênticos aos empregados no cilindro de Ciro. Essa continuidade formal é crucial para a interpretação historiográfica do objeto: o texto não expressa uma filosofia política pessoal de Ciro sobre liberdade religiosa universal, mas reproduz — com adaptações pontuais — um modelo retórico padronizado de legitimação real, redigido por escribas babilônicos profissionais que conheciam bem essa tradição e a aplicaram ao novo soberano persa.

Essa observação não significa que as políticas de Ciro fossem fictícias. Fontes independentes — como os documentos administrativos do chamado “arquivo de Eanna”, em Uruk — confirmam que a administração persa permitiu a continuidade de cultos locais e práticas administrativas babilônicas nos anos seguintes à conquista. O ponto historiográfico é mais sutil: o cilindro é evidência de uma política de acomodação pragmática com elites religiosas e administrativas locais, comum a impérios que buscavam estabilidade sobre populações conquistadas, e não declaração de princípios éticos universais.

O debate historiográfico: tolerância religiosa ou pragmatismo imperial?

A interpretação do Cilindro de Ciro como evidência de uma política sistemática de “tolerância religiosa” persa tornou-se popular a partir do século XX, especialmente após sua associação com a narrativa bíblica do retorno judaico. Essa leitura ganhou força adicional quando, em 1971, o Irã sob o xá Mohammad Reza Pahlavi promoveu o cilindro como símbolo nacional durante as celebrações dos 2.500 anos da monarquia persa, e posteriormente quando uma réplica do objeto foi doada à sede das Nações Unidas em Nova York, onde permanece exposta.

Historiadores contemporâneos têm relativizado essa narrativa por diversos ângulos. Primeiro, como já discutido, o esquema retórico do cilindro é convencional, não inovador. Segundo, há evidências de que a transição persa não foi uniformemente pacífica: a chamada “Crônica de Nabonido” e outros documentos sugerem resistência local em certos momentos, e estudiosos como Caroline Waerzeggers identificaram, a partir de arquivos administrativos babilônicos, sinais de purgas e substituições em famílias sacerdotais locais nos anos seguintes à conquista — um quadro mais conflituoso do que a imagem de aceitação unânime sugerida pelo texto oficial.

Terceiro, a equiparação do cilindro a uma “primeira declaração de direitos humanos” — promovida inclusive em material institucional de organismos internacionais ao longo do século XX — é amplamente rejeitada pela assiriologia acadêmica. Neil MacGregor, ex-diretor do Museu Britânico, e Irving Finkel próprio destacaram, em publicações associadas a exposições do museu, que tal leitura projeta categorias jurídicas modernas sobre um texto de propaganda monárquica antiga, descontextualizando-o de sua função original.

Esse debate ilustra um problema metodológico mais amplo na história antiga: a tensão entre a leitura filológica rigorosa de um documento, situada em seu contexto de produção, e a apropriação política contemporânea de artefatos antigos como símbolos transhistóricos. O Cilindro de Ciro tornou-se, nesse sentido, tanto objeto de estudo assiriológico quanto instrumento de diplomacia cultural — e essas duas dimensões frequentemente entraram em tensão na literatura especializada das últimas décadas.

A política religiosa persa além do cilindro: outras evidências

Para avaliar com precisão até que ponto Ciro praticou uma política coerente de respeito a cultos locais, é necessário recorrer a fontes além do próprio cilindro. Os arquivos administrativos de Uruk e Sippar, datados dos primeiros anos do domínio persa, registram a continuidade de rações de templo, atividades de sacerdotes locais e transações comerciais sem disrupção abrupta — um indício de que a administração persa, ao menos nos centros urbanos da Babilônia, optou por preservar estruturas econômicas e religiosas existentes, em vez de impor substituições radicais.

Essa política de continuidade administrativa também é observável no tratamento de Ciro à própria realeza babilônica: ele não apenas assumiu títulos tradicionais, mas manteve seu filho, Cambises, em papel cerimonial associado ao culto de Marduk durante o festival de Ano Novo logo após a conquista, segundo a Crônica de Nabonido — um gesto calculado de legitimação dinástica diante da população local.

Essa abordagem se repetiria, com variações, em outras regiões do império persa aquemênida. O próprio livro bíblico de Esdras atribui a Ciro um decreto autorizando a reconstrução do Templo de Jerusalém, e décadas depois, papiros do Egito persa (os chamados “papiros elefantinos”) sugerem que a administração aquemênida também interagia, com graus variados de acomodação, com comunidades religiosas locais no Egito. Tomados em conjunto, esses dados sustentam a tese de que havia, sim, um padrão administrativo persa de acomodação seletiva e pragmática, mas não necessariamente uma “política de tolerância” no sentido moderno e universalizante do termo, que pressupõe um princípio ético-jurídico de validade geral.

O cilindro como objeto museológico e símbolo político moderno

A trajetória do cilindro entre sua descoberta em 1879 e o presente é, por si só, objeto de interesse historiográfico. Após sua aquisição pelo Museu Britânico, o objeto permaneceu por décadas como peça de interesse primariamente acadêmico, estudado por assiriólogos como Theophilus Pinches, responsável pelas primeiras transcrições e traduções no final do século XIX.

A virada para seu uso como símbolo político ocorreu sobretudo na segunda metade do século XX, intensificando-se com as celebrações iranianas de 1971 e consolidando-se quando, em 2010 e 2013, o Museu Britânico organizou o empréstimo do cilindro original para exposição no Irã e nos Estados Unidos, respectivamente, gerando ampla cobertura midiática que reforçou sua imagem como “primeira carta de direitos humanos da história” — formulação que, como discutido, carece de sustentação filológica rigorosa, mas que se consolidou no imaginário popular por meio de repetição institucional, incluindo materiais educativos e diplomáticos.

Esse processo de “biografia do objeto” — para usar a expressão consagrada na arqueologia contemporânea, associada a autores como Igor Kopytoff — demonstra como um artefato antigo pode acumular camadas sucessivas de significado, frequentemente distantes de sua função e contexto originais, à medida que é reapropriado por diferentes agentes políticos e culturais ao longo do tempo.

Conclusão: entre propaganda antiga e símbolo moderno

O Cilindro de Ciro é, antes de tudo, um documento de propaganda política mesopotâmica, redigido por escribas babilônicos segundo convenções retóricas estabelecidas havia séculos, com o objetivo de legitimar a ascensão de um conquistador estrangeiro aos olhos da elite religiosa e administrativa local. Sua narrativa de escolha divina, denúncia do rei anterior e restauração de cultos segue um padrão reconhecível em inscrições reais que remontam a Sargão da Acádia, e não constitui inovação ética ou jurídica sem precedentes.

Ao mesmo tempo, o texto é evidência histórica genuína de que a administração de Ciro adotou, na prática, uma política de acomodação com estruturas religiosas e administrativas locais — confirmada por fontes independentes, como os arquivos de templo babilônicos — que contribuiu para a relativa estabilidade do império aquemênida em seus primeiros anos. A distância entre essa realidade administrativa pragmática e a posterior consagração do cilindro como “primeira declaração de direitos humanos” ilustra como objetos antigos podem ser reinterpretados, séculos depois, à luz de categorias e necessidades políticas completamente estranhas ao seu contexto de produção original.

O legado mais sólido do cilindro, portanto, não está na carga simbólica que lhe foi atribuída a partir do século XX, mas em seu valor como fonte primária para a reconstituição da transição entre o domínio neobabilônico e o império aquemênida — um momento de reconfiguração política no qual a continuidade cultural e religiosa, mais do que a ruptura, foi a estratégia escolhida pelos novos governantes persas para consolidar seu domínio sobre uma das civilizações mais antigas do Oriente Próximo.

FAQ – Perguntas frequentes sobre o Cilindro de Ciro

O que é o Cilindro de Ciro? É uma inscrição em argila cozida, escrita em acádico babilônico por ordem de Ciro II após a conquista de Babilônia em 539 a.C., contendo uma narrativa de legitimação política e religiosa da nova dinastia persa sobre a cidade.

Onde o Cilindro de Ciro está atualmente? O objeto original está no Museu Britânico, em Londres, sob o número de catálogo BM 90920, tendo sido emprestado em ocasiões especiais para exposições no Irã e nos Estados Unidos.

Por que Babilônia caiu para os persas em 539 a.C.? A historiografia aponta uma combinação de fatores: o enfraquecimento político de Nabonido devido a sua ausência prolongada da capital, tensões com o sacerdócio de Marduk e a superioridade militar e estratégica das forças persas comandadas por Ciro II.

O Cilindro de Ciro menciona os judeus ou Jerusalém? Não. O texto preservado não cita judeus, Jerusalém ou o Templo de Salomão. A associação com o retorno do exílio babilônico, narrado no livro de Esdras, é uma inferência histórica baseada em políticas semelhantes de Ciro, não uma correspondência textual direta.

O Cilindro de Ciro é considerado a primeira declaração de direitos humanos? A maioria dos assiriólogos rejeita essa caracterização. O texto segue convenções tradicionais mesopotâmicas de propaganda real e legitimação dinástica, sem formular princípios jurídicos universais comparáveis às declarações modernas de direitos humanos.

Quando e por quem o cilindro foi descoberto? Foi descoberto em 1879 por Hormuzd Rassam, durante escavações nas ruínas do templo Esagila, em Babilônia, a serviço do Museu Britânico.

Como o texto do cilindro está estruturado? Em três blocos: a denúncia das falhas religiosas de Nabonido, a narrativa da escolha divina de Ciro por Marduk e a conquista pacífica de Babilônia, e a descrição das medidas de restauração religiosa e retorno de populações deportadas.

O cilindro foi reconstituído por completo desde sua descoberta? Não imediatamente. Fragmentos adicionais identificados décadas depois em coleções do Museu Britânico e da Universidade Yale permitiram, sobretudo com o trabalho de Irving Finkel, completar partes do texto inicialmente perdidas ou mal compreendidas.

Existem outras inscrições mesopotâmicas semelhantes ao Cilindro de Ciro? Sim. Inscrições de fundação de reis como Sargão da Acádia, Hamurabi, Assurbanipal e Nabucodonosor II seguem estrutura retórica muito semelhante, o que situa o cilindro dentro de uma tradição literária estabelecida, e não como documento singular.

Qual é o significado político moderno do Cilindro de Ciro? A partir do século XX, sobretudo após as celebrações iranianas de 1971 e seu empréstimo à sede da ONU, o cilindro foi transformado em símbolo de tolerância religiosa e direitos humanos, interpretação amplamente contestada pela historiografia especializada por projetar categorias modernas sobre um texto de propaganda antiga.

Referências

BEAULIEU, Paul-Alain. The Reign of Nabonidus, King of Babylon 556-539 B.C. New Haven: Yale University Press, 1989.

FINKEL, Irving (Ed.). The Cyrus Cylinder: The King of Persia’s Proclamation from Ancient Babylon. Londres: I.B. Tauris, 2013.

GRABBE, Lester L. A History of the Jews and Judaism in the Second Temple Period, Volume 1: Yehud, A History of the Persian Province of Judah. Londres: T&T Clark, 2004.

KUHRT, Amélie. The Persian Empire: A Corpus of Sources from the Achaemenid Period. Londres: Routledge, 2007.

LIVERANI, Mario. Antico Oriente: Storia, società, economia. Roma-Bari: Laterza, 1988.

WAERZEGGERS, Caroline. The Ezida Temple of Borsippa: Priesthood, Cult, Archives. Leiden: Nederlands Instituut voor het Nabije Oosten, 2010.

 

Fernando Rocha

Fernando Rocha, formado em Direito pela PUC/RS e apaixonado por história, é o autor e criador deste site dedicado a explorar e compartilhar os fascinantes acontecimentos do passado. Ele se dedica a pesquisar e escrever sobre uma ampla gama de tópicos históricos, desde eventos políticos e culturais até figuras influentes que moldaram o curso da humanidade."

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