Ariq Boke: O Último Khan que Desafiou o Destino do Império Mongol
No inverno de 1260, enquanto seu irmão Kublai consolidava o poder nas planícies do norte da China, Ariq Boke reuniu os príncipes mongóis na antiga capital Karakorum e se proclamou Grande Khan. A cerimônia seguia os ritos tradicionais — o kurultai, a assembleia dos chefes — mas havia algo profundamente fraturado naquele ato: pela primeira vez na história do Império Mongol, dois irmãos se autodeclaravam governantes supremos ao mesmo tempo, e o conflito que se seguiria não seria apenas uma guerra pelo trono. Seria uma guerra pela alma de um povo.
Ariq Boke perdeu. Essa é a conclusão que a história registra com frieza. Mas reduzir sua trajetória à derrota seria ignorar o que estava verdadeiramente em jogo naquele confronto: a escolha entre dois projetos civilizacionais incompatíveis, entre uma identidade mongol fundada nas estepes e um império sinizado que progressivamente abandonava suas raízes nômades. Ariq Boke era o candidato da tradição — e sua derrota anunciou o fim do Império Mongol como entidade unificada.
Este artigo examina a vida, o projeto político e o legado de Ariq Boke a partir de sua formação como príncipe mongol, passando pela guerra civil contra Kublai Khan, até sua rendição e morte em circunstâncias ainda debatidas pelos historiadores. Ao longo do percurso, o texto mobiliza o debate acadêmico sobre o que Ariq Boke representou: não apenas um perdedor de uma disputa dinástica, mas um símbolo da contradição estrutural que destruiu o maior império contíguo da história.
O contexto é o do período pós-Möngke Khan (m. 1259), quando a ausência de um sucessor claro deflagrou uma crise sucessória que acelerou a fragmentação do império em quatro grandes khanatos independentes. Ariq Boke estava no centro dessa tempestade — e sua história é inseparável da transformação irreversível que o mundo mongol sofreu no século XIII.
O Filho da Estepe: Formação e Posição Dinástica
Origens e Lugar na Hierarquia Chingísida
Ariq Boke nasceu por volta de 1219, filho de Tolui — o caçula de Gengis Khan — e de Sorghaghtani Beki, uma mulher de excepcional capacidade política que criaria quatro filhos destinados ao comando: Möngke, Kublai, Hulagü e o próprio Ariq Boke. A historiadora medievalista Judith Bannister observa que Sorghaghtani Beki foi talvez a figura mais influente na transição do poder mongol após a morte de Ögedei Khan, e sua habilidade em manter a coesão familiar toluidea foi determinante para que os filhos de Tolui ascendessem ao poder supremo em detrimento de outras linhagens gengísidas.
O nome “Ariq Boke” é frequentemente traduzido como “o forte” ou “o robusto” em turco-mongol, e as fontes medievais — tanto persas quanto chinesas — o descrevem como um homem de compleição física imponente, ligado às práticas da estepe, à caça, ao pastoreio e à guerra montada. Diferentemente de Kublai, que desde jovem demonstrou interesse pela cultura sedentária e pelo pensamento budista tibetano e confuciano, Ariq Boke permaneceu na Mongólia enquanto seus irmãos expandiam o império em direções opostas: Möngke governava, Hülegü avançava sobre o Oriente Médio, Kublai gerenciava a China do Norte.
Essa divisão não era acidental. A tradição mongol de appanage — a distribuição de territórios e responsabilidades entre os príncipes da família imperial — atribuía ao filho mais novo o papel de otchigin, o “príncipe do fogo”, guardião da terra natal e do território ancestral. Ariq Boke cumpria esse papel ao administrar a Mongólia enquanto seus irmãos operavam nas fronteiras do império. Era uma posição de prestígio simbólico, mas também de enorme responsabilidade logística: a estepe mongol era o coração do qual os exércitos eram alimentados, equipados e recrutados.
O Papel Político sob Möngke Khan
Durante o reinado de Möngke Khan (1251–1259), Ariq Boke atuou como uma espécie de vice-administrador da Mongólia, gerenciando os recursos da pátria ancestral enquanto o irmão mais velho conduzia campanhas militares no sul da China. Thomas Allsen, em seu estudo sobre a corte mongol no período de Möngke, destaca que Ariq Boke exercia controle direto sobre as rotas de abastecimento que conectavam a estepe às frentes de combate — um poder que se mostraria decisivo na guerra civil que se seguiria.
A morte de Möngke em agosto de 1259, durante o cerco de Diaoyu Cheng no sul da China, não foi apenas um evento militar — foi o gatilho de uma crise constitucional. O Império Mongol não possuía um mecanismo claro de sucessão: a teoria do kurultai exigia uma assembleia de todos os príncipes gengísidas para legitimar o novo Khan, mas a dispersão do império tornava essa reunião cada vez mais difícil. E na ausência de consenso, prevalecia a força.
O Kurultai Dividido e a Proclamação de Dois Khans
A Corrida pelo Poder (1259–1260)
A morte de Möngke colocou dois irmãos em posição de candidatos naturais ao trono supremo: Kublai, que comandava as operações militares no sul da China com um imenso exército, e Ariq Boke, que controlava a Mongólia e tinha acesso direto às fontes de legitimidade tradicional. O historiador Timothy May, em The Mongol Empire: A Historical Encyclopedia, analisa esse momento como uma bifurcação estrutural — cada irmão representava não apenas uma facção pessoal, mas um modelo diferente de o que o Império Mongol deveria ser.
Ariq Boke agiu primeiro no campo da legitimidade simbólica. No início de 1260, convocou um kurultai em Karakorum com os príncipes que estavam disponíveis — em sua maioria, aqueles ligados à Mongólia e à ala conservadora da aristocracia nômade. A reunião era incompleta: vários grandes príncipes, incluindo Hulagu no Oriente Médio, não estavam presentes. Mas Ariq Boke prosseguiu, e foi aclamado Grande Khan.
Kublai, informado da manobra do irmão, respondeu convocando seu próprio kurultai no norte da China, em Kaiping (futura Shangdu), em maio de 1260. Seu grupo de apoiadores incluía oficiais militares com interesses na China e vários príncipes da ala sinizada do império. Kublai também se proclamou Grande Khan. O Império Mongol tinha agora dois soberanos supremos simultâneos — uma situação sem precedente desde Gengis Khan.
As Bases de Apoio: Tradição versus Adaptação
A divisão não era arbitrária. Ela refletia tensões que vinham se acumulando há décadas. Ariq Boke contava com o apoio dos príncipes da linhagem Ögedeida e Chagataida que desconfiavam da sinização promovida por Kublai, além de líderes militares da estepe que viam com alarme o crescente envolvimento mongol com as instituições sedentárias chinesas e o papel crescente de conselheiros não-mongóis na corte de Kublai.
Kublai, por sua vez, tinha o respaldo de comandantes militares que dependiam da continuidade das campanhas no sul da China, de administradores que haviam construído carreiras na burocracia territorial, e — crucialmente — de um exército muito maior e melhor abastecido do que aquele que Ariq Boke poderia mobilizar.
Morris Rossabi, biógrafo de Kublai Khan, argumenta que a guerra civil entre os dois irmãos foi, em termos materiais, uma guerra desigual desde o início. Kublai controlava a produção agrícola da China do Norte, as rotas comerciais da Rota da Seda oriental e uma base fiscal infinitamente maior. Ariq Boke dependia da estepe — produtiva em termos militares, mas vulnerável em termos de sustentação logística prolongada.
A Guerra Civil Mongol (1260–1264)
As Campanhas Iniciais e o Cerco Estratégico
A guerra entre Ariq Boke e Kublai durou quatro anos e foi travada principalmente no coração da Ásia Central, nas proximidades da Mongólia e na região do atual Xinjiang. Não foi uma guerra de grandes batalhas campais decisivas, mas um conflito de desgaste, bloqueios de abastecimento e alianças flutuantes com os outros khanatos.
A estratégia de Kublai foi essencialmente econômica: cortar o suprimento de grãos e recursos que Ariq Boke precisava para sustentar seus exércitos na estepe. A Mongólia, como qualquer sociedade nômade em larga escala, dependia de importações de cereais para alimentar populações que não praticavam agricultura extensiva. Ao controlar os fluxos de suprimento do sul, Kublai impôs uma pressão crescente sobre a base logística do irmão.
Ariq Boke respondeu buscando alianças com o Khanato de Chagatai, especialmente com Alghu Khan, que inicialmente apoiou sua causa. Essa aliança era vital: o Khanato de Chagatai controlava a Ásia Central e podia fornecer recursos alternativos. Contudo, em 1262, Alghu rompeu com Ariq Boke e mudou de lado — um golpe estratégico devastador que isolou o Khan tradicional e precipitou sua derrota.
A Defecção de Alghu e o Colapso das Alianças
A traição de Alghu não foi apenas uma questão de oportunismo político. David Morgan, em The Mongols, analisa essa defecção como resultado de conflitos concretos sobre o controle das rotas comerciais na Ásia Central e de rivalidades pessoais entre Alghu e os comandantes de Ariq Boke. Quando os exércitos de Ariq Boke saquearam territórios do Khanato de Chagatai para sustentar suas tropas famintas, Alghu transformou-se de aliado em inimigo ativo.
A situação de Ariq Boke tornou-se insustentável. Seus exércitos sofriam de escassez alimentar crônica. Seus aliados o abandonavam um a um. A estepe mongol, seu território natal e suposta base de poder, não tinha capacidade de sustentar uma guerra prolongada contra um adversário que controlava as riquezas da China.
Entre 1262 e 1264, Ariq Boke travou suas últimas campanhas sem sucesso decisivo. As fontes persas — particularmente Rashid al-Din, cuja Compêndio de Crônicas permanece a principal fonte sobre esse período — descrevem um homem cada vez mais isolado, incapaz de alimentar seus homens e abandonado por parte da aristocracia nômade que inicialmente o apoiara.
A Rendição de 1264
Em agosto de 1264, Ariq Boke rendeu-se pessoalmente a Kublai Khan em Shangdu. O encontro entre os dois irmãos foi, segundo as fontes, carregado de tensão emocional. Rashid al-Din registra que Kublai, ao ver o irmão diante de si em posição de derrota, chorou. A pergunta que o Grande Khan teria feito — “quem estava com razão, nós ou vós?” — e a resposta de Ariq Boke — “nós então, mas hoje vós” — é um dos momentos mais citados da historiografia mongol medieval, ainda que sua autenticidade seja debatida.
Kublai não executou o irmão imediatamente. Isso era, por si só, um gesto político: na tradição mongol, o derramamento de sangue de sangue real era algo a ser evitado sempre que possível. Ariq Boke foi mantido em custódia, e Kublai convocou um conselho de príncipes para decidir seu destino. O julgamento formal nunca foi concluído — ou suas conclusões nunca foram registradas com clareza.
A Morte de Ariq Boke e o Debate Historiográfico
O Fim em Circunstâncias Obscuras
Ariq Boke morreu em 1266, aproximadamente dois anos após sua rendição. As fontes medievais são vagas quanto às circunstâncias. Rashid al-Din afirma que ele morreu de “doença”, mas historiadores modernos têm debatido se essa morte foi natural ou resultado de execução disfarçada, envenenamento político ou mesmo negligência deliberada.
Timothy May observa que a morte de figuras politicamente inconvenientes por “doença” era um recurso narrativo comum nas crônicas mongóis — uma forma de registrar eliminações políticas sem acusar diretamente o soberano reinante. A morte de Ariq Boke, dois anos após sua captura, durante um período em que Kublai precisava consolidar poder e eliminar focos de resistência, se encaixa nesse padrão.
Por outro lado, Peter Jackson, em The Mongols and the West, adota posição mais cautelosa, apontando que a evidência positiva de assassinato é insuficiente e que doenças genuínas vitimavam regularmente os mongóis da estepe, especialmente em condições de encarceramento. A questão permanece em aberto na historiografia.
O Significado Político da Derrota
Independentemente das circunstâncias da morte, o que a historiografia contemporânea debate com mais vigor é o significado político da derrota de Ariq Boke. Ele não era simplesmente o “candidato perdedor” de uma disputa dinástica — era o representante de uma visão do Império Mongol que seria progressivamente marginalizada.
A historiadora Roxann Prazniak argumenta que a vitória de Kublai representou a opção definitiva por um modelo de império territorial sedentário em detrimento do modelo de hegemonia nômade itinerante que Gengis Khan havia estabelecido. Essa escolha teve consequências duradouras: ao sinizar-se, o Império Mongol ganhou em capacidade administrativa, mas perdeu em coesão interna, abrindo caminho para a fragmentação nos quatro khanatos independentes.
O Projeto Político de Ariq Boke: Conservadorismo ou Reação?
A Defesa da Tradição Nômade
É tentador — mas historiograficamente problemático — retratar Ariq Boke como um simples conservador reacionário que resistia ao “progresso” da sinização. Essa leitura teleológica, que projeta para trás a inevitabilidade da derrota, obscurece o fato de que, em 1260, o resultado da guerra civil era genuinamente incerto.
O projeto de Ariq Boke era coerente dentro de seus próprios termos: manter a identidade mongol ancorada nas práticas da estepe — a mobilidade, a organização tribal, a primazia da cavalaria leve, o respeito pelos costumes do kurultai e a desconfiança em relação às burocracias sedentárias. Esse projeto tinha legitimidade histórica: era o modelo que havia conquistado o maior império da história.
Morris Rossabi reconhece que, do ponto de vista de muitos mongóis contemporâneos, Kublai era o inovador disruptivo e Ariq Boke era o guardião da tradição fundadora. A narrativa de “progresso versus tradição” é uma retroprojeção moderna sobre um conflito que, para seus participantes, era vivenciado em termos de legitimidade dinástica e identidade cultural.
As Limitações Estruturais do Projeto Nômade
Dito isso, o projeto de Ariq Boke enfrentava limitações estruturais genuínas. O Império Mongol havia crescido além do ponto em que podia ser governado por métodos exclusivamente nômades. A administração de populações sedentárias de dezenas de milhões de pessoas na China, na Pérsia e na Rússia exigia burocracias, sistemas fiscais, moedas e instituições que a tradição da estepe não fornecia.
David Morgan argumenta que qualquer governante mongol que aspirasse manter o império unificado precisaria, em alguma medida, adaptar-se às instituições sedentárias dos territórios conquistados. A questão não era “se” adaptar, mas “quanto” e “como”. Kublai foi longe demais para os padrões dos conservadores mongóis; Ariq Boke, talvez, não estava disposto a ir suficientemente além.
Essa tensão não era exclusiva da família Toluidea: ela percorria todo o Império Mongol, manifestando-se nas diferentes escolhas feitas pelos khanatos que emergiram da fragmentação pós-1260. A Horda de Ouro adotou o Islã; os Ilkhanidas da Pérsia também islamizaram-se gradualmente; os Chagatais mantiveram uma identidade mais nômade por mais tempo. A diversidade de trajetórias sugere que não havia uma resposta única à contradição que Ariq Boke e Kublai encarnavam.
Nesse sentido, Ariq Boke pode ser lido como um experimento histórico: o teste de se era possível governar um império de escala continental a partir de princípios nômades, sem absorver as instituições sedentárias dos conquistados. O veredicto da história, expresso na sua derrota e no posterior colapso de cada tentativa de resistência à adaptação, sugere que não era. Mas esse veredicto foi produzido por forças materiais e contingências políticas — não por alguma lei inexorável do progresso histórico. Em circunstâncias diferentes, com aliados mais sólidos e recursos mais estáveis, o resultado poderia ter sido outro, pelo menos no médio prazo.
O Impacto da Guerra Civil na Fragmentação do Império
O Fim da Unidade Mongol
A guerra entre Ariq Boke e Kublai teve consequências que ultrapassaram em muito a disputa entre dois irmãos. Ela sinalizou ao mundo mongol — e ao mundo como um todo — que o Império Mongol havia cessado de existir como entidade política unificada. O Grande Khanato de Kublai controlava a China e a Mongólia, mas os outros três khanatos — a Horda de Ouro no norte e leste da Europa, o Khanato de Chagatai na Ásia Central e o Ilkhanato na Pérsia e no Oriente Médio — tornaram-se progressivamente independentes.
Timothy May enfatiza que a fragmentação não foi um evento único, mas um processo gradual que se acelerou com a guerra civil de 1260–1264. Ariq Boke não causou a fragmentação — as pressões centrifugas existiam antes dele — mas o conflito com Kublai foi o catalisador que tornou a ruptura definitiva. Após 1264, nenhum soberano mongol jamais exerceu autoridade efetiva sobre todos os territórios conquistados por Gengis Khan.
Guerras Encadeadas: O Efeito Dominó
A guerra civil entre Ariq Boke e Kublai desencadeou conflitos secundários que comprometeram a estabilidade de toda a rede mongol. Kaidu Khan, neto de Ögedei, aproveitou o caos para construir sua própria base de poder na Ásia Central, desafiando Kublai por décadas. A rivalidade entre a Horda de Ouro e o Ilkhanato, que resultou em guerras prolongadas pelo controle do Cáucaso e do Azerbaijão, também foi alimentada pela atmosfera de conflito fratricida inaugurada pela disputa de 1260.
Peter Jackson observa que o período 1260–1300 foi de uma violência interna ao mundo mongol que contrastava profundamente com a relativa coesão do período de Gengis Khan e Ögedei. A guerra de Ariq Boke foi o primeiro anel dessa cadeia, e suas ondas de choque se propagaram por décadas.
Ariq Boke na Historiografia: Entre a Reabilitação e o Esquecimento
As Fontes e Seus Limites
Ariq Boke é uma figura mal servida pelas fontes históricas. A principal narrativa sobre sua vida e seu conflito com Kublai vem de Rashid al-Din, escrevendo na corte dos Ilkhanidas no início do século XIV — ou seja, uma fonte que escreve sob patrocínio de uma dinastia aliada de Kublai e, portanto, estruturalmente inclinada a retratar Ariq Boke como o lado errado da disputa. As crônicas chinesas, por razões óbvias, também são produzidas sob o patronato da dinastia Yuan fundada por Kublai.
Não existe, até onde se sabe, nenhuma fonte produzida por simpatizantes de Ariq Boke que tenha sobrevivido. Isso significa que toda reconstrução de sua perspectiva é necessariamente indireta, baseada em fontes hostis ou neutras e na análise estrutural do que seu projeto político implicava.
A Reabilitação Acadêmica
A historiografia do século XX operou uma reabilitação parcial de Ariq Boke — não no sentido de argumentar que ele “deveria” ter vencido, mas no sentido de reconhecer a legitimidade e a coerência interna de sua causa. Trabalhos de Morris Rossabi, Timothy May, David Morgan e Peter Jackson contribuíram para retirar Ariq Boke da posição de mero obstáculo ao progresso de Kublai e posicioná-lo como representante de um projeto político viável, ainda que finalmente derrotado pelas circunstâncias.
Essa reabilitação historiográfica tem implicações mais amplas para a compreensão do Império Mongol. Se Ariq Boke era o candidato da tradição legítima, então a vitória de Kublai não foi o “triunfo natural” da modernização sobre o atraso, mas a vitória contingente de uma facção sobre outra numa disputa genuinamente aberta. Isso muda a narrativa sobre a “inevitabilidade” da sinização do Império Mongol — e sobre o papel da agência histórica em grandes transformações civilizacionais.
Conclusão: O Khan que Perdeu, o Mundo que Mudou
Ariq Boke morreu em 1266 sem que sua causa tenha sido completamente julgada — nem pelos seus contemporâneos, que nunca concluíram o processo formal prometido por Kublai, nem pela história, que tende a ser escrita pelos vencedores. Mas o que sua derrota significou é, décadas de pesquisa histórica depois, cada vez mais claro.
Ele representava o último esforço sério de manter o Império Mongol fiel às suas origens nômades — à identidade da estepe, ao kurultai como mecanismo de legitimidade coletiva, à desconfiança em relação às culturas sedentárias que os mongóis haviam conquistado mas que, na visão dos conservadores, estavam conquistando os mongóis por dentro. Essa preocupação não era irracional: a sinização de Kublai foi real, profunda e acelerou a perda da coesão interna do império.
Ao mesmo tempo, seria ingênuo romantizar Ariq Boke como um herói puro. Seu governo da Mongólia incluiu violências e arbítrios documentados, e sua estratégia militar levou seus próprios exércitos à fome quando as alianças desmoronaram. A guerra civil que liderou não era a defesa abnegada de um princípio — era também uma luta pelo poder pessoal, travada com os instrumentos brutais que os conflitos mongóis sempre utilizaram.
O que torna Ariq Boke historicamente significativo é precisamente essa ambiguidade: ele era ao mesmo tempo um príncipe que lutava pelo trono e o símbolo involuntário de uma contradição que o Império Mongol não conseguiu resolver. A tensão entre conquista e administração, entre identidade nômade e necessidade sedentária, entre a estepe e a cidade — essa tensão não começou com ele e não terminou com sua morte. Mas em Ariq Boke ela encontrou seu rosto mais claro, e na sua derrota, seu desfecho mais definitivo.
O maior império contíguo da história não foi destruído por inimigos externos. Foi destruído pela impossibilidade de ser, ao mesmo tempo, tudo que havia conquistado.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre Ariq Boke
Quem foi Ariq Boke? Ariq Boke foi um príncipe mongol da linhagem Toluidea, filho de Tolui e irmão mais novo de Kublai Khan, Möngke Khan e Hülegü Khan. Em 1260, proclamou-se Grande Khan do Império Mongol, desencadeando uma guerra civil contra Kublai Khan que durou até 1264, quando se rendeu.
Por que Ariq Boke e Kublai Khan entraram em conflito? O conflito surgiu da disputa pela sucessão após a morte de Möngke Khan em 1259. Ariq Boke representava a facção conservadora da aristocracia mongol, defensora das tradições nômades e da legitimidade do kurultai realizado em Karakorum; Kublai representava a facção sinizada, com base na China do Norte e apoio militar mais robusto.
Ariq Boke tinha legitimidade para se proclamar Khan? Sim, dentro dos critérios tradicionais mongóis. Ele convocou um kurultai — a assembleia dos príncipes — e foi aclamado pelos presentes. O problema era que o kurultai era incompleto: muitos príncipes importantes não estavam presentes. Kublai também convocou seu próprio kurultai, igualmente incompleto. A questão de qual assembleia era mais legítima era genuinamente disputada.
Qual foi o papel de Sorghaghtani Beki na história de Ariq Boke? Sorghaghtani Beki foi a mãe de Ariq Boke e uma das figuras políticas mais influentes do Império Mongol no século XIII. Ela articulou a ascensão da linhagem Toluidea ao poder supremo sob Möngke Khan. Morreu em 1252, antes da guerra civil, mas o capital político que construiu foi determinante para que todos os seus filhos chegassem a posições de poder — incluindo Ariq Boke.
Quem apoiou Ariq Boke na guerra civil? Ariq Boke recebeu apoio inicial de príncipes das linhagens Ögedeida e Chagataida que desconfiavam da sinização de Kublai, além de líderes militares da estepe mongol. O apoio crucial do Khanato de Chagatai, sob Alghu Khan, foi perdido em 1262 quando Alghu mudou de lado, precipitando a derrota de Ariq Boke.
Como Ariq Boke morreu? Ariq Boke morreu em 1266, dois anos após se render a Kublai Khan. As fontes medievais indicam “doença” como causa da morte, mas historiadores modernos debatem se houve envenenamento ou execução disfarçada. A questão permanece sem resposta definitiva na historiografia.
Qual foi o impacto da guerra entre Ariq Boke e Kublai Khan? A guerra civil acelerou a fragmentação do Império Mongol nos quatro khanatos independentes: o Grande Khanato (China), a Horda de Ouro (Rússia/Europa Oriental), o Khanato de Chagatai (Ásia Central) e o Ilkhanato (Pérsia). Após 1264, nenhum governante mongol jamais exerceu autoridade efetiva sobre todos os territórios conquistados por Gengis Khan.
Ariq Boke é considerado um herói na Mongólia contemporânea? A memória de Ariq Boke na Mongólia contemporânea é ambivalente. Em alguns contextos, ele é visto como defensor da identidade mongol tradicional frente à sinização. No entanto, a historiografia oficial durante o período soviético (que influenciou a Mongólia por décadas) tendia a minimizar sua figura. A reabilitação acadêmica ocorreu principalmente no Ocidente, com historiadores como Timothy May e Morris Rossabi.
Leituras Recomendadas
MORGAN, David. The Mongols. 2. ed. Oxford: Blackwell, 2007.
ROSSABI, Morris. Khubilai Khan: His Life and Times. Berkeley: University of California Press, 1988.
MAY, Timothy. The Mongol Empire: A Historical Encyclopedia. Santa Barbara: ABC-CLIO, 2017.
JACKSON, Peter. The Mongols and the West, 1221–1410. Harlow: Pearson Longman, 2005.
RASHID AL-DIN. Compêndio de Crônicas [Jami’ al-Tawarikh]. Trad. parcial: W. M. Thackston. Cambridge: Harvard University Department of Near Eastern Languages and Civilizations, 1998.

