Ulugh Beg: o astrônomo que Tamerlão nunca imaginou ter como neto
Em 1437, no topo do observatório que ele mesmo mandara construir em Samarcanda, um homem registrava com precisão milimétrica a posição de mais de mil estrelas. Não era um astrônomo contratado, nem um sábio de corte cumprindo obrigações protocolares. Era Ulugh Beg, governador do Khorasan e Transoxiana, neto de Tamerlão — um dos conquistadores mais violentos da história islâmica. O paradoxo era gritante: herdeiro de um império fundado sobre montanhas de crânios dedicava décadas de sua vida a catalogar o céu. E pagaria por essa escolha com a própria cabeça.
Ulugh Beg foi o governador timúrida de Samarcanda de 1409 a 1449 e, por brevíssimo período, sultão do Império Timúrida. Sua importância histórica, porém, transcende em muito a política dinástica. Ele foi o maior astrônomo do século XV, autor do Zij-i Sultani, o catálogo estelar mais preciso do mundo pré-telescópico, e o responsável por tornar Samarcanda um dos principais centros intelectuais do mundo islâmico medieval. Sua trajetória é uma das mais trágicas da história da ciência: um soberano que colocou o saber acima do poder, e foi destruído precisamente por isso.
Este artigo examina a vida, o projeto intelectual e o legado de Ulugh Beg a partir de três eixos: sua formação sob a sombra de Tamerlão, a construção de um polo científico sem paralelo no mundo islâmico do século XV, e o colapso político que resultou em seu assassinato por ordem do próprio filho. Ao longo do texto, são discutidas as interpretações historiográficas sobre o alcance de sua astronomia, sua relação com a religião islâmica e as razões pelas quais seu legado foi durante séculos mais reconhecido na Europa do que no Oriente.
O nome Ulugh Beg significa, em turco, “grande senhor” ou “grande príncipe” — um título, não um nome de nascimento. Seu nome real era Muhammad Taraghay, mas a história o conhece pelo apelido que sintetizava sua posição na hierarquia timúrida. Nascido em 1394 em Sultaniyya, no Irã, ele cresceu num ambiente onde a violência política era rotina e a grandeza intelectual era cultivada como símbolo de prestígio dinástico. Nesse ambiente contraditório, formou-se um dos espíritos científicos mais notáveis da Idade Média.
A sombra de Tamerlão: formação de um príncipe entre conquistas e saber
Tamerlão e a ambiguidade do mecenato timúrida
Para compreender Ulugh Beg é preciso compreender Tamerlão — Timur ibn Taraghay Barlas —, o fundador do Império Timúrida e avô do futuro astrônomo. Tamerlão (1336–1405) é frequentemente caracterizado pela historiografia ocidental como um conquistador de brutalidade extrema, responsável por pilhagens devastadoras em Delhi, Bagdá, Damasco e inúmeras outras cidades. As estimativas de mortes atribuídas às suas campanhas variam amplamente na literatura especializada, mas historiadores como John Joseph Saunders e Beatrice Forbes Manz convergem na avaliação de que o impacto demográfico de suas guerras foi catastrófico para vastas regiões da Ásia Central e do Oriente Médio.
No entanto, Tamerlão nutria também uma relação complexa com o saber e as artes. Não era alfabetizado no sentido pleno, mas falava turco, persa e mongoliano, e demonstrava interesse genuíno por discussões teológicas e históricas. Mais do que isso, Samarcanda — sua capital — foi objeto de um projeto deliberado de embelezamento cultural: arquitetos, teólogos, poetas e artistas eram sistematicamente deslocados das cidades conquistadas para engrandecer a capital timúrida. Manz argumenta que esse mecenato não era meramente decorativo, mas integrava uma estratégia de legitimação dinástica: ao transformar Samarcanda em centro do mundo islâmico, Tamerlão afirmava sua posição como soberano predestinado.
Ulugh Beg cresceu nessa atmosfera. Aos dez anos acompanhou o avô na campanha que culminou na derrota de Bayezid I, o sultão otomano, na Batalha de Ankara (1402) — um dos momentos mais dramáticos da história islâmica medieval. O contato precoce com campanhas militares de grande escala não o formou como guerreiro, mas lhe deu uma perspectiva privilegiada sobre a fragilidade dos impérios e o valor estratégico da centralidade cultural.
A herança de Shahrukh e a transferência do poder cultural
Após a morte de Tamerlão em 1405, o império entrou em crise sucessória. Seu filho Shahrukh (1377–1447) emergiu como o governante mais estável, fixando a capital em Herat, no atual Afeganistão. Ulugh Beg, já adolescente, foi designado governador de Samarcanda e da Transoxiana — região que corresponde aproximadamente ao Uzbequistão atual — em 1409, com apenas quinze anos.
A divisão entre Herat e Samarcanda era mais do que geográfica: representava dois modelos culturais distintos dentro do mesmo império. Herat, sob Shahrukh e depois sob sua esposa Gawharshad, tornou-se polo das artes figurativas, da poesia persa e da arquitetura islâmica. Samarcanda, sob Ulugh Beg, especializou-se nas ciências matemáticas, na astronomia e na filosofia natural. O historiador iraniano Ehsan Yarshater, em seus estudos sobre a cultura timúrida, descreve essa divisão como uma forma de complementaridade dinástica que permitiu ao império sustentar um florescimento cultural de amplitude rara.
Ulugh Beg governou Samarcanda durante quarenta anos antes de suceder brevemente o pai como sultão. Durante esse período, a cidade não era apenas sua capital administrativa — era seu laboratório.
O observatório de Samarcanda: a maior empresa científica do século XV
Construção e propósito institucional
Por volta de 1420, Ulugh Beg iniciou a construção do que seria o maior observatório astronômico do mundo medieval: o Observatório de Samarcanda, conhecido em persa como Gurkhani Zij ou simplesmente rasadkhana. A estrutura, escavada parcialmente no subsolo e erguida em três andares acima do nível do solo, tinha como peça central um sextante meridional de escala colossal — o instrumento media cerca de quarenta metros de raio e era embutido na colina, orientado precisamente no eixo norte-sul para maximizar a precisão das observações.
A escolha de um instrumento tão grande não era acidental. A precisão astronômica era diretamente proporcional ao tamanho dos arcos angulares: quanto maior o instrumento, menor o erro relativo na medição de ângulos celestes. Ulugh Beg e seus colaboradores compreendiam esse princípio com clareza, e o sextante de Samarcanda permitia medições com margem de erro de apenas frações de segundo de arco — uma precisão que só seria igualada no Ocidente com o advento do telescópio no século XVII.
O historiador da ciência Edward S. Kennedy, em seus estudos sobre astronomia islâmica medieval, destaca que o observatório de Samarcanda representava não apenas um avanço instrumental, mas uma ruptura metodológica: pela primeira vez no mundo islâmico, um soberano investia recursos comparáveis aos de uma campanha militar na produção sistemática de conhecimento astronômico. O paralelo com os grandes projetos científicos estatais da modernidade não é anacrônico — é uma das razões pelas quais Ulugh Beg continua a despertar interesse entre historiadores da ciência.
Os colaboradores: uma escola astronômica
Ulugh Beg não trabalhava sozinho. Reuniu em Samarcanda um grupo de estudiosos que funcionava como uma verdadeira escola científica, antecipando em séculos o modelo das academias europeias do século XVII. Entre seus principais colaboradores estavam Ghiyath al-Din Jamshid al-Kashi e Ali Qushji.
Al-Kashi (morto por volta de 1429) era possivelmente o matemático mais habilidoso de sua época. Sua contribuição incluiu o cálculo de π com uma precisão de dezesseis casas decimais — resultado que não seria superado no Ocidente por mais de dois séculos — e o desenvolvimento de métodos de interpolação que aceleravam os cálculos astronômicos. Sua correspondência com Ulugh Beg, parcialmente preservada, revela uma relação de respeito intelectual mútuo incomum entre um soberano e um sábio de corte: Ulugh Beg discute erros de cálculo, propõe correções e solicita demonstrações formais, comportando-se como um par científico, não como um mecenas distante.
Ali Qushji (c. 1403–1474) foi o discípulo que sobreviveu ao colapso do projeto. Após o assassinato de Ulugh Beg, fugiu para o Império Otomano, onde transmitiu os resultados de Samarcanda a uma nova geração de astrônomos. Sua trajetória é um exemplo de como o conhecimento produzido num contexto político instável encontra vias de preservação e transmissão que transcendem a destruição dos centros originais.
O Zij-i Sultani: o catálogo das estrelas
O produto mais duradouro do observatório de Samarcanda foi o Zij-i Sultani — as “Tabelas Astronômicas do Sultão”, concluídas por volta de 1437. O trabalho catalogava a posição de 1.018 estrelas, medidas diretamente pelo grupo de Ulugh Beg, com um grau de precisão que superava todos os catálogos anteriores, incluindo o Almagesto de Ptolomeu e as tabelas de Hipárcos.
A importância do Zij-i Sultani é dupla. Do ponto de vista técnico, ele fornecia coordenadas estelares com erros sistemáticos muito menores do que qualquer trabalho anterior: estudos modernos que comparam as posições registradas por Ulugh Beg com posições calculadas retroativamente por astronomia computacional mostram que seus erros médios ficavam abaixo de um minuto de arco para a maioria das estrelas — uma precisão excepcional para instrumentos pré-telescópicos. Do ponto de vista historiográfico, o Zij demonstra que a astronomia islâmica medieval não era apenas transmissora do legado greco-helenístico, mas produtora ativa de conhecimento original.
O historiador George Saliba, em Islamic Science and the Making of the European Renaissance (2007), argumenta que a tradição astronômica islâmica — da qual Ulugh Beg é um dos representantes mais tardios e sofisticados — forneceu instrumentos conceituais e dados observacionais sem os quais a revolução copernicana seria difícil de imaginar. Essa tese é debatida: historiadores como David King questionam a extensão direta da influência islâmica sobre Copérnico, mas o debate em si atesta a centralidade de figuras como Ulugh Beg para a compreensão da gênese da astronomia moderna.
Ulugh Beg e o islã: ciência, religião e tensão política
A madrassa e o observatório: dois projetos complementares?
Um equívoco comum na recepção ocidental de Ulugh Beg é apresentá-lo como um racionalista secularizante em conflito com um islã obscurantista. Essa leitura, que remonta em parte às primeiras traduções europeias do Zij no século XVII, projeta anachronicamente categorias do Iluminismo europeu sobre um contexto radicalmente diferente.
Ulugh Beg era muçulmano praticante. Sua relação com o islã era a de um homem do século XV: a fé era um dado constitutivo de sua identidade, não uma posição filosófica a ser defendida ou abandonada. Mais do que isso, ele próprio construiu em Samarcanda uma das madrassas mais importantes do mundo islâmico da época — a Madrassa de Ulugh Beg, cuja fachada ainda existe e é considerada uma das obras-primas da arquitetura timúrida. A instituição formava scholars nas ciências islâmicas tradicionais: fiqh (jurisprudência), kalam (teologia), tafsir (exegese do Corão).
O ponto de tensão não estava, portanto, entre Ulugh Beg e o islã, mas entre Ulugh Beg e setores específicos do clero islâmico que viam com desconfiança a astronomia matemática — particularmente sua herança helenística — como potencialmente subversiva à autoridade religiosa. Essa tensão não era nova: remontava pelo menos ao século XI, ao debate entre al-Ghazali e os falasifa (filósofos de tradição aristotélica), e continuava viva no século XV. O historiador Sonja Brentjes documentou como diferentes contextos regionais dentro do mundo islâmico medieval tratavam de formas variadas a integração das ciências matemáticas ao currículo das madrassas — Samarcanda, sob Ulugh Beg, representava um polo favorável a essa integração.
A astronomia como poder: o calendário, as orações e a política
Parte da resistência clerical à astronomia era paradoxalmente motivada pela relevância prática da disciplina para a vida religiosa islâmica. A determinação dos horários das cinco orações diárias, a direção da qibla (o eixo em direção a Meca), o início do mês de Ramadã e o cálculo do calendário lunar dependiam todos de conhecimento astronômico. Isso criava uma situação em que os astrônomos eram simultaneamente necessários e suspeitos: sua expertise era indispensável, mas seu acesso privilegiado ao conhecimento celeste os colocava numa posição de autoridade potencialmente concorrente à dos ulemas.
Ulugh Beg navegava essa tensão com consciência. O Zij-i Sultani era apresentado não como uma ruptura com a tradição islâmica, mas como um aperfeiçoamento dos instrumentos que permitiam à comunidade cumprir suas obrigações religiosas com maior precisão. Essa estratégia retórica era comum entre os astrônomos islâmicos medievais, e não deve ser lida como mera dissimulação: a distinção entre astronomia como serviço à religião e astronomia como investigação autônoma da natureza era genuinamente fluida nesse contexto.
O governante: entre competência administrativa e fragilidade política
Quarenta anos em Samarcanda
Ulugh Beg foi um governante de desempenho desigual. Sua administração de Samarcanda por quatro décadas foi marcada por estabilidade relativa, investimento cultural expressivo e uma gestão fiscal que, segundo as crônicas persas do período, não era ineficiente. No entanto, ele claramente preferia os problemas do observatório aos da chancelaria. Fontes contemporâneas como o cronista Dawlatshah Samarqandi sugerem que Ulugh Beg delegava amplamente as funções administrativas cotidianas, reservando sua atenção pessoal para questões de astronomia e matemática.
Sua relação com o exército era particularmente problemática. As campanhas militares que empreendeu — notadamente contra os cazaques e outros povos das estepes — foram, em sua maioria, malsucedidas ou inconclusivas. Isso criava um contraste desfavorável com a memória de Tamerlão e com as expectativas que um soberano timúrida devia cumprir. A legitimidade dos Timúridas descansava em grande medida sobre a eficácia militar — eram uma dinastia de conquista, não de burocracia — e a incapacidade de Ulugh Beg de reproduzir os feitos militares de seus ancestrais minava sua autoridade de formas que nenhuma realização astronômica podia compensar.
A ascensão ao sultanato e o colapso
Em 1447, com a morte de Shahrukh, Ulugh Beg tornou-se sultão do Império Timúrida. O poder que havia administrado indiretamente por décadas era agora formalmente seu — mas a posição era muito mais frágil do que parecia. O império estava fragmentado, disputado por múltiplos príncipes timúridas, e Ulugh Beg carecia do capital político e militar necessário para impor sua autoridade.
O golpe final veio de dentro da própria família. Seu filho Abd al-Latif rebelou-se abertamente, derrotou o pai em batalha em 1449 e capturou Samarcanda. Ulugh Beg foi preso, submetido a um julgamento religioso formal — um kazi emitiu um decreto (fatwa) justificando sua execução — e decapitado em outubro de 1449. Tinha 55 anos. Abd al-Latif governou por apenas seis meses antes de ser ele próprio assassinado por rivais.
A historiografia debate as motivações do parricídio. A versão clerical contemporânea apresentava Ulugh Beg como um impiedoso que havia negligenciado suas obrigações islâmicas em favor de ciências suspeitas. A versão mais aceita pela historiografia moderna — desenvolvida por estudiosos como Vassili Bartold e, mais recentemente, por Thomas Lentz e Glenn Lowry em Timur and the Princely Vision (1989) — vê o episódio primariamente como uma crise dinástica: Abd al-Latif aproveitou-se do descontentamento militar com um soberano percebido como fraco para legitimar sua rebelião com retórica religiosa. A teologia era o veículo; o poder, o objetivo.
O legado: do esquecimento oriental ao reconhecimento europeu
A transmissão para o Ocidente
O Zij-i Sultani chegou à Europa num caminho tortuoso. Ali Qushji, que fugira para Istambul após o assassinato de Ulugh Beg, contribuiu para que o trabalho fosse preservado em manuscritos circulantes no mundo otomano. No século XVII, o orientalista inglês Thomas Hyde obteve uma cópia em Oxford e traduziu parte do catálogo para o latim, publicando-o em 1665. O trabalho teve impacto imediato: astrônomos europeus como Johannes Hevelius e, posteriormente, John Flamsteed, reconheceram imediatamente a qualidade das observações de Ulugh Beg e incorporaram suas coordenadas estelares em seus próprios trabalhos.
O astrônomo francês Jean-Baptiste Joseph Delambre, no início do século XIX, realizou uma análise sistemática dos erros do Zij comparando-o com posições calculadas modernamente. Suas conclusões eram inequívocas: Ulugh Beg havia produzido o catálogo estelar mais preciso da história pré-telescópica, superando inclusive Tycho Brahe em algumas medidas específicas. Essa avaliação, embora later qualificada por estudos mais refinados, estabeleceu definitivamente a reputação de Ulugh Beg na história da astronomia ocidental.
O esquecimento no Oriente médio e a redescoberta
Paradoxalmente, enquanto a Europa reconhecia Ulugh Beg no século XVII, sua memória no mundo islâmico passava por um período de relativo obscurecimento. O colapso do projeto de Samarcanda, a destruição parcial do observatório (que foi demolido por volta de 1500, provavelmente por razões religiosas), e a instabilidade política do Império Timúrida contribuíram para que a tradição astronômica de Ulugh Beg sobrevivesse mais na periferia otomana do que nos centros culturais persas e centro-asiáticos.
A redescoberta do observatório no plano arqueológico ocorreu apenas em 1908, quando o arqueólogo russo Vassili Vyatkin identificou os remanescentes do sextante meridional sob a colina de Samarcanda. As escavações revelaram a escala impressionante do instrumento — os trilhos de mármore do sextante, com mais de trinta metros de comprimento, estavam praticamente intactos. O sítio é hoje um museu e local de visitação em Samarcanda, na República do Uzbequistão.
O Zij e a astronomia computacional moderna
Uma dimensão pouco discutida do legado de Ulugh Beg é a que foi revelada pelas ferramentas da astronomia computacional do século XX. Ao calcular retroativamente as posições estelares para o ano de 1437 — data aproximada de conclusão do Zij-i Sultani — e compará-las com as coordenadas registradas por Ulugh Beg, pesquisadores como Hoffmann e Kraemer identificaram padrões sistemáticos nos erros residuais que permitem reconstruir aspectos do método observacional utilizado em Samarcanda.
Os resultados mostram que os erros de Ulugh Beg não eram aleatórios, mas apresentavam correlações com a posição das estrelas no céu — o que indica que ele compreendia e tentava corrigir distorções instrumentais como a refração atmosférica, embora sem uma teoria formal completa do fenômeno. Essa sofisticação metodológica é particularmente notável porque a refração atmosférica só seria matematicamente formalizada na Europa no século XVII, com Tycho Brahe e posteriormente Johannes Kepler. O fato de Ulugh Beg adotar correções empíricas para esse efeito sem o instrumental teórico que a Europa desenvolveria depois é, para os historiadores da ciência, um índice da qualidade prática de seu trabalho observacional.
Ulugh Beg na historiografia contemporânea
A historiografia contemporânea sobre Ulugh Beg oscila entre dois polos interpretativos. O primeiro, representado por autores como Seyyed Hossein Nasr em Islamic Science: An Illustrated Study (1976), enfatiza a continuidade de Ulugh Beg com a tradição islâmica de ciências racionais, recusando a narrativa de conflito entre seu projeto científico e o islã. O segundo polo, presente em autores como Jack Goody em discussões mais amplas sobre ciência e sociedade, usa Ulugh Beg como exemplo das contradições que impediriam o desenvolvimento de uma revolução científica autóctone no mundo islâmico — argumento que a historiografia mais recente tende a questionar por seu eurocentrismo metodológico.
Uma terceira linha, talvez mais produtiva, é representada pelo trabalho de Sonja Brentjes sobre as madrassa sciences: em vez de perguntar por que o islã “não teve” uma revolução científica, essa abordagem examina as formas específicas pelas quais o conhecimento matemático e astronômico era produzido, transmitido e legitimado em contextos islâmicos medievais. Ulugh Beg emerge, nessa perspectiva, não como exceção à regra, mas como expressão particularmente visível de dinâmicas que eram mais difusas do que a narrativa do conflito ciência-religião permite ver.
Conclusão: a vida entre o trono e o céu
A trajetória de Ulugh Beg é, em última análise, a história de uma incompatibilidade radical entre dois projetos de vida que o acidente do nascimento forçou a coexistir num mesmo homem. Como soberano, ele era mediano: capaz de administrar, incapaz de conquistar, politicamente frágil numa dinastia que valorizava acima de tudo a força militar. Como astrônomo, era excepcional: dotado de rigor metodológico, capacidade de organização científica e um instinto para a precisão quantitativa que poucos de seus contemporâneos, em qualquer civilização, podiam igualar.
O Zij-i Sultani sobreviveu à destruição do observatório, ao assassinato do autor, ao colapso do Império Timúrida e a cinco séculos de instabilidade política centro-asiática. Chegou a Oxford no século XVII, foi traduzido para o latim, lido por Hevelius e Flamsteed, e continua sendo objeto de estudo entre historiadores da ciência. A cratera lunar Ulugh Beg e o asteroide 2439 Ulugbek carregam seu nome até hoje — uma ironia que o próprio Ulugh Beg talvez apreciasse: suas observações do céu fizeram-no, de certa forma, habitante permanente dele.
A execução de 1449 encerrou uma vida, mas não apagou um projeto. O que Samarcanda havia produzido era demasiado preciso, demasiado útil, demasiado referenciado por gerações subsequentes de astrônomos para desaparecer. Abd al-Latif durou seis meses no poder. O Zij-i Sultani dura há mais de quinhentos anos. A história, por vezes, tem o senso de justiça que os homens não têm.
Perguntas Frequentes sobre Ulugh Beg
Quem foi Ulugh Beg? Ulugh Beg (1394–1449) foi governador timúrida de Samarcanda e, brevemente, sultão do Império Timúrida. É considerado o maior astrônomo do século XV e responsável pela construção do observatório de Samarcanda e pela elaboração do Zij-i Sultani, o catálogo estelar mais preciso do mundo pré-telescópico.
Qual foi a principal contribuição científica de Ulugh Beg? Sua principal contribuição foi o Zij-i Sultani (c. 1437), catálogo que registrava com precisão a posição de mais de mil estrelas. Os erros sistemáticos de suas medições ficavam abaixo de um minuto de arco para a maioria das estrelas — um resultado que só seria superado com o uso do telescópio no século XVII.
Ulugh Beg era muçulmano? Havia conflito entre sua ciência e sua fé? Ulugh Beg era muçulmano praticante e construiu uma das madrassas mais importantes de Samarcanda. A tensão que existia não era entre ele e o islã como tal, mas entre seu projeto científico e setores do clero que viam a astronomia helenística com desconfiança. A maioria dos historiadores contemporâneos rejeita a narrativa de conflito irreconciliável entre sua ciência e sua religião.
Como Ulugh Beg morreu? Foi decapitado em outubro de 1449 por ordem de seu filho Abd al-Latif, que se rebelara militarmente e obteve uma fatwa clerical justificando a execução. A historiografia moderna tende a interpretar o episódio como uma crise dinástica legitimada por retórica religiosa, e não como um conflito primariamente teológico.
Por que o observatório de Samarcanda foi destruído? O observatório foi demolido por volta de 1500, após o colapso do Império Timúrida. As razões exatas não são completamente conhecidas, mas é plausível que a demolição tenha sido motivada tanto por razões religiosas quanto pelo abandono político e administrativo da estrutura. Os remanescentes do sextante meridional foram redescobertos por arqueólogos russos em 1908.
Qual foi a influência de Ulugh Beg sobre a astronomia europeia? O Zij-i Sultani chegou à Europa no século XVII através de manuscritos otomanos e foi traduzido para o latim por Thomas Hyde em Oxford (1665). Astrônomos como Hevelius e Flamsteed utilizaram os dados de Ulugh Beg em seus próprios trabalhos. No século XIX, Delambre confirmou que o catálogo de Samarcanda era o mais preciso do mundo pré-telescópico.
Quem eram os principais colaboradores científicos de Ulugh Beg? Os dois mais importantes foram Ghiyath al-Din Jamshid al-Kashi, matemático que calculou π com dezesseis casas decimais e desenvolveu métodos de interpolação astronômica, e Ali Qushji, que após o assassinato de Ulugh Beg fugiu para o Império Otomano e transmitiu os resultados de Samarcanda a novas gerações de estudiosos.
Como Ulugh Beg se compara a outros astrônomos medievais islâmicos? Ulugh Beg se insere numa longa tradição de astronomia islâmica que inclui al-Battani (século IX), Ibn Yunus (século X) e al-Biruni (século XI). Seu diferencial estava na escala dos recursos institucionais que mobilizou e na precisão instrumental alcançada pelo observatório de Samarcanda, que superava todos os predecessores na qualidade das observações diretas.
Leituras recomendadas
BARTOLD, Vassili Vladimirovich. Ulugh-Beg und seine Zeit. Leipzig: Deutsche Morgenländische Gesellschaft, 1918.
KENNEDY, Edward S. A Survey of Islamic Astronomical Tables. Philadelphia: American Philosophical Society, 1956.
LENTZ, Thomas W.; LOWRY, Glenn D. Timur and the Princely Vision: Persian Art and Culture in the Fifteenth Century. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art, 1989.
SALIBA, George. Islamic Science and the Making of the European Renaissance. Cambridge: MIT Press, 2007.
SAYILI, Aydin. The Observatory in Islam and Its Place in the General History of the Observatory. Ankara: Turkish Historical Society, 1960.

