Samarcanda: a cidade que o mundo conquistou — e que conquistou o mundo
No outono de 329 a.C., Alexandre da Macedônia entrou pela primeira vez em Maracanda — o nome que os gregos davam à cidade que os persas chamavam de Samarkand. Ele já havia cruzado o Hindu Kush, subjugado a Báctria e avançado até os limites orientais do império aquemênida. Mas ao ver as muralhas argamassadas sobre o vale do Zeravshan, os jardins irrigados pelo sistema de canais que os habitantes chamavam de ariq, e o mercado onde se cruzavam mercadorias do subcontinente indiano, da estepe cítia e do Mediterrâneo, o conquistador teria dito que tudo o que ouvira sobre a beleza da cidade era verdade — e que ela superava suas expectativas. A frase, transmitida por Arriano e possivelmente apócrifa, resume com precisão uma percepção que se repetiria por dois milênios: Samarcanda era diferente. Não apenas grande, não apenas rica, mas qualitativamente distinta de quase tudo que existia no mundo antigo e medieval.
Samarcanda é uma das cidades habitadas ininterruptamente há mais tempo na história da humanidade — com registros de ocupação contínua que remontam ao menos ao século VIII a.C., e evidências arqueológicas que sugerem assentamentos ainda mais antigos no sítio de Afrasiab. Situada no coração do que hoje é o Uzbequistão, ela funcionou por séculos como o nó central da Rota da Seda, o ponto de inflexão onde as caravanas da China encontravam os mercadores persas, onde os diplomatas dos califas abássidas se cruzavam com embaixadores da corte Tang, onde o islã se fundiu com a matemática grega e com a astronomia persa para produzir algumas das maiores realizações intelectuais da Idade Média.
Este artigo reconstrói a história de Samarcanda desde suas origens pré-históricas até sua configuração moderna, passando pela conquista macedônica, a integração ao mundo islâmico, o cataclismo mongol, a apoteose timúrida e o lento declínio sob o controle russo. Cada uma dessas fases não é apenas um capítulo local — é um espelho em que se reflete a história do mundo. Samarcanda não foi apenas palco da história universal: foi, em muitos momentos, seu centro de gravidade.
A cidade existe nessa encruzilhada entre a sedentariedade dos povos irrigantes do vale e a mobilidade das populações nômades da estepe. Essa tensão — entre fixação e movimento, entre construção e destruição, entre acumulação cultural e violência conquistadora — é o motor que explica sua trajetória. Entender Samarcanda é entender como as grandes civilizações se constroem precisamente nos pontos de maior atrito e intercâmbio.
As origens: Afrasiab e o mundo sogdiano
O sítio de Afrasiab e as primeiras ocupações
A história de Samarcanda começa sobre uma plataforma de loess — o sedimento eólico compactado que forma as colinas artificiais e naturais do vale do Zeravshan — conhecida hoje como Afrasiab. O topônimo é medieval, derivado de um herói mítico iraniano, mas o sítio arqueológico que ele designa é muito mais antigo. Escavações sistemáticas conduzidas ao longo do século XX, especialmente pelas missões soviéticas e depois uzbeques-francesas, revelaram estratos de ocupação contínua desde pelo menos o século VIII a.C., com possibilidade de assentamentos esparsos ainda mais remotos.
O que tornava aquele platô atraente para os primeiros habitantes era uma combinação de fatores que permaneceria relevante por milênios: altitude defensiva natural, proximidade do rio Zeravshan e de seus afluentes, solo fértil na planície circundante e posição central em relação às rotas que cruzavam a Ásia Central de leste a oeste e de norte a sul. A palavra Zeravshan significa, em persa, “distribuidor de ouro” — uma alusão ao aluvião dourado que o rio depositava nos campos e que tornava a agricultura excecionalmente produtiva.
Os primeiros habitantes de Afrasiab pertencem ao universo cultural que os historiadores agrupam sob o rótulo de cultura Chust e depois sob as tradições da Ásia Central oriental do Bronze Final e do Ferro Inicial. Eles trabalhavam bronze, produziam cerâmica de qualidade, e mantinham relações de troca com populações das estepes ao norte e com as civilizações fluviais da Pérsia ao sul e ao oeste. Não eram uma sociedade urbana no sentido pleno do termo — as primeiras estruturas que justificam o uso da palavra “cidade” parecem datar do século VI a.C. —, mas eram uma sociedade complexa, estratificada e integrada em redes de troca de longa distância.
A Sogdiana: a civilização do oásis
Para entender Samarcanda em suas fundações, é necessário compreender o contexto cultural em que ela se inseriu: a Sogdiana, uma das regiões mais singulares da Antiguidade. A Sogdiana correspondia aproximadamente ao vale do Zeravshan e ao vale do Kashkadarya — uma área que hoje abrange o centro do Uzbequistão e parte do Tadjiquistão. Seus habitantes, os sogdianos, falavam uma língua iraniana oriental que se tornaria, séculos depois, a língua franca do comércio na Rota da Seda.
A civilização sogdiana não se fundava em rios monumentais como o Nilo ou o Eufrates, nem em um poder político centralizado comparável ao dos grandes impérios. Ela se fundava nos oásis — pontos de agricultura irrigada em meio a terras áridas — e no comércio de longa distância. Os sogdianos eram, antes de tudo, mercadores e intermediários. Documentos medievais encontrados em grutas no noroeste da China — as chamadas Cartas Sogdianas, datadas do início do século IV d.C. — revelam uma diáspora mercantil que estendia suas redes do Mediterrâneo até o interior da China, séculos antes que qualquer autor ocidental registrasse essa realidade.
A religião sogdiana original era uma variante do zoroastrismo, com culto ao fogo, veneração de entidades celestiais e práticas funerárias que diferiam das formas persas mais conhecidas. Os ossários sogdianos — recipientes de terracota onde se depositavam os ossos dos mortos após a exposição ao sol e às aves — são um dos traços arqueológicos mais característicos dessa civilização. Mas os sogdianos não eram dogmáticos: sua posição de intermediários culturais tornava-os abertos ao sincretismo, e a arte sogdiana combina influências persas, gregas, indianas e mais tarde chinesas com uma voz própria inconfundível.
Samarcanda sob o domínio aquemênida
Por volta do século VI a.C., a Sogdiana foi incorporada ao Império Aquemênida persa. As inscrições de Dário I em Behistun mencionam a Suguda (Sogdiana) como uma das satrapias do império, e ela aparece também nas listas de tributos de Persépolis. A incorporação ao sistema imperial persa não extinguiu a identidade sogdiana — como ocorria frequentemente no sistema aquemênida, que tendia à administração indireta e ao respeito pelas elites locais —, mas inseriu Samarcanda em um horizonte político e econômico muito mais amplo.
A satrapia da Sogdiana pagava tributo em prata e fornecia contingentes militares. Mais importante, sua integração no espaço aquemênida aprofundou as conexões comerciais já existentes e criou as condições para o florescimento da Rota da Seda nos séculos seguintes. O sistema de estradas reais persas — que conectava Susa a Sardes — tinha ramificações orientais que alcançavam a Báctria e a Sogdiana, e os mensageiros reais percorriam essas rotas com uma eficiência que impressionou Heródoto.
É nesse período que Samarcanda começa a assumir a forma de uma cidade propriamente dita, com muralhas, áreas palatinas e espaço urbano diferenciado. As escavações em Afrasiab revelaram traços dessa fase aquemênida — cerâmicas de influência persa, estruturas arquitetônicas de pedra e tijolo cozido —, embora a identificação precisa de camadas seja complexa dada a sobreposição de ocupações posteriores.
Alexandre e o trauma da conquista macedônica
A campanha da Báctria e Sogdiana (329–327 a.C.)
Quando Alexandre da Macedônia chegou à Sogdiana, em 329 a.C., ele havia acabado de completar a conquista formal do Império Aquemênida com a morte de Dário III. Mas a campanha oriental revelou-se muito mais difícil do que qualquer coisa que ele havia enfrentado antes. A resistência sogdiana, liderada por figuras como Espitamenes — um dos comandantes militares locais —, adotou táticas de guerrilha que frustraram repetidamente o exército macedônico durante quase dois anos.
Espitamenes não era um personagem que combatia em campo aberto; ele conduzia incursões rápidas, desaparecia na estepe, atacava os destacamentos macedônicos isolados e mobilizava aliados entre as tribos nômades dos Massagetas e Citas ao norte. Em 329 a.C., ele massacrou uma força macedônica perto do rio Jaxartes (o atual Syr Daria), uma das maiores derrotas táticas que Alexandre sofreria em toda a sua campanha. A resposta foi uma repressão brutal: cidades resistentes foram destruídas, populações massacradas ou escravizadas.
Samarcanda (Maracanda) foi ocupada sem grande resistência na primeira incursão macedônica, mas tornou-se base logística de Alexandre durante a campanha contra Espitamenes. É aqui que ocorreu um dos episódios mais documentados e debatidos da vida de Alexandre: o assassinato de Clito, o Negro, em 328 a.C. Durante um banquete em Samarcanda, após uma discussão sobre os méritos de Alexandre em comparação com seu pai Filipe II, Alexandre matou Clito — um dos seus generais mais fiéis, que havia salvo sua vida na batalha do Granico — com uma lança arremessada em estado de embriaguez. O episódio, narrado em detalhes por Plutarco e Arriano, é interpretado pelos historiadores modernos como sintoma da crescente tensão entre Alexandre e a velha guarda macedônica, ressentida com a adoção pelo rei de costumes persas e com a transformação de uma expedição de vingança em um projeto de dominação universal.
O legado helenístico na Ásia Central
A conquista macedônica teve efeitos profundos e duradouros sobre a Ásia Central, embora sua amplitude seja objeto de debate historiográfico. Alexandre fundou ou refundou diversas cidades, incluindo Alexandria Eschate (“Alexandria a mais distante”, provavelmente a atual Khujand no Tadjiquistão), e estabeleceu guarnições militares que se tornaram núcleos de colonização grega. O período que se seguiu à sua morte, com a fragmentação do império entre os diádocos, viu a Ásia Central passar para o controle dos Selêucidas e depois dos greco-bactrianos.
O Reino Greco-Bactriano (c. 256–125 a.C.) é uma das entidades políticas mais intrigantes da Antiguidade. Governado por reis que usavam nomes gregos e cunhavam moedas com inscrições em grego e em kharoshthi (a escrita do noroeste do subcontinente indiano), esse reino mesclava tradições helênicas com elementos iraniano-sogdianos e indianos. Suas moedas — algumas das mais belas da Antiguidade — exibem retratos reais de um realismo que rivaliza com o melhor da arte grega contemporânea, fundido com iconografia de entidades zoroastrianas e budistas.
A presença grega na região deixou marcas concretas em Samarcanda: vocabulário emprestado, técnicas arquitetônicas, padrões monetários e, sobretudo, a abertura a um cosmopolitismo mediterrâneo que se somaria às já presentes redes de troca com a Índia e a China. Quando os sogdianos se tornaram os principais operadores da Rota da Seda séculos depois, estavam de certa forma herdando e ampliando a infraestrutura de intercâmbio que a conquista macedônica havia aprofundado.
A Rota da Seda e o apogeu sogdiano (século I–VIII d.C.)
Samarcanda como nó comercial global
Entre o primeiro e o oitavo século da era comum, Samarcanda atingiu seu primeiro grande apogeu. A cidade funcionava como o nó central de uma rede comercial que conectava o Império Romano e Bizâncio ao oeste, o Império Sassânida persa ao sudoeste, o Império Gupta e seus sucessores ao sul, e o Império Han e depois Tang ao leste. A seda chinesa era o produto mais famoso que circulava nessas rotas, mas a lista de mercadorias era vastíssima: especiarias indianas, lápis-lazúli afegão, algodão sogdiano, cavalos ferganenses (cobiçados pelos imperadores chineses), ouro, prata, vidro romano, papel e porcelana chineses.
Os sogdianos não eram apenas intermediários passivos nesse comércio — eram seus principais organizadores e financiadores. Documentos encontrados em sítios arqueológicos ao longo da Rota da Seda revelam um sofisticado sistema de crédito e parcerias comerciais (xwēš) que permitia a um mercador sogdiano de Samarcanda financiar expedições que levariam anos a completar-se. Cartas sogdianas preservadas demonstram que havia colônias de mercadores sogdianos em Dunhuang, Turfan, Loulan e outras cidades-oásis do atual Xinjiang chinês, funcionando como entrepostos da rede comercial.
A riqueza gerada por esse comércio se refletia na arquitetura e na arte. As escavações em Afrasiab revelaram, nos anos 1960, um conjunto de afrescos murais de extraordinária qualidade, datados do século VII d.C. Esses painéis — hoje parcialmente preservados no Museu de Afrasiab em Samarcanda — representam embaixadas de diversas regiões do mundo chegando à corte do rei sogdiano de Samarcanda. Aparecem figuras identificáveis como chinesas, indianas, turcas da estepe, e possivelmente até coreanas, todas trazendo presentes e homenageando o soberano local. É uma das representações mais eloquentes do cosmopolitismo sogdiano que chegou até nós.
A arte e a cultura sogdiana no período de apogeu
A arte sogdiana do período VI–VIII d.C. é uma síntese extraordinária de influências diversas. Nas pinturas murais de Samarcanda, Penjikent (no atual Tadjiquistão) e Varakhsha, vemos cenas mitológicas de origem iraniana convivendo com técnicas de perspectiva de influência helênica, motivos decorativos de origem indiana e representações de cavaleiros que lembram a arte das estepes turcas. Essa síntese não é uma colagem ecléctica — é uma voz própria, reconhecível, com uma elegância particular na representação do movimento e da festividade.
A religião sogdiana desse período era igualmente heterodoxa. O zoroastrismo tradicional coexistia com cultos locais, budismo (que penetrava pelo corredor gandhara-báctrio), maniqueísmo (que encontrou nos comerciantes sogdianos seus mais eficazes missionários) e formas de culto ao fogo de caráter mais popular. Quando os missionários nestorianos cristãos chegaram à Ásia Central no século V e VI, encontraram uma audiência sogdiana receptiva — existem manuscritos em sogdiano com textos cristãos nestorianos, e comunidades cristãs floresceram nas cidades da região durante séculos.
Essa pluralidade religiosa não era tolerância no sentido moderno — era pragmatismo e cosmopolitismo mercantil. Um comerciante que viajava de Samarcanda a Chang’an precisava ser capaz de negociar com budistas, confucionistas, taoistas e xamãs das estepes. Essa flexibilidade cultural tornou os sogdianos os agentes ideais de transmissão não apenas de mercadorias, mas de ideias, técnicas e tradições artísticas ao longo da Rota da Seda.
A conquista árabe e a islamização (711–900)
A chegada do islã à Sogdiana
A conquista árabe da Ásia Central foi um processo longo, violento e não-linear. Os exércitos dos califados omeada chegaram à região após a conquista da Pérsia sassânida (651 d.C.) e avançaram gradualmente para leste nas décadas seguintes. A Sogdiana foi conquistada definitivamente pelo general Qutayba ibn Muslim entre 705 e 715 d.C., em campanhas que incluíram a tomada de Samarcanda em 711–712 d.C.
A resistência sogdiana foi intensa. O rei de Samarcanda, Ghurак, negociou uma rendição condicional mas organizou resistências posteriores. Houve várias revoltas nos anos subsequentes, incluindo uma grande rebelião em 728–730 d.C. que forçou os árabes a reconquistar partes da região. A pacificação definitiva só se completou na segunda metade do século VIII.
A islamização da população foi, no entanto, mais gradual do que a conquista militar. Os primeiros árabes que chegaram eram guerreiros e administradores, não missionários. A conversão das elites sogdianas ao islã deu-se ao longo do século VIII, motivada por pressão fiscal (os não-muçulmanos pagavam o jizya), pela integração nas redes de prestígio e poder do califado, e pelo genuíno apelo intelectual e espiritual de uma religião que trazia consigo uma língua literária (o árabe), um sistema jurídico sofisticado e uma cosmologia coerente.
Samarcanda e a civilização islâmica clássica
Uma vez integrada ao mundo islâmico, Samarcanda não se tornou uma periferia exótica — tornou-se um de seus centros mais dinâmicos. A cidade ficava a meio caminho entre Bagda, capital do califado abássida, e Chang’an, capital do Império Tang, e absorvia influências de ambas as direções. Foi em Samarcanda que, segundo a tradição, ocorreu um dos episódios fundadores da história da tecnologia medieval: a captura de artesãos chineses após a Batalha de Talas (751 d.C.), que teria transmitido ao mundo islâmico o segredo da fabricação do papel.
A história da transmissão do papel por Talas é provavelmente simplificada — o conhecimento da fabricação do papel difundiu-se por múltiplas rotas e ao longo de décadas —, mas Samarcanda tornou-se de fato um centro produtor e exportador de papel de qualidade excepcional. O papel de Samarcanda (kāghaz-i Samarqandī) era famoso no mundo islâmico medieval por sua textura fina e sua resistência. A disponibilidade de papel barato e de boa qualidade na região teve efeitos culturais imensuráveis: facilitou a cópia de manuscritos, a correspondência comercial e a difusão do conhecimento.
O período abássida (750–1258 d.C.) viu Samarcanda integrada ao que os historiadores costumam chamar de Bayt al-Hikma (Casa da Sabedoria) — não a instituição física de Bagdá, mas o projeto intelectual mais amplo de tradução, síntese e expansão do conhecimento que caracterizou a civilização islâmica clássica. Filósofos, matemáticos, geógrafos e médicos que transitavam pela Ásia Central citavam Samarcanda como fonte de recursos intelectuais e materiais. A cidade produziu ou acolheu figuras como al-Bukhari (nascido em Bukhara, cidade próxima), o compilador do mais respeitado hadith sunita, e al-Biruni, o polímata que viveu no século XI e cujas obras sobre astronomia, matemática, farmacologia e etnografia continuam sendo lidas por especialistas.
Sob os Samanidas e os Karakhanidas (874–1212)
A renascença persa sob os Samanidas
A dinastia Samanida (874–999), que governou a Ásia Central com capital em Bukhara, representa um dos períodos mais frutíferos da história cultural da região. Os Samanidas eram uma dinastia iraniana que reconhecia nominalmente a suserania do califado abássida mas exercia autonomia política e cultural efetiva. Sua corte em Bukhara era um dos centros literários mais importantes do mundo islâmico, e a cidade de Samarcanda — a segunda maior da região — compartilhava desse florescimento.
Foi sob os Samanidas que o persa se estabeleceu como língua literária e administrativa da Ásia Central islâmica, em substituição parcial ao árabe. O poeta Rudaki, considerado o pai da poesia persa clássica, viveu na corte samanida. O médico e filósofo Ibn Sina (Avicena), nascido perto de Bukhara em 980 d.C., formou-se intelectualmente nesse ambiente antes de viajar para outras cortes. Seu Cânon da Medicina tornar-se-ia o texto médico mais influente do mundo islâmico e europeu medieval.
Samarcanda, nesse contexto, era uma cidade de talvez 150.000 a 200.000 habitantes — uma das maiores do mundo — com mesquitas, madrassas, mercados (bazares), caravanserais, banhos públicos (hammams) e jardins irrigados. O sistema de canais que abastecia a cidade era objeto de admiração dos viajantes: al-Muqaddasi, geógrafo do século X, descreveu Samarcanda como “a maravilha de Khorasan”, elogiando sua riqueza, sua ordem urbana e a qualidade de seus produtos artesanais.
A chegada dos turcos: Karakhanidas e Seljúcidas
A derrocada dos Samanidas pelo povo turco dos Karakhanidas (999 d.C.) inaugurou uma nova fase: o domínio turco sobre a Ásia Central islâmica, que se prolongaria por séculos. Os Karakhanidas converteram-se ao islã e adotaram amplamente a cultura persa-islâmica das regiões que conquistaram, tornando-se patrocinadores das mesmas artes e ciências que seus predecessores iranianos haviam cultivado.
Samarcanda tornou-se capital dos Karakhanidas orientais e continuou florescendo. A construção do mausoléu de Shah-i-Zinda — um complexo funerário que cresceria ao longo dos séculos seguintes — data de impulsos dessa época. A arquitetura karakhanida em tijolos queimados, com decoração geométrica de influência islâmica, deixou marcas na paisagem urbana de Samarcanda que sobreviveriam às convulsões posteriores.
Em 1141, na Batalha de Qatwan, os Karakhanidas foram derrotados pelos Kara-Khitai (Liao Ocidental), um povo de origem chinesa que havia fugido para o oeste após ser expulso do norte da China pelos Jurchen. Os Kara-Khitai eram budistas e exerceram uma suserania tolerante sobre as populações muçulmanas da região, mas sua chegada era presságio das turbulências maiores que vinham do leste.
A catástrofe mongol (1220) e a reconstrução
Gengis Khan e a destruição de Samarcanda
Em 1220, Gengis Khan voltou-se para o oeste. O Império Khwarezmiano, que havia absorvido a Sogdiana e o nordeste do Irã, tinha cometido o erro fatal de matar embaixadores mongóis — uma ofensa capital segundo o código moral das estepes. A resposta foi uma das campanhas militares mais devastadoras que a Ásia já viu.
Samarcanda, na época, era uma das maiores cidades do mundo. Estimativas modernas sugerem uma população de 400.000 a 600.000 pessoas. A cidade possuía muralhas monumentais, uma guarnição de dezenas de milhares de soldados e a reputação de ser inexpugnável. Nada disso importou.
Os mongóis chegaram em fevereiro de 1220 com forças esmagadoras e com a fama aterrorizante de não deixar sobreviventes nas cidades que resistiam. Os governantes de Samarcanda capitularam rapidamente, mas mesmo assim a cidade foi sistematicamente esvaziada de seus artesãos (deportados para o interior da Mongólia para servir a corte de Gengis), seus tesouros confiscados e grande parte de sua população ou morta ou dispersa. Ibn al-Athir, o cronista árabe contemporâneo, descreveu as campanhas mongóis como “a maior catástrofe que se abateu sobre a humanidade desde que Adão foi criado até os nossos dias”.

A destruição de Samarcanda foi real e profunda. O sítio de Afrasiab foi abandonado. Quando Marco Polo passou pela região no final do século XIII, ele encontrou uma cidade em estado de semidestruição parcial, com muitos bairros despovoados. O processo de recuperação levaria mais de um século.
A reconstrução sob os Il-Khanidas e Chagatai
O Império Mongol, após a morte de Gengis Khan em 1227, foi dividido entre seus filhos. A Ásia Central ficou sob o controle do Khanato de Chagatai, um dos quatro grandes khanatos mongóis. Os governantes chagatai eram inicialmente nômades pouco interessados em cidades, mas gradualmente foram sendo islamizados e sedentarizados, sobretudo a partir do século XIV.
Sob o khanato chagatai, Samarcanda começou a se recuperar lentamente. Viajantes do século XIV já descrevem uma cidade funcionando, com mercados e mesquitas, embora sombra do que havia sido. O processo de islamização dos mongóis — que na Ásia Central tomou a forma do islã sufi, com suas ordens (tarikats) e seus santos locais — foi um fator de estabilização cultural que favoreceu a reconstrução.
Timur e o apogeu timúrida (1370–1506)
A ascensão de Tamerlão
Timur — conhecido no Ocidente pelo nome latinizado de Tamerlão (Timur-i-lang, “Timur o Coxo”) — nasceu por volta de 1336 perto de Kesh (atual Shahrisabz, no Uzbequistão) em uma família turco-mongol de menor nobreza. Sua ascensão ao poder foi um processo de décadas de guerras civis, alianças e traições dentro do caótico espaço político do Khanato de Chagatai em dissolução. Em 1370, ele estabeleceu controle efetivo sobre Samarcanda e fez dela a capital de seu império nascente.
Timur era um paradoxo histórico. Ele conduziu campanhas militares de uma violência que rivaliza com a dos próprios mongóis: pilhava cidades, massacrava populações resistentes, construía pirâmides de crânios como monumentos ao seu poder — práticas documentadas por contemporâneos e confirmadas pela arqueologia em sítios como Isfahan, Bagdá e Delhi. Ao mesmo tempo, era um patrono das artes e da arquitetura de refinamento extraordinário, que importava artistas, arquitetos e artesãos das regiões conquistadas para embelezar Samarcanda com um fervor que beirava a obsessão.
Essa dualidade não era incomum nos grandes soberanos medievais, mas em Timur ela atingia uma intensidade peculiar. O embaixador espanhol Ruy González de Clavijo, que visitou Samarcanda em 1404 em missão diplomática de Henrique III de Castela, deixou um relato detalhado de uma cidade em plena transformação: obras em construção por toda parte, milhares de artesãos trabalhando simultaneamente, Timur pessoalmente supervisionando projetos e mandando demolir e reconstruir estruturas que não lhe agradavam.
A reconstrução de Samarcanda como capital imperial
Sob Timur, Samarcanda passou por uma transformação urbana sem precedentes. O conquistador não reconstruiu a cidade no sítio antigo de Afrasiab — esse planalto foi definitivamente abandonado como área residencial, convertendo-se em necrópole —, mas expandiu e embelezou o assentamento que havia crescido ao sul, na planície. Os grandes monumentos timúridas que definem a Samarcanda de hoje foram em sua maioria construídos ou iniciados nesse período.
A Mesquita de Bibi-Khanym — nomeada em homenagem à esposa favorita de Timur, que teria supervisionado sua construção durante uma de suas campanhas —, foi concebida como a maior mesquita do mundo islâmico. Com seu portal de entrada monumental de 35 metros de altura, sua cúpula de 40 metros e sua capacidade para abrigar decenas de milhares de fiéis, ela era uma declaração de ambição imperial em pedra e azulejo. Infelizmente, a ambição de Timur superou a física disponível: a mesquita começou a mostrar sinais de instabilidade estrutural ainda em vida do seu construtor, e entrou em progressivo colapso nos séculos seguintes, sendo restaurada apenas no século XX.
O Gur-e-Amir — “Túmulo do Senhor” em persa —, onde Timur está enterrado junto com seu filho e seus netos, é um dos exemplos mais refinados da arquitetura timúrida. Sua cúpula canelada revestida de azulejos turquesa é uma das imagens mais reconhecíveis de Samarcanda. O interior contém o sarcófago de jade verde-escuro que cobre o túmulo de Timur — o maior bloco de jade esculpido do mundo islâmico medieval.

O Registan — literalmente “lugar de areia”, o nome árabe para a praça principal de uma cidade islâmica —, foi o coração urbano da Samarcanda timúrida e continua sendo o símbolo visual mais reconhecível da cidade. Timur iniciou a construção do complexo, que seria completado e expandido por seus sucessores. A praça é flanqueada por três madrassas monumentais — Ulugh Beg, Sher-Dor e Tilla-Kari — cujas fachadas cobertas de mosaicos em azul, turquesa, verde e ouro representam o auge da arte islâmica da Ásia Central.
Ulugh Beg e a revolução científica timúrida
O neto de Timur, Ulugh Beg (1394–1449), foi talvez a figura mais notável que Samarcanda produziu em toda a sua história. Governador da cidade desde 1409 e depois soberano do império timúrida (1447–1449), Ulugh Beg era primariamente um cientista — especificamente, um astrônomo de primeira grandeza — que governava um império como ocupação secundária.
Em 1428, ele completou a construção do observatório de Samarcanda, um dos maiores e mais precisos instrumentos astronômicos do mundo medieval. O instrumento central era um sextante gigante — um arco de 40 metros de raio construído dentro de uma trincheira escavada em rocha viva — que permitia medir a posição dos corpos celestes com uma precisão sem precedentes na astronomia pré-telescópica. Com ele e com sua equipe de astrônomos, Ulugh Beg produziu o Zij-i-Sultani, um catálogo de 1.018 estrelas com coordenadas cuja precisão só seria igualada ou superada pelos europeus no século XVII.

Ulugh Beg também construiu três madrassas — em Samarcanda, Bukhara e Gijduvan — que funcionavam como centros de ensino de matemática, astronomia e filosofia. Ele ensinava pessoalmente em Samarcanda, e seus debates acadêmicos eram eventos públicos que atraíam audiências de toda a região. Sua madrassa na praça Registan, com sua fachada de mosaicos astronômicos (estrelas e constelações decoravam os painéis), é uma declaração visual de prioridades intelectuais raras entre governantes de qualquer época.
O fim de Ulugh Beg foi trágico. Em 1449, seu próprio filho, Abd al-Latif, rebelou-se contra ele, apoiado por ulemas conservadores que ressentiam do interesse de Ulugh Beg pela ciência secular e pela filosofia grega. O astrônomo-rei foi deposto, fez uma peregrinação a Meca para demonstrar sua devoção, e foi assassinado por ordem do filho em outubro de 1449, dois dias após seu retorno. O observatório foi destruído e seus instrumentos desmontados pouco depois — um dos episódios mais reveladores da tensão entre razão e ortodoxia no mundo islâmico medieval.
Do declínio timúrida aos Shibânidas e ao controle uzbeque (1500–1700)
O fim do domínio timúrida
A morte de Ulugh Beg precipitou a desintegração do Império Timúrida, que já estava fragmentado por lutas dinásticas. Em 1500, o líder uzbeque Muhammad Shaibani Khan (Shibani Khan) conquistou Samarcanda e expulsou o último governante timúrida significativo, Babur — que fugiria para o sul, conquistaria Cabul e eventualmente fundaria o Império Mogol na Índia, tornando-se o avô de Akbar o Grande.
A conquista de Samarcanda pelos Shibânidas uzbeques foi o fim de uma era. Não porque os novos senhores fossem culturalmente hostis — eles eram muçulmanos turco-mongóis que continuaram a patronar as artes e arquitetura islâmica —, mas porque o centro de gravidade econômico e político da Ásia Central mudou. A abertura das rotas marítimas europeias para a Índia e a China, iniciada por Vasco da Gama em 1498, reduziu gradualmente a importância econômica das rotas terrestres. Samarcanda, que havia prosperado como nó de uma rede comercial intercontinental, viu essa rede se enfraquecer ao longo do século XVI.
Samarcanda sob os Shibânidas e os Astrakhanidas
Os Shibânidas governaram Samarcanda e a Ásia Central ao longo do século XVI. Eles foram sucedidos pelos Astrakhanidas (Janidas) no início do século XVII. Sob essas dinastias, Samarcanda continuou sendo uma cidade importante, com produção artesanal notável (especialmente têxteis de seda, tapeçaria e cerâmica), mas perdeu progressivamente a primazia política e econômica para Bukhara, que se tornaria a capital efetiva do emirado.
O período também viu uma crescente rivalidade com o Império Safávida persa ao oeste, o que cortou parte das redes comerciais e intelectuais que ligavam a Ásia Central ao Irã e ao Mediterrâneo. O mundo islâmico central estava se fragmentando em esferas políticas mais fechadas, e Samarcanda sentia os efeitos dessa regionalização.
O Emirado de Bukhara e a conquista russa (1700–1868)
A decadência do século XVIII e XIX
Nos séculos XVIII e XIX, Samarcanda estava sob o domínio do Emirado de Bukhara, um Estado muçulmano conservador que mantinha formas tradicionais de governo islâmico. A cidade era uma cidade universitária e religiosa de importância, com madrassas funcionando e uma população de estudiosos religiosos, mas havia perdido a dinâmica comercial e intelectual que a havia definido nos séculos anteriores.
Viajantes europeus que conseguiam chegar à região — uma façanha difícil, pois o emirado era fechado e desconfiante dos estrangeiros — descreviam Samarcanda como uma cidade em declínio relativo, com monumentos em deterioração e uma população muito menor do que nos tempos gloriosos. A Rota da Seda estava morta como sistema econômico relevante, e nenhuma nova atividade econômica havia surgido para substituí-la.
A conquista russa e a modernização colonial
Em 1868, tropas russas sob o comando do general Konstantin von Kaufman tomaram Samarcanda após uma breve resistência. A conquista fazia parte da expansão do Império Russo na Ásia Central — motivada por uma combinação de interesse estratégico (contrarrestar a influência britânica na Índia), interesses econômicos (acesso ao algodão da região) e a ideologia imperial do “fardo civilizador” que os russos compartilhavam com os outros impérios europeus do século XIX.
A administração russa transformou Samarcanda de maneiras profundas e ambivalentes. Por um lado, construiu uma cidade nova europeia adjacente à cidade velha islâmica: com ruas retas, edifícios administrativos neoclássicos, uma estação ferroviária e um teatro. A ferrovia que ligou Samarcanda à rede russa a partir de 1888 reinseriu a cidade em redes econômicas modernas — mas como exportadora de algodão, não como entreposto de um comércio global sofisticado.
Por outro lado, os russos iniciaram os primeiros trabalhos sistemáticos de preservação e documentação dos monumentos históricos de Samarcanda. Arqueólogos e historiadores da arte russos catalogaram sítios, fotografaram monumentos e iniciaram restaurações — com técnicas que hoje seriam consideradas discutíveis, mas que preservaram informações valiosas. A fundação do museu de Samarcanda data desse período.
O período soviético e a Samarcanda moderna (1917–presente)
A Samarcanda soviética
Após a Revolução de 1917, a Ásia Central foi gradualmente incorporada à União Soviética. A República Socialista Soviética do Uzbequistão foi estabelecida em 1924, e Samarcanda serviu como sua capital até 1930, quando a capital foi transferida para Tashkent. A experiência soviética foi, para Samarcanda, uma mistura de destruição e preservação paradoxais.
Por um lado, as políticas soviéticas de coletivização agrícola, repressão da prática religiosa islâmica e russificação forçada causaram danos profundos ao tecido social e cultural da cidade. Madrassas foram fechadas, ulemas perseguidos, práticas religiosas tradicionais suprimidas. A população de língua persa-tajique da cidade sofreu pressões para se identificar como uzbeque ou russa, e a tradição intelectual islâmica foi interrompida de formas que até hoje não se recuperaram completamente.
Por outro lado, os soviéticos investiram maciçamente na restauração dos monumentos históricos de Samarcanda. As grandes obras de reabilitação do Registan, do Gur-e-Amir, do Shah-i-Zinda e da Mesquita de Bibi-Khanym foram conduzidas por equipes de especialistas soviéticos entre as décadas de 1950 e 1980. Essas restaurações são controversas entre especialistas — usaram materiais modernos, reconstruíram elementos com base em hipóteses contestáveis, e em alguns casos alteraram a aparência original dos monumentos —, mas sem elas, boa parte dos edifícios históricos não teria sobrevivido.
A cidade soviética também expandiu a infraestrutura industrial de Samarcanda, construiu universidades e hospitais, e aumentou a taxa de alfabetização. O legado desse período é genuinamente ambíguo, e os historiadores uzbeques contemporâneos debatem suas dimensões com uma candência que reflete tensões políticas e identitárias ainda não resolvidas.
Independência e patrimônio mundial
Com a dissolução da União Soviética em 1991, o Uzbequistão tornou-se independente. Samarcanda, inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 2001 sob a categoria “Samarcanda — Encruzilhada de Culturas”, tornou-se um dos destinos de turismo cultural mais importantes da Ásia Central.
O governo uzbeque investiu na restauração e promoção dos monumentos históricos, ao mesmo tempo em que expandiu a infraestrutura turística. A cidade hoje recebe centenas de milhares de visitantes por ano, atraídos pelo Registan, pelo Gur-e-Amir, pelo Shah-i-Zinda e pelo sítio de Afrasiab. O High-Speed Railway que liga Tashkent a Samarcanda, inaugurado em 2011, tornou a cidade facilmente acessível da capital.
Mas a independência também trouxe tensões identitárias. A questão da identidade sogdiana, persa-tajique e uzbeque da cidade é politicamente sensível: o regime uzbeque favorece uma narrativa que enfatiza a herança uzbeque-turca de Samarcanda, enquanto comunidades de língua tajique reivindicam uma continuidade cultural com a Sogdiana persa-falante que a Timur usava como língua de corte. Essas tensões espelham divisões étnicas e políticas mais amplas na Ásia Central pós-soviética.
A arquitetura de Samarcanda: leitura de uma paisagem urbana
O Registan: a praça do poder
O Registan é o símbolo mais reconhecível de Samarcanda e um dos conjuntos arquitetônicos mais grandios do mundo islâmico. A praça é delimitada por três madrassas monumentais construídas em diferentes períodos: a Madrassa de Ulugh Beg (1417–1420), a Madrassa Sher-Dor (1619–1636) e a Madrassa Tilla-Kari (1646–1660).

A madrassa de Ulugh Beg, a mais antiga das três, é notável pela sobriedade matemática de sua decoração: os mosaicos de sua fachada incorporam padrões geométricos de grande sofisticação, que alguns pesquisadores interpretam como representações de simetrias quase-cristalinas — um nível de complexidade matemática que a ciência ocidental reconheceria formalmente apenas no século XX. A Sher-Dor (“portadora de leões”) surpreende ao exibir na sua fachada representações de animais — leões perseguindo veados, e um rosto solar humano — que desafiam a proibição islâmica convencional de representações figurativas, revelando a persistência de tradições pré-islâmicas iranianas.
Shah-i-Zinda: o corredor dos mortos ilustres
O Shah-i-Zinda — “o rei vivo” em persa — é um corredor funerário que se estende pela encosta norte de Afrasiab. Composto de mais de vinte mausoléus construídos ao longo de seis séculos (do XI ao XIX), é um dos conjuntos de arquitetura islâmica mais extraordinários da Ásia Central. O nome deriva de uma lenda segundo a qual Qusam ibn Abbas, primo do profeta Maomé, missionário que teria trazido o islã à região, não morreu mas entrou em um jardim subterrâneo onde vive eternamente.
A importância religiosa do sítio — ser enterrado próximo a um parente do profeta garantia intercessão divina — atraiu a elite de Samarcanda ao longo dos séculos. Os mausoléus do século XIV, construídos para princesas e nobres timúridas, apresentam alguns dos mosaicos de azulejo mais refinados da arquitetura islâmica: padrões florais, geométricos e caligráficos em tons de azul, turquesa, branco e dourado que mantêm sua vividez séculos depois de sua criação.
Conclusão: Samarcanda como espelho da história universal
Samarcanda sobreviveu a Alexandre o Grande, aos califas, a Gengis Khan, a Tamerlão, aos czares e à União Soviética. Cada um desses poderes a destruiu, a transformou ou a usou — e em cada caso ela emergiu alterada mas reconhecível, com uma continuidade cultural que desafia qualquer narrativa simplista de ruptura e recomeço.
O que essa sobrevivência nos diz? Em primeiro lugar, que as cidades que existem por razões geográficas profundas — posição em encruzilhadas, acesso a água, solo fértil — têm uma resiliência que supera os ciclos políticos. Samarcanda existe porque o vale do Zeravshan tornou a existência humana possível e desejável naquele ponto específico da Ásia Central. Nenhum conquistador, por mais violento, pôde mudar essa realidade fundamental.
Em segundo lugar, que a grandeza cultural não é privativa de nenhuma civilização ou tradição. Samarcanda foi grega e persa, zoroastriana e budista, islâmica e mongola, timúrida e soviética. Cada uma dessas camadas acrescentou algo ao acumulado sem apagar completamente o anterior. A arte dos afrescos sogdianos sobreviveu abaixo dos edifícios islâmicos; o conhecimento astronômico de Ulugh Beg sobreviveu à destruição do observatório em manuscritos copiados por discípulos; a tradição comercial sogdiana sobreviveu nas redes mercantis islâmicas que os sogdianos convertidos ao islã continuaram a operar.
Em terceiro lugar, que a violência não é o oposto da cultura — pode ser, paradoxalmente, seu veículo. Timur destruiu cidades inteiras para construir Samarcanda. A deportação de artesãos das regiões conquistadas para a capital imperial criou a mistura de influências que torna a arte timúrida tão singular. Isso não é uma justificativa da violência — é uma constatação sobre os mecanismos complexos pelos quais a riqueza cultural se acumula e se transmite.
Samarcanda continua sendo uma cidade habitada, com mais de 500.000 pessoas vivendo em seu interior e entorno imediato. Os minaretes do Registan ainda se erguem sobre a planície do Zeravshan, e a cúpula turquesa do Gur-e-Amir ainda brilha ao sol do fim de tarde. A cidade não é um museu — é um organismo vivo que carrega, em sua paisagem urbana e em sua memória coletiva, dois mil e quinhentos anos de história do mundo.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre Samarcanda
O que é Samarcanda e onde está localizada? Samarcanda é uma das cidades mais antigas do mundo com ocupação contínua comprovada, situada no atual Uzbequistão, no vale do rio Zeravshan, na Ásia Central. Ela foi o centro político, comercial e cultural da região histórica conhecida como Sogdiana e funcionou por séculos como o nó mais importante da Rota da Seda, a rede de rotas comerciais que conectava o Mediterrâneo à China. Hoje, Samarcanda é a segunda maior cidade do Uzbequistão, com população superior a 500.000 habitantes, e é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2001.
Quando foi fundada Samarcanda? Não há uma data precisa de fundação, pois as cidades antigas crescem gradualmente em vez de serem “fundadas” em um momento específico. As evidências arqueológicas mais antigas de ocupação no sítio de Afrasiab — o platô que corresponde à Samarcanda pré-islâmica — remontam ao século VIII a.C. As primeiras estruturas que justificam o uso da palavra “cidade” parecem datar do século VI a.C., durante o período de domínio aquemênida persa. Isso faz de Samarcanda uma das cidades mais antigas do mundo com habitação contínua, com aproximadamente 2.700 anos de história urbana documentada.
Por que Samarcanda era tão importante na Rota da Seda? Samarcanda ocupava uma posição geográfica estratégica no cruzamento das principais rotas comerciais da Ásia Central. Situada no fértil vale do Zeravshan, com abundância de água e terras agrícolas, ela oferecia o que toda caravana precisava: alimentos, água, descanso, reparos e espaço para negociação. Além disso, os sogdianos — seu povo original — eram comerciantes excepcionalmente habilidosos que construíram redes mercantis sofisticadas alcançando do Mediterrâneo à China. A cidade produzia artigos de alta qualidade — têxteis, papel, metais — que eram exportados ao longo dessas rotas. A conjunção de posição estratégica, população mercantil especializada e produção artesanal de qualidade tornou Samarcanda insubstituível na economia intercontinental medieval.
Qual foi o impacto da conquista mongol sobre Samarcanda? A conquista mongol de 1220 foi um trauma histórico de proporções extraordinárias. A cidade, que provavelmente tinha entre 400.000 e 600.000 habitantes, foi esvaziada: seus artesãos foram deportados para a Mongólia, suas riquezas confiscadas e uma parte significativa de sua população morta ou dispersa. O sítio original de Afrasiab foi permanentemente abandonado como área residencial. Marco Polo, que passou pela região no final do século XIII, encontrou uma cidade em estado de semidestruição. A recuperação levou mais de um século, e a Samarcanda que ressurgiu foi fundamentalmente diferente — mais islâmica e turco-mongola, tendo perdido boa parte da tradição cultural sogdiana que havia sobrevivido até então.
Quem foi Timur (Tamerlão) e qual foi sua relação com Samarcanda? Timur (c. 1336–1405), conhecido no Ocidente como Tamerlão, foi um conquistador turco-mongol que construiu um dos maiores impérios da história, abrangendo do Mediterrâneo à China. Sua relação com Samarcanda é paradoxal: ele conduziu campanhas militares de violência extrema, destruindo cidades e massacrando populações resistentes, mas ao mesmo tempo transformou Samarcanda em uma das mais esplêndidas capitais do mundo islâmico, importando artistas e artesãos das regiões conquistadas para construir monumentos que ainda existem. O Registan, o Gur-e-Amir, a Mesquita de Bibi-Khanym e o complexo funerário Shah-i-Zinda em sua forma atual devem sua grandeza principal ao programa construtivo timúrida. Samarcanda era, para Timur, a demonstração material de seu poder e de sua pretensão à grandeza islâmica.
O que foi o observatório de Ulugh Beg e qual sua importância científica? Ulugh Beg (1394–1449), neto de Timur e governante de Samarcanda, construiu em 1428 um dos maiores e mais precisos observatórios astronômicos do mundo medieval. Seu instrumento principal era um sextante gigante de 40 metros de raio escavado em rocha viva, que permitia medir a posição dos astros com precisão sem precedentes. Com ele, Ulugh Beg produziu o Zij-i-Sultani, um catálogo de 1.018 estrelas cujas coordenadas eram tão precisas que só foram igualadas pelos europeus no século XVII, com Tycho Brahe. O observatório foi destruído após o assassinato de Ulugh Beg por seu próprio filho em 1449, mas seus dados sobreviveram em manuscritos e influenciaram a astronomia islâmica e europeia subsequente. O sítio do observatório, redescoberto por escavações soviéticas na década de 1940, pode ser visitado hoje.
Como a conquista russa transformou Samarcanda no século XIX? A conquista russa de 1868 inseriu Samarcanda em uma modernidade colonial ambivalente. Por um lado, os russos construíram uma “cidade nova” europeia adjacente à cidade islâmica existente, com ruas retas e edifícios administrativos neoclássicos, e integraram Samarcanda na rede ferroviária russa a partir de 1888, reinserindo-a em circuitos econômicos modernos — embora agora como exportadora de algodão, não como entreposto comercial sofisticado. Por outro lado, iniciaram os primeiros trabalhos sistemáticos de preservação e documentação dos monumentos históricos. A administração colonial russa transformou a estrutura social e econômica da cidade, mas ironicamente contribuiu para a sobrevivência de seu patrimônio arquitectónico que, sem intervenção, continuaria a deteriorar-se.
O que é o Registan e por que é considerado um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes do mundo islâmico? O Registan é a praça central histórica de Samarcanda, delimitada por três madrassas monumentais construídas entre os séculos XV e XVII: a Madrassa de Ulugh Beg (1417–1420), a Sher-Dor (1619–1636) e a Tilla-Kari (1646–1660). Considerado um dos exemplos mais completos e bem preservados da arquitetura islâmica da Ásia Central, o conjunto é notável pela sofisticação de seus mosaicos em azulejo — padrões geométricos, florais e caligráficos em azul, turquesa e dourado —, pela escala monumental de suas fachadas porticadas e pela coerência espacial do conjunto. A Sher-Dor, em particular, é arquitectonicamente controversa: sua fachada exibe representações figurativas de leões e um rosto solar, transgredindo convenções islâmicas ortodoxas e revelando a persistência de tradições iranianas pré-islâmicas. O Registan foi a praça central da vida política, comercial e religiosa de Samarcanda durante séculos e permanece o símbolo mais poderoso da cidade.
Qual é a situação de Samarcanda hoje? Samarcanda é hoje a segunda maior cidade do Uzbequistão, com mais de 500.000 habitantes, e um dos principais destinos do turismo cultural na Ásia Central. Inscrita como Patrimônio Mundial da UNESCO em 2001, ela recebe centenas de milhares de visitantes por ano, atraídos pela concentração excepcional de monumentos islâmicos medievais. A ferrovia de alta velocidade que a liga a Tashkent desde 2011 facilitou o acesso. O governo uzbeque investiu significativamente na restauração dos monumentos e no desenvolvimento da infraestrutura turística. Ao mesmo tempo, a cidade enfrenta tensões entre preservação do patrimônio e desenvolvimento urbano, entre identidades étnicas uzbeques e tajiques, e entre a memória de um passado cosmopolita e as exigências de uma narrativa nacional contemporânea.
Por que Samarcanda é considerada uma das cidades mais importantes da história mundial? Samarcanda merece esse reconhecimento por várias razões convergentes. Do ponto de vista econômico, foi por séculos o nó central da Rota da Seda, o sistema comercial que conectou as grandes civilizações do mundo antigo e medieval — sem ela, a circulação de mercadorias e ideias entre o Mediterrâneo e o Extremo Oriente teria sido radicalmente diferente. Do ponto de vista intelectual, foi o centro onde o islã, a ciência grega, a astronomia persa e a matemática indiana se fundiram para produzir avanços que influenciaram o desenvolvimento científico mundial — o observatório de Ulugh Beg, a produção de papel, a transmissão de textos filosóficos. Do ponto de vista artístico, a arte timúrida que a cidade abriga representa um dos cumes da arquitetura e das artes decorativas islâmicas. E do ponto de vista simbólico, Samarcanda é um caso exemplar de como as civilizações se constroem nos pontos de máximo intercâmbio e fricção cultural.
Leituras Recomendadas
FRANKOPAN, Peter. A Rota da Seda: Uma Nova História do Mundo. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Crítica, 2017.
GROUSSET, René. L’Empire des steppes: Attila, Gengis-Khan, Tamerlan. Paris: Payot, 1939. (Obra de referência clássica sobre os impérios das estepes, com análise detalhada das conquistas mongóis e timúridas na Ásia Central.)
MANZ, Beatrice Forbes. The Rise and Rule of Tamerlane. Cambridge: Cambridge University Press, 1989. (Estudo definitivo sobre Timur, sua ascensão, suas campanhas e sua política cultural, com atenção especial ao papel de Samarcanda.)
DE LA VAISSIÈRE, Étienne. Sogdian Traders: A History. Leiden: Brill, 2005. (A obra mais completa sobre a civilização sogdiana e o papel dos comerciantes sogdianos na Rota da Seda, com base em fontes arqueológicas e documentais.)
SOUCEK, Priscilla. Ulugh Beg and Astronomy in the Timurid Court. In: HILLENBRAND, R. (ed.). The Art of the Saljuqs in Iran and Anatolia. Costa Mesa: Mazda, 1994. (Estudo especializado sobre o programa científico de Ulugh Beg e seu observatório de Samarcanda.)

