Quinta Cruzada: A Campanha que Recusou a Vitória
Em agosto de 1221, o exército cristão mais poderoso que o Oriente vira em décadas encontrava-se encurralado entre dois braços do Nilo. À retaguarda, a cheia anual do rio cortava qualquer rota de retirada; à frente, a cavalaria aiúbida bloqueava o avanço. O cardeal Pelágio de Albano, legado papal que havia assumido o comando da expedição sobre a objeção de generais experientes, olhava para a lama e para a água e compreendia, talvez tarde demais, que tinha desperdiçado a maior oportunidade militar que os cruzados tiveram desde a conquista de Jerusalém em 1099. A rendição negociada que se seguiu não foi apenas uma derrota tática — foi o colapso de uma estratégia elaborada ao longo de anos e o fim de qualquer esperança realista de recuperar a Cidade Santa no século XIII.
A Quinta Cruzada (1217–1221) é frequentemente lembrada como um fracasso, mas essa caracterização obscurece o quanto ela esteve próxima do sucesso. A expedição capturou Damieta, a chave estratégica do delta do Nilo e porta de entrada para o coração do poder aiúbida no Egito. Em determinado momento, o sultão al-Kamil ofereceu a devolução de Jerusalém e da Vera Cruz em troca da evacuação cristã — uma oferta que, se aceita, teria revertido os resultados de 1187 sem uma única batalha adicional. A recusa dessa proposta, e as razões por trás dela, dizem mais sobre a estrutura política e eclesiástica das cruzadas do que qualquer batalha individual.
Este artigo examina a Quinta Cruzada em profundidade: suas origens no pensamento estratégico do papado de Inocêncio III, a lógica da rota pelo Egito, as tensões de comando que paralisaram o exército cristão em momentos decisivos, a controvérsia em torno da oferta de paz aiúbida, e o legado de longo prazo de um empreendimento que moldou tanto a teoria quanto a prática das expedições militares posteriores ao Oriente.
A cruzada emerge de um contexto de reorganização eclesiástica e reformulação estratégica. O IV Concílio de Latrão, convocado por Inocêncio III em 1215, não foi apenas uma assembleia religiosa — foi o momento em que a Igreja Católica articulou, de forma mais sistemática do que nunca, os fundamentos teológicos, logísticos e diplomáticos de uma nova expedição ao Levante. Para compreender por que a Quinta Cruzada tomou a forma que tomou, é preciso entender o mundo intelectual e político que a gestou.
O Contexto: Inocêncio III e a Refundação da Ideia de Cruzada
O IV Concílio de Latrão e a nova doutrina cruzadística
Quando Inocêncio III convocou o IV Concílio de Latrão em novembro de 1215, ele o fez com um objetivo declarado que transcendia a reforma interna da Igreja: a recuperação de Jerusalém. A bula Ad liberandam, promulgada ao final do concílio, estabeleceu os termos de uma nova cruzada com um detalhamento sem precedentes. Havia taxação sistemática do clero — um vigésimo das rendas eclesiásticas por três anos — isenções comerciais, regulamentação do recrutamento e, crucialmente, uma estratégia militar explícita: o ataque ao Egito.
A escolha do Egito como objetivo primário não era nova, mas o concílio a codificou de forma que vinculou os futuros líderes da expedição a uma lógica geopolítica específica. Desde pelo menos a Terceira Cruzada, conselheiros militares experientes argumentavam que Jerusalém não poderia ser mantida enquanto o poder muçulmano no Egito permanecesse intacto. Ricardo I da Inglaterra havia resistido a dois avanços sobre Jerusalém precisamente porque reconhecia que uma cidade tomada sem o controle do hinterland egípcio estaria perpetuamente vulnerável. A Ad liberandam transformou essa intuição estratégica em política oficial.
A historiografia moderna, representada por trabalhos como os de James Powell e Thomas Van Cleve, destaca que o concílio também tentou resolver um problema estrutural que havia afligido expedições anteriores: a fragmentação do comando. As cruzadas anteriores haviam sofrido com a multiplicidade de líderes seculares com agendas conflitantes. A solução de Latrão foi reforçar o papel do legado papal como autoridade coordenadora, um arranjo que, como veremos, produziu resultados precisamente opostos aos pretendidos.
A morte de Inocêncio III e a continuidade do projeto
Inocêncio III morreu em julho de 1216, antes que a expedição partisse. Seu sucessor, Honório III, herdou tanto o projeto quanto suas contradições. Honório era um homem de temperamento diferente — menos belicoso, mais inclinado à diplomacia e à paciência — mas manteve o compromisso com a cruzada como prioridade central do pontificado. Foram sob seus auspícios que os primeiros contingentes partiram para o Levante e que Pelágio de Albano recebeu poderes quase absolutos como representante papal na expedição.
A transição entre os dois papas também afetou as relações com o Sacro Império Romano. Frederico II havia feito votos de cruzada em 1215, mas sua participação efetiva foi perpetuamente adiada por razões políticas na Europa. A ausência de Frederico — que eventualmente lideraria a Sexta Cruzada sob ameaça de excomunhão — privou a Quinta de uma liderança secular unificada e de recursos imperiais consideráveis.
A Rota pelo Egito: Lógica Estratégica e Primeiros Avanços
Por que o Egito?
A decisão de atacar o Egito em vez de marchar diretamente sobre Jerusalém era, em termos puramente estratégicos, defensável. O sultanato aiúbida, fundado por Saladino e herdado por seus descendentes, tinha seu centro de gravidade no Nilo. Era do Egito que vinham os recursos — grãos, impostos, recrutamento — que sustentavam o poder muçulmano no Levante. Uma vitória no Egito significaria não apenas a captura de territórios, mas a possibilidade de negociar uma paz duradoura a partir de uma posição de força.
Damieta, a cidade-fortaleza na foz do ramo oriental do Nilo, era o objetivo imediato por razões táticas óbvias. Controlava o acesso fluvial ao interior egípcio, funcionava como porto comercial de primeira ordem e havia frustrado uma tentativa anterior de captura durante a Terceira Cruzada. A tomada de Damieta abriria o caminho para o Cairo — ou, alternativamente, para uma mesa de negociações em que os cruzados ditariam as condições.
O historiador R. C. Smail, em sua análise das operações militares cruzadas, observa que a lógica egípcia era correta em seus pressupostos, mas dependia de uma condição que a expedição jamais satisfez plenamente: coordenação entre os contingentes europeus e os estados cruzados já existentes no Levante. O Reino de Jerusalém, reduzido a uma faixa costeira após Hattin, tinha interesses específicos que nem sempre coincidiam com a grande estratégia papal.
A chegada e o cerco de Damieta (1218–1219)
Os primeiros contingentes cruzados chegaram à costa levantina em 1217, liderados pelo rei André II da Hungria e pelo duque Leopoldo VI da Áustria. Essa fase inicial da expedição concentrou-se em operações no próprio Levante — raids contra posições muçulmanas na Transjordânia e Galileia — sem resultado decisivo. André II, desanimado e doente, retornou à Europa em 1218, levando consigo parte significativa do contingente húngaro.
A expedição ao Egito propriamente dita começou quando a frota cruzada — reforçada por contingentes da Frísia, da Holanda e de outras regiões do norte da Europa — ancorou diante de Damieta em maio de 1218. O cerco que se seguiu foi uma operação notavelmente competente em seus aspectos técnicos. A Torre das Correntes, que bloqueava o acesso fluvial à cidade, foi capturada após combates intensos em agosto de 1218, abrindo o Nilo para as embarcações cristãs.
O sultão al-Adil, governante aiúbida, morreu durante o cerco, em agosto de 1218, e foi sucedido por seu filho al-Kamil no Egito. A transição dinástica criou momentaneamente instabilidade no campo muçulmano, mas al-Kamil provou ser um adversário competente e um diplomata habilidoso — qualidades que definiriam os anos seguintes da campanha.
Damieta caiu em novembro de 1219, após mais de um ano de cerco. A captura foi facilitada pela descoberta de que a guarnição havia sido dizimada por doenças, e os cruzados entraram na cidade praticamente sem resistência. Era o maior sucesso cristão no Oriente desde a Primeira Cruzada, e gerou euforia considerável na Europa.
São Francisco de Assis e a Missão de Paz
Um episódio marginal com implicações profundas
Em setembro de 1219, durante o cerco de Damieta, um franciscano italiano chamado Francisco de Assis atravessou as linhas inimigas para encontrar-se pessoalmente com o sultão al-Kamil. O episódio é amplamente documentado, embora suas motivações precisas permaneçam objeto de debate historiográfico.
Francisco não era um agente papal nem um emissário oficial — sua presença no campo cruzado era a de um pregador penitente que havia seguido a expedição como missionário. Sua travessia até o campo aiúbida parece motivada por uma combinação de fervor evangelizador e, possivelmente, de um desejo genuíno de encerrar o conflito por meios pacíficos. As fontes franciscanas, naturalmente hagiográficas, enfatizam o aspecto espiritual do encontro; fontes muçulmanas contemporâneas, como a crônica de Ibn al-Athir, mencionam o episódio com curiosidade mas sem atribuir-lhe significado político.
Al-Kamil recebeu Francisco com cortesia — uma reação consistente com seu temperamento e com as normas de hospitalidade do mundo islâmico medieval — e o dispensou sem conversão religiosa mas também sem violência. O episódio é frequentemente invocado em discussões sobre diálogo inter-religioso medieval, mas seu significado imediato para a cruzada foi nulo. No entanto, revela uma dimensão da expedição que a historiografia focada nos aspectos militares tende a negligenciar: a pluralidade de agendas e motivações que coexistiam dentro do movimento cruzadístico.
A Oferta de Al-Kamil e a Recusa de Pelágio
A proposta que mudaria a história
Pouco após a queda de Damieta, al-Kamil fez uma proposta que chocou contemporâneos e continua dividindo historiadores: a devolução de Jerusalém, da Vera Cruz e dos territórios do Reino de Jerusalém que Saladino havia conquistado em 1187, em troca da evacuação cristã do Egito e de um armistício de trinta anos. Era, em termos do que os cruzados haviam partido para buscar, o objetivo declarado inteiramente realizado sem combate adicional.
As razões de al-Kamil para fazer a oferta eram claras: o Egito era o coração do poder aiúbida, e trocá-lo por Jerusalém — uma cidade de valor simbólico e religioso imenso, mas de valor estratégico limitado — era um negócio racionalmente vantajoso. Além disso, al-Kamil enfrentava pressões internas no próprio mundo aiúbida, com príncipes rivais na Síria e na Mesopotâmia que poderiam explorar qualquer enfraquecimento egípcio.
Os argumentos de Pelágio e a recusa
O cardeal Pelágio rejeitou a oferta, e sua decisão é um dos momentos mais debatidos de toda a história das cruzadas. Os argumentos que ele teria apresentado, reconstruídos a partir de fontes como a Historia Damiatina de Oliverus Scholasticus, incluíam: a dificuldade de defender Jerusalém sem as fortalezas da Transjordânia (não incluídas na oferta); a expectativa da chegada iminente de Frederico II com reforços imperiais; e a convicção, alimentada por textos proféticos então circulantes, de que o Egito estava prestes a cair completamente nas mãos cristãs.
O ponto sobre as fortalezas transjordânicas não era sem mérito — os castelos de Kerak e Montreal controlavam as rotas entre o Egito e a Síria, e al-Kamil se recusou a incluí-los na oferta. Um Jerusalém sem controle dessas rotas estaria militarmente vulnerável. Mas a esperança em Frederico II, que já havia adiado a cruzada repetidamente, revelou-se ilusória, e os textos proféticos eram, na melhor das hipóteses, orientação espiritual duvidosa para tomadas de decisão militar.
O historiador James Powell, em seu estudo Anatomy of a Crusade, argumenta que a recusa de Pelágio não pode ser reduzida à arrogância clerical ou à incompetência — havia considerações militares legítimas. Mas Powell também reconhece que a estrutura institucional da expedição, com um legado papal detendo autoridade suprema sobre generais experientes, criou condições para que considerações de prestígio e autoridade eclesiástica pesassem mais do que o cálculo estratégico. O rei João de Brienne, regente do Reino de Jerusalém e o líder militar mais experiente no campo cristão, era favorável a aceitar a oferta — e foi sistematicamente ignorado.
O Avanço Sobre o Cairo e o Desastre Final
A marcha para o sul (1221)
Em julho de 1221, após meses de inação em Damieta, Pelágio finalmente ordenou o avanço sobre o Cairo. O momento era, ironicamente, o pior possível: a cheia anual do Nilo estava iminente, algo que qualquer observador com conhecimento básico da geografia egípcia poderia prever. Os estados cruzados do Levante haviam alertado sobre o risco; o rei João de Brienne opôs-se formalmente ao avanço; e mesmo dentro do campo cristão havia vozes dizendo que aguardar a estação seca seria elementar prudência militar.
O exército avançou de qualquer forma. Al-Kamil, que havia se preparado durante os meses de inação cristã, deixou as forças cruzadas penetrarem profundamente no delta antes de fechar a armadilha. Quando a cheia do Nilo chegou, em agosto, o exército cristão encontrou-se exatamente na posição que seus próprios líderes haviam temido: sem rota de retirada viável, com suprimentos cortados e com a cavalaria aiúbida bloqueando o avanço.
A rendição e seus termos
A negociação da rendição foi conduzida com pragmatismo de ambos os lados. Al-Kamil, que não precisava de uma batalha decisiva quando o tempo e a geografia já haviam decidido o resultado, aceitou deixar o exército cristão evacuar em troca da devolução de Damieta e de um armistício de oito anos. A Vera Cruz, que havia sido prometida na oferta de paz rejeitada dois anos antes, não foi incluída nos termos finais — al-Kamil simplesmente a reteve, o que alguns historiadores interpretam como punição pela recusa anterior, outros como sinal de que os aiúbidas nunca souberam onde ela estava.
Os cruzados evacuaram o Egito em setembro de 1221, voltando às mãos de uma Europa que os recebeu com uma mistura de incredulidade e indignação. A pergunta que dominaria os debates dos anos seguintes era inevitável: como uma expedição que havia chegado tão longe poderia terminar de forma tão completa?
Estrutura de Comando e Conflitos Internos
O problema da autoridade dual
A Quinta Cruzada sofreu de uma versão aguda de um problema estrutural que havia afligido o movimento cruzadístico desde suas origens: a tensão entre autoridade eclesiástica e liderança secular. As cruzadas eram, por definição, empreendimentos papais — convocados, bênçoados e parcialmente financiados pela Igreja. Mas sua execução prática dependia de líderes militares seculares com experiência em guerra, logística e diplomacia.
A solução do IV Concílio de Latrão — reforçar o papel do legado papal — tentou resolver esse problema pela afirmação de hierarquia, mas na prática criou uma cadeia de comando em que a autoridade máxima estava em mãos de um eclesiástico sem formação militar. Pelágio era um administrador competente e um negociador habilidoso em contextos eclesiásticos, mas sua compreensão das realidades da guerra no Egito era limitada. Sua tendência de sobrepor-se ao julgamento de João de Brienne — o homem com mais experiência de combate no Levante — em questões puramente militares foi desastrosa.
Os estados cruzados e seus interesses divergentes
O Reino de Jerusalém, os condados de Trípoli e de Edessa, e o Principado de Antioquia tinham interesses que nem sempre alinhavam com a grande estratégia papal. Para os barões do Levante, que viviam permanentemente na fronteira com o mundo muçulmano, a política de longo prazo era mais importante do que vitórias espetaculares de curto prazo. A oferta de al-Kamil era, da perspectiva desses barões, uma oportunidade genuína: recuperariam Jerusalém sem esgotar os recursos militares que precisavam para sua sobrevivência cotidiana.
Pelágio, por outro lado, representava uma perspectiva europeia que tendia a ver o conflito em termos binários — vitória total ou derrota total — sem a nuance que vinha de viver permanentemente sob a ameaça de um poder muçulmano muito maior. Essa diferença de perspectiva não era meramente pessoal; era estrutural, e a Quinta Cruzada a tornou visível de forma mais nítida do que qualquer expedição anterior.
Al-Kamil e a Perspectiva Aiúbida
Um sultão entre fronteiras
Al-Kamil (r. 1218–1238) é uma das figuras mais interessantes do período, e a historiografia recente tem trabalhado para reconstruir sua perspectiva para além do papel de antagonista da narrativa cruzadística. Filho de al-Adil e sobrinho de Saladino, al-Kamil herdou um sultanato que era simultaneamente poderoso e frágil: poderoso em recursos e território, frágil na coesão interna de uma dinastia que governava territórios dispersos do Egito à Mesopotâmia com príncipes rivais em cada ponta.
Sua oferta de paz aos cruzados não era, como às vezes é interpretada, uma demonstração de fraqueza — era um cálculo racional. Jerusalém tinha imenso valor simbólico para o mundo islâmico, mas o Egito era o substrato material do poder aiúbida. Trocar território egípcio por Jerusalém significaria perder o que não podia perder para manter o que, estrategicamente, era menos essencial. A ironia é que, quando a oferta foi rejeitada, al-Kamil ficou com ambos — e quando finalmente cedeu Jerusalém a Frederico II na Sexta Cruzada (1229), o fez em termos ainda mais favoráveis para os cristãos, sem precisar ter travado uma única batalha decisiva.
A cheia do Nilo como arma estratégica
A decisão de al-Kamil de deixar os cruzados avançar em julho de 1221, quando a cheia era iminente, revela sofisticação estratégica. Em vez de arriscar uma batalha aberta contra um inimigo disciplinado e bem armado, o sultão optou por usar a geografia egípcia como principal instrumento de derrota. As comportas que controlavam a irrigação do delta foram abertas estrategicamente; canais foram inundados; e a cavalaria foi posicionada para bloquear as rotas de retirada apenas quando as forças da natureza já haviam decidido o resultado.
Essa abordagem — poupar vidas muçulmanas usando o ambiente contra o inimigo — estava alinhada com uma tradição de sabedoria militar que valorizava a economia de recursos. O resultado foi uma vitória completa a um custo notavelmente baixo para os aiúbidas.
Legado e Interpretações Historiográficas
O fracasso que ensinou
A Quinta Cruzada falhou em seu objetivo declarado, mas produziu um corpus de reflexão estratégica e institucional que influenciou profundamente as expedições posteriores. Os tratados De recuperatione Terrae Sanctae — textos sobre como recuperar a Terra Santa — que proliferaram no século XIII estão em grande medida respondendo às lições da Quinta Cruzada. A questão do comando unificado, a necessidade de incluir as fortalezas transjordânicas em qualquer acordo de paz, a logística da campanha egípcia — todos esses temas aparecem repetidamente nesses textos.
A Sexta Cruzada de Frederico II (1228–1229), que recuperou Jerusalém sem combate através de negociação diretamente com al-Kamil, pode ser lida como uma correção das falhas da Quinta: o líder que havia sido prometido e nunca chegado finalmente veio, e o método diplomático que havia sido rejeitado em 1219 foi adotado com sucesso dez anos depois. A ironia não passou despercebida pelos contemporâneos.
A historiografia moderna
A historiografia moderna da Quinta Cruzada tem se movido em direções interessantes. A obra clássica de Thomas Van Cleve no volume da History of the Crusades editado por Kenneth Setton estabeleceu a narrativa padrão de fracasso por incompetência de liderança clerical. James Powell, em Anatomy of a Crusade (1986), ofereceu uma revisão importante: usando registros paroquiais e fontes de recrutamento, Powell demonstrou que a cruzada mobilizou participação popular significativamente maior do que se supunha, e que Pelágio era menos um vilão individual do que um produto de estruturas institucionais deficientes.
Mais recentemente, John Tolan e outros estudiosos das relações cristão-muçulmanas medievais têm explorado a expedição a partir de ângulos que incluem o episódio de Francisco de Assis, os tratados comerciais que continuaram entre mercadores europeus e egípcios mesmo durante o conflito, e as formas como a expedição foi recordada nas tradições muçulmanas. Essa abordagem pluralista, que recusa a visão da cruzada como mero choque civilizacional, enriqueceu consideravelmente nossa compreensão do período.
O problema das fontes
As fontes primárias para a Quinta Cruzada são relativamente abundantes para um conflito medieval, mas distribuídas de forma desigual. A Historia Damiatina de Oliverus Scholasticus é a narrativa cristã mais detalhada e foi escrita por um participante direto, o que lhe confere autoridade mas também viés. A crônica de Jacques de Vitry, bispo de Acre e outro participante, complementa Oliverus com perspectivas diferentes. Do lado muçulmano, Ibn al-Athir e Abu Shama fornecem contexto, mas nenhuma narrativa comparável em detalhamento às fontes cristãs.
A ausência de uma crônica muçulmana detalhada do cerco de Damieta significa que nossa compreensão da perspectiva aiúbida é mediada — e isso tem consequências interpretativas reais. Questões como as motivações precisas de al-Kamil ao fazer a oferta de paz, ou os debates internos no campo muçulmano durante o cerco, permanecem mais especulativas do que historiadores gostariam.
Conclusão: A Cruzada que Recusou a Vitória
A Quinta Cruzada é, em última análise, a história de uma oportunidade que as próprias estruturas do movimento cruzadístico tornaram impossível de aproveitar. A campanha foi conduzida com competência suficiente para capturar Damieta e para arrancar de al-Kamil uma oferta que equivalia à vitória diplomática total. Que essa vitória tenha sido recusada, e que a expedição tenha terminado em colapso estratégico, diz menos sobre a qualidade dos soldados no campo do que sobre as contradições institucionais de uma empresa que combinava objetivos religiosos com realidades políticas irredutíveis.
O legado de longo prazo da Quinta Cruzada é, paradoxalmente, mais rico do que o de muitas campanhas que terminaram em vitória. A expedição demonstrou que o Egito era o caminho correto para Jerusalém — uma conclusão confirmada pela Sexta Cruzada e, de forma diferente, pela Sétima. Demonstrou também que o comando unificado era indispensável e que a autoridade clerical sem formação militar criava mais problemas do que resolvia. E documentou, pela primeira vez com clareza cristalina, que a negociação com o adversário muçulmano poderia produzir resultados que a guerra era incapaz de garantir.
Francisco de Assis, que atravessou as linhas para conversar com al-Kamil enquanto Pelágio se recusava a aceitar sua oferta de paz, encarna essa contradição de forma quase alegórica. A Quinta Cruzada foi, ao mesmo tempo, o ponto mais alto e o ponto de inflexão decisivo do movimento cruzadístico clássico — o momento em que todas as suas possibilidades e todas as suas limitações ficaram expostas com igual nitidez.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre a quinta cruzada
O que foi a Quinta Cruzada? A Quinta Cruzada (1217–1221) foi uma expedição militar organizada pelo papado com o objetivo de recuperar Jerusalém através da conquista do Egito. Seu principal evento foi o cerco e a captura de Damieta, seguidos de um desastroso avanço sobre o Cairo que terminou em rendição.
Por que os cruzados atacaram o Egito em vez de marchar diretamente para Jerusalém? A estratégia egípcia partia do diagnóstico correto de que o poder muçulmano no Levante dependia dos recursos do Nilo. Sem controlar o Egito — ou ao menos neutralizá-lo — qualquer Jerusalém cristã estaria permanentemente vulnerável a reconquista, como a história de 1099 a 1187 demonstrava.
Quem foi o cardeal Pelágio de Albano e qual seu papel na cruzada? Pelágio era o legado papal designado para coordenar a expedição. Na prática, exerceu autoridade suprema sobre os líderes militares seculares, incluindo o rei João de Brienne. Sua decisão de recusar a oferta de paz de al-Kamil e de ordenar o avanço sobre o Cairo em julho de 1221 é considerada pela maioria dos historiadores como o erro decisivo da campanha.
O que foi a oferta de al-Kamil e por que foi recusada? Al-Kamil ofereceu a devolução de Jerusalém, da Vera Cruz e dos territórios perdidos em 1187 em troca da evacuação cristã do Egito e de um armistício de trinta anos. A oferta foi recusada principalmente porque não incluía as fortalezas transjordânicas e porque Pelágio esperava reforços imperiais de Frederico II que nunca chegaram.
Por que São Francisco de Assis foi ao campo aiúbida durante a cruzada? Francisco de Assis, que acompanhava a expedição como missionário, cruzou as linhas inimigas em setembro de 1219 para pregar ao sultão al-Kamil. O episódio é bem documentado mas suas motivações exatas são debatidas — podem ter incluído proselitismo, desejo de martírio ou uma tentativa de mediação pacífica. O encontro foi civilizado, mas sem resultado político imediato.
Como a Quinta Cruzada terminou? O exército cruzado, avançando sobre o Cairo em plena estação de cheias do Nilo, foi encurralado pelos aiúbidas. A rendição negociada em setembro de 1221 devolveu Damieta em troca da evacuação egípcia e de um armistício de oito anos. Os cruzados retornaram à Europa sem Jerusalém e sem a Vera Cruz.
Qual foi o impacto da Quinta Cruzada nas expedições posteriores? A Quinta Cruzada influenciou profundamente a teoria e a prática das cruzadas subsequentes. A Sexta Cruzada de Frederico II recuperou Jerusalém diplomaticamente, aceitando exatamente o tipo de acordo que Pelágio havia recusado. Os tratados De recuperatione Terrae Sanctae do século XIII discutem extensamente as lições logísticas e estratégicas da expedição.
A Quinta Cruzada poderia ter tido um resultado diferente? A maioria dos historiadores modernos acredita que sim — a aceitação da oferta de al-Kamil em 1219 ou 1220 teria produzido exatamente os objetivos declarados da cruzada sem necessidade de combate adicional. A questão é se as estruturas institucionais e as expectativas políticas do movimento cruzadístico permitiriam que tal acordo fosse aceito sem ser visto como derrota.
Leituras Recomendadas
POWELL, James M. Anatomy of a Crusade, 1213–1221. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1986.
VAN CLEVE, Thomas C. The Fifth Crusade. In: SETTON, Kenneth M. (ed.). A History of the Crusades. Vol. II. Madison: University of Wisconsin Press, 1969. p. 377–428.
RICHARD, Jean. The Crusades, c. 1071–c. 1291. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
TOLAN, John V. Saint Francis and the Sultan: The Curious History of a Christian-Muslim Encounter. Oxford: Oxford University Press, 2009.
TYERMAN, Christopher. God’s War: A New History of the Crusades. Cambridge: Harvard University Press, 2006.

