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A Sexta Cruzada: Como Frederico II Recuperou Jerusalém sem Derramar uma Gota de Sangue

No inverno de 1229, um imperador excomungado entrou em Jerusalém como conquistador sem disparar uma única flecha. Frederico II, soberano do Sacro Império Romano-Germânico, negociou com o sultão aiúbida Al-Kamil a devolução da Cidade Santa — um feito que nenhum cruzado armado conseguira desde a catástrofe de 1187. A notícia se espalhou pela Europa com uma mistura de incredulidade e escândalo: o homem que o papa Gregório IX chamava de anticristo havia conseguido o que exércitos inteiros fracassaram em alcançar.

A Sexta Cruzada (1228–1229) foi, de longe, a mais atípica das grandes expedições cruzadísticas. Não houve batalhas campal decisivas, não houve cercos sangrentos, não houve mártires celebrados. Em seu lugar, houve diplomacia, chantagem política e um tratado bilateral que escandalizo tanto a cristandade quanto o mundo islâmico. Frederico não era um cruzado devoto: era um administrador frio, poliglota, criado na Sicília multicultural, que entendia o islã não como inimigo teológico absoluto, mas como força política com quem se podia negociar.

Este artigo examina a Sexta Cruzada em toda a sua complexidade: o contexto que a tornou possível, a personalidade singular de Frederico II, as negociações com Al-Kamil, o tratado de Jaffa e suas consequências para o equilíbrio de poder no Mediterrâneo medieval. Serão analisadas também as reações — da Santa Sé, dos barões cruzados, do clero de Jerusalém e do mundo islâmico — a um acordo que produziu um resultado inesperado por meios completamente não convencionais.

A Sexta Cruzada não pode ser compreendida sem a Quinta (1217–1221), cujo fracasso em Damieta deixou a cristandade europeia ansiosa por uma nova expedição bem-sucedida, e sem a personalidade de Frederico II, herdeiro de duas tradições políticas incompatíveis e de um império que ia do Báltico à Sicília. Foi justamente essa posição de poder — e de conflito permanente com o papado — que moldou cada decisão do imperador no Oriente.


O Contexto: A Sombra da Quinta Cruzada e a Crise Política Europeia

O Fracasso de Damieta e a Promessa não Cumprida

A Quinta Cruzada terminou em 1221 com uma das derrotas mais humilhantes da história cruzadística. Os cruzados capturaram Damieta, no delta do Nilo, em 1219, e pareciam a ponto de conquistar o Egito — o coração do poder aiúbida. O sultão Al-Kamil chegou a oferecer a devolução de Jerusalém em troca de evacuação do Egito, oferta que o legado papal Pelágio de Albano rejeitou, convicto de que o auxílio imperial tornaria a vitória total possível.

Esse auxílio era Frederico II, que havia prometido ao papa Honório III liderar uma cruzada desde 1215, no Quarto Concílio de Latrão. Mas o imperador adiou sistematicamente a partida, sempre com razões plausíveis: consolidar o poder na Alemanha, administrar a Sicília, resolver disputas dinásticas. A ausência de Frederico em Damieta foi determinante: sem reforços, o exército cruzado avançou para o interior do Egito e foi encurralado pelas cheias do Nilo, forçado a capitular e a devolver Damieta sem nada em troca.

O papado culpava Frederico. Frederico culpava Pelágio. O resultado prático era que Jerusalém permanecia muçulmana e a promessa imperial de uma nova cruzada tornava-se cada vez mais urgente — e politicamente incontornável.

Frederico II: O Imperador Que Desconcertava a Europa

Para entender a Sexta Cruzada, é impossível dissociar o evento do homem que a liderou. Frederico II (1194–1250) era filho de Henrique VI, imperador germânico, e de Constança de Altavilla, herdeira do reino normando da Sicília. Criado em Palermo após a morte precoce dos pais, cresceu numa corte onde conviviam cristãos latinos, gregos ortodoxos, judeus e muçulmanos — com funcionários árabes, poetas islâmicos e astrônomos judeus no serviço real.

Essa formação multicultural produziu um governante radicalmente diferente dos monarcas medievais convencionais. Frederico falava seis línguas, incluindo o árabe. Correspondia-se com filósofos islâmicos, mantinha um zoológico com animais exóticos enviados por príncipes orientais e escreveu um tratado científico sobre falcoaria — De Arte Venandi cum Avibus — que permanece relevante até hoje. Os contemporâneos o chamavam de stupor mundi, “assombro do mundo”.

O historiador David Abulafia, em Frederick II: A Medieval Emperor (1988), argumenta que Frederico não era um racionalista moderno avant la lettre, como o romantismo oitocentesco gostava de retratá-lo, mas um governante medieval que utilizava com maestria as ferramentas intelectuais e diplomáticas disponíveis numa posição geopolítica singular — a do soberano de um reino mediterrâneo com fortes laços com o Oriente islâmico.

A Excomunhão e a Paradoxal Legitimidade da Cruzada

Em 1225, Frederico casou-se com Isabel II de Jerusalém, filha de João de Brienne, tornando-se assim rei de Jerusalém por direito matrimonial. A expedição cruzada, que já era uma obrigação política, tornava-se agora também uma questão dinástica: Frederico era rei de um reino que não controlava fisicamente.

O novo papa Gregório IX, eleito em 1227, era um canonista implacável, muito menos maleável que Honório III. Quando Frederico partiu para o Oriente em setembro de 1227 e retornou doente poucos dias depois — um surto de epidemia havia dizimado parte do exército —, Gregório o excomungou imediatamente, sem aceitar a explicação médica. O imperador havia, na visão papal, descumprido o voto cruzadístico mais uma vez.

A excomunhão criava um paradoxo jurídico e teológico sem precedente: um homem excomungado liderando uma cruzada. Para o papado, isso era inadmissível — um excomungado não podia receber indulgências, e qualquer expedição liderada por ele seria tecnicamente ilegítima. Para Frederico, era precisamente a pressão adicional que tornava a expedição urgente: ele precisava de uma vitória diplomática ou militar que o forçasse a negociar com Gregório de uma posição de força.

Em junho de 1228, Frederico partiu para o Oriente pela segunda vez. Gregório IX lançou uma bula declarando a expedição inválida e, ironicamente, atacou militarmente os territórios imperiais na Itália enquanto o imperador estava no Oriente. A cruzada do imperador excomungado havia começado.


Al-Kamil e a Política Aiúbida: Um Sultão sob Pressão

A Fragmentação do Império Aiúbida

Para compreender por que Al-Kamil estava disposto a negociar, é necessário entender a situação interna do sultanato aiúbida em 1228. Saladino havia morrido em 1193, e seu império foi dividido entre seus descendentes de acordo com a tradição aiúbida de partilha familiar do poder. O resultado era uma confederação de principados — Egito, Damasco, Alepo, Homs, Hama — governados por membros da família Aiúbida em constante tensão entre si.

Al-Kamil (r. 1218–1238) controlava o Egito e era nominalmente o soberano mais poderoso da confederação, mas enfrentava ameaças internas sérias. Seu irmão Al-Mu’azzam, sultão de Damasco, era seu rival político mais perigoso. Quando Al-Kamil havia oferecido Jerusalém aos cruzados durante a Quinta Cruzada, Al-Mu’azzam havia se oposto furiosamente — e mandou demolir as muralhas de Jerusalém para que a cidade, se capturada, não servisse de fortaleza ao inimigo.

Com a morte de Al-Mu’azzam em novembro de 1227 — poucos meses antes da chegada de Frederico —, o equilíbrio político mudou. Al-Kamil não precisava mais de Frederico como contrapeso contra Damasco. O imperador chegou ao Oriente num momento em que seu principal trunfo negociador — servir de aliado ao sultão egípcio contra seus rivais sírios — havia perdido parte de seu valor estratégico.

As Negociações: Diplomacia em Código

O contato diplomático entre Frederico e Al-Kamil não começou em 1228: havia anos em curso. Em 1226, o imperador havia enviado ao Cairo seu embaixador Baliano de Sidon com propostas concretas. Al-Kamil respondera com presentes generosos e promessas vagas — a linguagem habitual da diplomacia medieval quando se quer manter aberta uma via sem comprometer-se definitivamente.

Quando Frederico chegou a Acre em setembro de 1228, ambos os lados já conheciam as posições do outro com razoável precisão. As negociações formais foram conduzidas principalmente pelo emir Fakhr ad-Din, diplomata de confiança de Al-Kamil que falava latim e conhecia bem a corte imperial siciliana. As conversas se estenderam por meses, misturando questões territoriais com argumentos teológicos, pressões políticas e demonstrações de erudição mútua.

O historiador Peter Jackson, em sua análise das cruzadas, observa que Frederico utilizou deliberadamente sua reputação de soberano culturalmente próximo ao islã para facilitar as negociações, enquanto Al-Kamil estava disposto a fazer concessões territoriais que não comprometiam seus interesses estratégicos fundamentais — o Egito e as rotas comerciais do Mediterrâneo oriental.


O Tratado de Jaffa: Um Acordo sem Precedente

Os Termos Negociados

Em fevereiro de 1229, Frederico II e Al-Kamil assinaram o Tratado de Jaffa (também chamado Tratado de Tel Ajul), um acordo de dez anos que reorganizava a presença cristã na Terra Santa de forma radicalmente diferente de qualquer arranjo anterior.

Os termos centrais eram os seguintes: Jerusalém, Belém e Nazaré seriam devolvidas ao controle cristão, juntamente com um corredor territorial ligando a cidade ao porto de Jaffa. Além disso, os cruzados receberiam o controle de Sídon e parte da Galileia. Em contrapartida, a Mesquita de Omar (Domo da Rocha) e a Mesquita de Al-Aqsa permaneceriam sob administração muçulmana, com livre acesso garantido aos peregrinos islâmicos. Muçulmanos que vivessem nos territórios devolvidos manteriam seus direitos e propriedades. O tratado previa ainda liberdade de acesso aos lugares sagrados para peregrinos das três religiões abraâmicas.

Era um acordo que refletia uma realidade demográfica e espiritual complexa: Jerusalém era sagrada para cristãos, muçulmanos e judeus simultaneamente, e qualquer controle exclusivo de uma comunidade sobre a cidade criava problemas insolúveis para as demais. A solução negociada antecipava, em certos aspectos, debates sobre internacionalização e compartilhamento de soberania que continuariam por séculos.

A Coroação sem Bênção

Em 18 de março de 1229, Frederico II coroou-se rei de Jerusalém na Igreja do Santo Sepulcro. A cerimônia foi desprovida de qualquer bênção clerical: o patriarca de Jerusalém, Geraldo de Lausanne, havia lançado um interdito sobre a cidade em obediência às ordens de Gregório IX, e nenhum sacerdote estava autorizado a oficiar uma cerimônia que beneficiasse o imperador excomungado.

Frederico colocou a coroa em sua própria cabeça — um gesto carregado de simbolismo político. Era ao mesmo tempo uma afirmação de soberania independente do poder papal e uma humilhação deliberada ao clero que se recusava a reconhecê-lo. O cronista árabe Ibn Wasil registrou o evento com curiosidade, notando que o imperador discursou em árabe para os presentes e demonstrou conhecimento considerável das práticas islâmicas.

A reação do patriarca e do clero latino de Jerusalém foi de fúria. O bispo de Cesareia percorreu as ruas de Jerusalém lançando interdito sobre cada lugar que o imperador pisava. Os templários e hospitalários, ordens militares que dependiam da proteção papal, recusaram-se a participar das negociações com Al-Kamil e, segundo algumas crônicas, chegaram a alertar o sultão sobre os movimentos militares imperiais — um ato que Frederico considerou traição aberta.


As Reações: Escândalo em Todas as Direções

A Indignação do Mundo Islâmico

A reação no mundo muçulmano ao Tratado de Jaffa foi igualmente intensa, embora por razões opostas. Al-Kamil foi acusado por teólogos e líderes religiosos de ter traído o islã ao devolver a cidade três vezes sagrada aos infiéis. A perda de Jerusalém era percebida como humilhação insuportável — especialmente considerando que Saladino havia reconquistado a cidade em 1187 como triunfo do jihad islâmico, e que a memória dessa reconquista era parte central da identidade política aiúbida.

O qadi (juiz religioso) de Jerusalém, Shams al-Din, escreveu um poema lamentando a entrega da cidade, e a reação popular em Damasco e no Cairo foi de consternação. Al-Kamil justificou-se argumentando que o acordo era temporário — dez anos —, que os lugares sagrados islâmicos permaneciam sob controle muçulmano e que a cidade estava geograficamente indefensável sem suas muralhas, que Al-Mu’azzam havia demolido. A cessão era, em sua narrativa, uma concessão tática que preservava os interesses estratégicos islâmicos fundamentais.

O historiador Hamilton A.R. Gibb, numa análise clássica da política aiúbida, argumentou que Al-Kamil agiu com pragmatismo calculado: a presença cristã em Jerusalém era tolerável enquanto a ameaça dos cruzados à rota comercial egípcia fosse neutralizada, e o tratado de dez anos dava tempo para reequilibrar o jogo político no Oriente Médio.

A Reação Papal e dos Barões Cruzados

Em Roma, Gregório IX recusou-se a reconhecer o tratado como legítimo. Um excomungado não podia, na teoria canônica, realizar um ato de devoção válido — e uma cruzada era, por definição, um ato de devoção. O papa declarou o acordo inválido e ordenou ao patriarca de Jerusalém que lançasse interdito sobre a cidade — o que significava que nenhum sacramento poderia ser administrado enquanto Frederico a controlasse.

A situação criava absurdos práticos: peregrinos cristãos que chegavam a Jerusalém encontravam a Cidade Santa recuperada por um cristão, mas interdita pela própria Igreja. Os sacerdotes não podiam celebrar missa no Santo Sepulcro. O clero de Acre, a principal cidade cristã do Levante, chegou a atirar miúdos de animais em Frederico quando ele saiu da cidade — um insulto deliberado projetado para humilhá-lo publicamente.

Os barões do Reino de Jerusalém — a nobreza feudal instalada no Oriente há gerações — também resistiam a Frederico, embora por razões diferentes das do clero. O imperador tentava centralizar o poder real num reino que havia evoluído para uma monarquia extremamente limitada pelos direitos feudais da nobreza local. João de Ibelin, líder dos barões sírio-palestinos, encabeçou a resistência legal ao controle imperial — uma disputa que se estenderia anos depois da partida de Frederico.


A Gestão Imperial do Reino e a Partida

Frederico como Administrador do Oriente

Durante os meses em que permaneceu no Levante — de setembro de 1228 a maio de 1229 —, Frederico agiu como administrador sistemático do reino, não como guerreiro cruzado. Visitou as cidades costeiras, inspecionou as defesas, nomeou funcionários imperiais e tentou impor uma estrutura administrativa centralizada incompatível com as tradições feudais locais.

A visita a Jerusalém foi breve, mas simbolicamente poderosa. O imperador percorreu os lugares sagrados, visitou a Mesquita de Al-Aqsa — onde ficou hospedado — e, segundo a crônica de Ibn Wasil, fez perguntas detalhadas sobre teologia islâmica ao imã local. Teria criticado um muezim que moderou o volume do chamada à oração em sua presença por respeito: “Não mude sua rotina por minha causa”, teria dito Frederico, numa frase que resume bem sua atitude de curiosidade intelectual em relação ao islã.

A gestão do reino revelou os limites do acordo que Frederico havia construído. Sem uma guarnição imperial forte, sem o apoio das ordens militares e sem a cooperação do clero local, o controle cristão de Jerusalém dependia inteiramente da boa vontade de Al-Kamil — e da vigência de um tratado que expiraria em dez anos.

O Retorno e as Guerras Italianas

Em maio de 1229, Frederico soube que as tropas papais haviam invadido a Sicília e o sul da Itália em sua ausência. A ameaça direta a seu reino hereditário era mais urgente do que qualquer questão levantina. O imperador embarcou para a Europa, saindo de Acre sob uma chuva de miúdos e insultos da população local — um espetáculo que ilustra com crueza a distância entre o triunfo diplomático que havia alcançado e a impopularidade que cultivara no processo.

De volta à Itália, Frederico rapidamente expulsou as tropas papais e forçou Gregório IX ao Tratado de San Germano (1230), que levantou a excomunhão. O papa, confrontado com a realidade política de um imperador militar e diplomaticamente vitorioso, recuou. A excomunhão havia sido ineficaz como instrumento de pressão: Frederico conseguira Jerusalém enquanto estava excomungado, e agora retornava com força suficiente para ditar termos de reconciliação.


O Legado e o Colapso do Acordo

A Perda Definitiva de Jerusalém em 1244

O tratado de dez anos expirou em 1239. Os cruzados tentaram renovar as negociações com os aiúbidas, mas a situação política havia mudado radicalmente: Al-Kamil morreu em 1238, e seus sucessores não tinham os mesmos incentivos para manter o acordo. A luta intra-aiúbida recomeçou em novas configurações, e os cruzados tentaram explorá-la com alianças cambiantes — ora com Damasco contra o Cairo, ora com o Cairo contra Damasco.

Em 1244, uma força turcomana — os Khwarazmitas, deslocados pela expansão mongol — capturou Jerusalém a serviço do sultão egípcio Ayyub. O saque foi brutal, os cristãos foram massacrados ou expulsos, e a cidade nunca mais voltaria ao controle cristão durante a era medieval. A vitória diplomática de Frederico II provou-se uma solução temporária para um problema estrutural que não tinha resposta diplomática durável: a presença cristã no Oriente dependia de um equilíbrio de poder regional que estava sendo varrido pela expansão mongol e pela reorganização do mundo islâmico.

A Historiografia da Sexta Cruzada

A avaliação histórica da Sexta Cruzada variou enormemente conforme as épocas e perspectivas. Para os cronistas medievais contemporâneos — tanto cristãos quanto muçulmanos —, o acordo era escandaloso: uma traição ao jihad ou uma capitulação da fé cruzadística, conforme o ponto de vista.

O romantismo do século XIX redescobriu Frederico II como figura heroica: um homem de razão e tolerância num mundo de fanatismo. Jacob Burckhardt, em A Cultura do Renascimento na Itália, via em Frederico um precursor do humanismo renascentista. Ernst Kantorowicz, em Frederick the Second (1927), produziu uma biografia monumental que retratava o imperador como figura quase mítica, acima de seu tempo.

A historiografia mais recente, representada por Abulafia, Thomas Curtis Van Cleve e outros, trabalhou para desconstruir essa romantização sem perder de vista a singularidade real de Frederico. A Sexta Cruzada foi, de fato, um feito extraordinário — mas produto de cálculo político frio, não de tolerância filosófica. Frederico usou o conhecimento do islã como ferramenta diplomática, não como expressão de ecumenismo avant la lettre.

O Significado Político da Diplomacia Cruzadística

A Sexta Cruzada levanta questões que transcendem o contexto medieval. É possível recuperar territórios sagrados por meio de negociação sem que a recuperação seja sustentável? Quais são os limites da diplomacia quando os objetivos dos negociadores são fundamentalmente incompatíveis a longo prazo?

O tratado de Jaffa funcionou porque ambas as partes tinham incentivos imediatos para que funcionasse — Al-Kamil precisava de estabilidade para consolidar o poder egípcio, e Frederico precisava de um triunfo que justificasse sua posição política na Europa. Mas nenhuma das partes investiu os recursos necessários para tornar o acordo permanente: a cidade não foi refortificada adequadamente, a administração cristã local estava fragmentada e a boa vontade mútua era instrumental, não estrutural.

O historiador Jonathan Riley-Smith, um dos mais influentes especialistas em cruzadas do século XX, argumentou que a Sexta Cruzada representou o limite do que a diplomacia poderia alcançar no contexto cruzadístico: sem poder militar sustentado e sem coesão interna da sociedade cristã levantina, qualquer ganho territorial era intrinsecamente precário.


Conclusão: A Cruzada que Venceu sem Combater e Perdeu sem Guerrear

A Sexta Cruzada permanece um dos episódios mais intelectualmente estimulantes da história medieval precisamente porque desafia as categorias habituais. Não foi uma guerra santa no sentido convencional: foi uma negociação política conduzida por um excomungado com um sultão sob pressão interna, produzindo um acordo que ambos os lados rejeitavam como ideal.

Frederico II demonstrou que o problema cruzadístico não era essencialmente militar — era político. O que mantinha os cruzados no Oriente não era a força das armas, mas a fraqueza relativa dos estados islâmicos vizinhos e a disposição dos soberanos muçulmanos em tolerar a presença franca por razões comerciais e diplomáticas. Quando essa disposição desapareceu, com a chegada dos Khwarazmitas e depois dos mamelucos, nenhum tratado ou vitória militar isolada seria suficiente para reverter o processo.

O legado da Sexta Cruzada é, paradoxalmente, uma lição sobre os limites da diplomacia criativa. Frederico foi capaz de obter em meses de negociação o que décadas de guerra não haviam conseguido. Mas a sustentabilidade do acordo dependia de condições que nenhuma das partes controlava inteiramente — a estabilidade do sultanato aiúbida, a coesão da nobreza cruzada, a neutralidade das ordens militares e a ausência de atores externos que viessem reconfigurar o jogo.

Quando todos esses fatores mudaram simultaneamente, na década de 1240, a recuperação diplomática de Jerusalém revelou-se um intervalo, não uma solução. A cidade voltou ao controle islâmico em 1244 e lá permaneceria por séculos. A Sexta Cruzada havia conseguido o impossível — e mostrou que o impossível, quando finalmente alcançado, pode ser mais frágil do que qualquer vitória conquistada pela força.


FAQ – Perguntas Frequentes sobre a Sexta Cruzada

O que foi a Sexta Cruzada? A Sexta Cruzada (1228–1229) foi uma expedição liderada pelo imperador Frederico II do Sacro Império Romano-Germânico ao Oriente Médio. Distingue-se de todas as outras cruzadas por ter recuperado Jerusalém para o controle cristão não por meio de guerra, mas por meio de um tratado diplomático com o sultão aiúbida do Egito, Al-Kamil.

Por que Frederico II estava excomungado durante a cruzada? O papa Gregório IX excomungou Frederico II em 1227 porque o imperador havia adiado repetidamente a cruzada que prometera liderar desde 1215. Quando partiu e retornou doente em poucas semanas, o papa recusou-se a aceitar a explicação e lançou a excomunhão. Frederico partiu para o Oriente em 1228 já excomungado, criando um paradoxo jurídico-teológico sem precedente na história das cruzadas.

Quais foram os termos do Tratado de Jaffa? O Tratado de Jaffa (1229) previa a devolução de Jerusalém, Belém, Nazaré e um corredor costeiro ao controle cristão por dez anos. Em contrapartida, os lugares sagrados islâmicos — Domo da Rocha e Mesquita de Al-Aqsa — permaneceriam sob administração muçulmana, com garantia de acesso a peregrinos islâmicos. Muçulmanos residentes nas áreas cedidas manteriam seus direitos.

Como o mundo islâmico reagiu ao tratado? A reação foi de indignação generalizada. Al-Kamil foi acusado de trair o islã ao devolver a cidade que Saladino havia reconquistado em nome do jihad. Líderes religiosos, poetas e a população de Damasco e Cairo protestaram abertamente. Al-Kamil justificou o acordo como uma concessão tática temporária que preservava os interesses estratégicos do Egito.

Como a Igreja Católica reagiu ao tratado? O papa Gregório IX recusou-se a reconhecer o acordo como válido, argumentando que um excomungado não podia realizar um ato cruzadístico legítimo. O patriarca de Jerusalém lançou interdito sobre a cidade, proibindo os sacramentos enquanto Frederico a controlasse. As ordens militares — templários e hospitalários — recusaram-se a cooperar com o imperador durante toda a expedição.

Quanto tempo os cristãos controlaram Jerusalém após o tratado? O controle cristão durou aproximadamente quinze anos. O tratado expirou em 1239, e as negociações para renová-lo não produziram resultado permanente. Em 1244, forças Khwarazmitas a serviço do sultão egípcio capturaram Jerusalém, expulsaram os cristãos e a cidade nunca mais voltou ao controle cristão na era medieval.

Qual foi o papel das ordens militares na Sexta Cruzada? Templários e hospitalários opuseram-se ativamente à expedição de Frederico, em parte por lealdade ao papado e em parte por interesses próprios no Oriente. Recusaram-se a participar das negociações com Al-Kamil e, segundo algumas crônicas, chegaram a alertar o sultão sobre movimentos militares imperiais. Frederico os acusou de traição, mas não tinha poder para puni-los efetivamente, pois as ordens respondiam diretamente ao papa.

A Sexta Cruzada é considerada bem-sucedida pelos historiadores? O julgamento é dividido. Em termos imediatos, foi um sucesso notável: recuperou Jerusalém sem guerra, algo que exércitos inteiros fracassaram em fazer. Mas a sustentabilidade do acordo era estruturalmente frágil, e a perda definitiva da cidade em 1244 levou muitos historiadores a ver o tratado como solução temporária, não como conquista durável. Jonathan Riley-Smith e outros especialistas argumentam que o episódio demonstra os limites da diplomacia sem poder militar e coesão política suficientes.

O que aconteceu com Frederico II após a cruzada? Ao saber que tropas papais haviam invadido seus territórios italianos, Frederico retornou à Europa em maio de 1229 e expulsou rapidamente os invasores. Em 1230, o papa Gregório IX levantou a excomunhão pelo Tratado de San Germano. Frederico continuou governando o Sacro Império e o reino da Sicília até sua morte em 1250, em conflito intermitente com o papado.


Leituras Recomendadas

ABULAFIA, David. Frederick II: A Medieval Emperor. Oxford: Oxford University Press, 1988.

POWELL, James M. Anatomy of a Crusade, 1213–1221. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1986.

RUNCIMAN, Steven. A History of the Crusades. Vol. 3: The Kingdom of Acre and the Later Crusades. Cambridge: Cambridge University Press, 1954.

RILEY-SMITH, Jonathan. The Crusades: A History. 3. ed. London: Bloomsbury Academic, 2014.

VAN CLEVE, Thomas Curtis. The Emperor Frederick II of Hohenstaufen: Immutator Mundi. Oxford: Clarendon Press, 1972.

Fernando Rocha

Fernando Rocha, formado em Direito pela PUC/RS e apaixonado por história, é o autor e criador deste site dedicado a explorar e compartilhar os fascinantes acontecimentos do passado. Ele se dedica a pesquisar e escrever sobre uma ampla gama de tópicos históricos, desde eventos políticos e culturais até figuras influentes que moldaram o curso da humanidade."

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