CruzadasHistória do CristianismoHistória do IslamismoHistória Medieval

A Oitava Cruzada: A Última Grande Expedição do Ideal Cruzadístico e a Morte de Luís IX

O sol de agosto de 1270 castigava o acampamento cristão diante dos muros de Cartago com uma crueldade que parecia deliberada. Entre os milhares de soldados prostrados pela disenteria e pelo tifo, um homem idoso jazia numa cama improvisada de cinzas, cumprindo uma penitência que já não tinha como salvar nem a ele nem à expedição que liderara. Luís IX, rei da França, o monarca mais piedoso de sua geração, aquele que fora canonizado enquanto ainda vivia na memória coletiva da Europa cristã, fechou os olhos pela última vez no dia 25 de agosto, murmurando, segundo as crônicas, a palavra “Jerusalém”. Ao seu redor, o exército que ele reunira com anos de esforço diplomático e financeiro desintegrava-se não pelo ferro sarraceno, mas pela febre e pela diarreia. A Oitava Cruzada — a última grande expedição militar organizada sob o ideal cruzadístico original — terminava não com uma batalha épica, mas com o esvaziamento silencioso de um campo pestilento no norte da África. Era o fim de uma era.


O Contexto: Um Projeto em Agonia

O Fracasso Acumulado das Cruzadas Anteriores

Para compreender a Oitava Cruzada, é indispensável situá-la no arco de decadência que marcou o movimento cruzadístico após o apogeu da Primeira Cruzada (1096–1099). A reconquista de Jerusalém pelos exércitos de Saladino em 1187 inaugurara uma fase defensiva e desesperada para os estados latinos do Oriente. A Terceira Cruzada (1189–1192) conseguira negociar o acesso dos peregrinos à Cidade Santa, mas não sua recuperação. A Quarta Cruzada (1202–1204) desviou-se infamosamente para saquear Constantinopla, capital cristã ortodoxa, deixando uma cicatriz irreparável na cristandade. A Quinta (1217–1221) fracassou no Egito. A Sexta (1228–1229) recuperou Jerusalém por negociação diplomática, mas a cidade seria perdida novamente em 1244. A Sétima, liderada pelo próprio Luís IX entre 1248 e 1254, terminou com o rei capturado no Egito e resgatado por enorme soma — uma humilhação que o marcou pelo resto da vida.

O historiador Jonathan Riley-Smith, em sua obra The Crusades: A History (2005), argumenta que cada fracasso sucessivo não eliminou o ideal cruzadístico, mas o transformou. O que originalmente fora um movimento de entusiasmo popular e aristócratico converteu-se crescentemente numa empresa de Estado, dependente da coordenação política e financeira dos grandes reinos europeus. Essa transformação tornava as cruzadas mais organizadas em teoria, mas também mais vulneráveis aos cálculos e interesses das monarquias envolvidas.

O Avanço Mameluco e a Pressão sobre os Estados Latinos

Enquanto a Europa debatia e planejava, o poder islâmico no Oriente Próximo reorganizava-se sob o sultão mameluco Baibars I, que tomara o poder no Egito em 1260 e conduzira, no mesmo ano, a vital vitória de Ain Jalut contra os mongóis — a primeira derrota mongola de grande escala, que deteve o avanço da horda pelo Oriente Médio. Baibars era um estrategista formidável e um administrador hábil, que entendia que a sobrevivência do poder mameluco dependia da eliminação dos estados cruzados como potenciais aliados ocidentais de qualquer força invasora futura.

Entre 1265 e 1271, Baibars conduziu uma série devastadora de campanhas contra os remanescentes latinos: a queda de Cesareia, de Arsuf, de Safed, de Jaffa e, finalmente, de Antioquia em 1268 — a mais antiga das cidades cruzadas, fundada na esteira da Primeira Cruzada, arrasada em dias. A notícia do saque de Antioquia chegou à Europa como um choque sísmico. Luís IX, que já planejava uma nova expedição, interpretou o evento como sinal de urgência absoluta.


Luís IX e a Obsessão Cruzadística

O Rei Santo e Sua Segunda Cruzada

Luís IX da França (1214–1270) é uma das figuras mais singulares da história medieval europeia. Canonizado em 1297, apenas vinte e sete anos após sua morte, ele representava para seus contemporâneos o ideal do príncipe cristão: justo, piedoso, austero. Sua primeira cruzada, a Sétima, havia sido cuidadosamente planejada e financiada, mas terminara em desastre no Delta do Nilo — o próprio rei fora capturado em La Mansura em 1250 e mantido como prisioneiro até o pagamento de um resgate equivalente a anos de receita do reino francês.

O que é historicamente notável é que essa derrota humilhante, em vez de extinguir o ardor cruzadístico de Luís, intensificou-o. Ele passou os anos seguintes em Acra, reorganizando as defesas dos estados latinos, antes de retornar à França em 1254. Durante as duas décadas que se seguiram, governou o reino com notável competência enquanto mantinha a cruzada como projeto central de sua vida. O historiador Jean Richard, em Saint Louis: Crusader King of France (1983), documenta como Luís financiou pessoalmente espiões e emissários no Oriente Médio, manteve contatos com os mongóis em busca de uma aliança anti-islâmica e acumulou recursos financeiros para uma nova expedição.

A queda de Antioquia em 1268 precipitou a decisão. Em março de 1270, Luís tomou novamente o sinal da Cruz numa cerimônia solene, arrastando consigo três de seus filhos e grande parte da nobreza francesa.

A Diplomacia Fracassada: O Problema da Aliança Mongol

Um dos aspectos mais fascinantes — e trágicos — da preparação da Oitava Cruzada é a tentativa de coordenar uma aliança com o Il-khanato mongol da Pérsia, cujos governantes mostravam simpatia pelo cristianismo nestoriano. Essa aliança franco-mongol, se concretizada, poderia ter criado uma pinça devastadora sobre o poder mameluco. Missões diplomáticas foram enviadas e recebidas, mas a coordenação efetiva nunca se materializou — as distâncias eram imensas, os canais de comunicação lentos, e os interesses mongóis nem sempre convergiam com os ocidentais.

O historiador Peter Jackson, em The Mongols and the West, 1221–1410 (2005), analisa como essa incapacidade de traduzir o contato diplomático em cooperação militar representou uma das grandes oportunidades perdidas da história medieval. Com uma ação coordenada, o sultanato mameluco teria enfrentado uma pressão simultânea de Oriente e Ocidente que poderia ter alterado fundamentalmente o equilíbrio de poder no Oriente Próximo.


O Desvio para Túnis: Um Erro Estratégico Deliberado?

A Decisão Controversa

A decisão mais debatida da Oitava Cruzada é, sem dúvida, a escolha de atacar Túnis em vez de seguir diretamente para o Egito ou a Terra Santa. A lógica militar aparente era frágil: Túnis não era uma ameaça direta aos estados latinos, e o Egito — coração do poder mameluco — permanecia o alvo estratégico óbvio.

A decisão é geralmente atribuída à influência de Carlos de Anjou, irmão de Luís IX e rei da Sicília desde 1266. Carlos havia conquistado o sul da Itália e Sicília derrubando a dinastia Hohenstaufen com apoio papal, e Túnis era para ele um interesse econômico concreto: o Hafsida Muhammad I devia tributos à Sicília que deixara de pagar, e Túnis representava também uma ameaça à estabilidade do Mediterrâneo central. A interpretação mais cínica — e historicamente plausível — é que Carlos manipulou seu irmão devoto para usar o exército cruzado em benefício de seus próprios interesses sicilianos.

Luís, por sua vez, pode ter sido influenciado por relatórios — provavelmente exagerados ou fabricados — de que o califa hafsida Muhammad I estaria próximo de se converter ao cristianismo. Se Túnis fosse convertida pacificamente, raciocinou-se, ela poderia tornar-se uma base de apoio para operações ulteriores no Mediterrâneo. Riley-Smith observa que Luís era homem de profunda fé e inclinado a acreditar em possibilidades de conversão que diplomatas mais cínicos descartariam.

A Chegada a Cartago e o Colapso Imediato

A frota cruzada partiu de Aigues-Mortes em julho de 1270 e chegou às costas tunisianas com relativa rapidez. O desembarque ocorreu próximo às ruínas de Cartago, símbolo carregado de memória histórica para os letrados medievais. O acampamento foi estabelecido, e foi nesse ponto que a expedição começou a desintegrar-se não por ação inimiga, mas pela conjugação letal de calor mediterrâneo de agosto, abastecimento de água inadequado e as condições sanitárias deploráveis de um acampamento de dezenas de milhares de homens.

As doenças — identificadas pelas fontes medievais como “pestilência” e que os historiadores modernos atribuem principalmente à disenteria bacilar e ao tifo — espalharam-se com velocidade brutal pelo acampamento. Os primeiros a sucumbir foram soldados comuns, mas a doença não respeitava hierarquias. Um dos filhos de Luís, João Tristão, conde de Nevers, morreu em 3 de agosto. O próprio rei adoeceu progressivamente, recusando-se, segundo as crônicas, a abandonar seu posto de liderança ou sua rotina de oração e penitência.


A Morte de Luís IX e Seus Desdobramentos Imediatos

O Último Ato do Rei Santo

A morte de Luís IX em 25 de agosto de 1270 foi narrada por seus contemporâneos como uma morte exemplar de mártir cristão. As crônicas — particularmente a Vie de Saint Louis de Jean de Joinville, que acompanhara o rei na Sétima Cruzada mas não na Oitava — descrevem a agonia do monarca com o vocabulário hagiográfico típico das vidas de santos. Luís teria recitado salmos, pedido para ser deitado sobre cinzas como gesto de humildade, e pronunciado “Jerusalém” como última palavra.

Historicamente, a morte de Luís foi ao mesmo tempo o colapso moral da expedição e o catalisador de sua santificação imediata. O processo de canonização seria iniciado em 1272, dois anos após sua morte, e concluído em 1297 — uma velocidade notável para os padrões medievais. Sua figura tornaria-se o emblema do ideal cruzadístico europeu, um rei que morrera pela causa, o que paradoxalmente manteve vivo o projeto cruzadístico por mais algumas décadas mesmo após o fracasso retumbante da expedição.

A Chegada de Carlos de Anjou e a Negociação com Túnis

Carlos de Anjou chegou ao acampamento logo após a morte de seu irmão, assumindo o comando de facto da expedição. O que se seguiu foi revelador das verdadeiras prioridades do rei siciliano: em vez de prosseguir com a cruzada, Carlos negociou imediatamente com o sultão hafsida uma paz favorável. O tratado assinado em 1 de novembro de 1270 incluía o pagamento do tributo atrasado devido à Sicília, liberdade de comércio para mercadores cristãos em Túnis, permissão para que missionários cristãos operassem no território hafsida, e a libertação de cativos cristãos.

A historiadora Sylvia Schein, em Fideles Crucis: The Papacy, the West and the Recovery of the Holy Land (1991), observa com precisão que o tratado de Túnis foi essencialmente um acordo de paz siciliano-tunisino que utilizou o prestígio da cruzada como pressão negociadora. A Terra Santa não aparece no documento. O ideal pelo qual Luís morrera transformara-se, nas mãos de Carlos, num instrumento de política dinástica mediterrânea.


A Nona Cruzada: O Epílogo Inglês

Eduardo de Inglaterra e a Continuação Frustrada

A convenção histórica distingue a Oitava da Nona Cruzada, embora muitos historiadores tratem o episódio subsequente como simples continuação da mesma expedição. Eduardo, príncipe de Gales e futuro Eduardo I da Inglaterra, havia chegado à Tunísia com um contingente inglês quando as negociações de Carlos já estavam em andamento. Recusando-se a aceitar a capitulação, Eduardo partiu independentemente para Acra, chegando em maio de 1271.

Sua campanha na Terra Santa foi militarmente modesta — algumas incursões, a tentativa frustrada de coordenar ação com os mongóis do Il-Canato — mas politicamente significativa. Eduardo sobreviveu a uma tentativa de assassinato em Acra, atribuída pelas fontes a um emissário ismaelita (possivelmente a mando dos mamelucos), e negociou com Baibars uma trégua de dez anos antes de retornar à Europa em 1272, convocado pela morte de seu pai Henrique III.

A “cruzada” de Eduardo não alterou nada de fundamental no Oriente Próximo, mas sua disposição em prosseguir quando outros abandonavam a empresa deu-lhe um capital simbólico considerável na política europeia. O historiador Michael Prestwich, em Edward I (1988), argumenta que a experiência cruzadística moldou a autopercepção de Eduardo como rei guerreiro cristão — imagem que ele projetaria ao longo de seu reinado.


Análise Historiográfica: O Debate sobre a Oitava Cruzada

Fracasso Estrutural ou Acidente Histórico?

O debate historiográfico sobre a Oitava Cruzada gira em torno de uma questão fundamental: ela era condenada ao fracasso por razões estruturais, ou circunstâncias contingentes — a doença, a morte prematura de Luís, a interferência de Carlos — determinaram seu destino?

A escola estruturalista, representada por autores como Norman Housley em The Later Crusades, 1274–1580 (1992), argumenta que as cruzadas tardias enfrentavam contradições insuperáveis: a fragmentação política da Europa tornava a coordenação genuína impossível; os interesses das ordens militares, dos estados italianos e das monarquias nacionais eram frequentemente incompatíveis; e o crescente pragmatismo da diplomacia europeia tornava difícil sustentar o entusiasmo religioso necessário para mobilizar recursos humanos e financeiros em escala adequada.

A escola contingencialista, por sua vez, aponta que expedições anteriores — notadamente a Primeira Cruzada — haviam superado obstáculos igualmente formidáveis. Se Luís IX não tivesse morrido, se o exército não tivesse sido dizimado pela doença antes de qualquer combate significativo, se Carlos de Anjou não tivesse sequestrado a expedição para seus propósitos sicilianos, o resultado poderia ter sido diferente. Riley-Smith, nuançando a posição, observa que o fracasso cruzadístico não foi inevitável mas tornou-se progressivamente mais provável à medida que o poder islâmico consolidava-se sob líderes excepcionais como Baibars e seus sucessores mamelucos.

A Questão da Motivação: Piedade, Política e Comércio

Um dos desenvolvimentos mais frutíferos da historiografia cruzadística recente é a revisão da questão motivacional. Durante grande parte do século XIX e início do XX, os historiadores — influenciados tanto pela tradição romântica quanto pelo ceticismo iluminista — tenderam a ver as cruzadas como empreendimentos primariamente motivados por ganância e ambição política com verniz religioso. A síntese revisionista, elaborada por estudiosos como Riley-Smith, Jean Flori e Christopher Tyerman, demonstra que a motivação religiosa era genuína e central, coexistindo com interesses materiais sem ser reduzida a eles.

No caso de Luís IX, a questão é particularmente clara: sua motivação era autenticamente religiosa de uma forma que os contemporâneos reconheciam e os historiadores modernos confirmam. O problema, como argumenta Tyerman em God’s War: A New History of the Crusades (2006), é que a sinceridade religiosa de Luís não produzia necessariamente boa estratégia militar ou diplomática. A piedade excessiva pode ter tornado o rei impermeável a avaliações realistas da situação — incluindo a recomendação de vários conselheiros de que o ataque a Túnis não fazia sentido estratégico.


O Legado: O Fim do Ideal Cruzadístico Clássico

A Queda de Acra e o Fim dos Estados Latinos

A Oitava Cruzada não precipitou imediatamente o colapso dos estados latinos, mas a trajetória que se seguiu foi irreversível. Os sucessores de Baibars — Qalawun e depois al-Ashraf Khalil — continuaram sistematicamente a conquista das cidades cruzadas. Em 1291, a queda de Acra marcou o fim dos estados latinos do Oriente: os últimos cristãos foram evacuados para Chipre, e dois séculos de presença cruzada na Terra Santa chegaram ao fim.

A Oitava Cruzada é frequentemente identificada pelos historiadores como o ponto de inflexão psicológico dessa trajetória. A morte de Luís IX — o rei mais piedoso e comprometido da cristandade, que sacrificara sua vida ao projeto — funcionou como um sinal simbólico de que o ideal original havia chegado ao seu limite. Futuras “cruzadas” seriam planejadas, debatidas e ocasionalmente iniciadas, mas nenhuma recuperaria a escala ou o fervor das grandes expedições dos séculos XI ao XIII.

Os Projetos de Recuperação e Sua Esterilidade

Após 1270, houve intensa produção intelectual de “projetos de recuperação” — tratados elaborados por teólogos, diplomatas e militares que propunham estratégias para recuperar a Terra Santa. Figuras como Ramon Llull, Fidenzio de Pádua, Guilherme de Adam e Pierre Dubois produziram textos de grande sofisticação que circularam nas cortes europeias. Schein os analisa detidamente, mostrando que combinavam análise estratégica realista com propostas utópicas de reforma da Igreja e unificação da cristandade.

Esses projetos nunca foram implementados. O século XIV trouxe a Grande Fome, a Peste Negra e a Guerra dos Cem Anos — calamidades que reorientaram completamente as energias e recursos europeus. O papado, transferido para Avignon e depois dilacerado pelo Grande Cisma, perdeu a autoridade moral necessária para mobilizar a cristandade. As monarquias nacionais consolidavam-se em direções que tornavam a cooperação pan-europeia progressivamente mais difícil.

A Memória de Luís IX e a Construção do Mito Cruzadístico

O aspecto mais duradouro da Oitava Cruzada foi paradoxalmente sua derrota: a morte de Luís IX criou um mártir real que a Igreja canonizou e as monarquias europeias utilizaram como modelo de realeza cristã. São Luís tornou-se ponto de referência obrigatório no discurso político medieval tardio — cada rei que pleiteava liderança da cristandade precisava posicionar-se em relação ao seu exemplo.

A historiadora Cecilia Gaposchkin, em The Making of Saint Louis: Kingship, Sanctity, and Crusade in the Later Middle Ages (2008), rastreia com precisão como a memória de Luís foi construída e instrumentalizada nos séculos XIV e XV. Essa memória servia paradoxalmente tanto para inspirar novos projetos cruzadísticos quanto para lamentá-los como impossíveis — o rei santo havia dado tudo o que se podia dar, e o fracasso mesmo assim fora o resultado. Era um argumento poderoso, embora não intencional, para o abandono do projeto.


Conclusão: Uma Morte no Norte da África e o Fim de uma Era

A Oitava Cruzada representa muito mais do que uma expedição militar malsucedida. Ela é o epitáfio do ideal cruzadístico clássico — a ideia de que a cristandade ocidental, unida sob a liderança papal e mobilizada pela fé, poderia recuperar e defender os Lugares Santos contra os poderes islâmicos do Oriente Próximo. Essa ideia havia animado dois séculos de esforço coletivo, produzira realizações militares extraordinárias e também atrocidades terríveis, construíra estados frágeis e destruíra impérios estabelecidos.

A morte de Luís IX diante das ruínas de Cartago — ele próprio uma ruína de um homem, consumido pela doença antes de travar qualquer batalha significativa — sintetizava tragicamente as contradições do empreendimento: a sinceridade da fé e a inadequação dos meios; o grandioso projeto e a mesquinhez dos interesses que o desviaram; o sacrifício individual e a inutilidade coletiva.

Quando os últimos defensores de Acra foram evacuados em 1291, vinte e um anos depois, não havia mais ninguém de autoridade moral suficiente para organizar uma resposta à altura. O mundo havia mudado. Outros projetos, outras obsessões, outras formas de violência e de fé ocupariam os séculos seguintes. A Oitava Cruzada foi, nesse sentido, não apenas o último ato de uma saga, mas a cena em que o público começa a compreender, antes mesmo que a peça termine, que o fim está próximo.


FAQ – Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Por que a Oitava Cruzada atacou Túnis em vez da Terra Santa? A decisão deveu-se principalmente à influência de Carlos de Anjou, rei da Sicília e irmão de Luís IX, que tinha interesses econômicos e políticos diretos em Túnis — o sultão hafsida devia tributos à Sicília. Luís IX teria sido convencido também por relatos de que o sultão tunisino estaria próximo da conversão ao cristianismo, o que tornaria Túnis uma potencial base de apoio. A maioria dos historiadores modernos considera a decisão um erro estratégico grave.

2. O que causou a morte de Luís IX na Oitava Cruzada? Luís IX morreu de doença infecciosa — provavelmente disenteria bacilar ou tifo — que se espalhou rapidamente pelo acampamento cruzado diante de Cartago em agosto de 1270. As condições sanitárias precárias do acampamento, combinadas com o calor intenso e o abastecimento de água inadequado, criaram condições letais que mataram milhares de cruzados antes de qualquer combate significativo.

3. Quem assumiu o comando da cruzada após a morte de Luís IX? Carlos de Anjou, rei da Sicília e irmão de Luís, assumiu o comando logo após chegar ao acampamento tunisino. Em vez de prosseguir com a cruzada, Carlos negociou rapidamente uma paz com o sultão hafsida que beneficiou principalmente os interesses sicilianos — a expedição foi encerrada sem atingir qualquer objetivo cruzadístico original.

4. O que foi a Nona Cruzada e qual sua relação com a Oitava? A Nona Cruzada é o termo convencional para a expedição de Eduardo de Gales (futuro Eduardo I da Inglaterra) à Terra Santa em 1271–1272, que continuou após a dissolução da Oitava em Túnis. Eduardo chegou a Acra com forças limitadas, realizou algumas operações militares modestas e negociou uma trégua com Baibars antes de retornar à Europa. Muitos historiadores tratam as duas como fases de uma única expedição fracassada.

5. Baibars participou ativamente do combate contra a Oitava Cruzada? Não diretamente. A Oitava Cruzada nunca chegou ao Oriente Próximo — ficou confinada à Tunísia, fora do alcance imediato do poder mameluco. Baibars continuou suas campanhas contra os estados latinos na Terra Santa durante o período da expedição, capturando diversas cidades. Frente à expedição de Eduardo (Nona Cruzada), negociou uma trégua em vez de buscar confronto direto.

6. Como a morte de Luís IX influenciou o processo de sua canonização? A morte no contexto de uma cruzada — interpretada como sacrifício martirial — acelerou enormemente o processo. O inquérito de canonização foi iniciado em 1272, apenas dois anos após a morte, e Luís foi canonizado em 1297 pelo papa Bonifácio VIII. Sua morte em campanha religiosa foi apresentada como prova de santidade heroica, independentemente do fracasso militar da expedição.

7. Houve novas tentativas de cruzada após 1270? Sim, foram elaborados inúmeros projetos e algumas expedições menores, mas nenhuma grande cruzada militar à escala das anteriores foi realizada. A queda de Acra em 1291 eliminou o pretexto principal. No século XIV, a Peste Negra, a Guerra dos Cem Anos e o Grande Cisma do Ocidente absorveram as energias europeias. Cruzadas menores foram realizadas contra turcos no Mediterrâneo oriental e contra pagãos no Báltico, mas o projeto original de recuperação da Terra Santa nunca mais se materializou.

8. Qual foi o impacto da Oitava Cruzada sobre as relações entre a França e a Sicília? A expedição revelou as tensões entre os interesses de Luís IX (orientados pela fé e pelo ideal cruzadístico) e os de Carlos de Anjou (orientados pela política mediterrânea e pelos interesses sicilianos). A morte de Luís consolidou a posição de Carlos como o árbitro da expedição, que ele encerrou em termos favoráveis à Sicília. O episódio é frequentemente citado como exemplo da instrumentalização política do ideal cruzadístico pelos grandes poderes europeus.

9. Como os historiadores modernos avaliam a decisão estratégica de Luís IX de liderar outra cruzada após o fracasso da Sétima? As avaliações variam. Alguns historiadores, como Riley-Smith, destacam que a decisão era compreensível dentro do quadro mental da época e que Luís fizera uma preparação mais cuidadosa desta vez. Outros, como Tyerman, são mais críticos, argumentando que a experiência da Sétima Cruzada deveria ter tornado Luís mais cético quanto às possibilidades de sucesso. A maioria concorda que a piedade excepcional de Luís o tornava menos capaz de avaliar fria e realisticamente as chances de êxito.

10. Por que a Oitava Cruzada é considerada o fim do ideal cruzadístico clássico? Porque reuniu todas as condições para o sucesso — um rei excepcionalmente comprometido, recursos financeiros consideráveis, apoio papal e ampla participação nobiliárquica — e ainda assim fracassou completamente, sem sequer chegar a combater o inimigo pretendido. A morte de Luís funcionou simbolicamente como a exaustão do projeto: se o monarca mais piedoso da cristandade não conseguira realizá-lo mesmo ao custo de sua vida, o projeto em si parecia ter chegado ao limite de suas possibilidades.


Bibliografia

GAPOSCHKIN, M. Cecilia. The Making of Saint Louis: Kingship, Sanctity, and Crusade in the Later Middle Ages. Ithaca: Cornell University Press, 2008.

HOUSLEY, Norman. The Later Crusades, 1274–1580: From Lyons to Alcazar. Oxford: Oxford University Press, 1992.

JACKSON, Peter. The Mongols and the West, 1221–1410. Harlow: Pearson Longman, 2005.

RICHARD, Jean. Saint Louis: Crusader King of France. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.

RILEY-SMITH, Jonathan. The Crusades: A History. 2. ed. New Haven: Yale University Press, 2005.

SCHEIN, Sylvia. Fideles Crucis: The Papacy, the West and the Recovery of the Holy Land, 1274–1314. Oxford: Clarendon Press, 1991.

TYERMAN, Christopher. God’s War: A New History of the Crusades. Cambridge: Harvard University Press, 2006.

Fernando Rocha

Fernando Rocha, formado em Direito pela PUC/RS e apaixonado por história, é o autor e criador deste site dedicado a explorar e compartilhar os fascinantes acontecimentos do passado. Ele se dedica a pesquisar e escrever sobre uma ampla gama de tópicos históricos, desde eventos políticos e culturais até figuras influentes que moldaram o curso da humanidade."

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *