Maria Bochkareva e o seu Batalhão da Morte
No final de junho de 1917, segundo o calendário juliano então em vigor na Rússia, uma coluna de mulheres uniformizadas, com os cabelos cortados rente e fuzis ao ombro, reuniu-se diante da catedral de Santo Isaac, em Petrogrado, para receber a bênção da Igreja e uma bandeira de combate. À frente delas estava uma camponesa de ombros largos e voz de sargento, condecorada com a Cruz de São Jorge, que havia passado quase três anos nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Chamava-se Maria Bochkareva, e o governo provisório esperava que ela e suas recrutas fizessem o que ministros, generais e comitês de soldados já não conseguiam: devolver ao exército russo a vontade de lutar.

Maria Leontievna Bochkareva (1889–1920) foi uma soldado russa de origem camponesa que serviu como combatente no exército imperial entre 1914 e 1917 e comandou o Primeiro Batalhão Feminino da Morte, formado em Petrogrado no verão de 1917. Foi a primeira mulher russa a comandar uma unidade militar e a mais célebre das mulheres que combateram na frente russa. Depois da Revolução de Outubro, aliou-se à causa antibolchevique, viajou aos Estados Unidos e à Grã-Bretanha e, de volta à Sibéria, foi presa e fuzilada pela Tcheka em Krasnoyarsk, em 16 de maio de 1920.

Este artigo reconstitui a trajetória de Bochkareva em ordem cronológica: as origens camponesas, a violência doméstica que marcou sua juventude, o ingresso no exército, a formação do batalhão, a batalha de Smorgon, a derrota diante dos bolcheviques, a viagem diplomática de 1918 e o fim em Krasnoyarsk. Ao longo do texto, procura-se separar o que as fontes documentam do que repousa apenas na memória dela, sobretudo no livro Yashka, ditado a um jornalista. Também se responde a dúvidas frequentes: se o batalhão defendeu o Palácio de Inverno, se combateu de fato e por que o governo o criou.

Para entender Bochkareva é preciso situá-la num momento específico. A Rússia de 1917 vivia a queda do tsarismo, o colapso da disciplina militar e a disputa entre o Governo Provisório, os sovietes e os bolcheviques. Nesse cenário, o corpo de uma mulher armada deixou de ser uma curiosidade e passou a ser um símbolo político, usado, disputado e, depois, apagado ou reescrito por todos os lados. O contexto geral do conflito está tratado no artigo sobre a Primeira Guerra Mundial; aqui o foco é uma vida que atravessou esse conflito e a revolução que ele produziu.
Das margens de Novgorod à Sibéria: origens camponesas
Maria Frolkova nasceu em julho de 1889, na aldeia de Nikolskoye, no governo de Novgorod, no noroeste da Rússia europeia. Seus pais, Leonti e Olga Frolkov, eram camponeses pobres, e a família tinha pouco a esperar da terra que cultivava. O sobrenome Bochkareva, pelo qual ficou conhecida, viria do primeiro marido. Quase tudo o que se sabe sobre sua infância procede do seu próprio relato, o que impõe cautela: não há registros paroquiais ou administrativos que permitam conferir cada detalhe.

Quando ainda era criança, a família migrou para a Sibéria. O movimento não era isolado. Desde a abolição da servidão, em 1861, e sobretudo depois da lei de 1889 sobre o reassentamento voluntário e do início da construção da Ferrovia Transiberiana, em 1891, centenas de milhares de camponeses do centro e do norte da Rússia seguiram para o leste em busca de terra, emprego e, em alguns casos, de uma vida menos sujeita à pressão dos proprietários e à superpopulação das aldeias. A família Frolkov instalou-se na região de Tomsk, e é nesse mundo de colonos pobres que Maria cresceu.
A infância foi de trabalho. Meninas camponesas daquele meio costumavam cuidar de irmãos menores e servir em casas alheias antes de completar dez anos, e Maria não teve instrução formal além do mínimo. O que a distingue não é uma origem excepcional, mas justamente a sua banalidade: ela representa a massa de mulheres do campo que o Império Russo quase nunca registrava. Essa condição ajuda a entender por que, mais tarde, a guerra lhe pareceu uma saída e não apenas uma tragédia.
A historiadora Barbara Alpern Engel, em sua síntese sobre as mulheres na Rússia, mostra que a vida de uma camponesa dependia de laços de dependência: do pai, do marido, do sogro. A Sibéria oferecia terra mais abundante, mas não alterava essa estrutura patriarcal. O ponto interessa porque o enredo de Yashka começa pela fuga de uma vida de submissão, e esse enredo só faz sentido se se compreender quão estreitas eram as alternativas legais e sociais abertas a uma mulher como ela.
Casamento, violência e uma vida sem saída
Por volta dos quinze anos, Maria casou-se com Afanasi Bochkarev, homem que, segundo o seu relato, bebia e a espancava com regularidade. A idade do casamento, embora baixa para os padrões atuais, não era incomum nas aldeias russas do início do século XX, e a violência doméstica era vista como parte da autoridade do marido. A legislação imperial reforçava essa hierarquia: a esposa devia obediência ao cônjuge e, em geral, precisava de sua autorização para obter um passaporte interno e mudar de residência.
Ela deixou o marido e passou a viver com Yakov Buk, açougueiro de Tomsk. Segundo o seu relato, Buk foi preso, acusado de roubo, e deportado para a região de Yakutsk, no extremo nordeste da Sibéria. Maria o acompanhou ao exílio, onde a relação se deteriorou: Buk tornou-se violento, e ela passou a trabalhar para sobreviver. É dessa convivência que viria o apelido que a acompanharia na caserna, Yashka, forma familiar de Yakov, que os soldados atribuíram a ela e que daria título às memórias.
É importante registrar a natureza dessas informações. Elas procedem de Yashka, narrativa de vida construída a posteriori, num momento em que Bochkareva falava a públicos ocidentais interessados em uma heroína. Nada impede que os fatos básicos sejam verdadeiros, e a violência contra mulheres camponesas é bem documentada pela historiografia social. Mas a organização do relato, com o sofrimento privado preparando a redenção pública no campo de batalha, tem uma lógica narrativa que convém não confundir com cronologia verificada.
Nesse ponto, a pergunta que muitos leitores fazem é por que uma mulher nessas condições escolheria a guerra. A resposta das fontes é ambígua, e a própria Bochkareva oferece mais de uma. Ela fala de patriotismo, de desejo de servir à pátria e de uma vontade de recomeçar longe da casa onde apanhava. Esses motivos não se excluem. A guerra, que destruiu milhões de vidas, oferecia a algumas mulheres uma ruptura radical com a rotina de dependência doméstica, e isso não precisa ser romantizado para ser reconhecido.
Mulheres em armas na Rússia imperial
Quando a guerra começou, em agosto de 1914, a lei russa proibia mulheres de servir como combatentes. A tradição, porém, conhecia exceções célebres. A mais famosa era Nadezhda Durova, oficial de cavalaria que se alistou disfarçada de homem nas guerras napoleônicas e publicou memórias. Esse precedente mostra que a ideia de uma mulher soldado existia no imaginário russo, mas como curiosidade individual, nunca como política de Estado.

Em 1914, milhares de mulheres alcançaram o front de outras maneiras. As irmãs de misericórdia, enfermeiras voluntárias ou profissionais, serviram em número muito maior do que o de combatentes; entre elas estavam a imperatriz Alexandra e suas filhas mais velhas, Olga e Tatiana, que trabalharam em hospitais militares. Outras mulheres, em número impossível de calcular com precisão, alistaram-se disfarçadas de homens ou foram aceitas por comandantes sem formalidades. As estimativas dos historiadores variam de algumas centenas a vários milhares, e a própria incerteza revela o caráter extralegal do fenômeno.
Laurie Stoff, autora da principal monografia sobre as mulheres soldados russas da Primeira Guerra, defende que a guerra total estimulou uma reação patriótica entre as mulheres, em paralelo à dos homens, e que muitas viram no serviço militar uma reivindicação de cidadania. Melissa Stockdale, em artigo sobre patriotismo e alistamento feminino, converge nesse ponto: não se tratava apenas de fuga pessoal, mas de uma pretensão de pertencimento à nação em armas. Bochkareva é, nessa leitura, o caso mais visível de um fenômeno mais amplo.
O comando militar imperial tolerava essas mulheres de maneira desigual. Algumas eram expulsas ao serem descobertas; outras, quando provavam coragem, eram condecoradas e mantidas. A diferença entre as duas sortes dependia muito do comandante local e da circunstância. É nesse espaço de ambiguidade, entre a proibição formal e a tolerância prática, que se abre a possibilidade de Maria Bochkareva se alistar.
A soldado Bochkareva no front (1914–1917)
Segundo o relato de Yashka, Maria enviou um telegrama diretamente ao tsar Nicolau II, pedindo autorização para se alistar, e obteve resposta favorável. A história é repetida na maior parte das biografias, mas não dispõe de corroboração documental independente, e alguns historiadores a consideram possível, porém embelezada. O que se sabe com mais segurança é que ela ingressou no 25º Batalhão de Reserva de Tomsk e, depois de um período de treinamento, foi enviada ao front como soldado do exército imperial, em 1915.
Os primeiros meses foram de hostilidade. Os homens do batalhão a assediavam e a testavam, e ela afirma ter exigido ser tratada como um soldado qualquer. Aos poucos, a disposição de cavar trincheiras, carregar feridos e avançar sob fogo ganhou respeito. Seus companheiros passaram a chamá-la de Yashka, e a hostilidade inicial deu lugar a algo próximo da camaradagem. O quadro, descrito por ela, é plausível: unidades isoladas pela lama e pelo medo tendiam a avaliar o indivíduo pelo que ele fazia sob fogo, não pelo que era.
Bochkareva serviu na frente ocidental, na região onde hoje ficam Belarus e Lituânia, em um dos teatros mais duros do conflito. Foi ferida mais de uma vez; as fontes falam em duas ou três ocasiões, e as biografias diferem quanto aos detalhes. Recebeu a Cruz de São Jorge e medalhas por bravura, foi promovida a cabo e depois a suboficial, e ganhou reputação de pessoa capaz de manter a calma enquanto outros recuavam. Esses fatos, ao contrário do telegrama ao tsar, são mencionados também em outras fontes, ainda que todas dependam, em última análise, de seu testemunho.
A experiência no front moldou o que viria depois. Bochkareva viu, a partir de março de 1917, o exército russo se desfazer. A Ordem nº 1 do Soviete de Petrogrado, emitida em 1º de março pelo calendário juliano, criou comitês de soldados e restringiu a autoridade dos oficiais; a deserção em massa, o que Lenin chamaria de “votar com os pés”, corroeu a capacidade de combate. Para uma soldado que fizera da disciplina a condição de sua própria aceitação, a desordem era uma ofensa pessoal e política, e isso explica a rigidez com que comandaria suas recrutas.
Fevereiro, Kerensky e a ideia do batalhão
A Revolução de Fevereiro derrubou Nicolau II e instalou o Governo Provisório, com Aleksandr Kerensky como figura cada vez mais central. Ministro da Guerra a partir de maio, Kerensky apostou numa ofensiva para reanimar o exército e demonstrar aos Aliados que a Rússia revolucionária continuaria na guerra. Faltavam, porém, soldados dispostos a atacar. Surgiram então os batalhões de choque, ou “da morte”, formados por voluntários que prometiam não recuar, e foi nesse contexto que a ideia de um batalhão feminino ganhou corpo.

O papel exato de Bochkareva na concepção do projeto é objeto de discussão. Em seu relato, a iniciativa foi dela: depois de assistir à desagregação das tropas, teria concluído que o exemplo de mulheres dispostas a morrer envergonharia os homens e os faria voltar a lutar. A resenha de Cloé Drieu sobre a edição francesa de Yashka resume o percurso conhecido: o Soviete de Petrogrado rejeitou a proposta; Mikhail Rodzianko, presidente da Duma, a recebeu com entusiasmo; e ela se encontrou com o general Brusilov e com Kerensky, que a aprovaram. Os historiadores admitem que a ideia circulava em outros meios e que Bochkareva foi, antes de tudo, a executora e o rosto do projeto.
A motivação do governo era essencialmente simbólica. A expectativa era que a visão de mulheres armadas despertasse vergonha nos soldados homens, que seriam instados a não deixar a defesa da pátria a cargo de camponesas e operárias. Era um recurso de propaganda, e muitos contemporâneos o perceberam assim. Orlando Figes, em sua história da Revolução Russa, trata os batalhões femininos como parte do teatro político de Kerensky, mais eficaz como gesto do que como instrumento militar.
A sufragista britânica Emmeline Pankhurst, que visitou a Rússia em 1917 em missão de apoio à continuidade da guerra, encontrou-se com Bochkareva e saudou a iniciativa, o que mostra como o episódio repercutiu fora do país. Para parte do movimento feminista internacional, o batalhão era a prova de que as mulheres mereciam plena cidadania; para outros, uma exploração cínica do patriotismo feminino. Essas duas leituras, que continuam presentes na historiografia, não se anulam.
Disciplina de ferro: recrutamento e organização do batalhão
Com a autorização obtida, Bochkareva lançou apelos públicos de recrutamento. Cerca de duas mil mulheres se apresentaram, entre operárias, estudantes, camponesas, enfermeiras e mulheres de classe mais alta, de idades que iam do fim da adolescência à casa dos quarenta. A heterogeneidade social é um dos aspectos mais citados: o batalhão não era composto por um único tipo de mulher, o que torna difícil atribuir a ele uma motivação comum, para além do desejo declarado de servir.
A disciplina que ela impôs foi dura. Os dias de treinamento eram longos, o regulamento proibia vaidades como cosméticos e cabelos compridos, e a obediência era exigida sem discussão. Bochkareva recusava a eleição de oficiais e a atuação de comitês, justamente o que a revolução havia introduzido no exército regular. Em seu relato, chega a admitir o uso de castigos físicos. A consequência foi uma evasão em massa: das cerca de duas mil voluntárias iniciais, restaram aproximadamente trezentas, número repetido por quase todas as fontes, embora com variações.
Esse conflito revela uma tensão central do período. De um lado, a lógica da revolução democratizava as relações militares; de outro, Bochkareva e os defensores da continuidade da guerra entendiam que sem hierarquia não haveria exército. Muitas das mulheres que deixaram o batalhão queixaram-se de tratamento brutal, e a imprensa da época registrou o descontentamento. Outras permaneceram justamente por reconhecerem em sua comandante a firmeza que buscavam.
O treinamento, curto e apressado, ficou em parte a cargo de instrutores homens de um regimento da guarnição de Petrogrado. O batalhão foi abençoado em Santo Isaac no fim de junho de 1917; as fontes divergem quanto ao dia exato, entre 21 e 25 de junho pelo calendário juliano, e quanto à data de partida para o front. Essa imprecisão é típica de um episódio contado sobretudo por memórias e jornais, e não por documentos militares sistematizados.
Smorgon: o único combate do batalhão
O Primeiro Batalhão Feminino da Morte foi enviado à frente ocidental, na região de Smorgon, atual Belarus, e integrado ao esforço da chamada ofensiva Kerensky, lançada em meados de 1917. Na Galícia, a ofensiva obteve avanços iniciais e, em seguida, foi revertida por contra-ataques alemães que levaram a uma retirada desorganizada. No setor onde estavam as mulheres, houve combates em julho, mas as datas variam entre as fontes, que oscilam entre o início e o fim do mês, e é prudente tratar a cronologia exata como incerta.
O que as fontes concordam em dizer é que o batalhão foi à linha de frente, avançou sob fogo e tomou posições inimigas. Relatos favoráveis falam em três linhas de trincheiras alemãs capturadas; o de Bochkareva sustenta que as mulheres foram além do que se esperava, enquanto os soldados homens que deveriam apoiá-las hesitaram ou se recusaram a avançar. Sem reforços, a posição não pôde ser mantida. O balanço de baixas é impreciso: fala-se em dezenas de mortas e feridas, e a própria comandante saiu ferida.
O juízo sobre a importância militar do episódio exige equilíbrio. Como operação, Smorgon não alterou o rumo da ofensiva nem da guerra; a retirada russa prosseguiu. Como fato simbólico, porém, teve peso: provou que mulheres podiam combater e, ao mesmo tempo, mostrou os limites do projeto, pois os homens não se envergonharam de modo a retomar o ataque. Quem tomava a unidade como arma de propaganda constatava que a propaganda não substituía disciplina, abastecimento e confiança nos comandantes.
Há ainda uma observação sobre as fontes. O relato mais detalhado vem de Bochkareva, que tinha interesse em apresentar a atuação das mulheres como exemplar e a conduta dos homens como covarde. Laurie Stoff, ao estudar os batalhões, sugere que a imagem de bravura é plausível, mas que os números e o desfecho exato devem ser lidos com cautela. Memórias ditadas depois do fato, sobretudo a um público estrangeiro simpático, tendem a ordenar e a engrandecer.
Outubro de 1917: o Palácio de Inverno e o fim do batalhão
Um dos equívocos mais comuns sobre Bochkareva é associá-la à defesa do Palácio de Inverno, em outubro de 1917. A imagem das mulheres soldados cercadas pelos bolcheviques ganhou fama no relato de John Reed e em fotografias e filmes posteriores, mas a unidade que ali esteve era outra: uma companhia do 1º Batalhão Feminino de Petrogrado, formação distinta, criada em meio ao entusiasmo que se seguiu à fundação do batalhão de Bochkareva. O batalhão dela estava no front quando os bolcheviques tomaram o poder e não participou da defesa.
Depois de Smorgon, Bochkareva passou a circular em ambientes políticos e militares antibolcheviques. Segundo seu relato e a maior parte das biografias, esteve no quartel-general do general Lavr Kornilov, a quem admirava, e foi reconhecida como oficial. Com a Revolução de Outubro, as unidades femininas foram dissolvidas, e o ambiente tornou-se perigoso para os que tinham servido ao Governo Provisório. Foi detida pelos bolcheviques; no seu relato, chegou a ser interrogada no Instituto Smolny por dirigentes do novo regime, e escapou da execução com ajuda de pessoas que a reconheceram.
A crônica da dissolução do batalhão é, em certo sentido, a crônica do fim da experiência. O Estado soviético que se formava não tinha interesse em unidades que lembrassem o regime anterior, e as mulheres que haviam servido nelas voltaram à vida civil, fugiram ou foram assimiladas a novas formações. A questão de saber se o governo bolchevique mobilizou mulheres para combate, o que de fato ocorreu durante a Guerra Civil, merece tratamento próprio e foge ao escopo desta biografia.
Os rumores sobre o tratamento dado às defensoras do Palácio de Inverno, incluindo acusações de violência sexual, foram amplificados pela propaganda antibolchevique e, em parte, desmentidos por investigações da época. Stoff e outros autores sustentam que houve maus-tratos, mas que a dimensão das histórias é incerta e foi usada politicamente. É um exemplo de como o corpo das mulheres soldados serviu de matéria de disputa entre campos opostos muito depois de sua atuação militar.
Estados Unidos, Grã-Bretanha e a diplomacia da heroína (1918)
Em 1918, Bochkareva deixou a Rússia pelo Pacífico e chegou aos Estados Unidos, onde foi recebida por autoridades. Reuniu-se com o presidente Woodrow Wilson e, na Grã-Bretanha, com o rei Jorge V, em busca de apoio para uma intervenção aliada contra os bolcheviques. A viagem tinha, assim, um caráter político: ela não era apenas uma celebridade, mas porta-voz de uma causa. Para as potências aliadas, uma soldado russa condecorada e antibolchevique era uma figura útil para a opinião pública.
Foi nessa estada que o seu relato foi registrado. O jornalista de origem russa Isaac Don Levine colheu suas memórias, que foram traduzidas e publicadas em 1919 nos Estados Unidos sob o título Yashka: My Life as Peasant, Officer and Exile. O livro se tornou o principal documento sobre sua vida e, por muito tempo, a única fonte substancial sobre o batalhão. Sua publicação em inglês, e não em russo, indica o público a que se dirigia.
Em agosto de 1918, Bochkareva reapareceu em Arkhangelsk, no norte da Rússia, área sob controle dos Aliados e de forças brancas, onde tentou organizar uma nova unidade feminina, sem sucesso. A cena é reveladora: a mesma mulher que, um ano antes, simbolizava a vontade de resistência do governo democrático agora procurava soldados num território disputado por tropas estrangeiras e russos brancos. O contexto da Guerra Civil já não permitia uma figura como a dela exercer o papel simbólico de 1917.
Kolchak, Tomsk e o fuzilamento em Krasnoyarsk
Em 1919, ela voltou à Sibéria, onde o almirante Aleksandr Kolchak liderava o governo branco. As fontes divergem quanto ao local e à data exatos do encontro, mas concordam em que Kolchak não autorizou um batalhão de combate e a encarregou de formar um destacamento médico feminino. Ela chegou a reunir um grupo de mulheres, segundo algumas versões cerca de duzentas, mas o regime de Kolchak desmoronou antes que a tarefa se completasse.
Com o avanço do Exército Vermelho, Tomsk caiu. Bochkareva foi presa pela Tcheka em dezembro de 1919; a resenha de Cloé Drieu situa a prisão em 24 desse mês. Levada a Krasnoyarsk, foi interrogada durante meses. Fontes de orientação soviética e russa contemporânea registram que não havia provas de que tivesse combatido o Exército Vermelho, e mesmo assim foi condenada como inimiga da classe trabalhadora e fuzilada em 16 de maio de 1920, aos trinta anos.
Sua morte tem duas leituras que convivem. Para a polícia política bolchevique, ela era um símbolo do antigo regime e de seus aliados estrangeiros, e a condenação se encaixava na lógica do terror da Guerra Civil, em que oficiais e simpatizantes brancos eram eliminados em larga escala. Para seus defensores, foi uma vítima da repressão, executada por seus vínculos com uma causa derrotada, e não por atos concretos. Segundo informações frequentemente citadas pela literatura, houve reabilitação oficial no período pós-soviético.
Historiografia: como ler Yashka e o que se discute
O problema metodológico central é que a história de Bochkareva depende de um único texto principal, ditado a Levine, e de pouca documentação independente. Levine era um jornalista com opiniões antibolcheviques firmes, e o livro foi publicado num momento em que a opinião pública americana se dividia sobre a intervenção na Rússia. Isso não invalida o testemunho, mas obriga o historiador a distinguir fato documentado, interpretação plausível e hipótese ou elaboração narrativa.
Dois eixos de debate se destacam. O primeiro é a eficácia militar dos batalhões femininos. Para Figes, a iniciativa foi sobretudo teatral, um gesto de Kerensky sem efeito estratégico. Stoff matiza, argumentando que a unidade combateu de fato e que sua criação deve ser entendida dentro de um quadro mais amplo de participação feminina na guerra. A interpretação majoritária é que os batalhões tiveram valor simbólico relevante e peso militar insignificante, mas ninguém contesta que as mulheres de Smorgon se expuseram ao fogo.
O segundo eixo é o gênero. Stockdale e Engel leem o fenômeno como parte de uma disputa sobre cidadania: a guerra teria aberto a possibilidade de as mulheres reivindicarem direitos políticos com base no sacrifício pela nação, e o governo de 1917, que concedeu o voto feminino em julho, reconheceu em parte essa lógica. Outros autores destacam a instrumentalização, argumentando que as mulheres foram usadas para constranger homens, o que reforçaria estereótipos em vez de rompê-los. As duas hipóteses podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
Por fim, há o risco do anacronismo. Julgar Bochkareva por critérios atuais, seja para celebrá-la como feminista avant la lettre, seja para condená-la por seus métodos disciplinares ou por sua adesão aos brancos, ignora que ela agia em um mundo de patriotismo de guerra, hierarquia rígida e violência política generalizada. A dificuldade em enquadrá-la numa categoria única, feminista, nacionalista, conservadora ou revolucionária, é justamente o que a torna reveladora do período.
Conclusão
A trajetória de Maria Bochkareva reúne, numa só vida, as forças que atravessaram a Rússia entre 1905 e 1920: a pobreza camponesa e a migração para a Sibéria, a subordinação das mulheres, a guerra total, a queda do tsarismo, a tentativa liberal de salvar a república pela mobilização simbólica e, por fim, a Guerra Civil, que não deixou espaço para a posição que ela ocupava. Ela foi, ao mesmo tempo, combatente real e peça de propaganda, e a análise histórica precisa manter as duas dimensões.
Seu legado é duplo e contestado. Na memória russa e ocidental, tornou-se a “Joana d’Arc russa”, imagem que a historiografia recente trata com reservas. Para a história das mulheres, ela ilustra a ampliação do espaço feminino na guerra e os limites de sua aceitação. A repetição de um modelo semelhante, bem mais organizado, aparece décadas depois nas mulheres soviéticas da Segunda Guerra Mundial, como as das Bruxas da Noite, tema de outro artigo deste site; o papel mais amplo das mulheres ao longo dos séculos é tratado em texto próprio.
Perguntas frequentes (FAQ)
Quem foi Maria Bochkareva?
Maria Leontievna Bochkareva (1889–1920) foi uma soldado russa de origem camponesa, condecorada na Primeira Guerra Mundial, que comandou o Primeiro Batalhão Feminino da Morte em 1917. Foi fuzilada pela Tcheka em Krasnoyarsk, em 16 de maio de 1920.
O que foi o Batalhão da Morte feminino?
Foi uma unidade de voluntárias criada em Petrogrado, em junho de 1917, com autorização do Governo Provisório. Reunia cerca de trezentas mulheres após a seleção severa feita por Bochkareva e tinha função combatente e simbólica: encorajar os soldados homens a retomar a luta.
Por que o batalhão foi criado?
O Governo Provisório buscava reanimar um exército em desagregação durante a ofensiva Kerensky. A presença de mulheres combatentes deveria despertar vergonha nos homens que desertavam e reforçar a imagem de uma Rússia revolucionária disposta a continuar a guerra.
O batalhão de Bochkareva defendeu o Palácio de Inverno?
Não. A defesa do Palácio de Inverno, em outubro de 1917, foi feita por uma companhia do 1º Batalhão Feminino de Petrogrado, unidade distinta. O batalhão de Bochkareva estava no front, onde havia combatido em Smorgon.
O batalhão chegou a combater?
Sim, em uma única grande ação, na região de Smorgon, em julho de 1917. As mulheres avançaram e tomaram posições alemãs, mas, sem apoio dos homens, não puderam mantê-las, e houve dezenas de baixas entre mortas e feridas.
Qual a diferença entre Bochkareva e outras mulheres soldados da guerra?
Muitas mulheres serviram disfarçadas ou como enfermeiras, sem reconhecimento oficial. Bochkareva foi a primeira a comandar oficialmente uma unidade feminina e a mais célebre, em parte graças à publicação de suas memórias.
Como ela morreu?
Foi presa pela Tcheka em Tomsk, em dezembro de 1919, interrogada em Krasnoyarsk e fuzilada em 16 de maio de 1920, acusada de ser inimiga da classe trabalhadora por ter servido à causa branca.
Por que o livro Yashka deve ser lido com cautela?
Porque foi ditado a um jornalista antibolchevique e publicado em inglês para um público ocidental. Os fatos principais são considerados plausíveis, mas detalhes como o telegrama ao tsar e as cifras de baixas carecem de comprovação independente.
Leituras recomendadas
BOCHKAREVA, Maria. Yashka: My Life as Peasant, Officer and Exile. Registrado por Isaac Don Levine. Nova York: Frederick A. Stokes, 1919.
EDMONDSON, Linda (org.). Women and Society in Russia and the Soviet Union. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.
ENGEL, Barbara Alpern. Women in Russia, 1700–2000. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
FIGES, Orlando. A People’s Tragedy: The Russian Revolution, 1891–1924. Londres: Jonathan Cape, 1996.
STOFF, Laurie S. They Fought for the Motherland: Russia’s Women Soldiers in World War I and the Revolution. Lawrence: University Press of Kansas, 2006.

