Generais de Hitler: Brilhantismo Militar e Responsabilidade Histórica
Na madrugada de 30 de janeiro de 1943, o Feldmarechal Friedrich Paulus enviou seu último telegrama de Stalingrado. Em torno dele, o que restava do 6.º Exército alemão agonizava entre os escombros de uma cidade destruída, cercado por três frentes soviéticas. Hitler havia prometido socorro que nunca chegou e recusado qualquer possibilidade de retirada. Paulus, promovido a Feldmarechal horas antes num gesto calculado para induzi-lo ao suicídio — nenhum marechal alemão havia se rendido vivo —, optou por se entregar. A derrota de Stalingrado foi o símbolo mais brutal de uma relação que definiu a Segunda Guerra Mundial: a entre Adolf Hitler e seus generais, marcada por dependência mútua, adulação, ressentimento, ambição e, ao final, cumplicidade num dos maiores crimes da história.

Os generais de Hitler não eram homens simples que apenas obedeciam ordens. Eram profissionais altamente qualificados, herdeiros de uma das tradições militares mais respeitadas da Europa, formados na escola do Estado-Maior prussiano. Erwin Rommel, Erich von Manstein, Heinz Guderian, Wilhelm Keitel, Alfred Jodl — cada um desses nomes carrega uma história de brilhantismo tático, ambição pessoal e envolvimento, em diferentes graus, com o regime nazista e seus crimes. A questão de até que ponto eram executores voluntários ou vítimas de um sistema totalitário permanece um dos debates mais intensos da historiografia militar do século XX.
Este artigo examina os principais generais do III Reich, suas trajetórias individuais, suas relações com Hitler, suas contribuições militares e sua responsabilidade histórica. Serão analisados os conflitos entre o Alto Comando da Wehrmacht e Hitler, a dinâmica de poder que tornava difícil — mas não impossível — a resistência às ordens criminosas, e o modo como cada um desses homens escolheu navegar entre a lealdade institucional, a ambição pessoal e a consciência moral. O debate historiográfico, que vai de apologistas do pós-guerra como Manstein ao revisionismo crítico de Omer Bartov e outros, será igualmente considerado.
A Wehrmacht não era uma instituição apolítica que apenas combatia enquanto o regime nazista cometia crimes à margem. Como demonstraram historiadores como Hannes Heer e Klaus Naumann na coletânea Vernichtungskrieg, o exército alemão participou ativamente do extermínio na frente oriental, de execuções de reféns, do massacre de populações civis e da implementação de ordens criminosas. Entender os generais de Hitler exige, portanto, muito mais do que analisar batalhas e operações: exige compreender como homens talentosos e formados em tradições de honra e profissionalismo tornaram-se engrenagens de uma máquina de destruição em escala industrial.
A Wehrmacht e Hitler: Uma Relação de Poder Assimétrica
O Exército Herdado e a Ascensão de Hitler
Quando Adolf Hitler chegou ao poder em janeiro de 1933, o Reichswehr — o exército alemão limitado a 100.000 homens pelos termos do Tratado de Versalhes — era uma instituição orgulhosa de sua autonomia profissional. Os generais se consideravam herdeiros de Moltke e Schlieffen, guardiões de uma tradição de superioridade técnica e doutrinária. A relação inicial com Hitler foi de cautela calculada: os militares viam nele um instrumento para o rearme e a revisão do Tratado de Versalhes, enquanto Hitler via nos generais a força profissional que precisava para seus objetivos expansionistas.
A ruptura da autonomia militar ocorreu de forma gradual mas irreversível. Em 1934, o Juramento de Lealdade pessoal a Hitler — substituindo o juramento à Constituição — criou um vínculo de obediência que muitos generais, formados numa cultura de honra e palavra empenhada, levariam a sério até o fim. Em 1938, a demissão do Ministro da Guerra Werner von Blomberg e do Comandante do Exército Werner von Fritsch, orquestrada pela SS nazista com acusações forjadas, eliminou os últimos representantes do establishment militar tradicional em posições de liderança máxima. Hitler aboliu o Ministério da Guerra e assumiu pessoalmente o comando supremo das forças armadas, criando o Oberkommando der Wehrmacht (OKW), com Wilhelm Keitel como chefe de estado-maior — um homem que seria apelidado pelos próprios colegas de Lakeitel, um trocadilho depreciativo com Lakai, lacaio.
O OKW vs. o OKH: Duas Cadeias de Comando em Conflito
Uma das peculiaridades estruturais do comando alemão durante a guerra foi a coexistência de dois altos comandos: o OKW (Oberkommando der Wehrmacht), responsável pela coordenação geral e pelos teatros “ocidentais”, e o OKH (Oberkommando des Heeres), o Alto Comando do Exército, responsável principalmente pela frente oriental. Esta divisão, fruto das preferências e desconfianças de Hitler, criava sobreposições de autoridade, disputas de recursos e confusões estratégicas que prejudicaram repetidamente o esforço de guerra alemão.

O OKW, encarnado por Keitel e Alfred Jodl, funcionava essencialmente como um instrumento de transmissão da vontade de Hitler, sem capacidade real de planejamento estratégico autônomo. O OKH, sucessivamente liderado por Walther von Brauchitsch (até 1941) e pelo próprio Hitler após Brauchitsch ser forçado a renunciar, abrigava os oficiais de estado-maior mais qualificados, mas sua influência estratégica foi progressivamente solapada. Generais como Franz Halder, Chefe do Estado-Maior do OKH de 1938 a 1942, registraram em diários detalhados sua crescente frustração com as interferências de Hitler nas decisões operacionais — e, ao mesmo tempo, sua própria incapacidade ou falta de vontade de resistir efetivamente.
O Mecanismo da Adulação e da Dependência
Hitler tinha uma habilidade singular para criar vínculos de dependência pessoal com seus generais. As promoções extraordinárias — especialmente após a campanha da França em 1940, quando doze generais foram promovidos simultaneamente a Feldmarechal — criavam lealdades baseadas em gratidão pessoal e ambição satisfeita. Os generais que recebiam Dotações (Dotationen), transferências secretas de dinheiro e propriedades do erário pessoal de Hitler, ficavam duplamente comprometidos: eram devedores pessoais do Führer, o que tornava qualquer resistência ainda mais psicologicamente custosa.

O historiador Norman Ohler, em O Reich Entorpecido, e Geoffrey Megargee, em Inside Hitler’s High Command, documentam como as conferências no quartel-general de Hitler — o Führerhauptquartier — tornavam-se rituais de submissão onde qualquer objeção devia ser formulada com extremo cuidado para não parecer derrotismo ou traição. Generais que contradiziam Hitler repetidamente eram afastados, exonerados ou, no caso de alguns, investigados pela Gestapo. O custo da resistência era alto; o benefício da conformidade, imediato.
Wilhelm Keitel: O Lacaio do Führer
Wilhelm Keitel é frequentemente apontado como o caso mais extremo de subserviência ao poder de Hitler dentro do alto escalão militar. Chefe do OKW de 1938 até o fim da guerra, Keitel assinou ou transmitiu algumas das ordens mais criminosas do regime, incluindo o Kommissarbefehl (Ordem dos Comissários, de 1941, determinando a execução sumária de oficiais políticos soviéticos capturados) e o infame Nacht und Nebel Erlass (Decreto Noite e Névoa, de 1941, pelo qual civis em territórios ocupados podiam ser secretamente presos, deportados e executados).

Um General Sem Comando
Keitel nunca liderou tropas em combate. Sua carreira foi inteiramente administrativa, e sua ascensão à posição máxima do OKW deveu-se sobretudo à sua disposição de subordinar seu julgamento profissional à vontade de Hitler. Os colegas que o chamavam de lacaio não eram injustos: Keitel tinha consciência das limitações de sua própria autoridade e as aceitava como condição de sua permanência. Em várias ocasiões registradas, o próprio Keitel admitiu discordâncias com decisões de Hitler em suas memórias escritas na prisão aguardando execução, mas argumentou que não tinha poder de mudá-las.
Esta posição é contestada por historiadores como Richard Evans, que em O Terceiro Reich em Guerra argumenta que a subserviência de Keitel não era uma imposição estrutural inevitável, mas uma escolha pessoal continuamente renovada. Keitel tinha posição suficiente para resistir, demitir-se em protesto ou ao menos recusar-se a assinar ordens claramente ilegais pelo direito internacional e pelas próprias normas militares alemãs. Que tenha optado pela conformidade torna-o, na avaliação do Tribunal de Nuremberg que o condenou à morte, plenamente responsável por seus atos.
Nuremberg e o Legado de Keitel
No julgamento de Nuremberg, Keitel foi condenado por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Sua defesa — que apenas obedecia ordens de um superior legítimo — foi rejeitada pelo tribunal, que estabeleceu o princípio de Nuremberg segundo o qual a obediência a ordens superiores não constitui defesa suficiente para crimes contra a humanidade. Keitel foi executado por enforcamento em 16 de outubro de 1946. Ironicamente, este homem que havia passado anos servindo a um regime que glorificava o poder militar foi negado pelo tribunal em seu pedido de ser fuzilado — uma morte de soldado — e enforcado como criminoso comum.
Alfred Jodl: O Estrategista da Obediência
Alfred Jodl, Chefe do Estado-Maior de Operações do OKW, era um homem intelectualmente mais sofisticado do que Keitel. Oficial de artilharia brilhante e estrategista competente, Jodl acreditava genuinamente que sua lealdade a Hitler era uma questão de dever nacional, não mero oportunismo. Era menos um lacaio do que um verdadeiro crente na missão do regime — o que o tornava, em certos aspectos, ainda mais perigoso.

Jodl planejou e coordenou operações em vários teatros de guerra. Sua competência técnica era incontestável. Contudo, usou essa competência para implementar ordens criminosas com a mesma eficiência que aplicava ao planejamento operacional. Foi ele quem assinou, em nome do OKW, o documento de rendição incondicional da Alemanha em Reims, a 7 de maio de 1945 — um desfecho que, dada sua trajetória, carregava ironia sombria.
Como Keitel, Jodl foi julgado em Nuremberg, condenado à morte e executado. Uma revisão pós-guerra feita por um tribunal alemão chegou a anular sua condenação por considerá-la tecnicamente insuficiente segundo normas processuais alemãs, mas essa decisão foi posteriormente revertida. O debate sobre a culpabilidade de Jodl permanece mais vivo do que o de Keitel: alguns historiadores militares reconhecem nele um profissional altamente qualificado cujo caso revela a tensão irresolvível entre competência técnica e responsabilidade moral.
Erich von Manstein: O Gênio Relutante
Se Keitel encarna a subserviência, Erich von Manstein representa a figura mais complexa e historicamente debatida entre os generais de Hitler. Considerado por muitos — incluindo o próprio Churchill — como o mais talentoso general do conflito, Manstein foi o arquiteto do Plano Sichelschnitt (Corte da Foice), a genial manobra que levou à derrota da França em 1940, e o salvador de facto do Grupo de Exércitos Sul após a catástrofe de Stalingrado, com sua brilhante contraofensiva de Kharkov em fevereiro-março de 1943.

O Gênio do Plano Sichelschnitt
O plano original para a invasão da França, elaborado pelo OKH, era uma versão cautelosa que repetia grosseiramente a estratégia da Primeira Guerra Mundial. Manstein, então Chefe de Estado-Maior do Grupo de Exércitos A, propôs uma alternativa radicalmente diferente: concentrar o peso blindado no Ardennes, sector que os Aliados julgavam intransponível para blindados, e avançar em direção ao Canal da Mancha, cortando e cercando as forças aliadas na Bélgica. O plano foi inicialmente rejeitado pelos superiores de Manstein, mas acabou chegando a Hitler — que o adotou entusiasticamente, em parte porque correspondia ao seu instinto de ousadia.
A campanha da França, executada em maio-junho de 1940, foi um triunfo que chocou o mundo. A rapidez da derrota francesa — em seis semanas, uma das maiores potências militares do mundo havia capitulado — foi atribuída em grande medida ao plano de Manstein e à sua execução por Guderian. Para Manstein, a vitória consagrou sua reputação, mas também o vinculou mais profundamente ao regime cujos sucessos militares ajudava a produzir.
Kharkov e a Arte do Contragolpe
A Terceira Batalha de Kharkov, em fevereiro-março de 1943, é frequentemente citada como a obra-prima de Manstein em combate defensivo-ofensivo. Após a catástrofe de Stalingrado, o Grupo de Exércitos Sul estava em recuo caótico. Manstein recusou-se a entrar em pânico e, em vez de pedir reforços ou estabelecer linhas defensivas estáticas, esperou que a ofensiva soviética se estendesse além de suas linhas de abastecimento e então lançou um contragolpe devastador que reconquistou Kharkov e estabilizou temporariamente a frente sul. A operação demonstrou uma maestria na guerra de movimento — a capacidade de transformar derrota em oportunidade — que poucos generais na história militar possuíram.
O Mito da Wehrmacht Limpa e a Cumplicidade de Manstein
O pós-guerra produziu o que historiadores chamam de Mito da Wehrmacht Limpa: a narrativa, promovida pelos próprios generais sobreviventes em suas memórias, de que o exército profissional alemão havia travado uma guerra honrosa, segundo as regras, enquanto as atrocidades eram perpetradas pela SS e por órgãos do partido. Manstein foi um dos principais arquitetos desse mito em suas memórias Verlorene Siege (Vitórias Perdidas), publicadas em 1955.
A historiografia posterior demoliu sistematicamente essa narrativa. No caso específico de Manstein, há evidências documentadas de que, como comandante do 11.º Exército na Criméia (1941-1942), Manstein sabia das operações dos Einsatzgruppen — unidades móveis de extermínio da SS — e facilitou sua atuação ao negar-lhes obstáculos logísticos e ao publicar ordens do dia que endossavam a ideologia de guerra de aniquilação contra judeus e comissários soviéticos. A ordem do dia de 20 de novembro de 1941, em que Manstein afirmou que o soldado alemão deveria compreender a necessidade da punição severa contra o judaísmo — apresentado como a fonte do bolchevismo —, é o documento mais citado nesse contexto.
Manstein foi julgado por um tribunal britânico em 1949 e condenado a dezoito anos de prisão por crimes de guerra, reduzidos posteriormente. Saiu da prisão em 1953 por razões de saúde e tornou-se consultor do novo exército da Alemanha Ocidental, a Bundeswehr. Morreu em 1973. O debate sobre seu legado permanece: brilhante operacional indiscutível; cumplicidade no Vernichtungskrieg, igualmente indiscutível.
Heinz Guderian: O Pai da Guerra Blindada
Heinz Guderian ocupa um lugar singular na história militar do século XX. Mais do que um general, foi o teórico e o realizador prático do que viria a se chamar Blitzkrieg — a guerra-relâmpago que combinava blindados, infantaria motorizada e aviação táctica numa manobra de penetração profunda projetada para desorganizar o inimigo antes que pudesse reagir de forma coerente.

A Teoria do Ataque Blindado
Guderian estudou os escritos do britânico J.F.C. Fuller e do francês Charles de Gaulle sobre o uso das forças blindadas, mas foi muito além deles na implementação prática. Seu livro Achtung — Panzer!, publicado em 1937, estabeleceu a doutrina das forças blindadas concentradas, operando independentemente da infantaria tradicional, aptas a explorar brechas com velocidade suficiente para impedir o adversário de reorganizar a defesa. A ideia central era simples mas revolucionária: blindados não devem ser distribuídos pela linha de frente como suporte à infantaria; devem ser concentrados em massa e lançados num ponto de ruptura específico, avançando em profundidade até o colapso das comunicações e logística inimigas.
Na Polônia (1939) e especialmente na França (1940), Guderian pôde testar e provar sua doutrina. Seu XIX Corpo Panzer, cruzando as Ardenas e avançando vertiginosamente em direção à costa, deixou para trás não apenas as forças francesas, mas também os nervos do próprio Alto Comando alemão, que em vários momentos ordenou paradas que Guderian ignorou ou contornou com audácia burocrática. A chegada às costas do Canal da Mancha em poucos dias foi um dos avanços mais rápidos da história militar moderna.
Os Conflitos com Hitler
A relação de Guderian com Hitler foi marcada por conflitos recorrentes que revelam muito sobre a dinâmica do Alto Comando alemão. O general era um dos poucos que se permitia contradizer Hitler em conferências, às vezes de forma acalorada e direta, numa cultura institucional em que o silêncio ou a concordância passiva eram a norma. Essa disposição lhe valeu tanto a admiração de colegas como a antipatia crescente de Hitler.
O primeiro grande confronto ocorreu na frente oriental no outono e inverno de 1941. Guderian, comandando o 2.º Grupo Panzer no avanço sobre Moscou, insistia que seus blindados precisavam de retirada tática para reequipamento e reorganização após meses de combate intenso. Hitler recusava qualquer retirada, fundado na convicção — naquele momento ainda politicamente motivada — de que ceder terreno destruiria o moral das tropas e abriria precedentes perigosos. Em dezembro de 1941, após a visita de Guderian ao quartel-general em que o confronto chegou ao limite, Hitler o demitiu do comando. A decisão ilustra a tensão entre a racionalidade operacional dos generais de campo — que viam as condições reais das tropas exaustas — e a lógica política de Hitler, que temia os efeitos morais e propagandísticos de qualquer recuo.
Reintegrado em 1943 como Inspetor-Geral das Forças Blindadas, Guderian trabalhou para reconstruir e expandir o potencial dos Panzers após as perdas de Stalingrado e Kursk. Nessa posição, enfrentou resistências burocráticas de Keitel, Jodl e do próprio Hitler em relação à concentração de produção nos modelos mais eficazes. Promovido a Chefe do Estado-Maior do OKH em julho de 1944 — após o atentado de 20 de julho e a purga que se seguiu —, Guderian viu-se numa posição paradoxal: era o principal planejador operacional do exército num momento em que a derrota era matematicamente inevitável.
As transcrições das conferências militares de 1944-1945, preservadas e publicadas pelos historiadores Helmut Heiber e David Glantz em Hitler and His Generals, documentam confrontos de uma intensidade extraordinária. Em várias ocasiões, Guderian apresentou estimativas de forças soviéticas que Hitler recusava como “propaganda” ou “o maior blefe desde Gengis khan“. A atribuição ao serviço de inteligência do Exército (Fremde Heere Ost), dirigido pelo General Reinhard Gehlen, de estimativas que Hitler considerava excessivamente pessimistas, tornou-se um ponto de conflito permanente. Guderian defendia as estimativas; Hitler as rejeitava. A ofensiva soviética de janeiro de 1945, que confirmou em larga medida as previsões de inteligência, sobrepassou as defesas alemãs exatamente onde Guderian havia alertado ser mais vulnerável.
Em março de 1945, após um confronto particularmente violento sobre operações na Pomerânia, Guderian foi definitivamente demitido por “razões de saúde” — o eufemismo habitual. Capturado pelos americanos em maio de 1945, não foi indiciado em Nuremberg; as investigações sobre sua possível participação em ordens criminosas foram encerradas em 1948 sem processamento formal. Publicou suas memórias, Erinnerungen eines Soldaten (Memórias de um Soldado), em 1950, obra que consolidou a narrativa do general profissional injustamente obstaculizado pela interferência política de Hitler — narrativa que, como a de Manstein, minimizava sua responsabilidade no Vernichtungskrieg e na transmissão de ordens criminosas durante a frente oriental.
A questão da responsabilidade de Guderian permanece menos resolvida do que a de alguns colegas. Há evidências de que recusou implementar o Kommissarbefehl em seu grupo Panzer, o que seria uma distinção significativa. Por outro lado, as ordens que transmitiu durante a Operação Barbarossa refletiam a ideologia de guerra de aniquilação, e sua posição como Inspetor-Geral e Chefe do Estado-Maior implicava conhecimento pleno do que ocorria na frente oriental. A historiografia recente tende a situar Guderian entre os generais que, sem serem os principais perpetradores, não foram o profissional apolítico que suas memórias retratam.
Erwin Rommel: O Mito do General Cavalheiro
Nenhum general alemão da Segunda Guerra Mundial alcançou uma aura mítica comparável à de Erwin Rommel. O “Raposo do Deserto”, como ficou conhecido pelos próprios adversários britânicos, transformou o teatro norte-africano numa espécie de guerra cavaleiresca — ou assim a narrativa posterior quis apresentar. Rommel foi o único general alemão a ser amplamente admirado pelos Aliados durante o conflito, a ponto de Churchill pronunciar no Parlamento: “Temos diante de nós um inimigo que é um grande general.”

A Campanha Norte-Africana
Enviado à Líbia em fevereiro de 1941 para impedir o colapso das forças italianas, Rommel comandou o Afrika Korps numa série de campanhas que, durante dois anos, transformaram o deserto do norte da África num teatro de operações de alta intensidade. Sua característica distintiva era a liderança pelo exemplo — Rommel estava frequentemente na linha de frente, em contato direto com a situação, tomando decisões rápidas que deixavam os adversários sem tempo de reagir. Essa proximidade do combate contrariava as normas do estado-maior prussiano, mas produzia resultados espetaculares.
A Batalha de Gazala (maio-junho de 1942) e a subsequente tomada de Tobruk foram os pontos mais altos de Rommel. A promoção a Feldmarechal após Tobruk — a mais jovem promoção a esse posto na história alemã, aos 50 anos — foi o reconhecimento do regime por uma vitória que teve imenso impacto propagandístico. O avanço posterior até El-Alamein colocou Rommel às portas do Egito e do Canal de Suez, o que, se consumado, teria consequências estratégicas imensas para o esforço de guerra aliado.
A derrota em El-Alamein (outubro-novembro de 1942), sob o comando de Bernard Montgomery, marcou a virada. Rommel não dispunha de suficiente suporte logístico — combustível, munição, tropas frescas — para sustentar uma ofensiva além de suas linhas de abastecimento já estendidas. A superioridade aliada em recursos tornou-se irreversível. Rommel recuou e, em 1943, foi chamado de volta à Alemanha antes da rendição do Eixo no norte da África.
A Questão Rommel: Cavaleiro ou Cumplice?
A narrativa do “general cavalheiro” que travou uma guerra honrosa no deserto ganhou força no pós-guerra, particularmente na Grã-Bretanha, onde ex-adversários de Rommel contribuíram ativamente para seu mito. A historiografia posterior problematizou essa imagem, mas com resultados mais nuançados do que no caso de Manstein ou dos generais da frente oriental.
É verdade que, no norte da África, não há evidências de participação do Afrika Korps em massacres de civis ou execuções de prisioneiros em escala sistemática — ao contrário do que ocorria na frente oriental. Rommel ignorou a ordem de Hitler de executar comandos capturados. Por outro lado, há evidências de que sabia do Judenverfolgung na Alemanha e nos territórios ocupados, e que sua lealdade ao regime foi sólida até pelo menos 1943.
A Conspiração de 20 de julho de 1944 é o elemento que mais complica o julgamento de Rommel. Há evidências de que Rommel estava em contato com círculos de resistência que planejavam assassinar Hitler ou, em versões alternativas do plano, negociar uma paz separada com os Aliados. Ferido num ataque aéreo em julho de 1944, Rommel estava se recuperando quando o atentado ocorreu. Nomes em documentos apreendidos pela Gestapo levaram Hitler a dar-lhe a escolha entre o julgamento público — que exporia o envolvimento de um herói popular — e o suicídio com garantia de funeral de estado e proteção à família. Rommel tomou veneno em 14 de outubro de 1944. A Alemanha foi informada de que morreu de ferimentos de guerra.
A participação real de Rommel na conspiração — se seria ativo ou meramente ciente e tolerante — permanece debatida. O que é certo é que, ao final, Rommel representou para o regime uma ameaça suficiente para justificar sua eliminação.
Franz Halder: O Diarista da Resistência Possível
Franz Halder serviu como Chefe do Estado-Maior do OKH de setembro de 1938 a setembro de 1942 — o período que incluiu a queda da França, o início da Operação Barbarossa e a marcha até Stalingrado. Seu Diário de Guerra, um dos documentos históricos mais detalhados que qualquer estado-maior produziu durante o conflito, é uma fonte primária inestimável sobre o funcionamento interno do Alto Comando alemão.

Entre a Resistência e a Conformidade
Halder é um caso particularmente interessante porque há evidências de que, em 1938, esteve vagamente envolvido em planos para prender ou depor Hitler caso a política de Munique levasse a uma guerra que a Alemanha não estava preparada para vencer. O acordo de Munique, que concedeu a Hitler o que queria sem guerra, frustrou esses planos — e colocou os conspiradores numa posição impossível, pois o Führer havia vencido diplomaticamente onde os militares previam desastre.
Nos anos seguintes, Halder continuou no cargo, planejando campanhas que Hitler conduzia cada vez mais por seu próprio impulso. Seu diário documenta sua crescente frustração com a recusa de Hitler em aceitar avaliações realistas da situação — particularmente na frente oriental, onde Hitler subestimava sistematicamente as reservas soviéticas. Em setembro de 1942, após um confronto particularmente violento com Hitler sobre a situação no Cáucaso, Halder foi demitido.
Preso após o atentado de julho de 1944, Halder sobreviveu à guerra nos campos de concentração e foi libertado pelos americanos em 1945. Colaborou extensivamente com os historiadores militares americanos do pós-guerra, contribuindo para a narrativa do general profissional incompreendido por Hitler — narrativa que, como outras memórias dos generais sobreviventes, tendia a minimizar a cumplicidade nos crimes do regime.
Walter Model: O Bombeiro de Hitler
Walter Model foi o general que Hitler chamava quando uma situação era desesperada. Apelidado de “O Bombeiro do Führer” (Hitlers Feuerwehrmann), Model era o especialista em estabilizar frentes em colapso, em organizar retiradas que evitassem catástrofes maiores e em manter tropas lutando além do ponto em que outros generais teriam capitulado.

Model era ideologicamente mais próximo do regime nazista do que a maioria dos generais do estado-maior. Não vinha da aristocracia prussiana, mas de família de classe média, e via no nacional-socialismo uma força de renovação social com a qual se identificava genuinamente. Essa lealdade ideológica tornava-o menos propenso a questionar ordens e mais disposto a exigir de suas tropas sacrifícios que outros generais consideravam inaceitáveis.
Da Frente Oriental ao Ocidente
Na frente oriental, Model produziu algumas das defesas mais tenazes da guerra. Após Stalingrado, quando a iniciativa estratégica passara definitivamente ao Exército Vermelho, coube a Model a tarefa ingrata de estabilizar repetidas crises: na Batalha de Kursk (julho de 1943), sua condução do 9.º Exército no saliente norte foi mais cautelosa do que a de Manstein no sul, e a decisão de Hitler de interromper a ofensiva antes de um resultado decisivo frustrou qualquer possibilidade de sucesso. Nos meses seguintes, Model foi chamado sempre que uma frente ameaçava colapsar — uma rotatividade que atestava tanto sua competência quanto o estado de crescente desespero do esforço de guerra alemão.
Em 1944, foi transferido para o teatro ocidental para tentar estabilizar a frente após o desembarque do Dia D. Substituiu Rundstedt no comando do Grupo de Exércitos B e, por um breve período, assumiu também o papel de Comandante em Chefe do Ocidente. Foi durante esse período que se destacou na resposta à Operação Market Garden aliada, em setembro de 1944 — a audaciosa operação de Montgomery que visava criar uma ponte de tropas aerotransportadas sobre os principais rios holandeses, com Arnhem como objetivo final. Model reagiu com excepcional rapidez, deslocando tropas blindadas da SS em reorganização na área para interceptar os paraquedistas britânicos. A batalha de Arnhem resultou na maior derrota das tropas aerotransportadas aliadas na guerra, com o fracasso em garantir a última ponte sobre o Reno.
Nos meses finais da guerra, Model comandou as forças alemãs no Bolsão do Ruhr, cercadas pelo avanço americano em abril de 1945. Recusou-se a render o comando formalmente — considerava que um Feldmarechal alemão não tinha esse direito — mas também reconhecia que obrigar seus soldados a resistir até o fim num bolsão sem esperança seria um assassínio gratuito. Sua solução foi dissolver formalmente o grupo de exércitos, liberando os soldados de seus juramentos e permitindo que se rendessem individualmente. Em seguida, entrou num bosque perto de Duisburgo e disparou um tiro na própria cabeça, em 21 de abril de 1945.
Model nunca foi julgado, e a documentação sobre sua participação em crimes de guerra é mais fragmentária do que a de alguns colegas. Há evidências de que, na frente oriental, as unidades sob seu comando participaram de represálias contra populações civis e de deportações de trabalhadores forçados — práticas que, na frente oriental, eram norma e não exceção. Sua lealdade ideológica ao regime, mais genuína do que a de generais como Manstein ou Rundstedt, torna improvável a narrativa do “profissional apolítico” que alguns biógrafos tentaram construir. O historiador Geoffrey Megargee o classifica entre os generais que, independentemente de seus conflitos táticos com Hitler, abraçaram a missão ideológica do regime com mais convicção do que a maioria de seus pares aristocráticos.
Gerd von Rundstedt: O Velho Marechal
Gerd von Rundstedt era o mais velho dos Feldmareschais alemães da Segunda Guerra e, em muitos aspectos, o que mais encarnava o tipo do oficial prussiano clássico — distante, formal, cínico em relação a Hitler, mas incapaz ou não disposto a traduzir esse cinismo em resistência efetiva.

Rundstedt comandou Grupos de Exércitos nas campanhas da Polônia e da França, na Operação Barbarossa e no Teatro Ocidental. Foi demitido por Hitler em 1941 após a retirada de Rostov, reintegrado, demitido novamente após a falha em conter o desembarque aliado na Normandia em 1944, e mais uma vez reintegrado. Essa sequência de demissões e reintegrações ilustra tanto a escassez de comandantes capazes no Reich quanto a tática de Hitler de usar demissões como instrumentos de pressão e as reintegrações como forma de obrigar generais a permanecerem no sistema.
Rundstedt expressava com frequência, em conversas privadas e correspondências, um desdém aristocrático por Hitler que contrasta dramaticamente com a lealdade que demonstrava na prática. Chamava Hitler de “aquele cabo” (der Böhmische Gefreite — o cabo da Boêmia, referência depreciativa à sua origem austríaca e posto máximo na Primeira Guerra) e considerava-o militarmente incapaz. Mas esse cinismo não se traduziu em resistência ativa em nenhum momento da guerra. Rundstedt foi um exemplo perfeito do que o historiador Peter Hoffmann chamou de “oposição sem ação” — a postura de quem discordava do regime em privado mas colaborava integralmente com ele na prática.
No Ocidente, Rundstedt foi o Comandante em Chefe que recebeu o desembarque aliado na Normandia em junho de 1944. As disputas sobre como responder — Rommel queria blindados avançados para a costa; Rundstedt preferia mantê-los em reserva — resultaram num compromisso que satisfez nenhum dos dois e contribuiu para a incapacidade alemã de conter o desembarque. Demitido em julho de 1944 após dizer ao enviado de Hitler que a única forma de acabar com a guerra era fazê-la de paz — comentário interpretado como derrotismo —, foi reintegrado em setembro para comandar a Ofensiva das Ardenas em dezembro de 1944, a última grande contraofensiva alemã no Ocidente, que fracassou em seu objetivo de dividir as forças aliadas e capturar Antuérpia.
Preso ao fim da guerra, Rundstedt não foi julgado por razões de saúde — havia sofrido um ataque cardíaco. Morreu em 1953. Sua responsabilidade pela Ordem dos Reféns nos territórios ocidentais ocupados — que autorizava execuções de civis em represália a atos de resistência — foi documentada mas não levada a julgamento. Como Guderian e Manstein, Rundstedt é um caso em que a longevidade pós-guerra e a saúde frágil criaram uma impunidade que a historiografia posterior tentou compensar com escrutínio intensificado.
A Conspiração de 20 de Julho de 1944: Os Generais que Resistiram
Em 20 de julho de 1944, um grupo de oficiais alemães executou a operação mais ousada de resistência interna ao regime nazista: a Operação Valquíria, cujo elemento central era a detonação de uma bomba no quartel-general de Hitler em Rastenburg. O principal executor do atentado foi o Coronel Claus von Stauffenberg, oficial do Estado-Maior ferido gravemente no norte da África — havia perdido uma mão, dois dedos da outra e um olho — que se tornara um conspirador convicto.
Os Conspiradores
O círculo de conspiradores incluía generais de diferentes gerações e motivações. Ludwig Beck, antigo Chefe do Estado-Maior do OKH que se demitira em 1938 em protesto pela política de Hitler, estava destinado a se tornar Chefe de Estado provisório após o golpe. Erwin von Witzleben, Feldmarechal afastado, estava designado para Comandante Supremo da Wehrmacht pós-golpe. Havia também civis, diplomatas e ex-funcionários do regime que haviam chegado à conclusão de que Hitler levaria a Alemanha à destruição total.
A bomba explodiu às 12h42. Hitler sobreviveu com ferimentos menores — a mesa de carvalho maciça do bunker absorveu parte da explosão, e o enorme espaço ventilado do local, substituto improvisado para o bunker subterrâneo original, dissipou a pressão da onda expansiva. Stauffenberg, que havia saído antes da explosão convicto do sucesso, voou para Berlim para coordenar o golpe. Quando ficou claro que Hitler estava vivo, a conspiração colapsou rapidamente.
As Consequências
A repressão foi devastadora. Mais de 4.700 pessoas foram presas, segundo estimativas, e aproximadamente 200 foram executadas — muitas delas enforcadas com arame de piano em execuções filmadas por ordem de Hitler, que as teria assistido com prazer. Stauffenberg foi fuzilado na madrugada de 21 de julho. Beck, ferido numa tentativa de suicídio, foi executado por um soldado. Witzleben foi enforcado.
A conspiração de 20 de julho revelou que havia generais alemães que, chegados a determinado ponto, optaram pela resistência ativa. Mas também revelou a excepcionalidade dessa escolha: a grande maioria dos oficiais superiores permaneceu no posto, continuou executando ordens e lutou até a derrota total em maio de 1945. O debate historiográfico sobre por que tantos outros não resistiram — tendo acesso aos mesmos dados sobre os crimes do regime — permanece central para a compreensão do III Reich.
A questão das motivações dos conspiradores também merece atenção. Nem todos que participaram do 20 de julho eram movidos por oposição moral ao regime desde o início. Muitos chegaram à resistência tardiamente, após Stalingrado, quando a derrota militar parecia inevitável — o que leva alguns historiadores a questionar se a motivação primária era ética ou estratégica. O historiador Peter Hoffmann, em sua obra Widerstand — Staatsstreich — Attentat, a mais completa sobre a resistência militar ao nazismo, distingue entre aqueles que resistiram por convicção moral desde cedo e aqueles para quem a resistência tornou-se atraente apenas quando o regime parecia condenado. Essa distinção importa para a avaliação moral dos conspiradores, mas não diminui o fato central: num regime de terror, qualquer resistência ativa exigia coragem extraordinária, e os conspiradores de 20 de julho pagaram com a vida.
O fracasso do atentado teve consequências que se estenderam além das execuções imediatas. Acelerou o processo de nazificação das forças armadas: a saudação hitleriana (Heil Hitler) tornou-se obrigatória em substituição à saudação militar convencional; comissários políticos foram instalados nas unidades; a vigilância da SS sobre os oficiais intensificou-se. O que restava de autonomia profissional dentro da Wehrmacht foi sistematicamente liquidado nos últimos dez meses da guerra.
A Frente Oriental e o Vernichtungskrieg: Cumplicidade Estrutural
A frente oriental — a Ostfront — foi o teatro em que a cumplicidade da Wehrmacht com os crimes do regime tornou-se mais direta e sistemática. A Operação Barbarossa, lançada em 22 de junho de 1941 com mais de três milhões de soldados alemães, foi planejada desde o início não como uma guerra convencional, mas como um Vernichtungskrieg — uma guerra de aniquilação ideológica e racial.
As Ordens Criminosas
Antes do início da operação, o OKW e o OKH distribuíram uma série de ordens que violavam explicitamente o direito internacional: o já mencionado Kommissarbefehl, determinando a execução sumária de oficiais políticos soviéticos; o Gerichtsbarkeitserlass (Decreto sobre Jurisdição), suspendendo as normas do direito militar em relação a crimes contra civis soviéticos; e diretivas que equiparavam judeus e bolchevismo e autorizavam medidas de represália coletiva.
Estas ordens foram transmitidas pela cadeia de comando da Wehrmacht — não apenas pela SS. Generais como Walther von Reichenau emitiram ordens do dia próprias amplificando a ideologia da guerra de extermínio. A ordem do dia de Reichenau, de outubro de 1941, afirmava que o soldado alemão na frente oriental não era apenas um combatente, mas o portador de uma ideia racial e que devia punir sem misericórdia a sub-humanidade judaico-bolchevique. Hitler ordenou que essa ordem fosse distribuída como modelo para todo o grupo de exércitos sul — e depois para todos os outros grupos.
A Historiografia do Exército
O debate sobre a participação da Wehrmacht nos crimes do Reich foi reaberto de forma decisiva na Alemanha pela Exposição sobre os Crimes da Wehrmacht (Ausstellungskriegsverbrechen der Wehrmacht), organizada pelo Instituto de História Social de Hamburgo a partir de 1995. A exposição, que viajou por dezenas de cidades alemãs e austríacas, apresentou documentos e fotografias que contradiziam diretamente o mito do exército limpo — imagens de soldados da Wehrmacht participando de execuções, fotografias com legendas orgulhosas de atrocidades, documentos ordenando medidas que o direito internacional classificaria inequivocamente como crimes de guerra.
A reação foi intensa. Veteranos protestaram; políticos conservadores questionaram a metodologia. Uma comissão de historiadores identificou alguns erros de atribuição fotográfica na exposição original, levando a uma revisão e redesenhamento da mostra em 2001 — mas a tese central foi confirmada: a Wehrmacht participou sistematicamente de crimes de guerra e crimes contra a humanidade na frente oriental.
Historiadores como Omer Bartov (Hitler’s Army, 1991) demonstraram, com base em documentos de unidades de nível inferior, que a ideologia nazista penetrou profundamente na cultura das unidades combatentes alemãs, especialmente após o primeiro inverno na Rússia, quando as perdas massivas e as condições brutais intensificaram o processo de desumanização do inimigo. Christopher Browning (Homens Comuns, 1992), estudando o Batalhão de Reserva da Polícia 101, mostrou como homens comuns — não fanatizados desde a infância, não selecionados por crueldade — tornaram-se executores de massacres em massa. A mesma dinâmica de grupo, pressão de pares, obediência à autoridade e embrutecimento progressivo operava, em escala diferente, entre os oficiais superiores.
O Debate Historiográfico: Foram Vítimas ou Cúmplices?
A questão central que percorre toda a historiografia sobre os generais de Hitler é: em que medida eram agentes autônomos capazes de resistir, e em que medida eram prisioneiros de um sistema que tornava a resistência equivalente ao suicídio?
A Tese da Pressão Irresistível
A narrativa que os próprios generais construíram no pós-guerra, em memórias e testemunhos, insistia no caráter inevitável de sua conformidade. Argumentavam que discordar de Hitler era inútil — ele não mudava de ideia — e que resistência formal resultaria em demissão e substituição por alguém ainda mais obediente, sem nenhum benefício para as tropas ou para a condução da guerra. Manstein expressou essa lógica em Verlorene Siege com particular sofisticação.
A Tese da Escolha
Historiadores como Richard Evans, Geoffrey Megargee e Ben Shephard argumentam que essa narrativa é sistematicamente autoabsolutória e ignora as escolhas reais que os generais fizeram em pontos críticos. Havia generais que se recusaram a implementar o Kommissarbefehl — e não foram fuzilados por isso; simplesmente foram ignorados ou transferidos. Havia oficiais que protestaram contra execuções de civis. A punição pela desobediência era mais frequentemente a demissão do que a morte — e demissão, com todo o custo que carregava para carreiras e posição social, não é comparable à morte.
A perspectiva mais equilibrada, adotada por historiadores como Jürgen Förster e Johannes Hürter, reconhece que o contexto de uma ditadura totalitária em guerra criava pressões reais que limitavam as escolhas individuais, mas insiste que essas pressões não eram absolutas. O que torna o caso dos generais alemães historicamente significativo não é que fossem monstros singulares, mas precisamente que fossem homens comuns em posições de enorme poder que fizeram escolhas — repetidamente, ao longo de anos — que os tornaram cúmplices de crimes em escala sem precedentes.
Conclusão: O Legado dos Generais de Hitler
O estudo dos generais de Hitler confronta-nos com uma das questões mais perturbadoras da história moderna: como homens de alta inteligência, formação profissional rigorosa e, em muitos casos, pessoalmente corajosos tornaram-se instrumentos de um dos regimes mais criminosos que a humanidade já conheceu?
A resposta não é simples. A cultura do estado-maior prussiano-alemão, com sua ênfase na obediência hierárquica e na missão cumprida a qualquer custo, criou homens profundamente condicionados à conformidade institucional. O Führerprinzip — o princípio da liderança absoluta — encontrou nessa tradição um terreno fértil. O juramento pessoal a Hitler criou um vínculo psicológico que, para homens formados numa cultura de honra e palavra empenhada, tinha peso real. As promoções extraordinárias, as dotações, o prestígio e o poder criaram incentivos materiais poderosos para a lealdade continuada.
Mas nenhum desses fatores elimina a agência moral individual. Os generais sabiam o suficiente — frequentemente, sabiam tudo — sobre os crimes do regime. Alguns resistiram, e pagaram com a vida. A maioria não resistiu, e construiu narrativas de autoabsolvição no pós-guerra que a historiografia passou décadas desconstruindo.
O legado dos generais de Hitler é duplo. Do ponto de vista técnico-militar, contribuíram para algumas das inovações mais significativas da arte da guerra no século XX: a doutrina das operações blindadas de Guderian, a manobra de envolvimento de Manstein, as técnicas de defesa elástica que vários generais aperfeiçoaram na retirada da frente oriental. Esse conhecimento foi estudado, adaptado e integrado pelas forças armadas das potências vencedoras — incluindo, com particular intensidade, pelo próprio exército americano durante a Guerra Fria, quando as doutrinas de manobra desenvolvidas pelos teóricos da AirLand Battle beberam diretamente das lições operacionais dos generais alemães.
O paradoxo cruel é que o exército que produziu a mais avançada doutrina operacional do século XX foi também o instrumento de alguns dos piores crimes da história. Guderian e Manstein ensinaram ao mundo moderno como combinar blindados, artilharia e aviação em ataques de ruptura; e as mesmas unidades que executavam essas manobras com maestria participavam de massacres de civis, fuzilamentos de comissários e colaboração com os Einsatzgruppen. A excelência técnica e a desumanidade não foram contraditórias — foram simultâneas, e frequentemente servidas pelas mesmas mãos.
Do ponto de vista histórico e moral, o que mais importa é o que o exemplo dos generais de Hitler revela sobre a fragilidade das instituições profissionais diante de regimes totalitários. A Wehrmacht não colapsou moralmente porque seus oficiais fossem excepcionalmente depravados; colapsou porque o sistema em que operavam tornava a conformidade fácil e a resistência custosa, e porque a maioria dos homens — incluindo homens talentosos e corajosos no campo de batalha — escolhe o caminho de menor resistência quando as pressões são suficientemente intensas e os custos morais suficientemente diluídos ao longo do tempo.
A Bundeswehr, o exército da Alemanha Ocidental fundado em 1955, fez escolhas institucionais deliberadas para romper com essa herança. O conceito de Innere Führung — liderança interior, ou cidadão de uniforme — foi elaborado precisamente como antídoto à cultura de obediência cega que havia caracterizado a Wehrmacht. O oficial da Bundeswehr deveria ser capaz de recusar ordens ilegais, deveria compreender os fundamentos éticos de sua missão e deveria responder não apenas à cadeia de comando, mas à lei e à consciência. Que esse projeto tenha sido desenvolvido em parte pelos mesmos generais que serviram Hitler — Manstein chegou a ser consultor informal da Bundeswehr — introduz uma ironia que os historiadores alemães ainda processam.
A pergunta que os generais de Hitler nos deixam não é se eram monstros ou homens normais. A historiografia do século XXI está suficientemente avançada para rejeitar ambos os polos dessa simplificação. Eram homens extraordinariamente competentes em sua profissão, formados numa tradição militar de alta exigência técnica, que fizeram escolhas morais repetidas ao longo de anos sob pressões reais — e que, na grande maioria dos casos, escolheram a carreira, o poder, a lealdade institucional e a conformidade em detrimento da resistência. Não há nada reconfortante nessa conclusão. É precisamente o fato de que não eram monstros que torna sua história tão perturbadoramente instrutiva.
Essa lição permanece perturbadoramente atual.
FAQ – Perguntas Frequentes
Quem foram os principais generais de Hitler? Os principais generais do III Reich incluem os Feldmareschais Erich von Manstein, Erwin Rommel, Gerd von Rundstedt e Walter Model; os generais Heinz Guderian e Franz Halder; e os chefes do OKW Wilhelm Keitel e Alfred Jodl. Cada um teve papel distinto e trajetória diferente em relação ao regime.
O que foi o OKW e qual era sua função? O Oberkommando der Wehrmacht (Alto Comando das Forças Armadas) foi criado em 1938 quando Hitler aboliu o Ministério da Guerra e assumiu o comando supremo. O OKW, chefiado por Keitel e Jodl, funcionava como o estado-maior pessoal de Hitler para coordenação geral, em paralelo ao OKH (Alto Comando do Exército), criando uma estrutura de comando dividida que prejudicou o esforço de guerra alemão.
O que foi o Vernichtungskrieg? Vernichtungskrieg significa “guerra de aniquilação”. O termo descreve a política deliberada com que a Alemanha nazista conduziu a guerra na frente oriental: não como conflito convencional entre estados, mas como campanha de extermínio ideológico-racial contra populações eslavas, judias e comunistas. A historiografia demonstrou que a Wehrmacht, e não apenas a SS, participou ativamente dessa guerra de aniquilação.
Quem foi Rommel e por que é chamado de “Raposo do Deserto”? Erwin Rommel foi o comandante do Afrika Korps na campanha norte-africana (1941-1943). O apelido “Raposo do Deserto” foi dado pelos adversários britânicos, em referência à sua habilidade de manobra rápida e imprevisível no terreno desértico. Rommel foi amplamente admirado como inimigo honroso, embora estudos posteriores tenham questionado aspectos de sua cumplicidade com o regime nazista.
Por que Manstein não foi condenado à morte em Nuremberg? Manstein não foi julgado em Nuremberg (1945-1946), mas por um tribunal britânico separado em 1949. Foi condenado a 18 anos de prisão por crimes de guerra e liberado em 1953. A condenação à morte não foi aplicada, provavelmente por combinação de considerações políticas do período da Guerra Fria — quando a Alemanha Ocidental estava sendo rearmada — e pelo peso de sua reputação de gênio militar. A pena relativamente leve foi criticada por sobreviventes e historiadores.
O que foi a Conspiração de 20 de Julho de 1944? Foi o atentado mais ousado contra Hitler, organizado por um grupo de oficiais alemães e civis resistentes. O Coronel Claus von Stauffenberg detonou uma bomba no quartel-general de Hitler em Rastenburg. Hitler sobreviveu; a conspiração foi suprimida e centenas de pessoas foram presas e executadas. O atentado revelou que havia resistência interna ao regime, mas também a excepcionalidade dessa resistência frente à conformidade da maioria dos oficiais.
O que foi o “Mito da Wehrmacht Limpa”? Expressão historiográfica para a narrativa, promovida pelos generais sobreviventes no pós-guerra e amplamente aceita na Alemanha até os anos 1990, de que a Wehrmacht havia travado uma guerra honrosa segundo as regras, enquanto as atrocidades eram responsabilidade exclusiva da SS e do partido. A Exposição sobre os Crimes da Wehrmacht (1995-2001) e décadas de historiografia crítica demoliram esse mito, documentando a participação direta do exército em massacres de civis, execuções de prisioneiros e implementação de ordens criminosas.
O que foi o Kommissarbefehl? O Kommissarbefehl (Ordem dos Comissários) foi uma diretiva militar emitida pelo OKW em junho de 1941, antes do início da Operação Barbarossa. Ordenava a execução sumária imediata de todos os comissários políticos soviéticos capturados — oficiais do Partido Comunista incorporados às unidades do Exército Vermelho. A ordem violava explicitamente as Convenções de Genebra e constituiu um dos crimes de guerra mais documentados do período.
Por que Hitler demitia e reintegrava seus generais repetidamente? As demissões e reintegrações eram instrumentos de controle psicológico e disciplina. Demissões sinalizavam desagrado e puniam discordâncias; reintegrações, frequentemente após derrotas que revelavam a escassez de comandantes competentes, criavam dependência e gratidão. Generais reintegrados tinham menos propensão a discordar, pois sabiam que sua posição era condicional. O ciclo também isolava qualquer general que tentasse construir uma base de poder independente dentro das forças armadas.
Qual é o debate historiográfico central sobre os generais de Hitler? O debate central é entre a tese da pressão irresistível — segundo a qual os generais eram prisioneiros de um sistema totalitário que tornava a resistência equivalente ao suicídio — e a tese da escolha moral — segundo a qual tinham agência real, e sua conformidade foi uma série de escolhas renovadas ao longo do tempo. A historiografia contemporânea tende a reconhecer que as pressões eram reais mas não absolutas, e que a conformidade foi escolha, não inevitabilidade.
Leituras Recomendadas
BARTOV, Omer. Hitler’s Army: Soldiers, Nazis, and War in the Third Reich. Oxford: Oxford University Press, 1991.
EVANS, Richard J. O Terceiro Reich em Guerra. Tradução de Lúcia Brito. São Paulo: Planeta, 2012.
MEGARGEE, Geoffrey P. Inside Hitler’s High Command. Lawrence: University Press of Kansas, 2000.
MANSTEIN, Erich von. Verlorene Siege. Bonn: Athenäum-Verlag, 1955. [Trad. inglesa: Lost Victories. Chicago: Henry Regnery, 1958.]
HEER, Hannes; NAUMANN, Klaus (Orgs.). Vernichtungskrieg: Verbrechen der Wehrmacht 1941–1944. Hamburg: Hamburger Edition, 1995.

