Gunnhild: “Mãe de Reis” e a Rainha Mais Temida das Sagas
Um homem sobe até um promontório rochoso da Noruega carregando um poste de madeira. Na ponta, coloca a cabeça de um cavalo. Depois grava runas no poste, pronuncia uma maldição e o aponta para o interior do país. Seu desejo é que os espíritos da terra não tenham descanso até expulsarem da Noruega duas pessoas: Erik Bloodaxe e sua esposa, Gunnhild.

O homem era Egill Skallagrímsson, poeta, guerreiro e um dos personagens mais célebres das sagas islandesas. O ritual, conhecido como níðstöng, tornou-se uma das cenas mais famosas da Saga de Egill.
E ajuda a entender a reputação extraordinária de Gunnhild.
Nas histórias escritas séculos depois de sua morte, ela aparece como bela, inteligente, ambiciosa, vingativa e capaz de usar magia contra seus inimigos. Foi acusada de envenenar adversários, lançar maldições e manipular reis.
Mas por trás da lendária “rainha-bruxa” existiu uma mulher real.
Gunnhild foi esposa de Erik Bloodaxe, mãe de vários príncipes e uma das figuras associadas às violentas disputas pelo controle da Noruega no século X. Seus filhos chegaram ao poder, razão pela qual ela ficou conhecida como konungamóðir — “mãe de reis”.
O problema é descobrir onde termina a mulher histórica e começa a personagem criada pelas sagas.

A jovem que teria aprendido magia no extremo norte
Até mesmo a origem de Gunnhild é um mistério.
Segundo a Heimskringla, de Snorri Sturluson, e a Saga de Egill, ela seria filha de Özurr Tóti, um homem influente de Hålogaland, no norte da Noruega.
Outra tradição, preservada pela Fagrskinna, oferece uma origem muito mais prestigiosa: Gunnhild seria filha de Gorm, o Velho, rei da Dinamarca, e portanto irmã de Harold Dente-Azul.
Não sabemos qual versão está correta.
Mas a Saga de Egill acrescentou à juventude da futura rainha um detalhe irresistível.
Gunnhild teria vivido durante algum tempo em Finnmork, região associada aos sámi. Ali, segundo a saga, teria aprendido feitiçaria com dois homens sámi.
É uma história perfeita para explicar tudo o que viria depois.
Também é provavelmente uma construção literária.
Na literatura nórdica medieval, os sámi eram frequentemente associados à magia, enquanto o seiðr, uma forma de prática mágica e divinatória, possuía forte ligação com personagens femininas. Transformar Gunnhild numa aprendiz de feiticeira desde a juventude preparava o leitor para enxergar suas ações futuras como perigosas e sobrenaturais.
Foi nessa região, segundo a tradição, que ela teria conhecido Erik Bloodaxe, filho do poderoso Harold Bela-Cabeleira.

Os dois se casaram.
E Gunnhild entrou definitivamente na luta pelo poder na Noruega.
Ao lado de Erik Bloodaxe
Erik assumiu o trono norueguês por volta de 930, embora a cronologia desse período seja incerta.
Sua alcunha já diz muito sobre a memória deixada por seu governo: Erik Machado Sangrento.
As sagas o apresentam eliminando irmãos e rivais enquanto tentava consolidar sua autoridade. E quase sempre há uma figura ao seu lado incentivando as decisões mais violentas:
Gunnhild.
Ela é frequentemente retratada como a voz que aconselha Erik a atacar adversários, perseguir inimigos e eliminar ameaças.
Mas existe um problema evidente.
As principais histórias foram escritas cerca de 200 a 300 anos depois dos acontecimentos, muitas delas dentro de uma tradição hostil ao casal.
Isso não significa que Gunnhild fosse politicamente irrelevante. Pelo contrário.
Como rainha, provavelmente participava da administração da corte, da distribuição de presentes, da construção de alianças e das redes de lealdade que sustentavam o poder de um rei escandinavo.
A dúvida está em outra parte: quanto da crueldade atribuída a ela pertence à mulher real e quanto pertence à personagem literária?
O melhor exemplo desse problema aparece justamente em sua relação com Egill.
A rainha contra o poeta
Na Saga de Egill, Gunnhild e o protagonista parecem destinados a se odiar.
Egill entra em conflito com a família real, mata aliados do casal e desafia abertamente sua autoridade.
Gunnhild responde.
Em uma das histórias mais espetaculares, ela tenta matar o islandês durante um banquete.
A arma seria uma bebida envenenada ou magicamente preparada.
Egill percebe o perigo, grava runas no recipiente e o objeto se rompe, revelando a tentativa.
Em outro momento, é o próprio Egill quem lança a famosa maldição do níðstöng contra Gunnhild e Erik.
Historicamente, é impossível confirmar esses episódios.
Literariamente, porém, eles transformaram Gunnhild em uma antagonista memorável: uma rainha que não precisava empunhar uma espada para ser tão perigosa quanto qualquer guerreiro.
E Egill não foi o único homem que as sagas colocaram sob seu poder.
A Saga de Njáll conta que o islandês Hrútr Herjólfsson tornou-se amante da rainha. Quando ele decidiu voltar para a Islândia e casar-se com outra mulher, Gunnhild teria lançado uma maldição sexual sobre ele.
O casamento fracassaria exatamente como ela previra.
Mais uma vez, não estamos diante de evidência histórica confiável. Estamos diante da construção de uma reputação.
Gunnhild seduzia, amaldiçoava e destruía aqueles que a contrariavam.
A queda de Erik e o exílio
O poder de Erik na Noruega não durou muito.
Seu meio-irmão Haakon, o Bom, criado na Inglaterra, retornou à Noruega e conquistou apoio suficiente para expulsá-lo.
Erik, Gunnhild, seus filhos e seguidores deixaram o país.
Passaram pelas ilhas Orkney e acabaram ligados à Inglaterra e à Nortúmbria.
As fontes inglesas registram um rei chamado Erik governando York em períodos entre 947 e 954. Tradicionalmente, ele é identificado com Erik Bloodaxe, embora essa identificação já tenha sido questionada por historiadores modernos.
Gunnhild praticamente desaparece das fontes durante esses anos.
Então, em 954, tudo mudou.
Erik morreu.
Os detalhes são obscuros, mas provavelmente foi morto em combate ou numa emboscada em Stainmore, no norte da Inglaterra.
Um poema chamado Eiríksmál celebra sua chegada ao Valhalla. A Fagrskinna afirma que Gunnhild teria encomendado o poema em homenagem ao marido.
Se a tradição estiver correta, temos aqui algo extraordinário: uma rainha viúva usando poesia e memória para preservar a imagem de sua dinastia.
E Gunnhild ainda não havia terminado.
A “Mãe de Reis” contra a Noruega
Depois da morte de Erik, Gunnhild precisava proteger aquilo que lhe restava: seus filhos.
As sagas atribuem ao casal numerosos descendentes, entre eles Gamli, Guttormr, Ragnfrøðr, Erlingr, Guðrøðr e, principalmente, Haroldo Pele-Cinzenta.
Gunnhild e os filhos buscaram proteção na Dinamarca.
Ali encontraram um aliado poderoso: Haroldo Dente-Azul.
Com apoio dinamarquês, os filhos de Erik começaram a disputar novamente a Noruega.
A oportunidade decisiva surgiu por volta de 961.
Na Batalha de Fitjar, eles enfrentaram Haakon, o Bom. O rei venceu o combate, mas recebeu um ferimento que acabou provocando sua morte.
O caminho para o trono estava aberto.
Haroldo Pele-Cinzenta tornou-se rei, enquanto seus irmãos controlavam diferentes territórios.
Gunnhild agora era literalmente a “Mãe de Reis”.
As sagas a colocam novamente no centro das decisões políticas, aconselhando os filhos e participando das disputas contra famílias rivais.
É impossível medir seu verdadeiro poder. Mas o fato de a tradição ter preservado o título konungamóðir mostra que sua identidade ficou profundamente ligada à dinastia dos filhos.
Durante alguns anos, a família que havia sido expulsa da Noruega estava de volta ao topo.
Então tudo desmoronou novamente.
A queda da dinastia
Os filhos de Gunnhild acumularam inimigos.
Entre eles estava Haakon Sigurdsson, futuro Jarl Haakon, cujo pai havia sido morto durante as disputas pelo poder.
Mais perigoso ainda: Haroldo Dente-Azul mudou de lado.
Por volta de 970, Haroldo Pele-Cinzenta foi atraído para a Jutlândia e morto numa emboscada.
O domínio dos filhos de Gunnhild sobre a Noruega chegou ao fim.
E a própria rainha desaparece nas sombras.
Uma tradição posterior afirma que ela acabou nas mãos do rei dinamarquês e foi afogada em um pântano.
Não sabemos se isso realmente aconteceu.
Mas a história ganhou uma segunda vida quase novecentos anos depois.
Encontraram o corpo de Gunnhild?
Em 1835, trabalhadores encontraram no pântano de Haraldskær, na Dinamarca, o corpo extraordinariamente preservado de uma mulher.
Rapidamente surgiu uma hipótese sensacional:
seria Gunnhild.
A identificação tornou-se tão popular que o corpo passou a ser conhecido como o da antiga rainha viking.
Havia apenas um problema.
Décadas mais tarde, métodos científicos de datação mostraram que aquela mulher havia vivido cerca de mil anos antes de Gunnhild, durante a Idade do Ferro.
A rainha continuava desaparecida.
Mas o episódio demonstra a força de sua lenda.
Bruxa, vilã ou uma mulher poderosa demais?
Talvez essa seja a pergunta mais interessante sobre Gunnhild.
Ela realmente praticava magia?
Tentou envenenar Egill?
Amaldiçoou antigos amantes?
Manipulava Erik e seus filhos?
Não sabemos.
E provavelmente jamais saberemos.
As fontes que contam essas histórias foram escritas séculos depois dos acontecimentos e carregam interesses políticos, literários e religiosos próprios.
Gunnhild pode ter sido uma mulher extraordinariamente influente. Como esposa de um rei, viúva de outro pretendente ao poder e mãe de homens que conquistaram o trono, ela estava inevitavelmente envolvida nas grandes disputas políticas de sua época.
Séculos depois, porém, autores medievais transformaram essa influência em algo mais sombrio.
A rainha virou feiticeira.
Sua inteligência tornou-se manipulação. Sua influência tornou-se intriga. Sua sexualidade tornou-se sedução perigosa. Seus inimigos passaram a enfrentá-la não apenas no campo político, mas também contra venenos, runas e maldições.
É justamente essa mistura que torna Gunnhild fascinante.
A mulher histórica quase desapareceu.
Em seu lugar permaneceu uma das personagens femininas mais poderosas das sagas nórdicas: Gunnhild, esposa de Erik Bloodaxe, mãe de reis e rainha-bruxa da memória viking.
Gunnhild na cultura pop: de personagem das sagas a protagonista de Bloodaxe
Durante séculos, Gunnhild permaneceu principalmente dentro das sagas nórdicas e dos estudos sobre a Era Viking. Isso começa a mudar com Bloodaxe, série do Prime Video criada por Michael Hirst, criador de Vikings, em parceria com seu filho Horatio Hirst.
A produção coloca Erik Bloodaxe e Gunnhild no centro da narrativa, acompanhando a luta do casal pelo trono da Noruega em meio a rivalidades dinásticas, mudanças de alianças e conflitos envolvendo outros governantes escandinavos e ingleses. Gunnhild é interpretada pela atriz Jessica Madsen, enquanto Xavier Molyneux assume o papel de Erik Bloodaxe.
A escolha de Gunnhild como uma das protagonistas é particularmente interessante. Em vez de aparecer apenas como “a esposa de Erik”, ela é apresentada pela própria premissa da série como a “Mãe de Reis” e uma figura formidável ao lado do marido. Outros personagens diretamente ligados às histórias preservadas pelas fontes nórdicas também fazem parte da produção, entre eles Haakon, o Bom, interpretado por Levi Miller, e Egill, vivido por Kārlis Arnolds Avots.
A presença de Egill é especialmente significativa. É justamente na Saga de Egill que encontramos algumas das histórias mais famosas — e mais hostis — sobre Gunnhild, incluindo a rivalidade entre o poeta e o casal real. A série, portanto, trabalha com personagens que estão no centro da própria construção medieval da imagem da rainha.
Há também um detalhe que chama a atenção para o debate sobre suas origens. Entre os personagens anunciados estão Gorm, rei da Dinamarca, interpretado por Rune Temte, e Knut, apresentado na produção como um dos irmãos de Gunnhild. Isso indica que Bloodaxe adota para sua narrativa a tradição que liga Gunnhild à família real dinamarquesa — uma das versões existentes nas fontes medievais, mas não um fato histórico estabelecido.
Esse ponto é importante porque Bloodaxe inevitavelmente precisa fazer aquilo que o historiador não pode: escolher uma versão para preencher as enormes lacunas deixadas pelas fontes. Não sabemos como era a personalidade da verdadeira Gunnhild, qual foi exatamente sua influência sobre Erik ou até mesmo qual das tradições sobre sua origem está correta.
A Gunnhild da televisão será, portanto, uma interpretação moderna de uma personagem que já havia sido reinterpretada pelos próprios autores medievais.
E talvez nenhuma figura do século X seja mais apropriada para isso. Poucas mulheres da Era Viking chegaram até nós cercadas por uma combinação tão poderosa de política, guerra, sedução, magia e lenda.
Mais de mil anos depois, a “Mãe de Reis” está encontrando um novo público.
Leituras
BAGGE, Sverre. Society and Politics in Snorri Sturluson’s Heimskringla. Berkeley: University of California Press, 1991.
DOWNHAM, Clare. Viking Kings of Britain and Ireland: The Dynasty of Ívarr to A.D. 1014. Edimburgo: Dunedin Academic Press, 2007.
JESCH, Judith. Women in the Viking Age. Woodbridge: Boydell Press, 1991.
JOCHENS, Jenny. Women in Old Norse Society. Ithaca: Cornell University Press, 1995.
PRICE, Neil. The Viking Way: Magic and Mind in Late Iron Age Scandinavia. 2. ed. Oxford: Oxbow Books, 2019.

