Erik Bloodaxe: A Trajetória de Sangue e Fratricídio do “Machado Sangrento”
Em 954, num estreito desfiladeiro nas colinas de Stainmore, no norte da Inglaterra, um rei foi emboscado e morto. Não havia exércitos em formação, nem batalha campal — apenas uma traição cuidadosamente orquestrada, a que tantos homens poderosos do século X sucumbiram. O morto era Erik Haraldsson, conhecido pela tradição nórdica e pelas fontes inglesas como Erik “Machado Sangrento” (Eiríkr blóðøx). Com ele, encerrava-se não apenas uma vida de violência e exílio, mas também o último capítulo do domínio viking independente sobre Jórvík — o reino nórdico que os escoceses e ingleses modernos reconheceriam como York.

Erik Bloodaxe foi rei da Noruega por um período brevíssimo e controverso, antes de ser derrubado pelo próprio irmão. Foi depois rei de Jórvík por duas vezes — e derrubado as duas. Sua trajetória condensa, em si mesma, a contradição essencial do mundo viking tardio: guerreiros de poder imenso que, cada vez mais, se viam pressionados por reinos cristãos em consolidação, por rivalidades dinásticas implacáveis e por uma ordem política que não caberia mais na moldura da liderança pessoal e da pilhagem.
Este artigo reconstrói a vida de Erik Machado Sangrento a partir das fontes disponíveis — escaldas, sagas, crônicas anglossaxônicas e evidências arqueológicas —, avalia o que sabemos com razoável segurança, distingue o que pertence à lenda e analisa o significado histórico de sua trajetória para a compreensão do mundo nórdico e do processo de formação da Inglaterra medieval.
O nome “Bloodaxe” é, em si, uma janela para o problema das fontes: parte do que sabemos sobre Erik vem de textos escritos décadas ou séculos depois de sua morte, muitas vezes com intenções políticas ou literárias explícitas. Separar o homem do mito é o primeiro desafio — e, como veremos, é também o mais revelador.
Origens e Ascensão: O Filho Favorito de Harald Cabelos-de-Ouro
Harald Bela-Cabeleira e a unificação da Noruega
Para entender Erik, é preciso começar pelo pai. Harald Harfagri — Harald de Cabelos-Belos, ou Bela-Cabeleira, conforme a tradução — é considerado pela tradição islandesa o primeiro rei a unificar a Noruega sob um único governo. A Heimskringla, coletânea de sagas dos reis noruegueses compilada por Snorri Sturluson por volta de 1230, narra que Harald teria feito um voto de não cortar nem pentear os cabelos até completar a unificação do país — daí o epíteto alternativo de “Louro Sujo” (Lufa) antes da vitória. Após a decisiva Batalha de Hafrsfjord, provavelmente ocorrida entre 872 e 900, Harald emergiu como o poder dominante na Noruega ocidental e teria estendido seu controle gradualmente sobre outras regiões.
A historiografia moderna trata a “unificação” de Harald com considerável cautela. Clive Tolley, Knut Helle e outros estudiosos da Escandinávia medieval apontam que o poder de Harald era provavelmente muito mais fragmentado e dependente de acordos locais do que a narrativa das sagas sugere. A Heimskringla foi escrita por Snorri num contexto islandês do século XIII, quando os líderes islandeses debatiam a submissão ao poder norueguês — o que criava incentivos para glorificar a ideia de um estado norueguês antigo e unificado. Em outras palavras: a saga política de Harald serve também à política de Snorri.
Ainda assim, é razoável aceitar que Harald consolidou um poder regional significativo na Noruega ocidental no final do século IX, e que essa consolidação criou um quadro dinástico com implicações diretas para seus filhos — e para Erik em particular.
Erik entre os filhos de Harald
Harald teria tido filhos com diversas mulheres — as sagas mencionam números que variam entre vinte e trinta herdeiros masculinos, o que provavelmente é exagerado, mas reflete a realidade de um chefe nórdico com múltiplas uniões. Dentre todos, Erik teria sido o predileto. A Heimskringla narra que Harald designou Erik como seu sucessor preferido ainda em vida, chegando a ceder-lhe o controle da Noruega ocidental anos antes de morrer.
Erik nasceu provavelmente na primeira década do século X — as datas são incertas — e teria crescido num ambiente de guerra e competição aristocrática típico do mundo nórdico. As sagas narram que ele começou suas expedições de saque (víking) ainda jovem, percorrendo a costa báltica, as ilhas britânicas e possivelmente o mar do Norte. Essa formação pela violência era, no contexto da época, uma credencial indispensável para qualquer pretendente a liderança.
O epíteto “Machado Sangrento” é introduzido nas fontes como referência às mortes dos irmãos. Segundo a Egils saga e a Heimskringla, Erik matou vários de seus meios-irmãos para eliminar rivais ao trono — a Fagrskinna menciona ao menos dois, enquanto outras sagas eleva o número. O machado era a arma associada à execução e ao sacrifício no mundo nórdico, o que confere ao epíteto uma ressonância que vai além do literal: Erik era o homem que usava violência doméstica — parricida não do pai, mas dos próprios linhageiros — para garantir o poder. Isso o tornava temido e, simultaneamente, politicamente vulnerável: um rei que mata irmãos cria inimigos entre os outros sobreviventes.
O casamento com Gunnhild e a dimensão política da aliança
Um elemento recorrente na tradição sobre Erik é sua esposa, Gunnhild Mãe-dos-Reis (Gunnhildr konungamóðir). As sagas a descrevem como uma mulher de inteligência excepcional, capacidade política e — numa tradição claramente hostil — praticante de feitiçaria. A Laxdæla saga e outras fontes associam Gunnhild a manipulações sobrenaturais, e a Egils saga a pinta como inimiga implacável do escaldo Egil Skallagrímsson.
Historicamente, Gunnhild era provavelmente filha de Ozur Toti, um jarl dinamarquês — o que conferia ao casamento com Erik uma dimensão geopolítica. A aliança aproximava o herdeiro norueguês das redes dinásticas dinamarquesas, relevantes para o controle das rotas comerciais e militares do mar do Norte. Que Gunnhild fosse também uma figura politicamente ativa parece provável: o título que as sagas lhe dão — “Mãe dos Reis” — sugere que ela sobreviveu a Erik, influenciou seus filhos e foi reconhecida como atriz política por direito próprio.
A dimensão “feiticeira” de Gunnhild é mais complexa. No contexto nórdico, a seiðr — magia ritualística associada sobretudo a mulheres — era simultaneamente temida e respeitada. Atribuir poderes mágicos a Gunnhild pode refletir tanto o reconhecimento de uma influência política real (que, na moldura cultural da época, seria explicada por meios sobrenaturais) quanto uma estratégia retórica para deslegitimá-la nas fontes hostis. A historiadora Jenny Jochens argumenta que a figura de Gunnhild nas sagas é um construto literário que concentra ansiedades sobre o poder feminino na sociedade nórdica tardia.
Rei da Noruega: Breve Reinado e Queda
A morte de Harald e a sucessão conturbada
Harald Bela-Cabeleira morreu provavelmente por volta de 933, após um reinado de estimadas quatro décadas. A sequência de eventos que se seguiu é narrada de formas diferentes nas fontes, mas o quadro geral é de uma disputa violenta entre seus herdeiros. Erik, como o favorito paterno, assumiu o trono — mas seu reinado durou apenas cerca de dois anos antes de ser derrubado.
O agente da queda foi seu meios-irmão mais jovem, Haakon, que havia sido criado na corte do rei inglês Æthelstan de Wessex — daí seu epíteto: Haakon Aðalsteinsfóstri, “o pupilo de Æthelstan”. Haakon retornou à Noruega com uma base de apoio nos jarls locais, particularmente em Trøndelag, região central da Noruega que havia resistido ao domínio de Harald. A receptividade a Haakon tinha razões concretas: Erik era visto como governante violento e arbitrário, e Haakon prometia — e efetivamente praticou — uma governança mais cooperativa com as elites locais.
A questão religiosa também estava presente, embora de forma ambígua. Haakon havia sido criado num ambiente cristão inglês e era, ao menos nominalmente, cristão — o primeiro rei norueguês a sê-lo. Isso gerava tensões com os jarls e populações pagãs, mas também conectava Haakon a redes de legitimidade do mundo cristão europeu que Erik simplesmente não tinha. A derrota de Erik não foi uma batalha campal decisiva, mas um colapso gradual de apoio político — ilustrativo de como o poder nórdico funcionava: baseado em redes de lealdade pessoal que podiam ser refeitas e desfeitas com rapidez.
O exílio e as expedições no mar do Norte
Após perder a Noruega, Erik não desapareceu. Pelo contrário: reuniu homens leais, navios e família, e partiu para a vida do exílio guerreiro — uma trajetória que, no mundo nórdico, não era necessariamente uma derrota terminal, mas uma reconfiguração. As sagas e as fontes anglossaxônicas indicam que Erik operou no mar do Norte e nas ilhas escocesas durante os anos seguintes, talvez como líder de uma banda de guerreiros sem base territorial fixa.
Esse período é o mais obscuro de sua vida. A Egils saga, que é a fonte literária mais rica sobre Erik, concentra-se na hostilidade entre ele e o escaldo Egil Skallagrímsson — narrativa que, embora literariamente elaborada, provavelmente contém um núcleo de verdade sobre as tensões entre Erik e certos grupos de guerreiros-proprietários da Noruega ocidental. Egil, segundo a saga, foi capturado por Erik e escapou da morte ao compor um poema de louvor (drápa) à sua honra — a famosa Höfuðlausn (“Resgate da Cabeça”), um dos textos escáldicos mais estudados da literatura nórdica.
O episódio, mesmo que literariamente elaborado, aponta para algo historicamente relevante: a poesia escáldica como instrumento político. No mundo nórdico, um escaldo poderia literalmente comprar sua vida com versos — porque a reputação de um rei dependia, em parte, de ser celebrado por poetas. Matar um escaldo que acabou de louvar publicamente seria um ato de desonra. A tensão entre poder bruto e poder simbólico é um dos temas centrais da era viking.
Jórvík: O Reino Viking do Norte da Inglaterra
O contexto político da Inglaterra do século X
Para entender como Erik chegou a ser rei de Jórvík, é preciso entender a política inglesa do século X — um período de transição e consolidação que os historiadores chamam de “reunificação da Inglaterra” sob a dinastia de Wessex.
Desde as invasões e assentamentos vikings do século IX, o norte e o leste da Inglaterra — a região do Danelaw — havia permanecido sob controle nórdico ou num estado de soberania ambígua. A cidade de York, refundada pelos vikings como Jórvík por volta de 866, tornou-se o centro de um reino semiautônomo que ora reconhecia a autoridade de reis dinamarqueses, ora de líderes noruegueses vindos das ilhas escocesas e da Irlanda.
O processo de conquista dos reis de Wessex — Eduardo o Velho, Æthelstan e depois Edmund e Eadred — foi gradual e violento. Æthelstan foi o primeiro rei inglês a exercer autoridade efetiva sobre Jórvík, após vencer a Batalha de Brunanburh em 937 — uma das maiores vitórias militares inglesas do período, celebrada no Anglo-Saxon Chronicle com um poema épico. Mas o controle de Jórvík permaneceu instável: a cidade era um nó comercial e político importante demais para ser simplesmente absorvida, e suas elites nórdicas resistiam à integração completa.
É nesse contexto de poder incerto que Erik Bloodaxe encontrou sua segunda chance.
Primeira estadia em Jórvík (947–948)
Por volta de 947, as elites de Jórvík — provavelmente lideradas pelo arcebispo Wulfstan de York, figura de extraordinária influência política — convidaram ou aceitaram Erik como rei. As motivações são debatidas. Jórvík precisava de um líder militar capaz de resistir à pressão crescente de Wessex, e Erik — com sua reputação de guerreiro e sua rede de seguidores — representava uma opção viável.
A primeira estadia foi curta. O rei inglês Eadred respondeu com uma expedição militar ao norte, incendiando o mosteiro de Ripon como demonstração de força. A pressão surtiu efeito: as elites de Jórvík abandonaram Erik, que foi expulso em 948. No lugar de Erik, Jórvík aceitou Olaf Cuarán (Olaf Sihtricsson), rei de Dublin de origem irlandesa-norueguesa — mais uma indicação de que Jórvík funcionava como uma espécie de hub político do mundo nórdico do Atlântico Norte, capaz de importar reis conforme a conveniência.
Retorno e segundo reinado (952–954)
Em 952, Erik retornou e reconquistou Jórvík — possivelmente após a expulsão de Olaf Cuarán pela própria população local. As circunstâncias exatas são obscuras, mas o padrão é claro: Jórvík funcionava como um reino de conveniência, cujos líderes locais — o arcebispo Wulfstan à frente — negociavam proteção e autonomia com quem parecesse mais capaz de fornecê-las.
O segundo reinado de Erik durou apenas dois anos. Em 954, o rei Eadred de Wessex aumentou a pressão, e mais uma vez as elites locais calcularam que a aliança com Erik não compensava o custo do conflito com o sul. Erik foi traído — as fontes mencionam o nome Maccus, filho de Olaf, e o jarl Oswulf de Bamburgh como envolvidos na traição — e morreu em Stainmore, provavelmente numa emboscada planejada pelos próprios aliados que havia perdido.
Com a morte de Erik, Eadred absorveu Jórvík definitivamente. O norte da Inglaterra passou para o controle da coroa inglesa, e o Danelaw, como entidade política autônoma, deixou de existir. A reunificação da Inglaterra — processo iniciado por Alfredo, o Grande, na segunda metade do século IX — estava essencialmente completa.
Stainmore e a Morte de um Rei: O Que as Fontes Dizem
O problema das fontes sobre a morte de Erik
A morte de Erik em Stainmore é narrada em diferentes versões pelas fontes disponíveis, e nenhuma delas é completamente confiável. A Anglo-Saxon Chronicle menciona a morte sem entrar em detalhes. A Historia Regum atribuída a Simeão de Durham (século XII) fornece detalhes adicionais — a menção de Maccus e Oswulf como responsáveis —, mas foi escrita dois séculos depois do evento.
As sagas nórdicas, por sua vez, tendem a dramatizar a cena: Erik lutando até o fim, cercado por inimigos, morrendo com as armas na mão. Esse é o padrão literário da dauða drengr — a morte digna do guerreiro —, e não há como saber quanto da narrativa é memória histórica e quanto é construção retórica posterior.
O que pode ser dito com razoável certeza: Erik morreu em 954 em Stainmore; sua morte foi violenta; e envolveu alguma forma de traição ou emboscada. O resto pertence à zona de incerteza histórica.
O poema Eiríksmál: a recepção na Valhala
Um dos documentos mais notáveis associados a Erik Bloodaxe é o Eiríksmál (“Palavras sobre Erik”), um poema escáldico composto logo após sua morte — possivelmente a pedido de Gunnhild. O poema descreve Erik chegando à Valhala, onde Odin e os heróis mortos o recebem com honras. Odin declara que havia reservado um lugar especial para Erik, pois precisaria de guerreiros valentes para a batalha do Ragnarök.
O Eiríksmál é historiograficamente valioso por várias razões. Primeiro, é provavelmente o poema mais próximo em data da morte de Erik — o que lhe confere relativo valor como testemunho. Segundo, revela como a memória de Erik foi construída imediatamente após sua morte: como guerreiro exemplar, digno de honras divinas, não como rei fracassado. Terceiro, o poema usa a estrutura da recepção na Valhala para fazer uma afirmação política: a morte de Erik não foi uma derrota, mas uma glorificação.
Essa construção memorialística é, ela mesma, um dado histórico. Gunnhild — se foi ela quem encomendou o poema — tinha interesse em preservar a honra do marido e, por extensão, a legitimidade dos filhos que ainda reivindicariam poder na Noruega e nas ilhas. A poesia escáldica era, no mundo nórdico, um instrumento de propaganda dinástica tão importante quanto qualquer crônica real.
Existe também o Hákonarmál, composto para Haakon Bom, o irmão que derrubou Erik e governou a Noruega por décadas — e que também morreu em batalha. A comparação entre os dois poemas é instrutiva: ambos glorificam seus respectivos sujeitos com a recepção na Valhala, o que sugere que o gênero era um protocolo literário para reis guerreiros, não necessariamente uma avaliação individualizada.
Erik no Contexto do Mundo Nórdico Tardio
A crise do modelo de liderança viking
A trajetória de Erik Bloodaxe não pode ser compreendida fora do contexto mais amplo da transformação do mundo nórdico no século X. O modelo de liderança viking clássico — baseado na capacidade militar pessoal, na redistribuição de espólios e na lealdade de seguidores diretos — estava sob pressão crescente de forças que o transcendiam.
Os reinos cristãos da Europa ocidental estavam se consolidando, desenvolvendo estruturas administrativas, fiscais e eclesiásticas que conferiam poder e legitimidade de formas que um jarl nórdico simplesmente não podia replicar. A conversão ao cristianismo — processo que se acelerou na Escandinávia ao longo do século X e se completaria no XI — não era apenas uma mudança religiosa, mas uma reconfiguração das bases do poder.
Haakon, o irmão de Erik, havia sido criado numa corte cristã e entendia, ao menos intuitivamente, essa lógica — embora nunca tenha conseguido converter os noruegueses durante seu reinado. Os filhos de Erik tentariam reassumir o trono norueguês e fracassariam. O que o século X mostrava, cada vez mais claramente, era que o poder no norte da Europa estava migrando para formas organizacionais que o modelo do guerreiro-chefe não conseguia sustentar.
Jórvík era, nesse sentido, um caso exemplar. A cidade era um centro comercial vibrante, com conexões com o mundo islâmico, o Bizâncio e a Irlanda — evidências arqueológicas do sítio de Coppergate revelaram artefatos de seda, âmbar báltico, moedas islâmicas e ferramentas de artesanato de alta sofisticação. Era uma cidade que precisava de estabilidade para prosperar, e a instabilidade dinástica perpetuada por figuras como Erik era economicamente destrutiva. As elites locais — o arcebispo Wulfstan, os comerciantes, os terratenentes — acabaram optando pela integração com o sul inglês porque oferecia uma ordem mais previsível.
Erik e o problema da legitimidade dinástica
Uma das questões mais interessantes que a figura de Erik coloca é a da legitimidade no mundo nórdico. Por que Erik foi aceito em Jórvík não uma, mas duas vezes, apesar de ser um estrangeiro — um norueguês num espaço predominantemente dinamarquês-irlandês — e um rei que havia sido expulso da sua própria terra?
Parte da resposta está na natureza da legitimidade nórdica. No mundo viking, o poder de um líder derivava de uma combinação de linhagem, reputação guerreira e capacidade de fornecer proteção e riqueza aos seguidores. Erik tinha linhagem impecável — era filho de Harald Bela-Cabeleira, o fundador do reino norueguês. Tinha reputação guerreira construída em décadas de expedições. E tinha seguidores leais suficientes para ser militarmente relevante.
O que Erik não tinha era a capacidade de construir uma base política duradoura. A violência que lhe valeu o epíteto “Sangue-de-Machado” também criava inimigos. Sua tendência a depender de seguidores pessoais — a hirð, a guarda do rei — sem integrar as elites locais numa estrutura política mais ampla era uma fraqueza estrutural. Cada vez que Eadred aplicava pressão militar, as elites de Jórvík calculavam que Erik não era garantia suficiente de proteção, e o abandonavam.
Esse padrão — o líder poderoso mas politicamente isolado, traído quando as circunstâncias mudam — é recorrente no mundo nórdico e aparece em dezenas de sagas. Erik não era uma anomalia; era um arquétipo.
A conexão escocesa e irlandesa
Um aspecto frequentemente subestimado da trajetória de Erik é sua provável conexão com as redes nórdicas das ilhas escocesas — as Hébridas, Órcades e Shetland — e com o reino viking de Dublin. Entre sua expulsão da Noruega e sua chegada em Jórvík, Erik operou nessa zona de soberania difusa onde reis e jarls nórdicos mantinham poder baseado no controle das rotas marítimas.
As fontes são esparsas, mas a lógica geopolítica é clara: qualquer líder nórdico que quisesse manter um poder autônomo no século X precisava de bases nas ilhas escocesas, que forneciam abrigo, recrutamento e acesso às rotas do Atlântico Norte. Erik não estava sozinho nessa estratégia — Olaf Cuarán, seu rival em Jórvík, era o rei de Dublin e usava as redes irlandesas-norueguesas de forma semelhante.
A competição entre Erik e Olaf por Jórvík é, portanto, também uma competição entre duas redes geopolíticas distintas: a rede norueguesa-escocesa de Erik versus a rede irlandesa-norueguesa de Olaf. Que ambos fossem viking não os tornava aliados — as divisões internas do mundo nórdico eram tão profundas quanto as externas.
Legado e Historiografia
Como a tradição medieval construiu Erik
A figura de Erik Bloodaxe na tradição literária medieval é ambígua de formas reveladoras. Nas sagas norueguesas e islandesas — especialmente na Egils saga, que é provavelmente o texto mais influente sobre ele —, Erik aparece como governante cruel e arbitrário, contrastado negativamente com seu irmão Haakon, descrito como rei justo e generoso. Essa polaridade serve aos propósitos narrativos da saga: Egil, protagonista da Egils saga, é perseguido por Erik durante toda a obra, o que demanda um antagonista suficientemente poderoso e implacável.
A Egils saga foi provavelmente composta no século XIII, possivelmente pelo próprio Snorri Sturluson — embora isso seja debatido. O texto é literariamente sofisticado e historicamente valioso, mas sua representação de Erik está claramente subordinada à lógica narrativa da saga, não a uma avaliação equilibrada. O historiador Rory McTurk e outros estudiosos das sagas advertem contra a leitura direta das sagas como fontes históricas sem uma análise cuidadosa de seus propósitos literários e contextos de composição.
Nas fontes inglesas, Erik aparece de forma marginal — mencionado en passant na Anglo-Saxon Chronicle e em textos posteriores, sem nunca receber o tratamento aprofundado que os reis ingleses recebem. Isso reflete a perspectiva das fontes: para os cronistas de Wessex, Erik era um problema periférico do norte, não um ator central da história inglesa.
A historiografia moderna e as questões em aberto
A historiografia contemporânea sobre Erik Bloodaxe é relativamente escassa em comparação com figuras como Cnut, o Grande ou Rolão da Normandia — o que reflete tanto a fragmentação das fontes quanto o caráter periférico de Erik na narrativa da formação dos estados medievais.
Clare Downham, em seu estudo sobre a política viking na Irlanda e na Grã-Bretanha, situa Erik dentro de um quadro mais amplo de reinos nórdicos das ilhas britânicas, argumentando que figuras como ele devem ser entendidas como participantes de um sistema político transnacional, não como anomalias locais. Alex Woolf, em seu trabalho sobre a Escócia medieval, examina o papel de Erik nas redes de poder do norte da Inglaterra e da Escócia, oferecendo uma leitura que vai além das fontes norueguesas e inglesas tradicionais.
A questão da historicidade do epíteto “Sangue-de-Machado” é debatida. Alguns historiadores argumentam que o apelido era originalmente positivo — referindo-se às vitórias em batalha —, e que adquiriu conotações negativas retroativamente, à medida que a tradição literária precisava de um antagonista para glorificar Haakon. Outros mantêm que o assassinato de irmãos era um dado real que justificava o epíteto desde o início.
O que parece seguro afirmar é que Erik Bloodaxe foi uma figura historicamente real, com uma trajetória documentada em fontes independentes (escandinavas e inglesas), que exerceu poder real sobre Jórvík em dois momentos distintos, e cuja morte em 954 marcou o fim do controle nórdico independente sobre o norte da Inglaterra. O resto — a crueldade, a feitiçaria de Gunnhild, os detalhes das batalhas — pertence a uma zona de sombra onde a história encontra a literatura.
O lugar de Erik na história da Inglaterra
Do ponto de vista da história inglesa, Erik Bloodaxe tem um significado preciso: é o último representante de uma ordem política alternativa que poderia ter configurado a Inglaterra de forma muito diferente. Um Jórvík independente e nórdico, articulado às redes do Atlântico Norte — com conexões com Dublin, as Hébridas, a Noruega e talvez a Islândia —, teria criado uma zona de pluralismo político no norte que resistiria à consolidação saxônica.
Com a morte de Erik, esse cenário se fechou. A Inglaterra de Eadred, e depois de Edgar o Pacífico, começou a tomar a forma que reconhecemos — um reino relativamente centralizado, com uma Igreja poderosa, um sistema legal em desenvolvimento e uma aristocracia gradualmente integrada. O processo não foi linear nem inevitável, e seria interrompido pela conquista dinamarquesa de Sweyn Barba-de-Garfo e de Cnut algumas décadas depois — mas o capítulo de Jórvík estava encerrado.
Há uma ironia na trajetória de Erik: filho do rei que unificou a Noruega, ele passou a maior parte da vida adulta como rei sem reino, ou com reinos que não conseguia manter. Sua carreira é um estudo de como o poder pessoal, por mais impressionante que seja, não é suficiente para construir autoridade duradoura num mundo que está mudando suas regras.
Conclusão: O Que Erik Bloodaxe Representa
Erik Sangue-de-Machado não foi o maior rei viking — não tinha a grandeza estratégica de Cnut, a visão colonizadora de Leif Eriksson ou a habilidade política de Rolão. Foi, em certo sentido, um produto acabado do modelo antigo: guerreiro excepcional, líder carismático, politicamente inflexível. Sua incapacidade de construir alianças duradouras, de integrar elites locais à sua estrutura de poder, de adaptar-se às exigências de uma governança mais institucionalizada, selou seu destino antes mesmo de Stainmore.
O que torna Erik historicamente relevante é exatamente essa dimensão de figura liminar — homem situado entre dois mundos. O mundo nórdico que produziu Erik estava desaparecendo: o modelo do guerreiro-chefe, baseado na redistribuição de espólios e na lealdade pessoal, cedia espaço a formas de poder mais burocráticas, mais eclesiásticas, mais territoriais. Erik não compreendeu — ou não aceitou — essa transição.
Sua morte em Stainmore em 954 não foi apenas o fim de um rei. Foi o fim de uma possibilidade histórica: a de um norte da Inglaterra nórdico, plurilíngue, conectado ao Atlântico, distinto da Inglaterra saxônica do sul. Essa possibilidade existiu, por décadas, em Jórvík — e Erik foi seu último e mais dramático guardião.
O Eiríksmál quis que ele chegasse à Valhala como herói. A história o recebeu como o término de uma era.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre Erik Bloodaxe
1. Quem foi Erik Bloodaxe? Erik Bloodaxe (Eiríkr blóðøx em nórdico antigo), também chamado Erik Sangue-de-Machado, foi um rei viking do século X, filho de Harald Bela-Cabeleira, o primeiro unificador da Noruega. Foi rei da Noruega brevemente antes de ser deposto pelo irmão Haakon, e depois rei de Jórvík (York) por duas vezes, de 947 a 948 e de 952 a 954, quando morreu em emboscada em Stainmore.
2. Por que ele era chamado de “Sangue-de-Machado”? A tradição das sagas nórdicas associa o epíteto ao assassinato de vários meios-irmãos para eliminar rivais ao trono norueguês. O machado tinha ressonâncias rituais e executórias no mundo nórdico. Alguns historiadores modernos sugerem que o apelido pode ter sido originalmente positivo — referindo-se a vitórias em batalha — e adquiriu conotação negativa retroativamente nas fontes literárias que glorificavam seu irmão Haakon.
3. O que era Jórvík? Jórvík era o nome nórdico de York, cidade no norte da Inglaterra que os vikings conquistaram em 866 e transformaram num importante centro político e comercial. Funcionava como capital de um reino semiautônomo nórdico no norte da Inglaterra, com conexões comerciais com o mundo islâmico, a Irlanda e a Escandinávia. As escavações arqueológicas de Coppergate revelaram uma cidade vibrante e cosmopolita.
4. Como Erik perdeu o trono da Noruega? Erik foi deposto pelo irmão mais novo Haakon, que havia sido criado na corte do rei Æthelstan da Inglaterra e retornou com apoio dos jarls de Trøndelag e outras regiões que resistiam ao domínio de Erik. A deposição foi resultado de um colapso gradual de apoio político, não de uma única batalha decisiva. Erik era visto como governante violento e arbitrário, enquanto Haakon prometia uma governança mais cooperativa com as elites locais.
5. Quem foi Gunnhild, esposa de Erik? Gunnhild Mãe-dos-Reis era a esposa de Erik, provavelmente filha de um jarl dinamarquês. As sagas a descrevem como figura política e intelectualmente proeminente, além de atribuírem a ela práticas de seiðr (magia nórdica). A historiografia moderna a vê como atriz política por direito próprio, cujo poder real foi explicado pelas fontes hostis em termos sobrenaturais. Ela sobreviveu a Erik e exerceu influência sobre seus filhos, que tentaram reconquistar o trono norueguês.
6. O que é o Eiríksmál? O Eiríksmál é um poema escáldico composto provavelmente logo após a morte de Erik em 954, possivelmente encomendado por Gunnhild. Descreve a chegada de Erik à Valhala, onde Odin o recebe como herói guerreiro. É um dos documentos mais próximos em data da morte de Erik e revela como sua memória foi construída imediatamente após a morte — não como rei fracassado, mas como guerreiro glorificado.
7. Por que Erik perdeu Jórvík duas vezes? Em ambas as ocasiões, Erik foi abandonado pelas elites locais quando o rei inglês Eadred aplicou pressão militar. Jórvík dependia do comércio e precisava de estabilidade — algo que Erik, com seus conflitos constantes com Wessex, não conseguia garantir. As elites locais, lideradas pelo arcebispo Wulfstan, calculavam racionalmente quem oferecia melhor proteção e previsibilidade, e optaram pela integração com o sul inglês quando Erik se mostrou incapaz de resistir.
8. Como a morte de Erik afetou a história da Inglaterra? A morte de Erik em 954 marcou o fim do controle nórdico independente sobre o norte da Inglaterra. Jórvík foi absorvida definitivamente pelo reino de Wessex, e o processo de reunificação inglesa — iniciado por Alfredo, o Grande — foi essencialmente completado. Um Jórvík nórdico independente poderia ter dado à Inglaterra uma configuração política muito diferente, mais plural e ligada ao Atlântico Norte.
9. Erik Bloodaxe é uma figura histórica real ou lendária? Erik Bloodaxe é uma figura histórica real, documentada em fontes independentes — tanto escandinavas (sagas, poemas escáldicos) quanto inglesas (Anglo-Saxon Chronicle, Historia Regum). Seu reinado em Jórvík e sua morte em 954 são historicamente bem estabelecidos. Os detalhes de sua personalidade, os assassinatos de irmãos e as caracterizações de Gunnhild pertencem a uma camada literária posterior que deve ser tratada com cautela crítica.
10. Qual é a relação entre Erik Bloodaxe e o fim da era viking? Erik é contemporâneo do período em que o mundo nórdico estava passando por uma transformação profunda: conversão ao cristianismo, formação de reinos mais centralizados, pressão crescente dos estados europeus em consolidação. Sua trajetória — guerreiro excepcional que nunca conseguiu manter um reino duradouro — ilustra as limitações do modelo de liderança viking clássico diante das novas exigências políticas do século X. Sua morte em Stainmore é um marco simbólico do encerramento de uma era.
Leituras Recomendadas
DOWNHAM, Clare. Viking Kings of Britain and Ireland: The Dynasty of Ívarr to A.D. 1014. Edinburgh: Dunedin Academic Press, 2007.
SAWYER, Peter. Os Vikings. Tradução brasileira. Lisboa: Edições 70, 1997.
SNORRI STURLUSON. Heimskringla: History of the Kings of Norway. Tradução de Lee M. Hollander. Austin: University of Texas Press, 1964.
WOOLF, Alex. From Pictland to Alba, 789–1070. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2007.
PRICE, Neil. Children of Ash and Elm: A History of the Vikings. New York: Basic Books, 2020.

