Ivar, o sem ossos
No verão de 870, a rocha de Alt Clut, no estuário do rio Clyde, servia de capital ao reino britânico de Strathclyde e era uma das fortalezas mais difíceis de tomar no norte da Britânia. Diante dela estavam dois reis nórdicos vindos da Irlanda, Amlaíb e Ímar. Os anais irlandeses registram que o cerco durou quatro meses e terminou com a destruição da fortaleza. No ano seguinte, a frota voltou a Dublin com duzentos navios carregados de cativos ingleses, britânicos e pictos.

Se esse Ímar for o homem que as sagas islandesas chamam de Ivar, o Sem Ossos (em nórdico antigo, Ívarr inn beinlausi), a cena mostra um dos chefes vikings mais bem-sucedidos do século IX poucos anos depois de participar da conquista de York. As sagas o apresentam como filho do lendário Ragnar Lodbrok e como comandante do Grande Exército Pagão, que invadiu a Inglaterra em 865. Os anais irlandeses registram um Ímar, rei dos nórdicos de toda a Irlanda e Britânia, morto em 873. A maioria dos historiadores considera a identidade dos dois provável, mas não comprovada. O apelido, por sua vez, só aparece em textos escandinavos tardios, e ninguém sabe ao certo o que significava.

Este artigo separa o que se pode afirmar com segurança sobre Ivar do que pertence à tradição literária. Ele examina as três famílias de fontes (inglesa, irlandesa e escandinava), as explicações para o apelido e a genealogia ligada a Ragnar, a atuação de Ivar no Grande Exército, sua provável carreira em Dublin e o debate historiográfico sobre a identidade entre Ivar e Ímar. Termina com o destino dos Uí Ímair, a dinastia que a tradição associa ao seu nome.
O cenário é o das décadas centrais do século IX, quando as incursões nórdicas deixaram de ser razias sazonais e passaram a ser campanhas prolongadas, com acampamentos de inverno fortificados, exércitos capazes de conquistar reinos inteiros e bases permanentes em rios e portos. Quem procura saber quem foi Ivar, o Sem Ossos, precisa lidar com personagens de nomes parecidos, textos em quatro línguas e séculos de distância entre os fatos e as narrativas que os contam. A campanha inglesa como um todo é tratada no artigo sobre a Grande Invasão Pagã; aqui o foco é o personagem.
As fontes sobre Ivar: três tradições, um mesmo nome
Reconstruir a vida de Ivar depende de comparar textos em latim, inglês antigo, irlandês antigo e nórdico antigo, produzidos em épocas e com propósitos muito diferentes. Nenhum deles é uma biografia. Cada tradição registra o que importava a seus autores: os cronistas ingleses, a ruína dos reinos anglo-saxões; os analistas irlandeses, os ataques a seu território; os poetas e saguistas escandinavos, a glória de linhagens régias.

Fontes inglesas e latinas
A Crônica Anglo-Saxônica, compilada na corte de Alfredo, o Grande, a partir da década de 890, narra ano a ano a chegada e a expansão do Grande Exército, mas nos primeiros anos da invasão não nomeia seus comandantes. Ivar aparece de forma indireta: a entrada de 878 registra a morte, em Devon, de um irmão de Ivar e de Halfdan, que Asser, biógrafo de Alfredo, identifica como Ubba.
O nome ganha relevo em textos hagiográficos, sobretudo na Paixão de Santo Edmundo (Passio Sancti Eadmundi), escrita por Abão de Fleury por volta de 985–987. Ali ele é chamado Hinguar e responsabilizado pela morte do rei da Ânglia Oriental. É um relato composto mais de um século depois dos fatos, com objetivos devocionais, e deve ser lido como tal.
Fontes irlandesas
Os Anais do Ulster são a fonte mais próxima dos acontecimentos, pois suas entradas para o século IX são em grande parte contemporâneas. Neles, Ímar surge ao lado de Amlaíb e Auisle como chefe dos nórdicos de Dublin, participa de saques a santuários e sítios régios da região de Brega, cerca Alt Clut em 870 e tem a morte registrada em 873, com o título de rei dos nórdicos de toda a Irlanda e Britânia.

Outras obras complementam esse quadro com cautela. Os Anais Fragmentários da Irlanda foram compilados séculos depois. O Cogadh Gáedel re Gallaib (a “Guerra dos Gaélicos contra os Estrangeiros”), do século XII, foi escrito para exaltar Brian Boru e é declaradamente hostil aos nórdicos.
Fontes escandinavas
Na tradição nórdica, Ivar aparece numa estrofe escáldica do século XI, que evoca sua presença em York e o suplício do rei Ælla, e sobretudo nas sagas: a Ragnars saga loðbrókar e o Ragnarssona þáttr, do século XIII, além da Gesta Danorum, de Saxo Grammaticus, composta por volta de 1200. Esses textos foram escritos três a quatro séculos depois dos eventos e obedecem a convenções literárias próprias.
Na prática, os historiadores usam os anais irlandeses e as crônicas inglesas como base para os fatos e tratam as sagas como testemunho de como os escandinavos lembravam Ivar, não de o que ele fez. Essa distinção orienta todo o restante deste artigo.
O apelido: o que significa “Sem Ossos”?
Nenhuma fonte do século IX chama Ivar de “sem ossos”. Os ingleses o conhecem como Hinguar ou Inwær, e os irlandeses como Ímar. O epíteto beinlausi aparece apenas em narrativas escandinavas posteriores, e é nelas que ganha uma explicação. Segundo a saga, sua mãe, Áslaug, pediu a Ragnar que esperasse três noites antes de se deitarem depois de uma viagem; ele ignorou o pedido, e o filho nasceu com cartilagem no lugar dos ossos. Adulto, teria sido carregado em um escudo pelos exércitos, o que não o impedia de ser o mais astuto dos irmãos.
Essa passagem usa um motivo folclórico comum: a violação de um tabu na concepção produz uma criança marcada. Isso já sugere prudência antes de tratá-la como descrição médica. Ainda assim, o apelido pede explicação, e os estudiosos propuseram diferentes leituras, com graus muito desiguais de plausibilidade.
Leitura literal. Alguns autores modernos propuseram um diagnóstico retrospectivo, como a osteogênese imperfeita, doença que torna os ossos frágeis. É uma hipótese sem apoio documental: parte de uma descrição lendária redigida séculos depois e aplica a ela categorias médicas modernas. Há, porém, exemplos medievais de comandantes com limitações físicas graves, e o relato da saga, ao dar a Ivar a inteligência como compensação, dialoga com um padrão da mitologia nórdica, em que figuras como Odin, o deus caolho, têm poder justamente por suas marcas corporais.
Leitura sexual. Uma segunda linha lê beinlausi como alusão à impotência, e em algumas versões da tradição Ivar não tem filhos. A hipótese esbarra num problema: se Ivar for o Ímar dos anais, uma dinastia inteira de “descendentes de Ímar” governou Dublin e York nas gerações seguintes. Ou a tradição escandinava mudou o personagem, ou a identificação entre os dois é falha, ou o epíteto tem outro sentido.
Leitura metafórica. Uma terceira hipótese vê no apelido uma imagem de flexibilidade e astúcia, semelhante à de uma serpente, animal presente no nome de outros filhos de Ragnar, como Sigurd Olho-de-Serpente. Nesse caso, “sem ossos” descreveria um negociador capaz de dobrar-se às circunstâncias, e não um corpo. Combina com a fama de estrategista que a saga lhe atribui, mas é uma inferência a partir do texto.
O consenso possível é negativo: não há como decidir entre as leituras. A alegação de que Ivar teve uma doença óssea específica é hipótese moderna, e não dado histórico.
Filho de Ragnar? A genealogia entre história e saga
As sagas apresentam Ivar como um dos filhos de Ragnar Lodbrok (“Calças Peludas”) com Áslaug, que por sua vez é filha do herói Sigurd, matador do dragão Fáfnir, e da valquíria Brynhildr. Os irmãos seriam Björn Costela-de-Ferro, Hvitserk, Sigurd Olho-de-Serpente e, em outras versões, Ubba e Halfdan. A ligação com o ciclo dos Volsungos é reveladora: inserir os chefes que devastaram a Inglaterra na linhagem de heróis lendários era uma forma de nobilitar a memória da conquista.
O problema é o próprio Ragnar. Os historiadores discutem se existiu um só homem com esse nome ou se a tradição fundiu vários personagens. Um candidato frequente é Reginheri, o chefe viking que subiu o Sena até Paris em 845 e recebeu um resgate do rei carolíngio Carlos, o Calvo. Outros nomes, como o de um Ragnall, aparecem em contextos britânicos. A célebre morte de Ragnar no fosso de serpentes do rei Ælla, de Nortúmbria, não consta na Crônica Anglo-Saxônica nem nos anais irlandeses. Ela é conhecida por textos escandinavos tardios, entre eles o poema Krákumál.
Há ainda um problema cronológico: um Ragnar ativo na década de 840 dificilmente teria filhos comandando o exército de 865, e a distância entre as datas alimenta a suspeita de composição literária. Nenhuma fonte irlandesa contemporânea liga Ímar a Ragnar. Para Clare Downham, a inclusão de Ivar na linhagem de Ragnar pode refletir um esforço posterior de dar prestígio a uma dinastia que dominava Dublin e York, ligando-a a um ancestral lendário dos reis dinamarqueses. Essa é uma hipótese razoável, mas indemonstrável.
A conclusão é que a paternidade de Ragnar é tradição literária, não fato estabelecido. O que as fontes contemporâneas permitem afirmar é que Ivar existiu, que foi um chefe de grande autoridade, e que seu nome ficou associado a uma geração de líderes nórdicos nas ilhas britânicas.
De York à Ânglia Oriental: Ivar no Grande Exército
Na versão mais aceita, o Grande Exército desembarcou na Ânglia Oriental em 865, obteve cavalos e trégua dos habitantes e seguiu para o norte. Os anos seguintes trazem a conquista de York (866–867), a campanha contra Mércia, com o cerco de Nottingham (867–868), um novo inverno em York (868–869) e a submissão da Ânglia Oriental (869–870). Os detalhes militares dessa sequência são discutidos no artigo sobre a Grande Invasão Pagã; interessa aqui o papel de Ivar.

Liderança e método
A Crônica Anglo-Saxônica não nomeia os comandantes desses anos. A ideia de que Ivar era o chefe principal se apoia sobretudo em textos posteriores, como a Paixão de Santo Edmundo e as sagas, e na inferência de que quem aparece à frente de uma conquista tão bem coordenada teve papel de destaque. Dois traços são recorrentes na atuação do Exército nessa fase: a combinação de força e negociação, com pagamentos de tributo em troca de trégua, e o uso de acampamentos fortificados de inverno, que serviam de base de operações. Não há como atribuir esses métodos a Ivar em particular, mas a tradição o descreve como astuto e paciente, e o padrão de campanha é compatível com essa imagem.
A vingança em Nortúmbria e a águia de sangue
Na saga, a conquista de Nortúmbria é vingança pela morte de Ragnar. Ivar teria aceitado, a princípio, uma compensação em terras de Ælla e recebido tanta terra quanto uma pele de boi pudesse cercar, cortando-a em tiras finas, um episódio semelhante ao da fundação de Cartago na lenda de Dido e que a saga associa à origem de Londres. Depois, o Exército derrota Ælla, e Ivar o executa pelo ritual conhecido como águia de sangue (blóðörn), em que as costelas seriam cortadas da coluna e abertas como asas.

Os fatos independentes são mais modestos. A Crônica registra que Ælla e o rival Osberht, que disputavam o trono de Nortúmbria, morreram em 867 ao tentar retomar York, e não descreve o modo. Quanto à águia de sangue, Roberta Frank argumentou em 1984 que a prática nasceu de uma leitura equivocada de versos escáldicos, que descreveriam apenas o corpo deixado às aves de rapina. Muitos especialistas hoje veem o suplício com ceticismo, embora o debate continue aberto.
Edmundo e a lógica da hagiografia
Segundo Abão de Fleury, Hinguar exigiu que o rei Edmundo da Ânglia Oriental aceitasse ser seu subordinado e dividisse os tesouros. Edmundo recusou por não querer submeter-se a um pagão, foi amarrado a uma árvore, alvejado por flechas e decapitado. Sua cabeça, diz o texto, foi encontrada guardada por um lobo. É um relato modelado nas histórias de mártires cristãos, e o traço central, o rei santo morto por um tirano pagão, responde a uma necessidade devocional. A morte de Edmundo, em 869 ou 870 conforme o cômputo, é fato aceito; o diálogo entre o rei e Ivar pertence à literatura.
Ímar de Dublin: o mar da Irlanda como teatro de poder
Se Ivar e Ímar forem o mesmo homem, a carreira irlandesa é o outro lado de sua vida. Dublin fora fundada como longphort, base naval fortificada, em 841, e nas décadas seguintes tornou-se o centro do poder nórdico na Irlanda. A partir do fim da década de 850, os anais falam de três chefes, Amlaíb, Ímar e Auisle, que fontes tardias tratam como irmãos. Eles impunham tributo às populações vizinhas, aliavam-se a reis irlandeses conforme a conveniência e enfrentavam rivais de dentro e de fora de seu grupo.
Uma entrada de 863 dá a medida da agressividade desses chefes: eles saquearam as grandes tumbas de passagem do vale do Boyne, entre elas, segundo a identificação corrente, Knowth, Dowth e Newgrange, monumentos pré-históricos que a Irlanda medieval associava a seres sobrenaturais. A ação combinava ganho material e mensagem política: violava o que a elite local considerava sagrado. Auisle morreu em 867, aparentemente em disputa dentro do próprio grupo, e Amlaíb e Ímar ficaram como figuras dominantes.
O cerco de Alt Clut em 870 é o episódio mais bem documentado da carreira de Ímar. Os Anais do Ulster dizem que dois reis dos nórdicos cercaram a fortaleza durante quatro meses e a destruíram; no ano seguinte, retornaram a Dublin com duzentos navios e uma grande presa de cativos, ingleses, britânicos e pictos. A rocha dominava o acesso ao Clyde, e sua queda enfraqueceu o reino de Strathclyde, cujo centro de poder parece ter se deslocado depois para Govan, embora o processo seja debatido. O episódio também mostra a importância do comércio de escravos para a economia de Dublin: os cativos eram o principal produto da expedição.
A entrada de 873 encerra o registro. O texto diz apenas que Ímar, rei dos nórdicos de toda a Irlanda e Britânia, “terminou a vida”. O título diz muito: reconhece um domínio que se estendia dos dois lados do mar da Irlanda, algo próximo de um reino marítimo. Não menciona morte violenta, o que se harmoniza com a tradição da saga de que Ivar morreu de causas naturais.
Um homem ou dois? O debate historiográfico
A identificação entre o Ivar do Grande Exército e o Ímar de Dublin é o principal problema historiográfico do personagem. Alfred Smyth a defendeu com vigor em Scandinavian Kings in the British Isles, 850–880 (1977). Seus argumentos são quatro. Primeiro, o nome: Ímar é a forma irlandesa de Ívarr. Segundo, a cronologia: Ivar deixa de figurar nas narrativas inglesas depois de 870, e Ímar aparece em Alt Clut nesse mesmo ano. Terceiro, o título de rei de “toda a Irlanda e Britânia” seria compatível com quem comandou a conquista de Nortúmbria. Quarto, os Uí Ímair de York e Dublin seriam descendentes desse chefe.
Clare Downham, em Viking Kings of Britain and Ireland: The Dynasty of Ívarr to A.D. 1014 (2007), aceita a identificação como plausível, mas insiste que ela é uma hipótese. Ela chama a atenção para o fato de que Ímar estava ativo na Irlanda desde o fim da década de 850, o que exige supor que ele tenha ido à Inglaterra a partir de 865 e voltado depois. Além disso, Ívarr era um nome frequente entre os escandinavos, e nada nas fontes contemporâneas liga explicitamente os dois personagens.
Uma terceira posição, mais cética, sustenta que se trata de figuras distintas e que a tradição escandinava, ao construir a história de Ragnar e seus filhos, aproveitou o prestígio do Ímar de Dublin para criar o Ivar da saga. Nessa leitura, a saga não descreve um homem, e sim uma composição.
Vale distinguir os níveis. É fato que os anais irlandeses registram Ímar entre 857 e 873 e que o Grande Exército operou na Inglaterra entre 865 e 870. É interpretação majoritária, embora contestada, que Ivar e Ímar são um só. É hipótese que Ivar foi filho de Ragnar, e mais frágil ainda a de que sofreu de uma doença óssea. Manter essas camadas separadas evita que uma conjectura seja apresentada como conclusão.
Morte, túmulo e memória
Os anais irlandeses situam o fim de Ímar em 873. A tradição escandinava tem outra versão: Ivar teria morrido de causas naturais na Inglaterra e pedido para ser enterrado no lugar onde o país fosse mais vulnerável a invasões, de modo que nenhum exército estrangeiro conseguiria vencer enquanto o corpo ali estivesse. A saga acrescenta que Guilherme, o Conquistador, teria aberto o túmulo em 1066, queimado o corpo e vencido. É um episódio de função literária evidente: liga o fim da Era Viking na Inglaterra à conquista normanda e atribui a Ivar, mesmo depois de morto, um papel decisivo.
O motivo do herói cujo corpo protege a terra é conhecido na literatura medieval, e sua presença aqui indica que a saga procura explicar a história posterior, não registrá-la. Um leitor nórdico do século XIII precisava entender por que a Inglaterra, que os dinamarqueses haviam submetido no tempo de Canuto, o Grande, acabara nas mãos de Guilherme. A resposta narrativa é que a proteção deixada por Ivar fora desfeita. O túmulo profanado funciona como peça de uma teoria da história, e não como notícia de arqueologia.
Não há túmulo identificado. O sítio de Repton, em Derbyshire, onde o Grande Exército invernou em 873–874, revelou uma vala com restos de centenas de indivíduos e sepultamentos de guerreiros, e ocasionalmente a imprensa sugeriu ligações com Ivar. Essas conjecturas não têm respaldo documental, e a cronologia aponta em outra direção, já que Ímar teria morrido antes da chegada do Exército a Repton.
Na cultura popular contemporânea, o personagem foi recriado em séries de televisão e jogos eletrônicos, em geral como estrategista cruel e carismático de corpo frágil. Essas versões dependem da leitura literal do apelido, que, como vimos, é a menos garantida. O Ivar da história é uma figura de contornos menos nítidos, definida por poucas linhas de anais e uma tradição posterior muito elaborada.
O legado: os Uí Ímair e o mundo nórdico entre York e Dublin
A tradição irlandesa chama de Uí Ímair, “descendentes de Ímar”, uma dinastia que dominou Dublin e, em certos momentos, York por mais de um século. Os anais identificam netos de Ímar entre seus membros: Ragnall, que se instalou em York por volta de 919, Sihtric Cáech, que o sucedeu, e Gofraid, que governou Dublin. Nesse período, a cidade irlandesa e o reino de York formaram uma zona de influência nórdica ligada pelo mar da Irlanda, com rotas comerciais, cunhagem de moedas e uma intensa circulação de guerreiros e mercadores.
O prestígio da linhagem aparece em momentos decisivos. Em 937, Olaf Guthfrithson, filho de Gofraid, aliou-se aos reis dos escoceses e de Strathclyde e enfrentou o rei inglês Æthelstan na batalha de Brunanburh, uma derrota que interrompeu por algum tempo as ambições da dinastia em York. Seu sucessor Amlaíb Cuarán reinou em Dublin e York e morreu em 981, e seu filho Sigtrygg Barba-de-Seda, o último grande rei nórdico de Dublin, esteve na batalha de Clontarf, em 1014, contra Brian Boru. O livro de Downham termina justamente nessa data.
Esse legado ajuda a entender por que a figura de Ivar cresceu depois de sua morte. Uma dinastia que precisava afirmar sua legitimidade em Dublin, York e no mar da Irlanda tinha interesse em ter um fundador famoso, de preferência ligado a linhagens lendárias. É provável que a tradição das sagas, com sua ênfase na origem régia de Ivar, tenha sido moldada por essa necessidade. O Ivar que chegou até nós é, em parte, uma criação da memória dinástica.
Vale lembrar que a dinastia não esgota a presença nórdica na Inglaterra. Outros reinos vikings em York, como o de Erik Machado Sangrento, tiveram origens diferentes e são tratados em artigo próprio.

Conclusão
Ivar, o Sem Ossos, é um caso exemplar dos limites e das possibilidades da história do início da Idade Média. Dele sobrevivem algumas linhas de anais irlandeses, referências esparsas em textos ingleses e uma vasta tradição literária escandinava, redigida séculos depois. O que se pode afirmar com razoável segurança é que houve um chefe nórdico chamado Ivar ou Ímar, de grande autoridade, e que uma dinastia com esse nome governou Dublin e York. O restante, do apelido à filiação a Ragnar, da águia de sangue à sepultura vigiada, pertence ao território da interpretação ou da hipótese.
Isso não diminui a importância do personagem. Ao contrário, ele mostra como a memória da conquista foi construída: uma sociedade que via na astúcia e na linhagem as marcas do poder transformou um chefe militar em herói de saga, e uma dinastia irlandesa foi a herdeira de seu prestígio. Compreender essa distinção entre o homem e a tradição é o que permite ler as fontes sem repetir suas fábulas e sem perder o que elas revelam sobre a mentalidade de quem as escreveu.
FAQ – perguntas frequentes sobre Ivar, o Sem Ossos
Quem foi Ivar, o Sem Ossos?
Foi um chefe viking ativo nas ilhas britânicas em meados do século IX. As sagas o apresentam como filho de Ragnar Lodbrok e líder do Grande Exército Pagão. Os anais irlandeses registram um Ímar, rei dos nórdicos de Dublin, morto em 873, provavelmente o mesmo personagem.
Por que ele era chamado de “Sem Ossos”?
Ninguém sabe. O apelido só aparece em fontes escandinavas tardias. As explicações vão da doença óssea, hipótese moderna sem prova, à alusão à impotência ou a uma metáfora de astúcia e flexibilidade.
Ivar era realmente filho de Ragnar Lodbrok?
É a tradição das sagas, mas não há confirmação em fontes contemporâneas. Ragnar pode ser um personagem composto, e a genealogia pode ter sido criada para dar prestígio à dinastia de Dublin e York.
Ivar e Ímar de Dublin são a mesma pessoa?
É a hipótese mais aceita, defendida por Alfred Smyth e considerada plausível por Clare Downham, mas continua sendo hipótese. Os argumentos são o nome, a cronologia e o título de rei dos nórdicos de toda a Irlanda e Britânia. Uma corrente cética defende que se trata de figuras distintas.
Quando Ivar viveu e quando morreu?
Sua atividade documentada vai de meados da década de 850, se for o Ímar dos anais, a 873, ano em que os anais irlandeses registram a morte de Ímar. Na Inglaterra, o Grande Exército operou de 865 a 870 sob sua provável liderança.
O que foi a águia de sangue e Ivar a praticou?
Seria um suplício em que as costelas do condenado eram abertas como asas. A saga atribui o ritual a Ivar, contra o rei Ælla. Muitos especialistas duvidam de que a prática tenha existido, e Roberta Frank propôs que nasceu de uma leitura equivocada de versos escáldicos.
Qual a relação de Ivar com a morte de Santo Edmundo?
A Paixão de Santo Edmundo, de Abão de Fleury, atribui a Hinguar a morte do rei da Ânglia Oriental. O relato é hagiográfico e posterior em mais de um século, mas a morte de Edmundo no início da década de 870 é fato aceito.
Ivar era o líder do Grande Exército?
Textos posteriores lhe atribuem papel destacado, mas a Crônica Anglo-Saxônica não nomeia os comandantes das primeiras campanhas. Sua importância é inferida, e não documentada diretamente.
Quem foram os Uí Ímair?
Foram a dinastia de “descendentes de Ímar” que dominou Dublin e, por vezes, York entre o fim do século IX e o início do XI. Entre seus membros estão Ragnall, Sihtric Cáech, Olaf Guthfrithson, Amlaíb Cuarán e Sigtrygg Barba-de-Seda.
Leituras
- DOWNHAM, Clare. Viking Kings of Britain and Ireland: The Dynasty of Ívarr to A.D. 1014. Edimburgo: Dunedin Academic Press, 2007.
- SMYTH, Alfred P. Scandinavian Kings in the British Isles, 850–880. Oxford: Oxford University Press, 1977.
- WOOLF, Alex. From Pictland to Alba, 789–1070. Edimburgo: Edinburgh University Press, 2007.
- PRICE, Neil. Children of Ash and Elm: A History of the Vikings. Londres: Allen Lane, 2020.
- HADLEY, Dawn M. The Northern Danelaw: Its Social Structure, c. 800–1100. Londres: Leicester University Press, 2000.

