Mulheres na história

Mulheres que Mudaram a História: Rainhas, Guerreiras e Cientistas

Cerca de duas décadas depois da morte de Hatshepsut, equipes de artesãos subiram nos andaimes do templo de Deir el-Bahari, na margem ocidental de Tebas, com cinzéis e martelos nas mãos. Seguiam uma ordem que partia da corte de Tutmés III: os relevos que mostravam a mulher que havia reinado como faraó por mais de vinte anos deviam desaparecer. Estátuas foram derrubadas, cartuchos foram raspados, nomes foram substituídos pelos de reis anteriores. O apagamento foi parcial e imperfeito, e é por causa dessa imperfeição que sabemos hoje do que se tentou esconder.

Infográfico sobre mulheres na história, destacando Hatshepsut, Joana d'Arc, Isabel I, Hipátia e Marie Curie e suas contribuições para a política, guerra, filosofia e ciência. Copiar
De Hatshepsut a Marie Curie, mulheres desafiaram as limitações de suas épocas e deixaram marcas profundas na política, nas guerras, na ciência e na cultura. Ilustração: História em Cortes. Copiar

A pergunta que organiza este artigo é simples: qual foi, de fato, o papel das mulheres na história? A resposta direta é que elas exerceram poder político, militar, religioso e intelectual em praticamente todas as grandes civilizações, mas quase sempre por caminhos indiretos, ligados ao parentesco, à regência, ao casamento dinástico, ao sacerdócio e, mais tarde, às instituições de saber. Raramente ocuparam cargos formais de comando, e justamente por isso o registro histórico as tratou como exceções, anomalias ou ameaças, quando na verdade o seu protagonismo foi recorrente e estrutural.

O texto percorre essa trajetória por civilizações e por temas. Começa pelas rainhas e regentes do Egito, da Núbia e da Mesopotâmia, passa pela Pérsia, pela Grécia helenística e por Roma, segue por Bizâncio, pelo mundo asiático, pelo universo islâmico e otomano, pelos mongóis, pela Europa medieval e moderna, pela África e pelas Américas. Dedica seções próprias às mulheres que governaram pela crueldade e pelo medo, às que transformaram o conhecimento científico e às que atuaram nas grandes guerras dos séculos XIX e XX, e termina com o debate historiográfico que sustenta tudo isso.

Antes de começar, convém explicitar o recorte. Este artigo trata de mulheres que tiveram peso político, militar, religioso ou científico, inclusive quando esse peso foi exercido de maneira sombria. Deixa de lado artistas, que merecem tratamento próprio, e criminosas comuns, cuja trajetória pertence à história social do delito e não à história do poder. Também não pretende ser uma galeria de biografias: as mulheres aparecem ao longo da análise, como parte de processos, e não como verbetes. O leitor encontrará mais de cem delas citadas, cada uma no lugar em que ajuda a explicar uma estrutura.

Por que a história registrou tão mal as mulheres

O problema começa nas fontes. Durante quase toda a história escrita, quem escreveu foi uma minoria masculina e letrada: escribas egípcios e mesopotâmicos, cronistas gregos e romanos, monges medievais, secretários de corte. Esses autores tinham interesses políticos, preconceitos morais e uma noção bastante estreita do que merecia ser narrado, que era a guerra, a diplomacia e a sucessão. Quando uma mulher aparecia nesse cenário, era descrita com um vocabulário diferente do aplicado aos homens, no qual conduta sexual, ambição e envenenamento ocupavam o lugar reservado, para eles, às campanhas e às leis.

A historiografia do século XX começou a corrigir esse viés por etapas. Eileen Power, em Medieval Women, mostrou ainda nos anos 1920 e 1930 que a vida das mulheres medievais podia ser estudada com rigor. Joan Kelly, em um artigo de 1977 que se tornou clássico, perguntou se as mulheres tiveram um Renascimento, e concluiu que, para as da elite, as oportunidades de poder e de autonomia diminuíram em vez de crescer. Joan Wallach Scott, em 1986, propôs tratar o gênero como categoria de análise histórica, e não apenas como tema, e Natalie Zemon Davis mostrou como mulheres comuns do início da era moderna negociavam espaço dentro de estruturas que as limitavam. Michelle Perrot, na França, falou dos silêncios da história das mulheres, e no Brasil Mary Del Priore, Rachel Soihet e Margareth Rago consolidaram uma tradição própria.

Gerda Lerner deu a essa discussão um fundamento de longa duração. Em The Creation of Patriarchy, de 1986, argumentou que a subordinação feminina não foi um dado natural e universal, e sim um processo histórico que se consolidou na Mesopotâmia, entre o terceiro e o primeiro milênio antes de Cristo, com a formação dos Estados, a propriedade e o controle da sexualidade e da reprodução. A tese é debatida, e muitos especialistas veem nela uma simplificação, mas ajudou a deslocar a pergunta: em vez de indagar por que as mulheres estiveram ausentes, passou-se a perguntar como foram excluídas e por quais frestas conseguiram agir.

Essas frestas têm um padrão. O poder feminino pré-moderno quase nunca se expressou por uma carreira pública aberta, e sim por posições que a ordem dinástica não conseguia dispensar: a mãe do herdeiro menor, a viúva do rei, a irmã que governava em nome de um irmão, a sacerdotisa de uma divindade importante. Isso explica por que há tantas regentes e tão poucas soberanas plenas, e por que a pergunta “foi rainha ou foi apenas regente?” costuma ser menos útil do que a pergunta “quem, de fato, decidia?”. Em muitas cortes, a resposta era uma mulher.

Há ainda um efeito de retorno. Como as fontes descrevem as governantes com o vocabulário da imoralidade, a historiografia tradicional herdou esse vocabulário e o reproduziu por séculos. Messalina, Agripina, Teodora, Catarina de Médici e Cixi chegaram ao leitor moderno cercadas de lugares-comuns sobre luxúria e veneno. A tarefa do historiador é separar o que as fontes afirmam do que as fontes querem que se acredite, e essa distinção atravessa todas as seções a seguir.

Egito, Núbia e Mesopotâmia: as primeiras rainhas

O Egito faraônico oferece o conjunto mais antigo e mais bem documentado de mulheres no poder. Já na Primeira Dinastia, a rainha Merneith aparece enterrada em Abidos com honras reais, e muitos egiptólogos a consideram regente em nome do filho Den, embora alguns defendam que tenha reinado por direito próprio. No fim da Décima Segunda Dinastia, Sobekneferu assumiu o trono depois da morte de Amenemhat IV e governou por poucos anos, encerrando uma linhagem inteira. Esses casos mostram que, muito antes da época mais famosa, o Egito já aceitava, em situações de crise sucessória, que uma mulher ocupasse a titulatura real.

A Décima Oitava Dinastia ampliou esse espaço. Ahhotep I, na fase final da guerra contra os hicsos, é mencionada em fontes que a associam à preservação do Estado tebano, e sua nora Amósis-Nefertari acumulou o cargo de Esposa do Deus Amon, um posto religioso e econômico tão poderoso que ela foi venerada como divindade protetora de Tebas por séculos. A partir daí, esposas, mães e filhas de reis passaram a controlar rendas, terras e sacerdócios, e a historiografia fala de uma verdadeira instituição, a das mulheres de Amon, que atravessou o Novo Reinado e chegou ao período tardio.

Hatshepsut é o caso mais discutido. Regente de Tutmés III, ainda criança, ela se fez coroar faraó por volta de 1479 a.C. e governou até cerca de 1458 a.C., período em que organizou a expedição comercial a Punt, financiou a construção de Deir el-Bahari e sustentou uma administração estável. Durante muito tempo se acreditou que o apagamento de suas imagens teria sido fruto de ódio pessoal de Tutmés III. Pesquisas posteriores, como as de Dimitri Laboury, sugerem que a destruição só ocorreu muito depois, em um contexto de reorganização sucessória que visava proteger a linhagem de Amenhotep II, e não necessariamente uma vingança contra uma madrasta.

Outras mulheres tiveram peso decisivo em momentos de ruptura. Tiy, esposa de Amenhotep III, aparece em cartas diplomáticas como interlocutora de reis estrangeiros. Nefertiti, ao lado de Akhenaton, recebeu uma iconografia sem precedentes, com tamanho igual ao do rei em cenas rituais, e parte dos estudiosos acredita que ela possa ter governado sozinha por breve período, uma hipótese que segue em disputa. Nefertari, esposa de Ramsés II, trocou correspondência com a rainha hitita Puduhepa e foi homenageada em um túmulo magnífico no Vale das Rainhas. Tausert, viúva de Seti II, atuou como regente de Siptá e depois assumiu o título de faraó por alguns anos, antes do colapso da Décima Nona Dinastia.

Ao sul, na Núbia, o reino de Kush desenvolveu uma tradição própria de mulheres no poder, com o título de kandake, que os autores romanos transcreveram como Candace. Amanirenas liderou, entre 25 e 22 a.C., uma ofensiva contra a província romana do Egito, tomando Siene e destruindo estátuas de Augusto. O imperador resolveu o conflito por meio de um acordo de paz em Samos, em 21 ou 20 a.C., que isentou Kush de tributo. Amanishakheto, provavelmente sua sucessora, deixou joias de ouro que hoje estão em museus europeus, testemunho de uma riqueza que Roma não conseguiu confiscar pela força.

Na Mesopotâmia, o quadro é distinto. A Lista dos Reis Sumérios registra Kubaba, uma antiga dona de taverna de Kish, como a única mulher a ocupar a realeza, e a tradição a recorda como fundadora de uma dinastia. Em Ur, o túmulo da dama Puabi, do terceiro milênio a.C., mostra que uma mulher podia ser enterrada com todas as marcas de uma soberana, entre atendentes sacrificados e riquezas sem paralelo. Em Mari, Shibtu, esposa de Zimri-Lim, administrava o palácio e mantinha correspondência política enquanto o marido estava em campanha, e as tabuinhas de Mari preservam suas cartas.

O Império Assírio mostra a face mais estratégica desse padrão. Sammuramat, a lendária Semíramis dos autores gregos, governou como regente de seu filho Adad-nirari III por volta de 811 a 806 a.C. e teve o nome registrado em estelas, algo excepcional para uma mulher assíria. Naqia, também chamada Zakutu, mãe de Assaradão, obteve dos grandes do reino um juramento de lealdade ao neto Assurbanípal e atuou como mediadora na sucessão. Em Anatólia, Puduhepa, rainha dos hititas e sacerdotisa, teve papel direto na ratificação do tratado com Ramsés II, firmado por volta de 1259 a.C. depois da batalha de Cades, um dos primeiros acordos de paz conhecidos entre duas grandes potências, e seu selo acompanha o do marido, Hattusili III, na documentação hitita.

O que essas trajetórias mostram é que a cultura política do Antigo Oriente não excluía as mulheres do trono, mas condicionava seu acesso a circunstâncias de emergência dinástica e ao argumento religioso. Elas governaram quando a linhagem estava em risco, e foram lembradas de maneira ambígua: celebradas por um lado, apagadas por outro. Esse padrão, de poder concedido em crise e retirado depois, vai se repetir com variações em quase todas as civilizações seguintes.

Pérsia, Grécia e o mundo helenístico

O Império Aquemênida combinava uma cultura aristocrática do poder com formas muito concretas de influência feminina na corte. Atossa, filha de Ciro, foi esposa de Cambises e depois de Dario I, e mãe de Xerxes, e Heródoto lhe atribui a influência decisiva na escolha do filho como herdeiro. As tabuinhas de Persépolis registram que mulheres da família real recebiam rações e administravam propriedades próprias, o que confirma um grau real de autonomia econômica. A mesma documentação mostra mulheres trabalhadoras recebendo pagamentos por seu serviço, em alguns casos superiores aos de homens em funções menores.

Fora da corte, Heródoto descreve duas mulheres de outra natureza. Tomiris, rainha dos masságetas, teria derrotado Ciro, o Grande, em 530 a.C., e mandado mergulhar a cabeça do rei persa em um odre de sangue. A história é provavelmente mais lenda do que fato, já que outras tradições dão versões diferentes da morte de Ciro, mas a figura de Tomiris mostra como os gregos imaginavam mulheres das estepes: guerreiras, soberanas, temíveis. Artemísia I, tirana de Halicarnasso, participou da batalha de Salamina com seus navios ao lado de Xerxes, e Heródoto relata que o rei teria dito que seus homens se haviam portado como mulheres e as mulheres como homens.

Atriz Eva Green representando Artemísia I da Cária no filme 330 a Ascensão do Império
Atriz Eva Green representando Artemísia I da Cária no filme 330 a Ascensão do Império

No mundo grego propriamente dito, a situação variava de cidade para cidade. Em Atenas, as mulheres eram excluídas da cidadania política e viviam sob tutela jurídica, mas figuras como Aspásia, companheira de Péricles e interlocutora de intelectuais, mostram que a vida pública não era completamente fechada a elas. Em Esparta, a realidade era diferente. Aristóteles, criticando o sistema, afirma que as mulheres espartanas possuíam cerca de dois quintos das terras, e Gorgo, filha e esposa de reis e protagonista de várias anedotas de Heródoto, aparece como conselheira política de seu pai Cleômenes e de seu marido Leônidas. Em Cária, Ada governou sob protetorado persa e adotou Alexandre como filho, e Artemísia II construiu o Mausoléu de Halicarnasso em homenagem ao marido e irmão Mausolo, tornando seu nome sinônimo de monumento funerário.

A formação dos reinos helenísticos, depois de Alexandre, produziu o período de maior protagonismo feminino da Antiguidade clássica. Olímpia, mãe do conquistador, sustentou uma disputa feroz pela regência na Macedônia contra Antípatro e Cassandro, e acabou executada em 316 a.C., depois de mandar matar Filipe Arrideu e a esposa dele, Adea Euridice. Cinane, meia-irmã de Alexandre, foi assassinada em 322 a.C. quando tentava casar a filha, Adea Euridice, com o rei Arrideu, e a jovem, por sua vez, liderou um exército em campanha, um dos raros casos documentados de uma mulher comandando tropas macedônicas em ação. Cleópatra da Macedônia, irmã de Alexandre, e Roxana, sua viúva, foram peças de um xadrez dinástico em que a legitimidade passava pelo sangue feminino.

No Egito ptolomaico, as rainhas passaram a figurar ao lado dos reis nos documentos oficiais e nas moedas. Arsínoe II, que se casou com o irmão Ptolomeu II, foi divinizada em vida e participou da política externa e da organização da frota, e Berenice II, esposa de Ptolomeu III, atuou como co-regente e foi celebrada por uma tradição poética que a identificou com uma constelação. Os selêucidas e outras dinastias seguiram padrão semelhante, com mulheres como Cleópatra Tea, que governou ora em nome de filhos, ora em disputa com eles, na Síria do século II a.C. O auge desse processo foi Cleópatra VII, que governou como rainha do Egito entre 51 e 30 a.C., fez alianças com Júlio César e Marco Antônio, teve filhos com ambos e lutou até o fim para manter a independência do último reino helenístico, em uma sequência que se verá de outro ângulo na seção sobre Roma.

A conclusão que a historiografia tira desse mundo é que a cidade-estado clássica, com sua ênfase na cidadania masculina, foi uma exceção restritiva no mundo mediterrâneo, e não a regra. Nos reinos helenísticos, a política dinástica criou um espaço em que as mulheres de linhagem real podiam agir como atores políticos de pleno direito, ainda que sempre sob o risco de acusações de veneno e de ambição desmedida, o mesmo arsenal retórico que seus contemporâneos usavam para desacreditar seus rivais.

Roma: influência sem cargo, império com nome próprio

A Roma republicana excluía as mulheres das magistraturas, do voto e do exército, e submetia-as à tutela de um homem da família. Mesmo assim, a vida política da cidade foi atravessada por elas. Cornélia, filha de Cipião Africano e mãe dos Gracos, tornou-se modelo de matrona e, segundo a tradição, formou politicamente os filhos que tentaram reformar a distribuição de terras. Em 195 a.C., mulheres romanas ocuparam as ruas até forçar a revogação da Lei Opia, que restringia o luxo feminino. Em 42 a.C., Hortênsia, filha do orador Hortênsio, discursou no Fórum contra um imposto que os triúnviros queriam lançar sobre 1.400 mulheres ricas, e o orador, segundo Apiano, conseguiu reduzir a lista a quatrocentas.

O fim da República aprofundou esse protagonismo. Servília, mãe de Bruto e amante de Júlio César, foi consultada pelos conspiradores depois do assassinato do ditador. Fúlvia, esposa de Marco Antônio, organizou a resistência dos aliados do marido na Guerra de Perúgia, em 41 e 40 a.C., e as fontes hostis a descrevem armada e comandando soldados. Otávia, irmã de Otaviano, serviu de ponte entre os dois homens mais poderosos de Roma, até ser humilhada por Antônio em favor de Cleópatra VII. A rainha do Egito, nesse mesmo drama, apostou em uma aliança que, se tivesse vencido em Áccio, em 31 a.C., teria deslocado o centro do Mediterrâneo para Alexandria.

Com o Principado, o poder feminino ganhou forma institucional informal, mas poderosa. Lívia Drusila, esposa de Augusto, acompanhou o marido por mais de cinco décadas, administrou patrimônio imenso, intercedeu por clientes e, por testamento, recebeu o título de Augusta e foi adotada na família Júlia, o que a colocou em posição inédita para uma mulher. Tácito e Dião Cássio a retratam como envenenadora que teria eliminado os rivais de Tibério, uma acusação sem prova e típica do vocabulário que se aplicava a mulheres poderosas. A filha de Augusto, Júlia, e sua neta, Agripina Maior, mostram o outro lado da moeda: o sangue de Augusto passava por elas, e o regime não sabia ao certo como controlá-las.

A figura mais célebre desse processo foi Agripina Menor, irmã de Calígula, esposa de Cláudio e mãe de Nero. Ela fundou, em 50 d.C., a colônia que daria origem a Colônia, na Alemanha, apareceu em moedas ao lado do imperador e, segundo Tácito, orquestrou a sucessão do filho, possivelmente com o envenenamento de Cláudio, tese que a historiografia moderna considera plausível, mas não demonstrada. Nero mandou assassiná-la em 59 d.C., depois de uma tentativa de naufrágio que falhou. Já Messalina, terceira esposa de Cláudio, foi executada em 48 d.C. em circunstâncias obscuras, com a hostilidade das fontes impedindo qualquer julgamento seguro sobre os atos de que a acusaram.

Morte de Messalina por Georges Rochegrosse
Morte de Messalina por Georges Rochegrosse

Quando o Império se consolidou, a presença feminina no centro do poder tornou-se estrutural. Plotina, esposa de Trajano, é citada por Dião Cássio como articuladora da adoção de Adriano, e a tradição suspeita que tenha manipulado a informação sobre os últimos dias do marido. Faustina, a Jovem, acompanhou Marco Aurélio em campanha e recebeu o título de mater castrorum, “mãe dos acampamentos”. No século III, as mulheres da dinastia dos Severos governaram de fato. Júlia Domna, esposa de Septímio Severo, formou um círculo de intelectuais e acompanhou o filho Caracala em campanha. Sua irmã Júlia Mesa articulou a ascensão do neto Heliogábalo em 218, e depois a de Severo Alexandre, com a ajuda das filhas Júlia Soêmia e Júlia Mameia, que passou a governar em nome do filho.

Fora do círculo imperial, houve mulheres que enfrentaram Roma pela força. Bodiceia, rainha dos icenos, liderou em 60 ou 61 d.C. uma revolta que destruiu Camulodunum, Londinium e Verulamium, e só foi esmagada por Suetônio Paulino em batalha campal. Cartimandua, rainha dos brigantes, optou por colaborar com Roma e entregou o líder rebelde Carataco aos romanos, mas viu seu reino mergulhar em guerra civil depois de romper com o marido, Venúcio. Veleda, vidente dos brúcteros, teve influência decisiva na revolta batava de 69 e 70 d.C. Mais tarde, Zenóbia, rainha de Palmira, conquistou o Egito e partes da Anatólia entre 270 e 272, desafiando Aureliano, que a derrotou e a levou a Roma, e Mávia, rainha dos sarracenos, liderou um levante que derrotou tropas romanas em meados do século IV.

O período tardio acrescentou outro tipo de poder, ligado ao cristianismo. Helena, mãe de Constantino, financiou igrejas na Terra Santa e tornou-se uma das mulheres mais veneradas da cristandade. Gala Placídia, filha de Teodósio, foi capturada pelos godos, casou-se com Ataulfo, voltou a Ravena como viúva de Constâncio III e governou o Império do Ocidente como regente do filho Valentiniano III. Sua sobrinha Pulquéria dominou a corte de Constantinopla e, ao lado do marido Marciano, convocou o Concílio de Calcedônia em 451. Justa Grata Honória, irmã de Valentiniano III, enviou um anel a Átila em busca de apoio, e o rei dos hunos interpretou o gesto como proposta de casamento, o que reivindicou como pretexto para invadir a Gália.

Essa linha de continuidade diz algo sobre Roma. A cidade que se orgulhava de manter as mulheres fora das instituições produziu, ao longo de quinhentos anos de Império, mais mulheres de peso político do que qualquer outra civilização mediterrânea antiga. O motivo é estrutural: o poder imperial, por ser dinástico e personalizado, passava necessariamente pela casa do imperador, e a casa era o espaço das mulheres.

Bizâncio e a primeira Idade Média: imperatrizes, regentes e santas

O Império Bizantino herdou de Roma essa lógica doméstica do poder e a levou mais longe. O caso mais citado é o de Teodora, esposa de Justiniano. Durante a revolta de Nika, em 532, a tradição conta que ela recusou a fuga e convenceu o marido a resistir, o que salvou o trono. Como imperatriz, apoiou leis contra o tráfico de mulheres e ampliou direitos de divórcio e de propriedade, e a História Secreta de Procópio, que a pinta como prostituta e conspiradora, deve ser lida como panfleto político de um autor ressentido. Sua contemporânea Antonina, esposa do general Belisário, exerceu papel de intrigante e agente política que as fontes retratam com forte hostilidade.

A partir do século VIII, Bizâncio produziu algo que o Ocidente romano nunca viu: uma mulher governando por direito próprio como basileus. Irene de Atenas assumiu a regência em 780, restaurou o culto às imagens no Segundo Concílio de Niceia, em 787, e em 797 mandou cegar o filho Constantino VI para reinar sozinha, até ser deposta em 802. Esse episódio, que será retomado na seção sobre crueldade, mostra como a legitimidade de uma governante podia ser frágil e ao mesmo tempo ilimitada. Séculos depois, as irmãs Zoé e Teodora Porfirogênita governaram juntas em 1042, e Zoé, em particular, escolheu três maridos sucessivos como imperadores, prova de que a legitimidade passava pelo sangue feminino.

A literatura também teve uma voz feminina de peso. Ana Comnena, filha do imperador Aleixo I, escreveu a Alexíada, uma das principais fontes para o reinado do pai e para o início das Cruzadas. A obra dá ao historiador o raro privilégio de um olhar feminino e erudito sobre o Mediterrâneo do século XII, e foi escrita depois de Ana ser afastada do poder por uma tentativa fracassada de conspiração contra o irmão João II.

No Ocidente pós-romano, a figura da rainha convertida e da regente ganhou força. Clotilde, esposa de Clóvis, teve papel central na conversão do rei franco ao cristianismo niceno, e Teodolinda, rainha dos lombardos, moldou a relação entre o reino e a Igreja romana no fim do século VI. Amalasunta governou a Itália ostrogoda como regente do filho Atalarico e foi assassinada em 535, o que serviu de pretexto para a guerra de Justiniano contra os godos. Na Gália, Bathilde, ex-escrava anglo-saxã que se tornou rainha, governou em nome dos filhos e proibiu a venda de cristãos como escravos no reino franco. Na Inglaterra, Etelfleda, a “Senhora dos mercianos”, liderou a reconquista do Danelaw ao lado do irmão Eduardo, o Velho, e terminou seus dias governando a Mércia por direito próprio, aspecto já abordado no artigo sobre a Grande Invasão Pagã.

Na Europa Oriental e Central, o século X trouxe outras trajetórias. Olga de Kiev governou como regente do filho Sviatoslau a partir de 945, depois de vingar o assassinato do marido Igor, e se batizou em Constantinopla por volta de 957, preparando o terreno para a cristianização da Rus. No Sacro Império, Adelaide da Itália e Teofânia, esposa de Otão II, exerceram a regência durante a menoridade de Otão III, o que mostra como a dinastia otoniana, tratada em outro artigo, dependia das mulheres para se perpetuar. Em todos esses casos, o padrão é o mesmo: a mulher assume o poder em momentos de menoridade, de viuvez ou de disputa sucessória, e o conserva enquanto a ordem dinástica não encontra um homem que a substitua.

China, Japão, Coreia e Vietnã: o poder feminino sob o confucionismo

A China apresenta um paradoxo: uma civilização que sistematizou a subordinação feminina em sua ideologia oficial produziu, com regularidade, mulheres de enorme poder. Já na dinastia Shang, no segundo milênio a.C., Fu Hao, consorte do rei Wu Ding, aparece nas inscrições em ossos oraculares comandando campanhas militares com milhares de soldados, e seu túmulo, descoberto em 1976 em Yinxu, continha armas além de bronzes rituais, confirmando a dimensão marcial da personagem. Na dinastia Han, Lü Zhi, esposa do fundador Liu Bang, governou em nome de filhos e netos entre 195 e 180 a.C., e Ban Zhao concluiu a obra histórica do irmão, o Livro de Han, além de escrever um tratado de instrução moral para mulheres que acabou fixando por séculos o ideal confuciano de submissão.

A dinastia Wei do Norte, de origem nômade, ofereceu espaço ainda maior. A imperatriz viúva Feng, também chamada Wenming, governou como regente entre 465 e 490 e apoiou reformas como o sistema de distribuição equitativa de terras e a sinização da corte, que o imperador Xiaowen levaria adiante. Na dinastia Tang, Wu Zetian foi concubina do imperador Taizong, esposa do imperador Gaozong, regente em nome dos filhos e, em 690, fundadora de uma dinastia própria, a Zhou, tornando-se a única mulher a reinar como imperador na história chinesa. Governou até 705, ampliou o recrutamento de funcionários por exames e patrocinou o budismo. A historiografia confucionista a pintou como usurpadora cruel, mas os especialistas modernos, como Richard Guisso, apontam que sua administração foi competente e relativamente estável.

Na dinastia Song, a imperatriz Liu atuou como regente de 1022 a 1033, e a imperatriz Gao, em 1085, governou durante a menoridade de Zhezong, revertendo reformas de Wang Anshi. Liang Hongyu, esposa de um general, teria tocado tambores de guerra em uma batalha contra os jurchens, em 1130, e suas ações foram celebradas em narrativas posteriores. Na dinastia Ming, a imperatriz Ma, esposa do fundador Hongwu, atuou como conselheira e moderadora do marido, e Qin Liangyu comandou tropas de Sichuan em defesa da dinastia no século XVII. A última e mais discutida foi a imperatriz viúva Cixi, que governou de fato o Império Qing entre 1861 e 1908, sobreviveu à Rebelião Taiping, à Guerra do Ópio e à Guerra Sino-Japonesa, derrubou as reformas dos Cem Dias de 1898 e apoiou os boxers em 1900, em uma sequência de decisões que revelou tanto sua habilidade política quanto os limites de sua visão.

No Vietnã, as irmãs Trưng, Trưng Trắc e Trưng Nhị, lideraram em 40 d.C. uma rebelião contra o domínio chinês e reinaram por três anos, até serem derrotadas pelo general Ma Yuan. Em 248, Triệu Thị Trinh teria liderado nova revolta contra a dominação chinesa. Essas mulheres, lembradas como heroínas nacionais, são exemplos de como a memória de resistência de um povo costuma selecionar figuras femininas como símbolos.

No Japão, a tradição começa em Himiko, rainha de Yamatai no século III, descrita pelos cronistas chineses do Wei Zhi como uma soberana xamânica que governava por meio de ritos. Entre os séculos VI e VIII, oito mulheres ocuparam o trono imperial. A primeira, Suiko, reinou de 592 a 628 ao lado do príncipe Shōtoku e viu o budismo se consolidar na corte. Jitō, no fim do século VII, completou a construção de um Estado centralizado inspirado no modelo chinês, e Kōken, mais tarde coroada de novo como Shōtoku, protagonizou o escândalo político em torno do monge Dōkyō, em 764. No período medieval, Hōjō Masako, viúva do primeiro xógum Minamoto no Yoritomo, ganhou a alcunha de “xógum freira” e, em 1221, segundo a tradição, mobilizou os vassalos de Kamakura contra a corte imperial na guerra de Jōkyū. Tomoe Gozen aparece como guerreira nas crônicas da guerra Genpei, e Ii Naotora governou o domínio de Hikuma como senhora feudal no século XVI.

Na Coreia, o reino de Silla aceitou três mulheres no trono: Seondeok, de 632 a 647, a quem se atribui a construção do observatório de Cheomseongdae; Jindeok, de 647 a 654; e Jinseong, de 887 a 897. Essas soberanas governaram porque a regra da linhagem de “osso sagrado” exigia herdeiros de sangue puro e, em certos momentos, só havia mulheres que o preenchiam. Já na dinastia Joseon, o neoconfucionismo restringiu o espaço feminino, embora a rainha Munjeong tenha governado como regente nos anos 1540 e 1550, e a imperatriz Myeongseong, esposa do rei Gojong, tenha sido assassinada em 1895 por agentes japoneses por resistir à ocupação de seu país.

O que a Ásia Oriental mostra é que a ideologia confuciana, por mais restritiva que fosse, conviveu com a realidade dinástica. As mulheres chinesas, japonesas e coreanas que governaram o fizeram em nome de filhos, maridos ou da própria linhagem, e foram julgadas depois por cronistas que as consideravam violações da ordem natural. O padrão se parece com o do Mediterrâneo, mas a formulação ideológica é diferente: onde Roma falava em pudicitia e luxuria, os historiadores chineses falavam em “a galinha que canta de manhã”, expressão que pretendia mostrar a inversão das hierarquias quando a mulher governa.

Índia, mundo islâmico e Império Otomano: sultanas, begums e rainhas de harém

A Índia pré-moderna oferece exemplos de mulheres no poder em reinos hindus e muçulmanos. Didda, rainha da Caxemira entre 958 e 1003, governou primeiro como regente e depois por direito próprio, depois de eliminar potenciais rivais da própria família, o que a tornou lembrada como governante hábil e implacável. Rudrama Devi, da dinastia Kakatiya, reinou em Deccan de 1262 a 1289 e foi designada pelo pai como herdeira, o que a obrigou a governar sob nome e títulos masculinos. Mais tarde, Ahilyabai Holkar, em Indore, administrou o domínio de 1767 a 1795, e Velu Nachiyar, de Sivaganga, resistiu aos britânicos na década de 1780, em uma das primeiras campanhas anticoloniais lideradas por uma mulher no subcontinente.

No sultanato de Délhi, Razia Sultana subiu ao trono em 1236, depois de uma disputa sucessória, e governou até 1240, tornando-se a única mulher a reinar em Délhi. Seu reinado terminou em uma conspiração de nobres turcos incomodados com a ascensão de funcionários que não pertenciam ao seu círculo. No Império Mogol, o poder das mulheres foi mais indireto e mais constante. Nur Jahan, esposa de Jahangir, governou de fato durante o período em que o marido estava debilitado, emitiu éditos, cunhou moedas com seu nome e conduziu a política de nomeações. Jahanara Begum, filha de Shah Jahan, administrou a casa imperial e foi uma das mulheres mais ricas do mundo no século XVII. Chand Bibi, rainha regente de Ahmednagar, defendeu a cidade contra as tropas mogóis em 1595, e Durgavati, rainha de Gondwana, morreu em combate contra o general de Akbar em 1564, episódio que os historiadores indianos transformaram em símbolo de resistência.

No século XIX, a resistência ao colonialismo britânico produziu outras figuras. Kittur Chennamma desafiou a Companhia das Índias Orientais em 1824, e Lakshmibai, rani de Jhansi, morreu em combate em 1857, durante a Grande Revolta, tornando-se o rosto mais lembrado do levante. Begum Hazrat Mahal, de Oudh, liderou a resistência em Lucknow durante o mesmo conflito. A historiografia indiana debate o quanto essas memórias foram construídas a posteriori, no contexto do nacionalismo do século XX, mas o fato de terem lutado é bem documentado.

No mundo islâmico, a condição feminina variou muito com o tempo e o lugar, e o quadro tradicional de reclusão não descreve todas as épocas. No califado abássida, Khayzuran, mãe de Harun al-Rashid, exerceu influência política considerável sobre três califas, e Zubayda, esposa de Harun, financiou uma rota de peregrinação entre Bagdá e Meca que levou seu nome. Fátima al-Fihri, segundo a tradição, fundou em 859 em Fez a mesquita e a instituição de ensino de al-Qarawiyyin, que muitos consideram a universidade mais antiga em funcionamento contínuo. Arwa al-Sulayhi governou o Iêmen sulaímida de 1067 a 1138, e foi, por décadas, a figura central de um Estado que disseminou o ismailismo. No Egito, Shajar al-Durr assumiu o sultanato em 1250 depois da morte do marido, enquanto o rei francês Luís IX era derrotado em Mansura, e foi forçada a abdicar por causa da oposição do califa de Bagdá a uma mulher no trono. Sayyida al-Hurra, governadora de Tetuão, comandou no século XVI uma frota corsária no Mediterrâneo ocidental em aliança com os otomanos.

O Império Otomano desenvolveu o fenômeno que Leslie Peirce chamou de “política do harém” e que a historiografia mais antiga tratou como “sultanato das mulheres”. Hürrem Sultan, esposa de Solimão, o Magnífico, rompeu com a tradição de que sultões não se casavam com concubinas e passou a exercer influência política sem precedentes, o que se prolongou com a filha, Mihrimah. Nurbanu, Safiye, Kösem e Turhan Hatice, mães de sultões entre as décadas de 1560 e 1680, administraram fundações, nomearam grão-vizires e arbitraram disputas entre facções. Peirce argumenta que esse poder não resultava de decadência moral do Império, como diziam cronistas e viajantes europeus, e sim de uma lógica dinástica específica, em que as mães de príncipes representavam a continuidade da casa de Osman enquanto os sultões se sucediam.

O quadro que emerge do mundo islâmico e indiano é mais diverso do que o senso comum supõe. Nele, mulheres administraram cidades, fundaram instituições, governaram em nome próprio e comandaram forças armadas, e os mesmos cronistas que registraram suas ações frequentemente as acompanharam de comentários moralizantes. As fontes, mais uma vez, dizem tanto sobre os autores quanto sobre as mulheres de que falam.

Os mongóis: mulheres no comando de um império continental

O Império Mongol, a maior formação territorial contínua da história, deu às mulheres um papel que contrastava com as sociedades sedentárias vizinhas. Hö’elün, mãe de Gengis Khan, sustentou os filhos na pobreza e na orfandade e criou o grupo que depois conquistaria a Eurásia. Börte, sua esposa principal, foi consultada em decisões estratégicas e administrou parte do território enquanto o marido estava em campanha. As esposas dos grandes cãs controlavam acampamentos, rebanhos e séquitos próprios, o que lhes dava base de poder concreta.

Infográfico sobre as mulheres no Império Mongol, destacando guerreiras, governantes, diplomatas e figuras históricas como Hoelun, Sorghaghtani Beki, Töregene Khatun, Khutulun e Mandukhai Khatun. Copiar
As mulheres desempenharam papéis fundamentais na história mongol, exercendo influência na política, na diplomacia, na administração e nas campanhas militares. De Hoelun, mãe de Gêngis Khan, a Mandukhai Khatun, que promoveu a reunificação mongol no século XV, suas trajetórias revelam a importância feminina nas sociedades das estepes asiáticas.

Depois da morte de Ögedei, em 1241, Töregene governou como regente até 1246, quando conseguiu a eleição do filho Güyük como grande cã, depois de anos de campanha política. Sorghaghtani Beki, viúva de Tolui e cristã nestoriana, criou quatro filhos que se tornaram grandes figuras da história mongol: Möngke, Kublai, Hulagu e Ariq Böke. Sua habilidade política e sua administração das terras do marido foram elogiadas por fontes persas, chinesas e cristãs. Doquz Khatun, esposa de Hulagu, influenciou a política religiosa do Ilkhanato da Pérsia e favoreceu os cristãos. Oghul Qaimish, ao contrário, mostrou os limites do sistema: sua regência, após Güyük, terminou em 1251, com a execução ordenada por Möngke depois de uma disputa sucessória.

O fim do Império não encerrou essa tradição. No século XV, Mandukhai Khatun, a “Sábia”, assumiu a regência do jovem Dayan Khan, reunificou os mongóis orientais e liderou pessoalmente campanhas militares, inclusive grávida, segundo as crônicas. Marco Polo, por sua vez, narra a história de Khutulun, sobrinha-neta de Kublai, que desafiava pretendentes para lutas e só aceitaria casar-se com quem a vencesse, uma história que a historiografia trata com cautela. O quadro geral, no entanto, é claro: entre os mongóis, as mulheres da família real tinham prerrogativas políticas e econômicas reais, e a historiografia atual, de Jack Weatherford a Anne Broadbridge, vem insistindo que o Império só pode ser entendido levando-se em conta esse fato.

Europa medieval e moderna: regentes, rainhas e soberanas por direito próprio

A Europa medieval produziu mulheres de grande poder em contextos muito variados. Matilde da Toscana, marquesa, administrou um dos maiores domínios da Itália no século XI e teve papel de mediadora em Canossa, em 1077, quando o imperador Henrique IV se humilhou diante do papa Gregório VII. Leonor da Aquitânia herdou o maior ducado da França, foi rainha consorte da França e depois da Inglaterra, e participou das Cruzadas e das intrigas dos filhos contra o marido Henrique II. Branca de Castela governou a França como regente do filho Luís IX entre 1226 e 1234, e depois de novo em 1248, quando o rei partiu em cruzada, e as fontes a descrevem como governante firme. Urraca de Leão e Castela e sua neta Berenguela foram soberanas por direito próprio, e Petronila de Aragão herdou o reino em 1137, com a particularidade de ter sido noiva ainda criança.

No Oriente latino, Melisenda, rainha de Jerusalém, governou o reino cruzado de 1131 a 1153, primeiro ao lado do marido Fulque e depois como regente do filho Balduíno III, e sua filha Sibila, em 1186, coroou a si mesma e depois o marido Guido de Lusignan, em um gesto de legitimidade pouco usual. Esses casos, junto com o das mulheres que participaram das expedições cruzadas, já são tratados no artigo específico sobre as mulheres nas Cruzadas. Na Geórgia, Tamar reinou de 1184 a 1213 e levou o país ao seu apogeu, e seu título oficial, “rei dos reis”, ficou no masculino, o que mostra como a ideologia do poder se adaptava a uma soberana.

Infográfico sobre o papel das mulheres nas Cruzadas como financiadoras, governantes, combatentes, religiosas, esposas, mães e cronistas
Mulheres nas Cruzadas exerceram funções políticas, religiosas, econômicas e, em alguns casos, militares, deixando sua marca na história do movimento cruzado.

No fim da Idade Média, a Guerra dos Cem Anos apresentou Joana d’Arc, camponesa que liderou o exército francês em 1429 até Orleans e Reims, foi capturada pelos borgonheses, entregue aos ingleses e queimada em Ruão em 1431. Seu caso é tratado nos artigos sobre o conflito, e basta lembrar aqui que a França do século XV usou uma figura religiosa feminina para legitimar a causa do Delfim. Isabel da França, rainha consorte de Henrique V, e Margarida de Anjou, esposa de Henrique VI, participaram diretamente das guerras de sucessão que marcaram os dois reinos, e Margarida comandou o exército lancastriano durante a Guerra das Rosas. Margarida da Dinamarca, no fim do século XIV, tornou-se regente de três reinos escandinavos e articulou a União de Kalmar, e Jadwiga, coroada rei da Polônia em 1384, preparou a união com a Lituânia por meio do casamento com Jogaila.

A era moderna trouxe o maior número de soberanas plenas da história europeia. Isabel I de Castela, que reinou de 1474 a 1504, venceu uma guerra de sucessão contra a sobrinha Joana, conduziu a conquista de Granada em 1492 e patrocinou a expedição de Colombo, e sua filha Joana I, afastada do governo, foi mantida em reclusão até a morte. Na Inglaterra, Maria Tudor foi a primeira rainha a governar por direito próprio, e sua irmã Elizabeth I reinou por 45 anos, derrotou a Armada espanhola em 1588 e estabilizou a Igreja anglicana. Maria Stuart, sua rival, foi rainha da Escócia, e Lady Jane Grey ocupou o trono por nove dias em 1553. Catarina de Médici, regente da França durante as guerras de religião, e Joana d’Albret, rainha de Navarra e líder calvinista, mostraram o outro lado do mesmo conflito.

Os séculos XVII e XVIII ampliaram o quadro. Cristina da Suécia reinou entre 1632 e 1654, patrocinou a vida intelectual e abdicou para se converter ao catolicismo. Maria Teresa da Áustria governou os domínios dos Habsburgo de 1740 a 1780, enfrentou a Guerra de Sucessão Austríaca e promoveu reformas administrativas, militares e educacionais. Catarina II, a Grande, reinou na Rússia de 1762 a 1796, expandiu o império até o mar Negro, dividiu a Polônia e conduziu a modernização da administração. Antes dela, Sofia Alexeievna, regente de seus irmãos, e as imperatrizes Ana e Isabel, nas décadas de 1730 e 1740, mostraram que o trono russo estava aberto a mulheres. No Brasil e em Portugal, Maria I governou de 1777 a 1816, e a corte do Rio de Janeiro teve ainda Carlota Joaquina e Leopoldina como figuras políticas, temas retomados mais adiante.

O século XIX trouxe Vitória, que reinou de 1837 a 1901 e deu nome a uma era, e Isabel II da Espanha, cuja instabilidade mostrou os limites do modelo dinástico em sociedades que se industrializavam. Ao mesmo tempo, o mundo colonial produziu soberanas como a rainha Liliuokalani, do Havaí, deposta em 1893, e Pōmare IV, do Taiti, que resistiu à imposição do protetorado francês. O padrão europeu, portanto, não difere muito do asiático: mulheres governavam em nome de herdeiros, por falta de herdeiros homens ou por direito próprio, e eram julgadas pela posteridade em termos que combinavam admiração, desconfiança e moralismo.

África: rainhas-mães, guerreiras e resistência ao colonialismo

As fontes sobre a África subsaariana são mais irregulares do que as do Mediterrâneo ou da Ásia, e isso exige cautela: muitas das figuras mais célebres são conhecidas por tradições orais registradas séculos depois, ou por cronistas estrangeiros. Dentro desses limites, o padrão observado é claro. Em vários reinos, o título de rainha-mãe ou de irmã do rei não era cerimonial, e sim um cargo com funções políticas, jurídicas e religiosas. No Benim, a rainha-mãe Idia, mãe do oba Esigie, no século XVI, teria sustentado o filho em guerras e recebido um palácio próprio, e os bronzes que a retratam estão entre as obras mais célebres da África ocidental.

No norte do continente, Kahina, líder berbere do final do século VII, resistiu por anos à expansão omíada no Magrebe e ficou na memória como símbolo de resistência, embora os relatos sobre ela sejam tardios e carregados de elementos lendários. Tin Hinan, apresentada pela tradição tuaregue como ancestral do povo, tem um túmulo em Abalessa, no Saara argelino, que dá base material a uma figura em boa parte legendária. No Sahel, Amina de Zazzau, conhecida da tradição hauçá como guerreira do século XVI, é um caso em que o historiador deve separar com cuidado a tradição oral da prova documental, que é escassa.

Na Etiópia, Mentewab, esposa do imperador Bakaffa, foi regente do filho Iyasu II a partir de 1730 e dominou a corte de Gondar por quase três décadas. Taytu Betul, esposa de Menelique II, teve papel de peso na campanha que culminou na vitória de Adwa, em 1896, quando a Etiópia derrotou o exército italiano e preservou a independência. Ela mobilizou tropas, organizou o abastecimento e influenciou decisões políticas, e é uma das poucas mulheres associadas a uma vitória africana sobre uma potência colonial. Em Angola, Njinga, tratada em artigo próprio, mostra como uma soberana soube combinar diplomacia, guerra e conversão estratégica no seu enfrentamento com os portugueses.

No Daomé, o corpo de mulheres soldados conhecido pelos europeus como “amazonas” e chamado de Agojie pelos daomeanos constituía uma força militar profissional que combateu até a campanha francesa de 1890 a 1892. Hangbe, que alguns historiadores identificam como governante do reino por poucos anos no início do século XVIII, teve sua memória apagada pelos sucessores, em um caso em que a ausência nas fontes oficiais é, ela própria, evidência. No Congo, Kimpa Vita, também chamada Beatriz, liderou no início do século XVIII um movimento religioso, o antonianismo, que combinava cristianismo e tradição local e pregava a reunificação do reino, e foi queimada na fogueira em 1706 por ordem do rei e dos missionários capuchinhos.

No século XIX, a pressão do colonialismo tornou os papéis femininos ainda mais visíveis. Nana Asma’u, filha do fundador do califado de Sokoto, foi educadora, escritora e organizadora de uma rede de ensino para mulheres. Mmanthatisi, líder dos batlokwa, conduziu seu povo durante a turbulência do Mfecane, nos anos 1820, e Labotsibeni Mdluli foi regente da Suazilândia de 1899 a 1921 e apoiou a fundação do movimento que daria origem ao Congresso Nacional Africano. Em 1900, Yaa Asantewaa, rainha-mãe de Edweso, liderou a guerra do Trono de Ouro contra a Grã-Bretanha, depois de o governador britânico exigir o símbolo da unidade ashanti. Madagascar teve uma série de rainhas, entre elas Ranavalona I, que governou de 1828 a 1861 e será discutida adiante, e Ranavalona III, deposta pelos franceses em 1897.

As Américas: de Palenque a Manuela Sáenz

Nas sociedades indígenas americanas anteriores à conquista, as mulheres também exerceram poder, embora a documentação seja desigual. Entre os maias do período clássico, as inscrições de Palenque, Naranjo, Waka’ e outras cidades registram rainhas e regentes. Yohl Ik’nal governou Palenque de 583 a 604, Sak K’uk’, mãe do futuro Pakal, foi regente em Palenque e transmitiu a legitimidade ao filho, e Lady Six Sky, de Naranjo, restaurou a dinastia local no século VII com apoio militar de Calakmul. Lady K’abel, em Waka’, acumulou o título de kaloomte’, associado à autoridade militar suprema. Esses nomes foram decifrados a partir dos anos 1960 e 1970, por epigrafistas como Tatiana Proskouriakoff e David Stuart, e mudaram a imagem de uma civilização tida como exclusivamente masculina em sua vida política.

No contato com os europeus, a presença feminina foi decisiva e ambígua. Anacaona, cacica de Xaraguá, na ilha de Hispaniola, foi executada em 1503 pelos espanhóis depois de um massacre de líderes taínos. Malintzin, também chamada Malinche, serviu de intérprete e conselheira a Hernán Cortés durante a conquista do México, e sua figura é debatida até hoje: traidora para uns, mediadora involuntária para outros, vítima de um sistema de tráfico de mulheres para outros ainda. Isabel Moctezuma, filha do soberano asteca, recebeu encomiendas e se casou várias vezes dentro da elite espanhola, e Chimpu Ocllo, mãe do cronista Inca Garcilaso de la Vega, é um exemplo de como a nobreza inca se integrou ao novo regime.

A resistência colonial produziu líderes nos Andes no fim do século XVIII. Micaela Bastidas, esposa de Túpac Amaru II, foi estrategista e administradora da rebelião de 1780 e 1781, e foi executada em Cusco depois da derrota. Bartolina Sisa, esposa de Túpac Katari, e Gregoria Apaza, irmã dele, lideraram o cerco de La Paz, e Bartolina foi executada em 1782. No ciclo das independências, Juana Azurduy comandou tropas no Alto Peru e recebeu patente póstuma de general muito tempo depois, Manuela Sáenz tornou-se a figura política mais influente ao lado de Simón Bolívar e salvou-o de uma tentativa de assassinato em 1828, e Policarpa Salavarrieta foi executada pelos espanhóis na Colômbia em 1817 por espionagem a favor dos patriotas. No México, Josefa Ortiz de Domínguez e Leona Vicario deram apoio logístico e financeiro à insurreição de 1810.

Na América do Norte, Nanyehi, mais conhecida como Nancy Ward, foi Beloved Woman dos cherokees e tentou mediar a paz com os colonos, e Molly Brant, mohawk, foi estrategista da aliança entre os iroqueses e os britânicos durante a Revolução Americana. Essas mulheres moveram-se em um mundo em que a autoridade das mães de clã, entre os iroqueses, determinava quem seria chefe, o que contrastava com as sociedades coloniais que tentavam impor um modelo patriarcal.

O Brasil: da colônia à república

O Brasil tem uma história de mulheres no poder que costuma ser pouco lembrada. Ana Pimentel administrou a capitania de São Vicente nos anos 1530 e 1540, enquanto o marido Martim Afonso de Sousa estava na Índia, tornando-se provavelmente a primeira mulher a governar no território. Brites de Albuquerque, em Pernambuco, assumiu a capitania do marido, Duarte Coelho, e a conduziu em um período de guerra contra indígenas e de consolidação da produção açucareira. Entre os escravizados, Tereza de Benguela chefiou o Quilombo do Quariterê, em Mato Grosso, no século XVIII, e a tradição de Palmares guarda os nomes de Aqualtune e Dandara, cuja existência histórica é, no caso de Dandara, debatida pelos especialistas, assim como a de Luísa Mahin, associada à Revolta dos Malês.

Na Independência, Maria Quitéria vestiu-se de homem para lutar nas tropas baianas contra os portugueses e recebeu de Pedro I a condecoração de alferes, e Maria Felipa de Oliveira liderou uma resistência na ilha de Itaparica, também em 1822 e 1823. Joana Angélica, abadessa do Convento da Lapa, foi morta em fevereiro de 1822 ao tentar impedir a entrada de soldados portugueses. Bárbara de Alencar participou da Revolução Pernambucana de 1817 e foi presa. Nesse mesmo ano de 1822, a arquiduquesa Leopoldina, regente em exercício durante a ausência de Pedro, assinou o conselho que levou o príncipe a declarar a independência. Carlota Joaquina, esposa de João VI, conspirou durante anos para assumir posição política própria, e a rainha Maria I, sua sogra, havia deixado o trono em 1792, incapacitada.

Nas décadas seguintes, Anita Garibaldi lutou na Revolução Farroupilha e em Laguna, Ana Néri organizou o atendimento aos feridos na Guerra do Paraguai, e Jovita Feitosa alistou-se como voluntária no mesmo conflito. A princesa Isabel exerceu a regência três vezes, e em 13 de maio de 1888 assinou a Lei Áurea, ato que entrou para a história nacional, embora a historiografia lembre que a abolição foi resultado, antes de tudo, da pressão dos próprios escravizados, do movimento abolicionista e da crise do escravismo. Depois da República, Leolinda Daltro fundou, em 1910, o Partido Republicano Feminino, e Bertha Lutz liderou a campanha que garantiu o voto às mulheres no Código Eleitoral de 1932. No ano seguinte, Carlota Pereira de Queirós tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Mulheres cruéis: poder, violência e a armadilha das fontes

Discutir a crueldade de governantes mulheres exige um cuidado duplo. De um lado, houve mulheres que mandaram matar, mutilar, torturar e perseguir em escala considerável, e negar isso seria tão anacrônico quanto idealizá-las. De outro, a tradição que registrou esses atos foi quase sempre hostil, e a crueldade feminina foi descrita com mais ênfase e mais detalhes sensacionais do que a masculina, que tendia a ser tratada como exercício normal do poder. A pergunta útil não é se elas foram piores do que os homens, o que nenhum estudo sério sustenta, mas como a violência de cada uma foi documentada e o que a documentação revela.

Na Pérsia, Heródoto atribui a Améstris, esposa de Xerxes, o sepultamento de catorze jovens nobres persas como oferenda a uma divindade do mundo subterrâneo, e a mutilação da esposa de Masistes por ciúme e vingança. Plutarco, citando Ctésias, afirma que Parisátis, mãe de Artaxerxes II, envenenou a nora Estatira em uma refeição. Ambas as narrativas vêm de autores gregos que escreviam sobre a corte persa com o olhar de quem a considerava decadente, o que obriga a lê-las com reserva. Na Macedônia, Olímpia mandou matar rivais com métodos que as fontes descrevem com minúcia, e no Egito selêucida Cleópatra Tea, segundo Apiano e Justino, assassinou o próprio filho Seleuco V em 125 a.C. quando ele tentou governar sem ela, e depois foi forçada a beber o veneno que preparara para outro filho.

Em Roma, a tradição estampou nas mulheres da casa imperial uma série de crimes. Tulia, filha do rei Sérvio Túlio, teria atropelado com a carruagem o corpo do pai, segundo Lívio, em uma passagem que combina história e moralização da monarquia arcaica. Agripina Menor teria envenenado Cláudio, Lívia teria eliminado herdeiros, e Messalina teria conspirado contra o marido. Tácito e Suetônio dão detalhes que raramente se verificam, e a historiografia moderna, de Barbara Levick a Judith Ginsburg, insiste na distinção entre o que é fato, o que é suspeita e o que é topos literário. O mesmo vale para Teodora, de Bizâncio, retratada por Procópio como depravada.

No reino franco do século VI, Fredegunda e Brunilda protagonizaram uma guerra civil que durou décadas, alimentada por assassinatos em série de reis, rainhas e príncipes. Gregório de Tours, que as conheceu, atribui a Fredegunda uma série de crimes que a tornaram figura de pesadelo, e Brunilda, que governou a Austrásia e a Borgonha por cerca de três décadas, foi executada em 613, arrastada por um cavalo, por ordem de Clotário II. Irene de Atenas cegou o filho Constantino VI em 797, ato que lhe permitiu reinar sozinha e que gerou escândalo mesmo para uma corte acostumada à violência. Olga de Kiev, segundo a Crônica dos Tempos Passados, vingou o marido Igor com uma sequência de atos brutais contra os drevlianos, que teriam incluído o sepultamento de emissários vivos e o incêndio de uma cidade por meio de pássaros com fogo preso às patas, narrativa em que elementos lendários se misturam à memória de uma repressão real.

Na China, a imperatriz Lü, depois da morte do marido Liu Bang, mandou mutilar a rival Lady Qi, transformada em “porco humano” na narrativa de Sima Qian, o que se tornou emblema da ferocidade palaciana. Wu Zetian foi acusada de eliminar rivais, de matar a própria filha para incriminar a imperatriz anterior e de promover purgas contra a aristocracia, e os registros oficiais posteriores foram escritos por funcionários confucionistas ressentidos. A imperatriz viúva Cixi tem sobre si a suspeita de ter envenenado o imperador Guangxu, que morreu um dia antes dela, em 1908, e análises feitas em 2008 detectaram arsênio em níveis muito elevados nos restos do imperador, embora a autoria permaneça indemonstrada.

Na África, Ranavalona I de Madagascar governou de 1828 a 1861 com um sistema de trabalho forçado, o fanompoana, que mobilizava a população em escala crescente, e com a perseguição aos cristãos. Usou também a ordália do tangena, em que acusados bebiam veneno extraído de uma noz para provar inocência. As estimativas sobre a perda populacional causada por seu reinado variam muito e são disputadas, mas há consenso de que o regime foi extremamente violento. Na Europa moderna, Maria Tudor mandou queimar cerca de trezentos protestantes entre 1555 e 1558, e a memória protestante, consolidada em John Foxe, lhe deu a alcunha de “Maria Sanguinária”. Catarina de Médici esteve ligada ao massacre de São Bartolomeu, em 1572, mas a extensão de sua responsabilidade é debatida, e Isabel de Castela, ao lado de Fernando, instituiu a Inquisição espanhola em 1478 e assinou o decreto de expulsão dos judeus em 1492.

Há ainda casos em que a própria acusação é o problema histórico. Erzsébet Báthory, nobre húngara processada em 1610 por supostamente matar centenas de jovens, tornou-se uma figura de lenda sombria, mas estudiosos como Tony Thorne e Kimberly Craft apontam que o processo envolveu disputas patrimoniais e políticas, que as testemunhas foram obtidas sob pressão e que a magnitude dos números é duvidosa. Sua história é, antes de tudo, um estudo de como a sociedade constrói a imagem da mulher perigosa.

O quadro que se extrai dessas trajetórias é menos o de uma crueldade feminina específica e mais o de uma lógica comum do poder pré-moderno. Em sistemas em que a sucessão se resolvia por morte, cegueira ou exílio, quem ocupava o centro do poder, homem ou mulher, tinha de eliminar rivais ou ser eliminado. As mulheres que agiram assim foram julgadas, depois, por um critério duplo, que as condenou não só pelo que fizeram, mas por terem ocupado um lugar que a ordem moral lhes negava.

Mulheres nas grandes guerras: da enfermaria à linha de frente

Até o século XIX, a participação feminina em guerras foi uma combinação de comando dinástico, defesa de cidades sitiadas, disfarce masculino e trabalho de apoio. A guerra da Crimeia, de 1853 a 1856, mudou o cenário. Florence Nightingale reorganizou o hospital de Scutari e usou estatística para demonstrar que as mortes por doença superavam em muito as mortes em combate, o que a tornou também pioneira da saúde pública. Mary Seacole, de origem jamaicana e excluída das equipes oficiais, montou por conta própria um estabelecimento perto do front. Na Guerra Civil americana, Clara Barton organizou o socorro aos feridos, Dorothea Dix chefiou o serviço de enfermagem da União e Harriet Tubman liderou, em 1863, a incursão no rio Combahee, que libertou centenas de escravizados.

A Primeira Guerra Mundial ampliou essa presença de forma decisiva. Edith Cavell, enfermeira britânica em Bruxelas, foi fuzilada em 1915 por ajudar soldados aliados a fugir, e sua morte virou instrumento de propaganda. Elsie Inglis fundou os Hospitais de Mulheres Escocesas, que atuaram na Sérvia, e Flora Sandes alistou-se no exército sérvio, onde alcançou patente de oficial. Milunka Savić, também sérvia, combateu como soldado e recebeu algumas das mais altas condecorações da Europa. Maria Bochkareva comandou na Rússia, em 1917, o Batalhão Feminino da Morte, e na França Marie Curie desenvolveu unidades móveis de radiologia que ficaram conhecidas como “pequenas Curies”. Elsie Knocker e Mairi Chisholm mantiveram um posto de socorro a poucos metros das trincheiras em Pervyse, e Louise de Bettignies dirigiu uma rede de espionagem no norte da França até ser presa.

Infográfico sobre o papel das mulheres na Primeira Guerra Mundial (1914–1918), destacando enfermeiras, operárias de munições, combatentes, motoristas, espiãs e sufragistas.
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), milhões de mulheres desempenharam funções essenciais nos hospitais, nas fábricas, nos serviços militares e nos movimentos políticos. Sua participação contribuiu para transformar o papel feminino nas sociedades do século XX.

A guerra teve também efeitos políticos de longo prazo. Emmeline Pankhurst suspendeu a campanha sufragista militante e passou a recrutar mulheres para as fábricas de munição, e a participação de milhões de trabalhadoras nas economias de guerra pesou nas decisões que concederam o voto feminino na Grã-Bretanha, em 1918, na Alemanha, no mesmo ano, e nos Estados Unidos, em 1920. Gertrude Bell, arqueóloga e agente britânica, participou da Conferência do Cairo, em 1921, e teve influência direta no desenho político do Iraque, um exemplo de como o conhecimento acumulado por mulheres de elite podia ser convertido em poder diplomático.

A Segunda Guerra Mundial foi o conflito em que mulheres atuaram em mais frentes. Na União Soviética, mais de oitocentas mil serviram nas forças armadas. Marina Raskova organizou três regimentos aéreos femininos, entre eles o dos bombardeiros noturnos de Yevdokia Bershanskaya, as “Bruxas da Noite“, já tratadas em artigo próprio. Lyudmila Pavlichenko somou 309 mortes confirmadas como franco-atiradora, e Lydia Litvyak, piloto de caça, morreu em combate em 1943. Zoya Kosmodemyanskaya, jovem partisan, foi enforcada pelos alemães em 1941 e tornou-se a primeira mulher a receber o título de Herói da União Soviética na guerra. Nos Estados Unidos, Jacqueline Cochran e Cornelia Fort integraram o programa de pilotas que transportavam aeronaves, e Grace Hopper trabalhou com computadores de cálculo para a Marinha. Em Bletchley Park, Joan Clarke participou da quebra de códigos alemães, e Elizebeth Friedman fez o mesmo nos Estados Unidos.

Grupo de aviadoras soviéticas das Bruxas da Noite caminhando em um campo de aviação com biplanos Polikarpov Po-2 ao fundo.
Aviadoras soviéticas do 46º Regimento de Aviação de Bombardeiros Noturnos da Guarda, conhecidas como “Bruxas da Noite”, reunidas junto aos seus biplanos Polikarpov Po-2.

As resistências ocupadas deram a mulheres papéis de coragem extrema e de risco permanente. Irena Sendler, enfermeira polonesa, teria salvado cerca de 2.500 crianças do gueto de Varsóvia, número consagrado pela tradição, embora os historiadores o tratem com cautela. Hannie Schaft, holandesa, foi executada em 1945. Noor Inayat Khan, operadora de rádio do SOE britânico, e Violette Szabo foram executadas em campos alemães, e Odette Sansom sobreviveu a Ravensbrück. Nancy Wake e Virginia Hall organizaram redes de resistência na França, e esta última se tornou um dos alvos prioritários da Gestapo. Vera Atkins dirigiu a seção F do SOE responsável pelos agentes no país. Sophie Scholl, do grupo Rosa Branca, foi guilhotinada em 1943 por distribuir panfletos antinazistas, e a húngara Hannah Szenes foi executada em 1944 depois de saltar de paraquedas para organizar resgates. Do lado oposto, a aviadora Hanna Reitsch, ligada ao regime nazista, é lembrada como lembrete de que o engajamento feminino não foi homogêneo.

Tabela comparativa das principais mulheres agentes do SOE: Virginia Hall, Noor Inayat Khan, Violette Szabo, Odette Sansom e Pearl Witherington.
Comparativo entre algumas das mais importantes agentes femininas do Special Operations Executive durante a Segunda Guerra Mundial.

O saldo das duas guerras mundiais é duplo. De um lado, elas ampliaram a presença das mulheres na vida pública, no trabalho industrial e nas forças armadas, e contribuíram para a conquista do voto. De outro, o pós-guerra mostrou como essa presença podia ser revertida, com campanhas de retorno ao lar e com a desmobilização de unidades femininas, inclusive soviéticas. A historiografia, de Margaret Higonnet a Joanna Bourke, discute até que ponto a guerra liberta ou apenas reorganiza a subordinação, e a resposta varia conforme o país e o período.

Mulheres na ciência: conhecimento produzido à margem das instituições

A história da ciência feita por mulheres é, em boa parte, a história de como elas produziram conhecimento sem acesso às instituições que o legitimavam. Na Antiguidade, os registros são fragmentários. Peseshet, no Egito do Reino Antigo, é lembrada como “supervisora das médicas”, e Tapputi, perfumista babilônica citada em tabuinhas do segundo milênio a.C., é frequentemente considerada a primeira química nomeada. Em Alexandria, a tradição atribui a Maria, a Judia, o desenvolvimento de aparelhos de destilação que originaram o banho-maria. O caso mais documentado é o de Hipácia, matemática e filósofa que dirigiu uma escola neoplatônica e foi assassinada por uma multidão cristã em 415, em um episódio ligado à disputa entre o prefeito Orestes e o bispo Cirilo, e que Maria Dzielska e Edward Watts discutem como parte de uma crise política mais ampla do que o simples conflito entre fé e ciência.

Na Idade Média, a medicina e a história natural abriram frestas. Trota de Salerno, no século XII, é associada a tratados de ginecologia, embora Monica Green tenha demonstrado que a autoria do conjunto conhecido como Trótula é mais complexa do que se supunha. Hildegarda de Bingen, abadessa, escreveu sobre plantas, animais e a saúde do corpo em obras que combinam observação e teologia. A partir do século XV, mulheres ligadas às universidades italianas, como Dorotea Bucca, em Bolonha, ensinaram medicina, e no século XVIII Laura Bassi tornou-se professora de física na mesma instituição e Maria Gaetana Agnesi publicou um tratado de cálculo que ficou como referência didática.

A Revolução Científica foi menos acolhedora do que se costuma pensar. Margaret Cavendish publicou obras de filosofia natural e visitou a Royal Society em 1667, mas não foi admitida como membro. Sophie Brahe colaborou nas observações astronômicas do irmão Tycho, e Maria Winkelmann descobriu um cometa em 1702, descoberta que a Academia de Berlim atribuiu ao marido. Maria Sibylla Merian viajou ao Suriname para estudar insetos e mostrou as fases de suas metamorfoses. Émilie du Châtelet traduziu os Principia de Newton para o francês e incluiu na tradução comentários próprios, e sua versão continuou sendo a referência na França por mais de dois séculos. Caroline Herschel descobriu cometas e foi honrada pela Royal Astronomical Society em 1828, e Maria Mitchell, nos Estados Unidos, identificou um cometa em 1847.

No século XIX, a exclusão formal foi alvo de resistência crescente. Mary Somerville tornou-se tão conhecida que o termo “cientista” teria sido proposto em uma resenha de sua obra, em 1834. Ada Lovelace escreveu, em 1843, notas sobre a máquina analítica de Charles Babbage que incluíam o que hoje se reconhece como o primeiro algoritmo pensado para uma máquina. Sophie Germain, que estudou matemática sob pseudônimo masculino, contribuiu para a teoria da elasticidade e para o problema de Fermat. Mary Anning, escavadora de fósseis em Lyme Regis, desenterrou ictiossauros e plesiossauros que mudaram a compreensão da história da vida, e foi excluída da Sociedade Geológica de Londres por ser mulher. Elizabeth Blackwell, em 1849, formou-se como a primeira médica dos Estados Unidos, e Sofia Kovalevskaya tornou-se, em 1884, a primeira professora de matemática da Europa setentrional, em Estocolmo.

O século XX trouxe os nomes mais conhecidos e também os casos mais flagrantes de apropriação do mérito. Marie Curie ganhou o Nobel de Física em 1903 e o de Química em 1911, descobriu o polônio e o rádio e consolidou a pesquisa sobre radioatividade, e sua filha Irène Joliot-Curie recebeu o Nobel de Química em 1935. Emmy Noether formulou, em 1918, o teorema que relaciona simetrias e leis de conservação na física, e foi impedida de lecionar oficialmente em Göttingen por anos. Lise Meitner foi uma das principais responsáveis pela interpretação teórica da fissão nuclear, mas o Nobel de 1944 foi concedido apenas a Otto Hahn. Henrietta Swan Leavitt descobriu a relação entre período e luminosidade das estrelas cefeidas, que permitiu medir distâncias cósmicas, e Annie Jump Cannon e Williamina Fleming classificaram centenas de milhares de estrelas em Harvard. Cecilia Payne-Gaposchkin demonstrou, em 1925, que as estrelas são feitas basicamente de hidrogênio e hélio, e sua conclusão foi inicialmente desencorajada por Henry Norris Russell.

A biologia e a química tiveram figuras equivalentes. Rosalind Franklin produziu as imagens de difração de raios X do DNA que foram cruciais para o modelo de Watson e Crick, e morreu em 1958, antes de o Nobel ser concedido a eles. Dorothy Hodgkin determinou estruturas da penicilina e da vitamina B12 e recebeu o Nobel em 1964. Gerty Cori, Barbara McClintock e Tu Youyou, laureadas respectivamente em 1947, 1983 e 2015, trabalharam em bioquímica, genética e medicina, e Rachel Carson, com Primavera Silenciosa, ajudou a fundar o movimento ambientalista moderno. Chien-Shiung Wu demonstrou experimentalmente, em 1956, a violação da paridade, resultado que valeu o Nobel a seus colegas teóricos. Jocelyn Bell Burnell descobriu os pulsares em 1967, e o prêmio de 1974 foi para seu orientador. Vera Rubin acumulou evidências da matéria escura, e Katherine Johnson fez cálculos de trajetória para as missões espaciais americanas.

No Brasil, Bertha Lutz, zoóloga do Museu Nacional, juntou a pesquisa à militância política, e Nise da Silveira transformou a psiquiatria ao se opor ao eletrochoque e à lobotomia e propor outras formas de cuidado. Johanna Döbereiner, pesquisadora da Embrapa, estudou a fixação biológica de nitrogênio, trabalho que reduziu a necessidade de fertilizantes na cultura da soja. Essas trajetórias mostram o que Margaret Rossiter chamou de efeito Matilda, por analogia com o efeito Mateus de Robert Merton: o padrão pelo qual o mérito de mulheres cientistas é sistematicamente atribuído a colegas homens. O conceito é discutido, mas serve de ferramenta analítica para entender por que tantos nomes só entraram nos livros décadas depois.

O debate historiográfico: exceções, estruturas e agência

A historiografia das mulheres atravessou ao menos três momentos. O primeiro, chamado por vezes de história contributiva, procurou resgatar mulheres notáveis e inseri-las na narrativa existente, e foi essencial para tornar visíveis rainhas, cientistas e guerreiras. Seu limite é que, ao tratar as mulheres como exceções, pode reforçar a ideia de que o normal era a ausência. O segundo momento, associado a Joan Kelly e Gerda Lerner, propôs olhar para estruturas de longa duração, como família, propriedade e controle da sexualidade, e perguntar como a subordinação foi construída. O terceiro, ligado a Joan Scott, tratou gênero como categoria relacional e histórica, e levou a perguntar como as próprias noções de masculino e feminino organizaram o poder.

Cada abordagem enfrenta críticas. Pesquisadores como Leslie Peirce, no estudo dos haréns otomanos, e Anne Broadbridge, nos mongóis, mostram que a ideia de que as mulheres foram sempre oprimidas e invisíveis é simplificação, e que sociedades muito distintas produziram contextos de autoridade feminina real. Autoras como Sarah Pomeroy, para a Grécia e Roma, e Mary Beard, para Roma, lembram que os estudos devem distinguir entre ideologia, prática e fonte. E especialistas como Dimitri Laboury, no caso de Hatshepsut, ou Monica Green, no de Trótula, mostram como interpretações consagradas podem mudar quando se reexaminam as evidências.

Um segundo debate envolve o risco de anacronismo. Chamar Wu Zetian ou Cleópatra de “feministas”, ou ler o poder de uma regente como equivalente da igualdade de gênero moderna, projeta categorias do presente sobre sociedades que raciocinavam em outros termos. Governantes mulheres não defendiam, em geral, a ampliação do espaço das mulheres, e muitas reforçaram hierarquias de classe, de religião e de escravidão. A medida do seu papel histórico deve ser buscada em seus atos e no seu contexto, e não em uma comparação com valores contemporâneos.

Um terceiro ponto é o peso da memória. Figuras como Boudica, Joana d’Arc, Mulan, Njinga e Lakshmibai foram retrabalhadas por nacionalismos, religiões e movimentos políticos que precisavam de heroínas, e o resultado é que a distinção entre a mulher histórica e a mulher simbólica nem sempre é nítida. O trabalho do historiador consiste em reconstruir a primeira sem desprezar a importância política da segunda.

Conclusão

O papel das mulheres na história não pode ser resumido em uma fórmula única. Elas governaram impérios, comandaram exércitos, organizaram cidades, fundaram instituições, sustentaram dinastias, produziram conhecimento científico e, em certos casos, exerceram violência equivalente à de seus pares masculinos. O que as distingue não é a natureza de seus atos, mas o caminho pelo qual chegaram a eles e o modo como foram lembradas. Em quase todas as civilizações, o acesso ao poder passava por vínculos de parentesco e por situações excepcionais, e a posteridade as tratou ora como heroínas, ora como monstros, raramente como agentes políticos comuns.

O legado dessa história é duplo. De um lado, ela corrige a ideia de que a vida pública foi sempre masculina e as mulheres, espectadoras. Do outro, lembra que o poder feminino foi, durante milênios, excepcional, condicionado e frágil, e que as conquistas jurídicas e científicas dos séculos XIX e XX, como o voto, o acesso à universidade e a participação em carreiras antes vedadas, foram resultado de lutas coletivas e não de uma evolução automática. Compreender as duas faces é condição para ler o passado com precisão e o presente com menos ilusão.

FAQ

Qual foi o papel das mulheres na história?

Elas atuaram como governantes, regentes, sacerdotisas, guerreiras, administradoras, intelectuais e cientistas em praticamente todas as civilizações. O poder, porém, costumava passar por vias indiretas, como casamento, maternidade e regência, e raramente por cargos formais, o que as tornou menos visíveis nas fontes.

Quem foi a primeira mulher a governar como faraó?

Sobekneferu, no fim da Décima Segunda Dinastia, é considerada a primeira com titulatura plena de faraó. Hatshepsut é a mais conhecida, por ter reinado por mais de duas décadas, entre cerca de 1479 e 1458 a.C.

Por que tantas mulheres poderosas são descritas como cruéis ou imorais?

Porque as fontes foram escritas, em geral, por homens que consideravam a presença feminina no poder uma anomalia, e usaram acusações de veneno, luxúria e ambição para desacreditá-las. Isso não significa que nenhuma tenha sido violenta, mas exige separar o fato comprovado da tradição hostil.

Qual a diferença entre rainha, regente e imperatriz?

A rainha consorte é a esposa do rei e não detém soberania própria. A regente governa em nome de um herdeiro menor ou incapaz. A soberana plena, como Elizabeth I ou Catarina II, reina por direito próprio. Na prática, muitas consortes e regentes tiveram mais poder real do que reis nominais.

Quando as mulheres passaram a ter acesso às universidades?

De forma excepcional, na Itália medieval e moderna, como no caso de Laura Bassi. De forma sistemática, apenas entre o fim do século XIX e o início do XX. Marie Curie, por exemplo, só pôde estudar na Sorbonne depois de se mudar da Polônia para a França.

Qual foi a importância das guerras mundiais para as mulheres?

As guerras ampliaram a participação feminina na indústria, na saúde, na espionagem e nas forças armadas, e influenciaram a concessão do voto em vários países. O retorno à ordem anterior no pós-guerra mostrou, porém, que os ganhos não eram automáticos nem irreversíveis.

As mulheres guerreiras realmente existiram?

Sim. Há evidências sólidas para figuras como Fu Hao, Boudica, Amanirenas, Artemísia I, as Agojie do Daomé e as soldados soviéticas. Em outros casos, como Amina de Zazzau e Khutulun, a documentação é limitada e deve ser lida com cautela.

Por que alguns nomes de mulheres cientistas só ficaram conhecidos tarde?

Pela combinação de exclusão institucional, atribuição do mérito a colegas homens e ausência de reconhecimento em prêmios e publicações. O fenômeno recebeu o nome de efeito Matilda, e casos como os de Franklin, Meitner e Bell Burnell são os mais citados.

Leituras recomendadas

DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997.

LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. São Paulo: Cultrix, 2019.

PEIRCE, Leslie P. The Imperial Harem: Women and Sovereignty in the Ottoman Empire. New York: Oxford University Press, 1993.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2007.

ROSSITER, Margaret W. Women Scientists in America: Struggles and Strategies to 1940. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1982.

Fernando Rocha

Fernando Rocha, formado em Direito pela PUC/RS e apaixonado por história, é o autor e criador deste site dedicado a explorar e compartilhar os fascinantes acontecimentos do passado. Ele se dedica a pesquisar e escrever sobre uma ampla gama de tópicos históricos, desde eventos políticos e culturais até figuras influentes que moldaram o curso da humanidade."

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