Artaxerxes: o Rei dos Reis que governou o Império Persa por quatro décadas
Era o ano de 401 a.C. Nas margens do rio Cunaxa, a poucos quilômetros de Babilônia, dois exércitos se preparavam para uma batalha que definiria o destino do maior império do mundo antigo. De um lado, Artaxerxes II, rei legítimo da Pérsia, com dezenas de milhares de soldados sob seu comando. Do outro, seu próprio irmão, Ciro, o Jovem, à frente de mercenários gregos e tropas persas rebeldes, convicto de que o trono lhe pertencia por direito de nascimento. Quando os dois líderes finalmente se avistaram no campo de batalha, Ciro se lançou pessoalmente contra o rei, ferindo-o no peito. Mas Artaxerxes sobreviveu. Ciro morreu naquele mesmo dia, abatido antes de concretizar seu golpe. O rei que muitos julgavam fraco e hesitante governaria a Pérsia por mais quarenta e cinco anos.
Artaxerxes II — cujo nome persa era Arsicas ou Arshaka, helenizado pela tradição grega — foi o décimo segundo monarca da dinastia aquemênida, reinando de aproximadamente 404 a.C. até sua morte por volta de 358 a.C. Seu reinado é o mais longo registrado entre todos os soberanos persas e um dos mais extensos da história do mundo antigo. A questão central sobre sua figura não é simples: foi ele um rei eficaz ou um soberano que apenas sobreviveu às crises de seu tempo? A historiografia moderna tem revisado profundamente a imagem depreciativa construída pelas fontes gregas.
Este artigo analisa o reinado de Artaxerxes II em suas múltiplas dimensões: a crise dinástica que marcou sua ascensão, a política externa que reconfigurou o equilíbrio de poder no Mediterrâneo oriental, as rebeliões que ameaçaram a coesão do império, a vida na corte de Susa e Persépolis, e o legado de um monarca que governou um território equivalente a metade do mundo conhecido durante quase meio século. Ao longo dessas décadas, o rei lidou com a guerra contra Esparta, a Revolta dos Sátrapas, a invasão egípcia da Fenícia e as intrigas palacianas mais violentas de que há registro na história persa.
O estudo de Artaxerxes II exige cautela metodológica. As fontes primárias disponíveis — sobretudo Plutarco, Xenofonte e Ctésias de Cnido — são gregas ou dependem de tradições gregas, portadoras de perspectivas parciais, quando não abertamente hostis ao poder persa. Estudiosos como Pierre Briant, em sua monumental Histoire de l’Empire Perse (1996), e Maria Brosius, em seus trabalhos sobre a corte aquemênida, têm insistido na necessidade de ler essas fontes contra o grão, buscando indícios de uma realidade persa que os textos helênicos frequentemente distorcem ou ignoram.
A Crise da Sucessão e a Batalha de Cunaxa
O problema da legitimidade dinástica
A morte de Dario II em 404 a.C. abriu uma das crises sucessórias mais dramaticamente documentadas da história persa. Artaxerxes era o filho mais velho da rainha Parisátis e, portanto, o herdeiro legítimo conforme a tradição aquemênida. Seu irmão mais novo, Ciro, porém, gozava de favorecimento especial junto à rainha-mãe, que via nele qualidades guerreiras e capacidades de liderança superiores às do primogênito. Parisátis chegou a argumentar — segundo Plutarco — que Artaxerxes havia nascido quando o pai ainda era um simples nobre, antes de ascender ao trono, enquanto Ciro nascera já como filho de rei, o que lhe conferiria precedência simbólica.
O argumento foi rejeitado. Artaxerxes foi coroado em Pasárgada, no túmulo de Ciro, o Grande, em cerimônia que reproduzia os rituais aquemênidas tradicionais. Mas a tensão entre os dois irmãos não se dissolveu com a coroação. Ciro, que havia sido nomeado por Dario II como sátrapa da Lídia, da Frígia e da Capadócia — além de comandante militar das satrapias do oeste —, usou esses recursos para construir em silêncio uma coalizão militar contra o irmão. Recrutou mercenários gregos, entre eles os dez mil que seriam imortalizados por Xenofonte na Anábase, e obteve o apoio dos espartanos, ainda ressentidos das humilhações da Guerra do Peloponeso e atraídos pela promessa de generoso pagamento.
A historiografia debateu longamente as motivações de Ciro. John Hyland, em Persian Interventions (2018), argumenta que o projeto de Ciro não era apenas uma ambição pessoal, mas expressava tensões estruturais dentro do sistema aquemênida de delegação de poderes: sátrapas com grandes recursos militares e autonomia administrativa eram potencialmente mais poderosos do que o aparato central conseguia controlar. Ciro representava o caso extremo de um fenômeno que se repetiria ao longo do século IV — o sátrapa que se torna competidor do rei.
Cunaxa e suas consequências
A batalha de Cunaxa, em setembro de 401 a.C., foi militarmente inconclusiva em muitos aspectos, mas politicamente decisiva. Os mercenários gregos de Ciro derrotaram a ala oposta do exército real, mas o próprio Ciro morreu ao tentar matar pessoalmente Artaxerxes. Sem seu líder, a expedição perdeu seu propósito. Os dez mil gregos ficaram abandonados no coração do território inimigo, a mais de dois mil quilômetros de casa — e sua retirada épica, narrada por Xenofonte, tornou-se um dos textos mais lidos da Antiguidade.
Para Artaxerxes, a vitória em Cunaxa teve um custo político inesperado: revelou ao mundo grego que um exército mercenário de tamanho moderado poderia penetrar profundamente no coração do Império Persa e sair relativamente ileso. Esse conhecimento alimentaria décadas de fantasias gregas sobre a vulnerabilidade persa — fantasias que culminariam, décadas depois, nas campanhas de Alexandre da Macedônia. Pierre Briant observa, com precisão, que Cunaxa foi simultaneamente uma vitória militar de Artaxerxes e uma derrota simbólica do mito da invencibilidade persa.
A rainha-mãe Parisátis, que havia apoiado Ciro até o fim, foi poupada por Artaxerxes — um ato que demonstrava tanto a complexidade das relações familiares na corte persa quanto a posição de poder que as mulheres da família real podiam ocupar. Segundo Ctésias, Parisátis se vingou cruelmente dos responsáveis pela morte de Ciro, envenenando a concubina real Estatira (esposa de Artaxerxes), o que teria precipitado seu exílio temporário para Babilônia. A própria Estatira, aliás, é um caso notável: segundo algumas fontes, Artaxerxes a teria amado genuinamente, e sua morte teria provocado luto duradouro no rei.
A Paz do Rei e a Reconfiguração do Mediterrâneo Oriental
A diplomacia como instrumento imperial
Um dos feitos mais duradouros de Artaxerxes II foi de natureza diplomática, não militar: a Paz de Ântálcidas de 387/386 a.C., também conhecida como Paz do Rei (Koine Eirene). Negociada pelo almirante espartano Ântálcidas com o sátrapa Tiribazos, o acordo encerrou formalmente décadas de conflito greco-persa e reconfigurou as relações de poder no Egeu de maneira radicalmente favorável à Pérsia.
Os termos do tratado eram explícitos: Ciro, o Grande, havia concedido aos gregos da Ásia Menor uma autonomia que a Pérsia nunca reconheceu formalmente — agora Artaxerxes afirmava abertamente sua soberania sobre todas as cidades gregas da costa anatólica e sobre Chipre. As cidades gregas da Europa continental deveriam ser autônomas, o que na prática significava que Esparta poderia intervir para fragmentar qualquer potência grega que ameaçasse se unificar. O rei persa tornava-se árbitro supremo dos assuntos gregos — uma inversão notável em relação às Guerras Médicas de um século antes.
Simon Hornblower, em The Greek World, 479–323 BC (1983), considera a Paz do Rei o momento em que a Pérsia demonstrou que podia vencer guerras sem ganhar batalhas: ao financiar Atenas e Corinto contra Esparta durante a Guerra de Corinto (395–387 a.C.), Artaxerxes esgotou seus rivais gregos e então os forçou a aceitar sua mediação como condição para a paz. Era uma estratégia de contenção que explorava as divisões internas do mundo helênico com sofisticação considerável.
Chipre e o Egito: os limites do poder imperial
Nem tudo correu bem na política externa de Artaxerxes. O caso mais emblemático de fracasso foi o Egito. Desde 404 a.C. — quando o faraó Amirteu aproveitou a instabilidade da sucessão aquemênida para proclamar independência —, o Egito havia escapado do controle persa. Artaxerxes tentou reconquistar o país em pelo menos duas grandes campanhas: uma em torno de 385–383 a.C. e outra, mais bem documentada, em 374/373 a.C. Ambas fracassaram.
O fracasso de 374/373 a.C. é particularmente instrutivo. Uma enorme força expedicionária, comandada pelo general Farnabazo e pelo mercenário ateniense Ifícrates, chegou ao delta do Nilo mas foi impedida de avançar por uma combinação de fatores: atrasos no início da campanha que permitiram à cheia anual do Nilo inundar os caminhos de avanço, resistência local mais eficaz do que o previsto, e desentendimentos entre os dois comandantes. Briant interpreta esses fracassos não como evidência de incompetência persa, mas como demonstração das dificuldades logísticas reais de projetar poder militar sobre um território separado por desertos e por uma hidrogeografia que favorecia os defensores.
Chipre apresentou um padrão diferente. O rei cipriota Évagoras de Salamina havia se rebelado contra a soberania persa desde o início do século, aliando-se ao Egito e mantendo relações com Atenas. A guerra para reconquistar Chipre durou de 391 a aproximadamente 380 a.C. e terminou com uma vitória persa, embora os termos finais tenham sido mais suaves do que a vitória militar sugeria: Évagoras manteve seu trono como tributário, em vez de ser deposto ou executado. Para alguns historiadores, isso demonstrava pragmatismo; para outros, a incapacidade de Artaxerxes de impor soluções definitivas a seus adversários.
A Revolta dos Sátrapas e as Crises Internas do Império
Uma crise estrutural
Entre aproximadamente 366 e 360 a.C., o Império Persa enfrentou sua maior crise interna desde a morte de Cambises: a Revolta dos Sátrapas, também chamada de Grande Revolta Satrapial. Em diferentes momentos e por diferentes razões, sátrapas das regiões ocidentais do império — Ariobarzanes na Frígia, Datames na Capadócia, Mausolo da Cária, Autofradates da Lídia — rebelaram-se contra o controle central, em alguns casos coordenando suas ações e buscando apoio externo.
A interpretação historiográfica dessa revolta foi profundamente debatida. Durante muito tempo, ela foi vista como evidência de que o Império Persa estava em declínio irreversível no século IV — uma leitura que preparava o terreno narrativo para a conquista macedônica. Amélie Kuhrt, em The Persian Empire: A Corpus of Sources (2007), e Christopher Tuplin questionam essa visão teleológica. As revoltas satrapiais eram reais e perturbadoras, mas não eram sintoma de colapso sistêmico; eram, antes, manifestações de tensões inerentes a qualquer sistema imperial de delegação de poderes sobre territórios vastos.
Datames merece atenção especial. Sátrapa de origem não persa — provavelmente cilícia ou cária —, havia demonstrado lealdade ao rei em campanhas anteriores, incluindo operações no Egito. Sua revolta parece ter sido precipitada por intrigas palacianas e pela desconfiança crescente de Artaxerxes em relação a sátrapas com exércitos próprios e redes de clientela regional. A Vida de Datames de Cornélio Nepos — fonte tardia e de confiabilidade variável — o apresenta como estrategista brilhante traído pela inveja dos cortesãos. Seja qual for a verdade, Datames foi assassinado por volta de 362 a.C., provavelmente mediante conspiração organizada a partir da corte.
A solução aquemênida: dividir para governar
O que é notável na resposta de Artaxerxes à Revolta dos Sátrapas não é a força militar empregada para esmagá-la, mas a habilidade diplomática com que o rei explorou as divisões entre os próprios rebeldes. Mausolo da Cária, por exemplo, acabou se reconciliando com o poder central e se tornando um dos sátrapas mais estáveis da região — seu nome sobreviveria na história como epônimo do mausoléu, o monumento funerário que sua viúva Artemísia II construiu em Halicarnasso. Ariobarzanes foi traído pelo próprio filho e entregue ao rei. A revolta não foi esmagada militarmente: foi desmontada pacientemente por um centro que sabia identificar e explorar as contradições internas da coalizão rebelde.
Esse padrão — negociar, dividir, cooptar — é uma característica recorrente da política de Artaxerxes II que a historiografia mais recente tem valorizado em vez de depreciar. Briant argumenta que a imagem do rei como passivo e dependente de outros é em parte uma projeção das fontes gregas, que valorizavam a liderança militar pessoal como critério central de qualidade do governante. Dentro da tradição aquemênida, a capacidade de manter o império coeso através da negociação e da redistribuição de honras e recursos era tão legítima quanto a vitória em batalha.
A Corte de Artaxerxes: Poder, Gênero e Intriga
Mulheres na estrutura de poder aquemênida
A corte de Artaxerxes II é uma das mais documentadas da história persa — e uma das mais violentas. Plutarco, em sua Vida de Artaxerxes, oferece um retrato vívido das intrigas entre a rainha-mãe Parisátis, a esposa Estatira e posteriormente as concubinas e filhas do rei. Independentemente das distorções do biógrafo grego, o texto revela algo estruturalmente importante: as mulheres da família real persa não eram figuras decorativas. Elas possuíam recursos econômicos próprios, redes de clientela e capacidade de influenciar decisões políticas de maneira direta.
Maria Brosius, em Women in Ancient Persia (1996), demonstrou sistematicamente que as rainhas aquemênidas administravam propriedades fundiárias extensas, supervisionavam trabalhadores e recebiam rações documentadas em tabletes elamitas provenientes dos arquivos de Persépolis. A rainha-mãe em particular ocupava uma posição de enorme prestígio — não apenas simbólico, mas operacional. Parisátis, mãe de Artaxerxes, continuou exercendo influência política considerável décadas após a morte de seu marido, mesmo depois de seu exílio temporário.
A questão da sucessão ao trono de Artaxerxes tornou-se, nas últimas décadas de seu reinado, um teatro de violência intrafamiliar que chocava até mesmo observadores antigos. O rei teve numerosos filhos — Plutarco menciona cento e quinze filhos de concubinas além dos filhos legítimos — e a competição entre pretendentes ao trono resultou em mortes sucessivas de príncipes reais. Dario, o filho mais velho e herdeiro designado, foi acusado de conspirar contra o pai e executado. Ariaspes, outro filho favorito, foi empurrado ao suicídio por intrigas de seu irmão Oco. O próprio Oco, que acabaria sucedendo Artaxerxes como Artaxerxes III, chegou ao poder deixando um rastro de sangue real.
A questão da sucessão e a violência dinástica
A questão da sucessão tornou-se, nas duas últimas décadas do reinado, uma fonte permanente de instabilidade palaciana. A estrutura do harém aquemênida — com dezenas de concubinas produzindo numerosos filhos — criava um campo de competição que o sistema dinástico nunca conseguiu resolver de maneira estável. Artaxerxes designou Dario como herdeiro e lhe concedeu, segundo o costume, o direito de escolher cem concubinas do harém real como honra especial. Dario, porém, apaixonou-se por Aspásia, a concubina favorita do próprio pai — o que gerou um conflito pessoal que rapidamente adquiriu dimensões políticas.
O episódio de Dario é sintomático de uma tensão mais profunda: no sistema aquemênida, o herdeiro designado acumulava recursos e visibilidade que o tornavam potencialmente ameaçador ao pai reinante. A narrativa de que Dario conspirou contra a vida de Artaxerxes — independentemente de sua veracidade — era politicamente funcional para os rivais do príncipe na corte. Dario foi executado. O filho seguinte na linha sucessória, Ariaspes, era descrito pelas fontes como de temperamento tranquilo e não-ambicioso — qualidades que o faziam popular, o que por sua vez tornava-o ameaçador aos olhos de outros pretendentes. Seu irmão Oco orquestrou sua destruição psicológica sistemática, fazendo-lhe chegar mensagens falsas sobre a intenção do pai de condená-lo à morte, até que Ariaspes se suicidou. Um terceiro filho, Arsames, foi assassinado por Oco antes que pudesse ser nomeado herdeiro. O próprio Oco, que sobreviveu a todos os rivais e sucedeu o pai como Artaxerxes III, governou com uma brutalidade que sugeria ter aprendido as lições mais sombrias da política palaciana de seu pai.
Esse ciclo de violência dinástica não era exclusividade da casa aquemênida — povos análogos ocorreram em outras monarquias antigas —, mas sua escala e intensidade no reinado de Artaxerxes II revelam a fragilidade estrutural do sistema de sucessão persa: a ausência de uma regra primogênita absolutamente incontestável deixava sempre aberta a competição entre príncipes, alimentada pelas mães e pelas facções palacianas que se construíam ao redor de cada pretendente.
Religião e legitimação do poder
O reinado de Artaxerxes II também marca uma transformação significativa na expressão religiosa oficial da monarquia aquemênida. Enquanto Dario I e Xerxes invocavam quase exclusivamente Ahura Mazda em suas inscrições reais, Artaxerxes II introduziu duas divindades adicionais: Mithra e Anáhita. As inscrições de Susa e Ecbâtana que datam de seu reinado pedem proteção de todos os três deuses — uma inovação teológica que pode refletir tanto influências babilônicas quanto a expansão do culto de Anáhita, deusa das águas e da fertilidade, que Artaxerxes teria promovido ativamente.
Wouter Henkelman, em estudos recentes sobre religião aquemênida, interpreta essa mudança não como sincretismo oportunista, mas como resposta às necessidades de legitimação de um rei que governava populações religiosa e culturalmente diversas. Ao invocar divindades com apelos mais amplos do que o estritamente mazdaísta, Artaxerxes ampliava a base simbólica de sua autoridade. Anáhita em particular tinha culto estabelecido em regiões como a Armênia e a Ásia Central — territórios cuja lealdade o rei tinha interesse em cultivar.
As inscrições reais de Artaxerxes II, embora menos numerosas e elaboradas do que as de Dario I, seguem o padrão retórico aquemênida de apresentar o rei como instrumento de Ahura Mazda na manutenção da asha — a ordem cósmica e social justa. A legitimação pelo cosmos e pela divindade era inseparável da legitimação pelo poder militar e pela linhagem dinástica; os três elementos se reforçavam mutuamente no discurso oficial do império.
Artaxerxes e o Mundo Grego: Uma Relação de Instrumentalização Mútua
O rei persa como árbitro dos assuntos gregos
Um dos aspectos mais contraintuitivos do reinado de Artaxerxes II é que ele governou o maior império do mundo sem jamais enfrentar diretamente as cidades gregas em batalha campal — e ainda assim exerceu sobre elas uma influência decisiva por décadas. O instrumento principal não era o exército persa, mas o ouro persa: os subsídios financeiros que o rei distribuía estrategicamente para alimentar as rivalidades internas do mundo helênico.
Durante a Guerra de Corinto (395–387 a.C.), Artaxerxes financiou Atenas, Corinto, Argos e Tebas contra Esparta — não por simpatia a qualquer dessas cidades, mas porque Esparta havia apoiado Ciro em sua rebelião e depois enviado o general Agesilau para campanhas militares na Anatólia que ameaçavam as satrapias ocidentais. Quando Esparta estava suficientemente enfraquecida, o rei mudou de lado e forçou a Paz do Rei que consagrava seus interesses. A estratégia era impedir que qualquer potência grega se tornasse dominante o suficiente para desafiar a Pérsia — e ao mesmo tempo manter os gregos como instrumentos de contenção mútuos.
Xenofonte, em sua Anábase e em outros escritos, revela inconscientemente a ambivalência grega diante dessa situação: a admiração pelo poderio persa e pelo luxo da corte convive com o ressentimento pela dependência e com a fantasia recorrente de que os gregos poderiam conquistar a Pérsia se quisessem. Essa fantasia, alimentada pela experiência dos dez mil, seria politicamente instrumentalizada por Isócrates em seu Panegírico (380 a.C.) e mais tarde por Filipe II da Macedônia — pai de Alexandre —, que construiu sua hegemonia grega em parte prometendo uma cruzada pan-helênica contra a Pérsia.
Alexandre como consequência remota
Há uma linha de continuidade histórica que conecta as decisões de Artaxerxes II às conquistas de Alexandre Magno, embora mediada por várias décadas de desenvolvimentos. A Paz do Rei ao mesmo tempo garantiu a soberania persa na costa anatólica e alimentou o ressentimento grego que tornaria a retórica da cruzada politicamente eficaz. As campanhas fracassadas no Egito revelaram limitações reais da máquina militar aquemênida que observadores gregos anotaram cuidadosamente. As revoltas satrapiais demonstraram que o império tinha fraturas internas exploráveis.
Nada disso era inevitável nem determinístico. Ernst Badian, em estudos sobre as relações greco-persas, insistia que a conquista macedônica dependeu de circunstâncias específicas — incluindo a brutalidade do sucessor de Artaxerxes, Artaxerxes III, que alienou muitas elites locais que poderiam ter resistido mais eficazmente a Alexandre. O longo reinado de Artaxerxes II, paradoxalmente, foi um período de relativa estabilidade que o mundo persa não voltaria a conhecer antes do golpe macedônico.
O Legado de Artaxerxes II: Reavaliação Historiográfica
Entre a tradição grega e a perspectiva iraniana
A imagem de Artaxerxes II na tradição clássica é predominantemente negativa. Plutarco o apresenta como fraco, excessivamente influenciado por mulheres, incapaz de tomar decisões firmes e dependente de favoritos. Ctésias de Cnido — médico grego que viveu na corte persa e escreveu uma história da Pérsia, a Pérsica, hoje perdida mas parcialmente preservada em resumos tardios — forneceu material que mesclava informação genuína com fantasia e rumor palaciano.
Essa tradição precisa ser lida criticamente. Os gregos do século IV tinham razões políticas para depreciar Artaxerxes: um rei persa eficaz que havia frustrado suas ambições na Anatólia e manipulado suas rivalidades internas era mais ameaçador se representado como poderoso. Mas um rei persa poderoso também contrariava a narrativa de superioridade helênica que os mesmos autores queriam cultivar. A solução literária foi apresentar Artaxerxes como um rei poderoso apesar de si mesmo — mantido no trono pela inercia do sistema imperial, não por suas próprias qualidades.
A historiografia moderna, a partir sobretudo do trabalho de Pierre Briant, inverteu parcialmente esse julgamento. O simples fato de que Artaxerxes II governou por quarenta e cinco anos — o reinado mais longo da história aquemênida — já é evidência de competência política considerável. Um rei genuinamente fraco ou incompetente não teria sobrevivido às conspirações de Parisátis, às revoltas satrapiais, às tentativas de reconquista do Egito e às intrigas dos próprios filhos. A longevidade do reinado é, em si mesma, um dado histórico que qualquer interpretação precisa explicar.
O problema das fontes e a historiografia recente
A principal dificuldade metodológica para estudar Artaxerxes II é a ausência de fontes primárias persas substanciais. As inscrições reais que chegaram até nós são escassas e formulaicas; os arquivos de Persépolis cobrem principalmente o período de Dario I; as fontes babilônicas são parcialmente disponíveis mas fragmentárias. O resultado é que dependemos majoritariamente de fontes gregas — Xenofonte, Plutarco, Diodoro Sículo, Ctésias — que escreviam a partir de perspectivas externas, com acesso limitado ao funcionamento interno da corte e da administração persa.
Amélie Kuhrt tem insistido que essa dependência distorce fundamentalmente nossa compreensão: vemos o Império Persa através de um filtro helênico que privilegia batalhas, intrigas palacianas e anedotas individuais em detrimento dos mecanismos administrativos, econômicos e religiosos que mantinham o império funcionando. O reinado de Artaxerxes II foi, entre outras coisas, um período de consolidação administrativa e de manutenção das redes de comunicação — o sistema de estradas reais, as guarnições nas satrapias, os mecanismos de coleta tributária — que raramente aparecem nas fontes gregas porque não faziam boa literatura.
Josef Wiesehöfer, em Ancient Persia (1996), propõe que o legado mais duradouro de Artaxerxes II foi precisamente essa manutenção: ele recebeu um império em crise — ameaçado pela secessão do Egito, pela rebelião de Ciro, pelas campanhas de Agesilau — e o entregou a seu sucessor ainda intacto em seus contornos essenciais. A perda permanente do Egito era real e significativa, mas o núcleo iraniano, a Mesopotâmia, a Síria e a Anatólia permaneciam sob controle aquemênida. Em comparação com o que poderia ter acontecido após Cunaxa, esse era um resultado considerável.
Conclusão: O Rei que Sobreviveu a Tudo
Artaxerxes II não foi o maior guerreiro dos Aquemênidas, nem o mais visionário administrador, nem o fundador de novas instituições. Foi, em vez disso, um sobrevivente de rara tenacidade — um rei que enfrentou a traição do irmão, a hostilidade da mãe, a perda da esposa amada, a rebelião de sátrapas poderosos, os fracassos militares no Egito e as conspirações dos próprios filhos, e ainda assim governou por quatro décadas e meia sem que o império se fragmentasse irreversivelmente.
Essa longevidade não foi acidental nem produto do acaso dinástico. Exigiu uma administração permanente de ameaças — externas e internas — que raramente permitia repouso. As fontes gregas tendem a registrar os momentos de crise e os episódios dramáticos; o que elas não registram é o esforço cotidiano de manutenção do sistema imperial: a nomeação e supervisão de sátrapas, a regulação dos fluxos tributários, a correspondência com governadores locais, a gestão das guarnições militares espalhadas por um território de dimensões continentais. Esse trabalho invisível era o tecido real do poder aquemênida — e Artaxerxes o exerceu por mais tempo do que qualquer outro rei de sua dinastia.
Essa capacidade de resistência exigia qualidades específicas: a disposição para negociar quando a força era insuficiente, a habilidade de cooptar adversários antes que se tornassem inimigos irreconciliáveis, a paciência para esperar que as divisões internas dos oponentes trabalhassem a seu favor. Eram qualidades que a tradição grega não sabia apreciar, porque não se traduziam em gestos heroicos individuais. Mas eram qualidades adequadas ao que o governo de um império multiétnico, multilíngue e geograficamente disperso efetivamente exigia.
O reinado de Artaxerxes II encerra também um momento de transição crucial na história do mundo antigo. As décadas que se seguiram à sua morte veriam a ascensão da Macedônia, o reinado brutal de Artaxerxes III, a conquista de Alexandre e o fim da dinastia aquemênida. Em retrospecto, o longo reinado de Artaxerxes II aparece como o último período de estabilidade de um mundo imperial que não tardaria a ser varrido. Compreendê-lo em seus próprios termos — e não apenas como prólogo da conquista macedônica — é uma das tarefas mais necessárias da historiografia do Oriente Próximo antigo.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre Artaxerxes II
1. Quem foi Artaxerxes II? Artaxerxes II foi o décimo segundo rei da dinastia aquemênida da Pérsia, que governou de aproximadamente 404 a.C. até sua morte por volta de 358 a.C. Seu reinado, o mais longo entre todos os monarcas persas, foi marcado por crises dinásticas, guerras externas e uma hábil política diplomática que manteve o império coeso por quase meio século.
2. Por que a Batalha de Cunaxa foi importante? A Batalha de Cunaxa (401 a.C.) foi o confronto em que Artaxerxes II derrotou seu irmão rebelde Ciro, o Jovem, que havia reunido um exército de mercenários gregos para tomar o trono. A vitória consolidou o reinado de Artaxerxes, mas a sobrevivência dos mercenários gregos e sua retirada épica — narrada por Xenofonte na Anábase — revelou ao mundo helênico a vulnerabilidade relativa do coração do Império Persa.
3. O que foi a Paz do Rei e qual sua importância? A Paz do Rei (387/386 a.C.), também chamada Paz de Ântálcidas, foi um acordo diplomático que encerrou décadas de conflito greco-persa e reconheceu formalmente a soberania persa sobre as cidades gregas da Ásia Menor. Seu significado histórico reside em transformar o rei persa no árbitro dos assuntos gregos — uma inversão notável em relação às Guerras Médicas do século anterior.
4. Por que a Pérsia não conseguiu reconquistar o Egito? As tentativas de Artaxerxes II de reconquistar o Egito fracassaram principalmente por razões logísticas e geográficas: a cheia anual do Nilo criava condições favoráveis aos defensores, o delta do rio oferecia múltiplas linhas defensivas naturais, e os faraós egípcios do período (Dinastia 29 e 30) contrataram mercenários gregos experientes. O Egito só seria reintegrado ao Império Persa por Artaxerxes III, em 343 a.C.
5. O que foi a Revolta dos Sátrapas? A Revolta dos Sátrapas (ca. 366–360 a.C.) foi uma série de rebeliões coordenadas de governadores provinciais nas satrapias ocidentais do Império Persa. Embora potencialmente perigosa, foi resolvida principalmente por meios diplomáticos — Artaxerxes explorou as divisões entre os rebeldes, cooptou alguns e isolou outros — em vez de por campanha militar unificada.
6. Qual o papel das mulheres na corte de Artaxerxes II? As mulheres da família real aquemênida — especialmente a rainha-mãe Parisátis e a esposa Estatira — exerceram influência política real, não apenas simbólica. Controlavam recursos econômicos próprios, possuíam redes de clientela e podiam influenciar decisões reais. A historiadora Maria Brosius demonstrou, com base em documentos administrativos, que as mulheres reais persas gerenciavam propriedades fundiárias e pessoal de maneira autônoma.
7. Como Artaxerxes II tratou a religião em seu reinado? Artaxerxes II introduziu uma inovação significativa ao invocar, além de Ahura Mazda, as divindades Mithra e Anáhita em suas inscrições reais — algo sem precedente entre os reis aquemênidas anteriores. Essa ampliação do panteão oficial pode refletir tanto influências de tradições religiosas regionais quanto uma estratégia deliberada de ampliar a base simbólica da legitimação real sobre populações culturalmente diversas.
8. Como Artaxerxes II é avaliado pela historiografia moderna? A historiografia moderna, sobretudo a partir da obra de Pierre Briant, reabilitou parcialmente a imagem de Artaxerxes II, criticando a dependência excessiva das fontes gregas hostis. A longevidade de seu reinado e a manutenção da integridade do império são reconhecidas como conquistas políticas reais, exigindo qualidades de gestão que a tradição clássica sistematicamente subvalorizou por não se traduzirem em heroísmo militar visível.
9. Qual a relação entre Artaxerxes II e Alexandre Magno? Artaxerxes II morreu quase três décadas antes de Alexandre iniciar suas conquistas. A conexão é indireta: as fragilidades expostas durante seu reinado — os fracassos no Egito, as revoltas satrapiais, a dependência de mercenários — foram observadas e analisadas no mundo grego, alimentando a retórica pan-helênica de que a Pérsia podia ser conquistada. Seu successor Artaxerxes III estabilizou temporariamente o império, mas as bases para a conquista macedônica estavam sendo construídas ao longo de todo o século IV.
10. Por quanto tempo Artaxerxes II governou e qual a importância dessa longevidade? Artaxerxes II governou por aproximadamente quarenta e cinco anos — o reinado mais longo entre todos os monarcas da dinastia aquemênida. Essa longevidade é historicamente significativa não apenas como dado biográfico, mas como evidência de competência política: num sistema em que conspirações, revoltas e guerras dinásticas eram riscos constantes, sobreviver no poder por tanto tempo exigiu habilidade genuína em navegar as pressões internas e externas do império.
Leituras Recomendadas
BRIANT, Pierre. História do Império Persa: de Ciro a Alexandre. Tradução de José Viegas. Lisboa: Edições 70, 2002.
BROSIUS, Maria. Women in Ancient Persia (559–331 BC). Oxford: Clarendon Press, 1996.
KUHRT, Amélie. The Persian Empire: A Corpus of Sources from the Achaemenid Period. London; New York: Routledge, 2007.
PLUTARCO. Vidas Paralelas: Artaxerxes. Tradução e introdução de Marta Várzeas. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014.
WIESEHÖFER, Josef. Ancient Persia: From 550 BC to 650 AD. Tradução de Azizeh Azodi. London: I.B. Tauris, 1996.

