Jerusalém: A História Completa da Cidade mais Disputada do Mundo
Em 70 d.C., o general romano Tito cercou Jerusalém com quatro legiões e ordenou que nada saísse vivo. Dentro dos muros, judeus de diferentes facções — zelotas, sicários, moderados — matavam uns aos outros enquanto o cerco apertava. Quando os romanos finalmente arrombaram as defesas e incendiaram o Segundo Templo, o historiador Flávio Josefo descreveu pilhas de cadáveres tão altas que os soldados precisavam escalar corpos para alcançar os vivos. Estima-se que mais de um milhão de pessoas morreram naquele verão. A cidade foi destruída, os sobreviventes foram escravizados, e ainda assim — menos de um século depois — os judeus se rebelaram novamente pelo direito de habitar aquele lugar.
Jerusalém não é simplesmente uma cidade antiga. É o ponto onde três monoteísmos afirmam que o sagrado tocou o terreno, e essa afirmação produziu uma das histórias mais violentas e mais densas da humanidade. Para o judaísmo, é o Monte do Templo, lugar onde Abraão quase sacrificou Isaque e onde Salomão construiu a morada de Deus. Para o cristianismo, é o Calvário, o túmulo vazio, o lugar da ressurreição. Para o islã, é Al-Quds, a terceira cidade mais santa, o ponto de onde o Profeta ascendeu aos céus. Nenhuma outra cidade no mundo carrega simultaneamente esse peso teológico triplo.
Este artigo percorre a história de Jerusalém desde seus primeiros registros escritos — cerca de dois mil anos antes de Cristo — até a conquista otomana do século XVI. Ao longo desse percurso, o leitor encontrará trinta séculos de cercos, reconstruções, deportações e retornos; a arqueologia que confirma e contradiz os textos sagrados; os historiadores que debatem o que realmente aconteceu por trás das narrativas religiosas; e a lógica política que faz de uma cidade pequena, sem porto e sem rio navegável, o centro de disputas imperiais repetidas.
Compreender Jerusalém é compreender por que lugares se tornam sagrados, como o sagrado produz poder, e como o poder usa o sagrado para justificar a destruição de tudo que veio antes.
As Origens: Antes de Davi e Salomão
O Que a Arqueologia Revela
A história de Jerusalém começa muito antes das narrativas bíblicas, e a arqueologia tem sido sistematicamente desconfortável com as versões tradicionais. As escavações conduzidas desde o século XIX — e especialmente as campanhas intensivas lideradas por Kathleen Kenyon nas décadas de 1960 e pela equipe de Eilat Mazar nos anos 2000 — revelam uma ocupação humana que remonta ao Período Calcolítico, por volta de 3500 a.C. A colina que mais tarde seria chamada de Ofel, imediatamente ao sul do que viria a ser o Monte do Templo, já abrigava comunidades agrícolas antes que qualquer texto fosse escrito sobre ela.
O primeiro registro escrito da cidade aparece nas Cartas de Amarna (século XIV a.C.), um arquivo diplomático egípcio que menciona uma cidade chamada Urusalim — provavelmente derivada do nome semítico Shalim, divindade cananeia do entardecer. Nesse período, Jerusalém era uma cidade-estado cananeia vassala do Egito, governada por um rei local chamado Abdi-Heba, que escreveu cartas ao faraó pedindo ajuda contra invasores. Esses documentos mostram uma cidade real, politicamente ativa, inserida nas redes de poder do Bronze Tardio — mas uma cidade relativamente pequena, de talvez dois mil habitantes.
A narrativa bíblica coloca a conquista da cidade por Davi por volta de 1000 a.C. Segundo o Segundo Livro de Samuel, os habitantes originais, os jebuseus, desafiaram Davi dizendo que mesmo os cegos e os coxos poderiam defendê-la — e Davi teria tomado a cidade através de um túnel de água, o tsinnor. A arqueologia confirma a existência desse túnel hídrico, conhecido hoje como o Túnel de Warren. O que é debatido é a escala do “reino” davídico: para historiadores como Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, autores de A Bíblia Não Tinha Razão, Jerusalém no tempo de Davi era uma aldeia de montanha modesta, não a capital de um grande império. A magnificência atribuída ao reinado de Salomão — o Templo, o palácio, a expansão urbana — seria uma retroprojeção literária de séculos posteriores.

O Primeiro Templo e a Questão Arqueológica
O Primeiro Templo, supostamente construído por Salomão no século X a.C. para abrigar a Arca da Aliança, é o objeto mais debatido da arqueologia bíblica. O problema é direto: não há evidências arqueológicas do Templo de Salomão. O Monte do Templo, que hoje abriga a Mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha, está sob controle do Waqf islâmico e as escavações são proibidas no local. Os materiais de construção da época — se existiram — foram destruídos ou reutilizados ao longo de três mil anos de reconstruções.
O que a arqueologia revela é que Jerusalém experimentou uma expansão urbana significativa no século VIII a.C., durante o reinado de Ezequias. É desse período que datam estruturas claramente identificáveis como monumentais: o chamado Muro Largo (construído às pressas antes do cerco assírio de 701 a.C.) e o Túnel de Ezequias, um aqueduto de 533 metros escavado na rocha para abastecer a cidade durante um cerco. Uma inscrição encontrada na saída do túnel no século XIX — a Inscrição de Siloé — é um dos textos em hebraico antigo mais importantes já descobertos. O Túnel de Ezequias ainda pode ser percorrido hoje, com água pelos joelhos, e é uma das experiências arqueológicas mais imediatas de Jerusalém.

Isso sugere que a “Jerusalém de Davi e Salomão” pode ser amplificada pela tradição literária posterior, mas que a cidade já era politicamente e demograficamente significativa pelo menos desde o século VIII a.C. — o que, por si só, é uma antiguidade considerável.
Vale destacar um dado que frequentemente surpreende: as escavações modernas identificaram que Jerusalém no século VIII a.C. era significativamente maior do que nos séculos anteriores — o que arqueólogos como Finkelstein associam não ao período davídico-salomônico, mas à chegada de refugiados do Reino do Norte de Israel (destruído pelos assírios em 722 a.C.). Esse influxo populacional teria impulsionado o crescimento urbano de Jerusalém, tornando-a pela primeira vez uma cidade de porte regional genuíno. A ironia histórica é evidente: a destruição de Samaria, capital do reino rival, teria fortalecido Jerusalém.
O reinado de Ezequias (727–698 a.C.) representa o primeiro governante de Jerusalém sobre quem a arqueologia oferece evidências materiais consistentes e independentes dos textos bíblicos. Além do famoso túnel hídrico, os arqueólogos identificaram o sistema de selagem administrativa de Ezequias — pequenos selos de argila (bullae) com seu nome que foram usados para autenticar documentos oficiais. Um desses selos, com a inscrição em hebraico “pertencente a Ezequias [filho de] Acaz, rei de Judá”, foi identificado nas escavações de Eilat Mazar. Esse tipo de evidência — pequena, técnica, não monumental — é frequentemente mais confiável historicamente do que as grandes narrativas arquitetônicas, que dependem de interpretações mais disputadas.
Babilônia, Persa e Helenismo: Três Dominações que Moldaram o Judaísmo
O Exílio e o Retorno
Em 586 a.C., o rei babilônio Nabucodonosor II sitiou e destruiu Jerusalém. O Primeiro Templo foi incendiado. A elite judaica — escribas, sacerdotes, artesãos qualificados — foi deportada para a Babilônia, enquanto os camponeses mais pobres permaneceram na terra. Esse evento, o Exílio Babilônico, é um dos pontos de inflexão mais significativos da história religiosa mundial.
No exílio, sem o Templo e sem a terra, os judeus precisaram reinventar sua prática religiosa. Foi durante esse período que a sinagoga emergiu como instituição — um lugar de reunião, leitura e interpretação da lei, que poderia existir em qualquer lugar sem necessitar de um altar físico ou de um sacerdócio territorialmente fixo. A tradição oral e a tradição escrita da Torah foram sistematizadas. O monoteísmo judaico, antes talvez competindo com outras divindades locais (uma perspectiva defendida por estudiosos como Mark Smith em The Early History of God), tornou-se mais exclusivo e universalista. A catástrofe de 586 produziu, paradoxalmente, um judaísmo mais portátil e mais resistente.
Quando os Persas conquistaram a Babilônia em 539 a.C., o rei Ciro II emitiu um édito autorizando os judeus deportados a retornarem a Judá e a reconstruírem seu templo. O Edito de Ciro, mencionado tanto no texto bíblico (Esdras 1) quanto em fontes persas, é parte de uma política mais ampla de Ciro de restaurar cultos locais em territórios conquistados — uma estratégia política sofisticada para ganhar a lealdade das populações locais. O Segundo Templo foi construído entre 520 e 515 a.C., num trabalho mais modesto que o lendário original de Salomão.
A Crise Helenística e os Macabeus
A conquista de Alexandre Magno em 332 a.C. integrou Judá ao mundo helenístico. Para a maioria das cidades da região, o helenismo era uma oportunidade — língua, comércio, filosofia. Para Jerusalém, tornou-se uma crise existencial.
Após a morte de Alexandre e a divisão de seu império entre os Diádocos, Jerusalém ficou primeiro sob controle dos Ptolomeus do Egito e depois dos Selêucidas da Síria. A tensão chegou ao ponto de ruptura com o rei selêucida Antíoco IV Epifânio, que em 167 a.C. profanou o Templo, instalou uma estátua de Zeus no Santo dos Santos, proibiu a circuncisão e o Shabat, e ordenou sacrifícios de porcos nos altares.
A revolta que se seguiu — a Revolta dos Macabeus — foi liderada por Judas Macabeu e seus irmãos. É um dos raros casos na história antiga de uma revolta bem-sucedida contra uma potência helenística. Em 164 a.C., os Macabeus reconquistaram Jerusalém e purificaram o Templo — evento celebrado anualmente na festa de Hanukkah. A dinastia que fundaram, os Hasmoneus, governou Judá por cerca de um século, expandindo o território e forçando conversões entre populações vizinhas — um comportamento que os próprios judeus criticariam mais tarde.
A era hasmoneia representa uma anomalia histórica: um estado judaico independente em Jerusalém, pelo qual os judeus da Diáspora olhariam com nostalgia por séculos. Ela terminou quando os irmãos Hircano II e Aristóbulo II disputaram o trono e chamaram Roma para arbitrar — um erro político monumental.
Roma e Jerusalém: Uma Relação de Destruição Mútua
Herodes, o Grande Construtor
O general romano Pompeu entrou em Jerusalém em 63 a.C. e penetrou no Santo dos Santos — não para pilhar, relata Cícero, mas por pura curiosidade religiosa. Esse ato, mesmo sem destruição, foi uma profanação nas perspectivas judaicas. Roma instalou clientes no poder, e o mais notável deles foi Herodes, filho de um funcionário idumeu que se tornara judeu por conversão forçada.
Herodes o Grande (37–4 a.C.) é uma das figuras mais contraditórias da história de Jerusalém. Politicamente, era um cliente romano que governava por concessão de Roma, massacrou parentes e filhos por paranoia, e é associado pelo evangelho de Mateus ao massacre dos inocentes — um episódio sem corroboração histórica externa, mas que captura sua reputação. Arquitetonicamente, porém, Herodes foi o maior construtor que Jerusalém jamais conheceu.
Herodes reconstruiu o Segundo Templo em escala monumental. Não apenas o edifício principal, mas a plataforma artificial sobre a qual ele repousava — um empreendimento de engenharia que envolveu criar um patamar artificial de 14 hectares sobre o topo de uma colina, sustentado por muros de contenção com pedras que pesavam até 600 toneladas. Os restos desses muros — incluindo o Muro Ocidental, o Muro das Lamentações — ainda existem. A grandiosidade do Templo de Herodes era reconhecida até pelos críticos judeus: o Talmude diz que “quem não viu o Templo de Herodes nunca viu um edifício belo em sua vida.”
Além do Templo, Herodes transformou Jerusalém em uma cidade helenístico-romana: construiu um teatro, um hipódromo, um anfiteatro para jogos, e um palácio colossal no setor ocidental da cidade — cujas torres, que Herodes nomeou em honra de seu amigo Marco Antônio, seu irmão Fasael e sua mulher Mariane (que ele mais tarde mandou executar), serviram de modelo para outros projetos no Oriente. Herodes também construiu o sistema de aquedutos que abastecia Jerusalém e a Fortaleza Antônia, adjacente ao Templo, onde mantinha uma guarnição romana e de onde, segundo os evangelhos, Jesus foi levado para julgamento por Pôncio Pilatos.
O paradoxo de Herodes é constitutivo da própria tensão que definiria Jerusalém por séculos: um rei que construiu a casa de Deus em escala sem precedentes era, aos olhos de muitos de seus súditos, um fantoche de Roma sem legitimidade religiosa genuína. A identidade de Jerusalém como cidade sagrada e a realidade de Jerusalém como cidade governada por poderes externos estavam em conflito permanente — e esse conflito é a raiz imediata das revoltas que viriam.
O Cerco de 70 d.C. e a Segunda Destruição
A revolta judaica contra Roma em 66 d.C. foi produto de décadas de tensão acumulada: impostos escorchantes, governadores romanos incompetentes ou deliberadamente provocadores, e conflitos internos entre facções judaicas que frequentemente descambavam para violência. Quando a revolta eclodiu, foi inicialmente bem-sucedida: uma legião romana foi destruída no desfiladeiro de Beit Horon.
Roma respondeu com esmagamento sistemático. Vespasiano iniciou a campanha; seu filho Tito a concluiu. O cerco de Jerusalém em 70 d.C. durou meses. A cidade estava dividida entre facções em guerra — os zelotas controlavam o Templo, João de Giscala controlava a Cidade Alta, Simão bar Giora controlava outro setor. Eles destruíam as reservas de alimentos uns dos outros como tática de guerra interna enquanto os romanos apertavam o cerco por fora.
Flávio Josefo, ex-comandante judeu que se rendeu aos romanos e escreveu a Guerra Judaica a partir do campo romano, é nossa fonte principal. Sua obra é invaluável e profundamente tendenciosa: Josefo precisava justificar sua rendição e agradar seus patronos flavianos. Ele coloca em Tito discursos de magnanimidade e lamenta a destruição do Templo como acidente ou decisão dos soldados — o que historiadores modernos, como Martin Goodman em Rome and Jerusalem, tratam com ceticismo considerável. O Arco de Tito em Roma, ainda de pé no Fórum Romano, celebra a conquista com cenas da menorá sendo levada como troféu — uma evidência arqueológica do que Roma fez questão de publicizar.

O Templo foi incendiado em agosto de 70 d.C. A tradição judaica registra que o Primeiro e o Segundo Templos foram destruídos no mesmo dia do calendário hebraico — o 9 de Av — uma coincidência que os rabinos interpretaram como sinal de significado cósmico.
Élia Capitolina e a Revolta de Bar Kokhba
Depois de 70 d.C., Jerusalém existiu como cidade parcialmente destruída sob guarnição romana. A segunda grande revolta judaica, de Bar Kokhba (132–135 d.C.), foi desencadeada pelo projeto do imperador Adriano de construir sobre as ruínas de Jerusalém uma colônia romana chamada Élia Capitolina, com um templo a Júpiter no local do Templo destruído.
A revolta de Bar Kokhba foi a mais intensa das guerras judaicas contra Roma. O próprio rabino Akiva, o maior estudioso da época, declarou Bar Kokhba como o Messias. A repressão romana foi total: estima-se que 580 mil judeus foram mortos em batalha, além dos que morreram de fome e doença. Adriano proibiu os judeus de entrar em Jerusalém, renomeou a província de Judeia para Syria Palaestina (uma deliberada humilhação, referenciando os filisteus, inimigos bíblicos dos judeus), e construiu Élia Capitolina sobre as cinzas.
Por quase dois séculos, Jerusalém foi uma cidade greco-romana sem presença judaica significativa — com templos pagãos, teatro, colunatas. Até que o mundo mudou novamente.
A Cidade Cristã: Constantino e Bizâncio
A Invenção da Cidade Santa Cristã
Quando o imperador Constantino I legalizou o cristianismo no Edito de Milão (313 d.C.) e progressivamente favoreceu a fé cristã, Jerusalém ocupava uma posição curiosa: era uma cidade romana de segundo escalão, Élia Capitolina, com uma população mista e importância religiosa crescente para os cristãos, mas sem estrutura que correspondesse a isso.
A transformação foi inaugurada pela mãe de Constantino, Helena Augusta, que visitou a Terra Santa por volta de 326–328 d.C. em uma peregrinação que combinava devoção sincera com política imperial. A tradição atribui a Helena a descoberta da Vera Cruz — a madeira da crucificação de Jesus — em uma cisterna sob o templo de Vênus que Adriano havia construído sobre o local do Calvário. A historicidade dessa descoberta é debatida, mas o impacto político e religioso foi imediato: Constantino ordenou a construção da Basílica do Santo Sepulcro sobre o local, inaugurada em 335 d.C.
O Santo Sepulcro foi concebido como a maior igreja do mundo cristão. Seu complexo englobava o Calvário (o Gólgota), o túmulo de Jesus, e uma rotunda monumental. Arqueólogos modernos, incluindo os trabalhos de Dan Bahat, confirmam que o local está sobre uma antiga pedreira que foi convertida em necrópole fora dos muros da cidade do século I — consistente com a tradição de que Jesus foi crucificado e sepultado fora dos muros de Jerusalém.
A peregrinação cristã a Jerusalém tornou-se um fenômeno de massa. A Peregrina de Égéria, um relato de viagem do século IV provavelmente escrito por uma monja ibérica, descreve os rituais litúrgicos de Jerusalém com um detalhamento que permite aos liturgistas modernos rastrear o desenvolvimento da Semana Santa. Jerusalém desenvolveu um calendário litúrgico próprio, com procissões entre os santos locais que depois foram exportadas para toda a cristandade.
O Período Bizantino e a Tensão com os Judeus
Sob o domínio Bizantino (séculos IV–VII), Jerusalém foi transformada em uma cidade cristã monumental. Igrejas, mosteiros e hospícios de peregrinos multiplicaram-se. A população cresceu consideravelmente. O imperador Justiniano (527–565) construiu a Nea Ekklesia — a “Nova Igreja” de Maria — que as escavações modernas identificaram parcialmente sob o bairro judeu atual.
Mas esse período cristão não foi pacífico. Os judeus, proibidos de habitar Jerusalém desde Adriano, foram progressivamente proibidos também de se aproximar da cidade sob leis bizantinas discriminatórias. A perseguição esporádica e sistemática do judaísmo pelo Estado cristão criou ressentimentos profundos que explodiram em violência quando a oportunidade surgiu.
Em 614 d.C., os Sassânidas persas — comandados pelo general Shahrbaraz — invadiram a Síria-Palestina e sitiaram Jerusalém. Segundo as fontes, os judeus locais colaboraram ativamente com os persas, esperando que uma vitória sassânida significasse o fim das restrições. A cidade foi tomada, a Basílica do Santo Sepulcro foi danificada ou destruída (as fontes divergem), e a Vera Cruz foi levada como troféu para a Pérsia. O impacto psicológico sobre a cristandade foi imenso — é nesse contexto que o imperador Heráclio lançou o que muitos historiadores chamam de a “primeira Cruzada”, reconquistando a Palestina em 629 e recuperando a relíquia.
O período entre a reconquista de Heráclio e a conquista islâmica de Omar (629–637) foi brevíssimo — menos de uma década. Mas revelou uma fragilidade estrutural do domínio cristão sobre Jerusalém: dependia da capacidade militar e política de Constantinopla, que estava exausta após décadas de guerra com os sassânidas. Quando os exércitos árabes muçulmanos avançaram no início dos anos 630, encontraram uma população e um exército bizantino que haviam sangrado por uma geração. A rapidez com que toda a Síria-Palestina caiu para os muçulmanos — em menos de uma década — é em parte explicável pelo esgotamento das guerras romano-sassânidas.
A disputa entre diferentes comunidades cristãs pela custódia dos Lugares Santos é outro aspecto do período bizantino que lançou sombras longas sobre a história posterior. Gregos ortodoxos, coptas, armênios, sírios e latinos nunca chegaram a um acordo definitivo sobre quem controlava quais altares, capelas e entradas. O Status Quo — um acordo informal que congelou os direitos de cada comunidade sobre cada pedaço da Basílica do Santo Sepulcro — foi formalizado pelos otomanos no século XIX e ainda governa o local hoje: há situações em que uma escada de madeira apoiada em uma janela do segundo andar da basílica não pode ser movida porque nenhuma das comunidades concorda sobre quem tem autoridade para fazê-lo. Essa escada — a Escada Imóvel, como é conhecida — tornou-se um símbolo involuntário de como a sacralidade pode produzir paralisia.
A Conquista Islâmica: Um Novo Eixo Sagrado
Omar e a Rendição de Jerusalém
Em 637 d.C., o califa Omar ibn al-Khattab entrou em Jerusalém a pé. Não montado, não em carro de guerra — a pé, em deliberado contraste com o fausto imperial que a cidade havia conhecido. O patriarca cristão Sofrônio rendeu as chaves da cidade pessoalmente ao califa, numa cena que as fontes islâmicas transmitem com ênfase na dignidade mútua.
A conquista islâmica de Jerusalém foi notavelmente diferente das que a precederam. Omar recusou-se a rezar dentro da Basílica do Santo Sepulcro quando Sofrônio o convidou, dizendo que se o fizesse os muçulmanos reivindicariam o local e o converteriam em mesquita. Ele rezou no exterior. Essa tradição, seja histórica ou edificante, captura algo real sobre a política islâmica inicial em relação aos Lugares Santos: os cristãos e judeus (considerados dhimmis, “povos do livro”) poderiam continuar praticando suas religiões sob proteção islâmica, pagando um imposto especial (jizya).
Os judeus foram formalmente autorizados a retornar a Jerusalém pela primeira vez desde 135 d.C. — cerca de 500 anos de exclusão. A ambivalência da relação entre Omar e os judeus de Jerusalém é reveladora: as fontes registram que o califa pediu ao patriarca cristão permissão para reinstalar judeus na cidade, e Sofrônio concordou apenas com a condição de que não fossem mais de setenta famílias. O islã, naquele momento, operava como árbitro entre dois grupos que se odiavam.
O Domo da Rocha e o Significado da Al-Aqsa
O califa Abd al-Malik (685–705 d.C.) construiu o Domo da Rocha sobre o Monte do Templo — a estrutura islâmica mais antiga do mundo que sobrevive intacta. A escolha do local é politicamente complexa. A Rocha (al-Sakhra) é o local onde a tradição judaica coloca o Altar dos Sacrifícios do Templo, e a tradição islâmica associa ao local onde o Profeta Muhammad ascendeu aos céus na noite do Isra e Miraj.
Historiadores como Oleg Grabar argumentaram que o Domo foi construído em parte como resposta política à Meca e Medina, então controladas pelo califa rival Abd Allah ibn al-Zubayr. Criar um monumento espetacular em Jerusalém elevaria o prestígio dos Omíadas. As inscrições no interior do Domo, escritas em árabe clássico e dirigindo-se implicitamente aos cristãos, enfatizam a unicidade de Deus e negam a natureza divina de Jesus — uma declaração teológica em pedra.
A Mesquita de Al-Aqsa, construída próximo ao Domo da Rocha no início do século VIII, tornou-se o terceiro local mais sagrado do islã, após a Grande Mesquita de Meca e a Mesquita do Profeta em Medina. O conjunto do Monte do Templo — que os muçulmanos chamam de Haram al-Sharif, o “Recinto Nobre” — transformou Jerusalém em um polo de peregrinação islâmica que compete em importância com o hajj a Meca, embora jamais o substitua.
As Cruzadas: Jerusalém como Objeto de Desejo Ocidental
A Primeira Cruzada e o Massacre de 1099
Em novembro de 1095, o papa Urbano II pregou em Clermont, na França, convocando os cavaleiros da cristandade a reconquistar Jerusalém das mãos dos “infiéis”. O discurso — do qual não temos o texto original, apenas quatro versões diferentes escritas posteriormente — desencadeou um movimento que transformaria o Mediterrâneo por dois séculos. Os cruzados chegaram a Jerusalém em junho de 1099, após uma marcha de três anos e incontáveis batalhas e massacres pelo caminho.

O cerco de Jerusalém em julho de 1099 durou apenas cinco semanas. Quando os cruzados arrombaram os muros em 15 de julho de 1099, o que se seguiu foi um dos massacres mais documentados da história medieval. Cronistas cruzados — não adversários — descreveram ruas cobertas de sangue até os tornozelos, corpos empilhados nas praças, a população muçulmana e judaica assassinada de forma quase indiscriminada. Os judeus de Jerusalém se refugiaram em sua sinagoga, que foi incendiada com eles dentro.
A escala exata do massacre é debatida. Alguns historiadores, como John France em Victory in the East, argumentam que as descrições contemporâneas são hiperbólicas; outros, como Thomas Asbridge, sustentam que o massacre foi sistemático e intencional. O que é certo é que Jerusalém, que havia sido uma cidade muçulmana e judaica, tornou-se de um dia para outro uma cidade cristã — os poucos sobreviventes foram vendidos como escravos ou expulsos.
Os cruzados estabeleceram o Reino de Jerusalém (1099–1187), um estado feudal que governava a cidade e os territórios circundantes. O Domo da Rocha foi convertido em uma igreja chamada Templum Domini (Templo do Senhor). A Mesquita de Al-Aqsa tornou-se o quartel-general dos Cavaleiros Templários, que deram ao local seu nome. As igrejas cristãs foram restauradas e expandidas; a Basílica do Santo Sepulcro recebeu uma reconstrução massiva no estilo românico que ainda define sua aparência exterior.
O Reino de Jerusalém era uma entidade política estranha e fascinante: uma transplantação feudal europeia num território oriental, governada por uma nobreza que rapidamente começou a se adaptar ao ambiente local. Em poucas gerações, os chamados Poulains — cruzados nascidos no Oriente — adotavam parcialmente costumes levantinos, falavam árabe, se vestiam de forma diferente dos recém-chegados da Europa e frequentemente preferiam a diplomacia à guerra contra os estados muçulmanos vizinhos. As tensões entre os Poulains pragmáticos e os cruzados recém-chegados da Europa, cheios de fervor mas ignorantes das realidades locais, foram uma constante política no reino.
A vida cotidiana em Jerusalém cruzada era marcada por uma segregação social e religiosa que as fontes registram com detalhes perturbadores. Os muçulmanos foram inicialmente expulsos ou escravizados; os judeus, proibidos de habitar a cidade. A população cristã oriental — siriana, armênia, grega — habitava a cidade, mas era tratada como inferior pelos latinos. Os peregrinos europeus chegavam em levas contínuas, esperando encontrar uma Jerusalém bíblica e encontrando uma cidade cosmopolita e disputada. A Via Dolorosa — o caminho que a tradição associa ao trajeto de Jesus carregando a cruz — foi mapeada e ritualizada pelos cruzados, criando um roteiro de devoção que ainda define o turismo religioso cristão à cidade.
Saladino e a Reconquista de 1187
O general curdo Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub — Saladino no ocidente — derrotou o exército cruzado na Batalha de Hattin em julho de 1187. Com o exército do Reino de Jerusalém destruído no deserto, a cidade estava indefensável. Saladino sitiou Jerusalém em setembro de 1187.

O contraste com 1099 foi deliberado e teatral. Saladino não permitiu massacre. Os cristãos foram autorizados a resgatar suas liberdades pagando um valor fixo; aqueles que não podiam pagar foram reduzidos à servidão, mas Saladino e seus irmãos pessoalmente pagaram o resgate de milhares de pobres com seus próprios recursos. Os cronistas islâmicos enfatizaram essa magnanimidade; os cronistas cristãos, como o Cronista de Ernoul, também a reconheceram, a contragosto.
O Domo da Rocha foi purificado com água de rosas (importada de Damasco, segundo a tradição). A cruz de ouro foi retirada de seu topo. A Mesquita de Al-Aqsa foi restaurada ao culto islâmico. Os judeus foram autorizados a retornar — o filósofo Maimônides, que visitou Jerusalém pouco depois, registrou a emoção de rezar nas ruínas do Templo.
A resposta europeia foi a Terceira Cruzada (1189–1192), liderada por Ricardo I da Inglaterra, Filipe II da França e o imperador Frederico I Barbarossa (que morreu afogado antes de chegar). Ricardo reconquistou a costa, mas não Jerusalém. O Tratado de Jaffa de 1192 assegurou o acesso cristão a Jerusalém para peregrinos desarmados — uma solução política que admitia a impossibilidade militar de reconquista imediata.
As Cruzadas Posteriores e a Lógica do Fracasso
As cruzadas subsequentes revelam com clareza crescente a contradição central do projeto cruzado: Jerusalém era o objetivo declarado, mas a política, o dinheiro e a logística frequentemente conspiravam contra ela. A Quarta Cruzada (1202–1204) terminou com o saque de Constantinopla cristã. A Quinta Cruzada (1217–1221) atacou o Egito em vez de Jerusalém. A Sexta Cruzada (1228–1229) recuperou Jerusalém por diplomacia: o imperador Frederico II, excomungado pelo papa, negociou com o sultão al-Kamil o controle cristão da cidade por dez anos.
Essa diplomacia foi universalmente detestada: os papas a condenaram como heresia; os muçulmanos, como traição; os cruzados locais, como irrealista. Quando o prazo expirou, Jerusalém voltou ao controle muçulmano. Os Khwarazmis (turcos nômades da Ásia Central, empurrados para o oeste pelos Mongóis — história que os leitores do artigo sobre a Batalha de Legnica reconhecerão no seu contexto mais amplo) saquearam Jerusalém em 1244, destruindo o que restava da ocupação cristã.
Mamelucos e Otomanos: Jerusalém no Fim da Idade Média
A Cidade sob os Mamelucos (1250–1517)
Os Mamelucos — sultões egípcios de origem servil turco-circassiana — governaram Jerusalém por mais de dois séculos e meio. Esse período é frequentemente subestimado nas narrativas ocidentais, que tendem a saltar das Cruzadas para os Otomanos. Foi, no entanto, um período de intensa atividade construtiva e intelectual.
Os mamelucos construíram extensivamente em Jerusalém: madrassas (escolas islâmicas), khans (hospedarias), fontes e mausoléus. A arquitetura mameluca que envolve o Haram al-Sharif — as fachadas de pedra com listras alternadas de cores diferentes, o ablaq — ainda define a aparência do bairro muçulmano de Jerusalém. O sultão Barsbay e outros governantes financiaram construções como expressão de piedade e prestígio.
Os cristãos e judeus continuaram vivendo em Jerusalém sob o domínio mameluco, submetidos ao sistema dhimmi com suas restrições e proteções. A população total da cidade provavelmente não ultrapassava quinze mil pessoas nesse período — pequena para os padrões medievais, mas significativa dada a importância simbólica do lugar.
Um evento importante foi a chegada dos franciscanos como custodiantes oficiais dos Lugares Santos cristãos, estabelecida por decreto papal em 1342. A Custódia da Terra Santa, sediada no Monte Sião, existe até hoje. Os franciscanos negociaram sua presença com os sultões mamelucos pagando taxas e tributos consideráveis, o que criou uma relação de dependência pragmática com os governantes muçulmanos que definia o cotidiano da vida cristã em Jerusalém.
A comunidade judaica de Jerusalém nesse período era pequena e em grande parte de origem sefardita — mas a cidade estava prestes a receber um influxo significativo com a expulsão dos judeus da Espanha em 1492. Muitos dos judeus expulsos de Castela e Aragão migraram para o Império Otomano e para a Palestina, revitalizando as comunidades de Jerusalém, Safed e outras cidades.
A Conquista Otomana de 1517
Em 1517, o sultão otomano Selim I derrotou os mamelucos na Batalha de Marj Dabiq (1516) e depois em Ridaniya (1517), conquistando o Egito e toda a Síria-Palestina. Jerusalém foi incorporada ao Império Otomano sem resistência significativa.
Selim assumiu o título de Guardião dos Dois Santuários (referindo-se a Meca e Medina) e adicionou implicitamente Jerusalém a seu portfólio sagrado. Seu filho, Suleimão, o Magnífico (1520–1566), foi o grande transformador da Jerusalém otomana. Suleimão reconstruiu integralmente as muralhas de Jerusalém entre 1537 e 1541 — as muralhas que ainda hoje delimitam a Cidade Velha foram construídas por ele. O projeto envolveu não apenas reconstrução, mas redesenho: as muralhas de Suleimão são monumentais, com torres e portões que combinam função defensiva e demonstração de poder.
Suleimão também restaurou o Domo da Rocha, recobrindo seu exterior com azulejos de cerâmica turca de Iznique — o revestimento azul e branco que hoje define a aparência icônica do monumento data desse período. A fonte de Sabeel Qait Bey, uma das mais belas fontes islâmicas de Jerusalém, foi restaurada. O aqueduto que trazia água à cidade foi reparado.
Com os Otomanos, Jerusalém entrou em um novo capítulo de relativa estabilidade que duraria quatro séculos — até a Primeira Guerra Mundial e o Mandato Britânico. A cidade era governada por um sanjak-bey, uma unidade administrativa de importância média no vasto Império. Não era a capital de uma província, não era um centro comercial de primeira linha. Era, sobretudo, uma cidade sagrada — um status que protegia e limitava ao mesmo tempo.
A vida urbana na Jerusalém otomana do século XVI era organizada em millets — comunidades religiosas semiautônomas, cada uma com seu próprio sistema judicial para assuntos internos. Os cristãos (divididos entre gregos ortodoxos, latinos, armênios, coptas e outros), os judeus e os muçulmanos habitavam bairros distintos mas não hermeticamente separados, negociavam nos mesmos mercados e dependiam uns dos outros economicamente. O sistema millet otomano permitia uma convivência que não era igualitária — os muçulmanos eram a comunidade dominante — mas que garantia uma estabilidade que contrastava com os episódios de violência que haviam marcado as épocas cruzadas.
A chegada dos judeus expulsos da Espanha em 1492 e de Portugal em 1497 revitalizou a comunidade judaica de Jerusalém, mas foi a cidade de Safed, na Galileia, que se tornou o verdadeiro centro do renascimento judaico na Terra Santa nesse período. Em Safed, o rabino Josef Caro compilou o Shulchan Arukh (1565), o código legal judaico que até hoje define a prática ortodoxa. O cabalista Isaac Luria desenvolveu ali uma mística que influenciaria o judaísmo mundial por séculos. Jerusalém permanecia como foco de aspiração e peregrinação, mas a vida intelectual judaica sob os otomanos floresceu inicialmente mais ao norte.
Debate Historiográfico: Como Ler Jerusalém
O Problema das Fontes
Qualquer tentativa de escrever a história de Jerusalém se depara com um problema fundamental: quase todas as fontes são parciais por definição. A Bíblia hebraica é ao mesmo tempo documento histórico e texto teológico; o Novo Testamento foi escrito décadas após os eventos que descreve; o historiador Flávio Josefo escreveu para agradar seus patronos romanos; as crônicas cruzadas glorificavam o que deveriam registrar; as fontes islâmicas celebravam as conquistas muçulmanas.
O arqueólogo William Foxwell Albright, o “patriarca” da arqueologia bíblica, passou décadas tentando confirmar a narrativa bíblica com evidências físicas. Seu trabalho foi pioneiro, mas sua metodologia confundia frequentemente o desejo de confirmação com a avaliação rigorosa das evidências. A geração seguinte de arqueólogos israelenses, como Yigael Yadin, continuou parcialmente nessa tradição, embora com padrões mais rigorosos.
A virada crítica veio nos anos 1980–1990 com o que ficou conhecido como a “arqueologia bíblica revisionista” ou “nova arqueologia do Oriente Próximo”. Pesquisadores como Israel Finkelstein (Universidade de Tel Aviv) e o biblista americano William Dever adotaram posições divergentes: Finkelstein é cético sobre a historicidade da monarquia davídica em escala bíblica; Dever defende que a arqueologia confirma mais da narrativa bíblica do que os revisionistas admitem. O debate continua ativo nas revistas acadêmicas especializadas.
Jerusalém entre a Memória e a História
O historiador francês Pierre Nora cunhou o conceito de lieux de mémoire — lugares de memória — para descrever locais onde a memória coletiva se cristaliza e se torna constitutiva de identidade. Jerusalém é o exemplo mais extremo desse fenômeno: não apenas um lugar de memória, mas um lugar de memórias concorrentes, cada uma afirmando prioridade e autenticidade.
Para os estudiosos da religião como Karen Armstrong, autora de Jerusalem: One City, Three Faiths, a história de Jerusalém é a história de como os seres humanos transformam geografias em teologias — e como essa transformação pode produzir tanto altruísmo quanto violência. Seu argumento central é que Jerusalém tem sido um espelho para os desejos e medos de cada comunidade que a habitou: os que vieram esperando encontrar o sagrado frequentemente encontraram guerra.
A historiadora israelense Ora Limor e o medievalista Guy Stroumsa editaram uma coletânea (Christians and Christianity in the Holy Land) que examina como a cristandade construiu sua relação com os lugares físicos de Jerusalém ao longo dos séculos. Um dos achados mais perturbadores é que muitos dos “lugares santos” cristãos foram identificados e consagrados séculos após os eventos que supostamente marcaram — criando uma arqueologia do desejo tanto quanto do fato.
A Política da Memória e o Problema da Continuidade
Há uma questão metodológica fundamental que atravessa toda a historiografia de Jerusalém: como se estabelece a continuidade entre um lugar físico e a memória que se ancora nele? O Santo Sepulcro está no local correto? A Tradição diz que sim; a arqueologia confirma que o local era uma necrópole no século I, consistente com o relato evangélico; mas a cadeia de transmissão entre o evento e a identificação formal do local por Helena no século IV é difícil de rastrear com rigor.
O historiador Robert Wilken, em The Land Called Holy, examina como os cristãos dos primeiros séculos desenvolveram progressivamente um interesse nos lugares físicos da Terra Santa — um processo que não foi automático, já que o platonismo cristão tendeu inicialmente a desvalorizar o físico em favor do espiritual. A sacralização dos lugares foi um processo gradual, alimentado pela teologia da Encarnação: se Deus se tornou carne num lugar e tempo específicos, então os lugares importam.
Para os estudiosos do islã, a santidade de Jerusalém — Al-Quds em árabe — tem uma história igualmente complexa. A cidade não é mencionada pelo nome no Alcorão; sua santidade islâmica deriva em grande parte de um verso que menciona “a mesquita mais distante” (al-masjid al-aqsa), associado ao episódio da Ascensão (Miraj). Historiadores como Shlomo Dov Goitein argumentaram que a santidade islâmica de Jerusalém foi parcialmente intensificada em períodos de rivalidade com outras cidades sagradas ou em resposta a desafios políticos — o que não a torna menos real para os crentes, mas coloca sua construção num contexto histórico preciso.
Esse tipo de análise — a genealogia histórica da sacralidade — é frequentemente recebido com hostilidade por comunidades religiosas que veem nele uma tentativa de delegitimar reivindicações. O historiador rigoroso precisa insistir na distinção: explicar como algo se tornou sagrado não é o mesmo que dizer que não é sagrado. São operações em níveis diferentes — um histórico, outro teológico.
A Questão da Autenticidade dos Lugares Santos
Um problema específico que a arqueologia de Jerusalém enfrenta é o que poderíamos chamar de estratificação da autenticidade: cada camada histórica da cidade apagou ou modificou as camadas anteriores, criando uma situação em que o que os peregrinos e visitantes veem hoje é frequentemente uma construção de várias épocas sobrepostas, e não o local original de qualquer evento bíblico.
A Via Dolorosa é um exemplo perfeito. O trajeto atual, com suas catorze estações, foi fixado definitivamente pelos franciscanos apenas no século XVIII. O percurso muda ao longo dos séculos porque a topografia da Jerusalém do século I era diferente da Jerusalém atual — o nível do solo em muitos pontos é vários metros mais alto, acumulado pela deposição de debris de sucessivas construções e destruições. Arqueólogos calculam que o nível do solo na época de Jesus era entre 5 e 8 metros abaixo do atual em muitos pontos da Cidade Velha.
A Igreja do Santo Sepulcro, por sua vez, encapsula esse problema arquetipicamente: é um palimpsesto de construções — a basílica de Constantino, reconstruções cruzadas, adições armênias, gregas, latinas — que torna difícil qualquer leitura direta do lugar. E, no entanto, é precisamente esse caráter estratificado e coletivo que faz do edifício um documento histórico valioso: cada camada é uma assinatura de quem controlou a cidade e o que considerou importante preservar ou modificar.
O geógrafo histórico Yehoshua Ben-Arieh, em seus estudos sobre a Jerusalém do século XIX, documentou como a cidade que os viajantes europeus “redescobriam” naquele período era largamente uma projeção de suas próprias expectativas bíblicas sobre uma cidade que havia mudado radicalmente. Os viajantes chegavam esperando ver Jerusalém bíblica e encontravam uma cidade otomana medieval — e frequentemente descreviam a primeira enquanto observavam a segunda. Esse mecanismo de projeção é tão constitutivo da história de Jerusalém quanto qualquer conquista militar.
Conclusão: Por Que Jerusalém Não Deixou de Ser Disputada
Ao longo de três mil anos de história documentada, Jerusalém foi conquistada, destruída parcialmente ou totalmente, e reconstruída pelo menos uma dúzia de vezes. Egípcios, assírios, babilônios, persas, macedônios, selêucidas, romanos, sassânidas, árabes, cruzados, mamelucos e otomanos — todos passaram pelos seus muros, deixaram seus traços na pedra e na lei, e frequentemente acreditaram que seriam os últimos a fazê-lo.
O que Jerusalém revela, quando lida na longa duração, é um mecanismo que poderíamos chamar de escalada sagrada: quanto mais uma cidade é disputada em nome do sagrado, mais sagrada ela se torna para as partes que a disputam — o que gera novas disputas, que produzem novas camadas de sacralidade. É um ciclo que não tem lógica política simples, porque não obedece apenas à lógica política: obedece à lógica da identidade coletiva, da memória comunitária e da necessidade humana de ancorar o transcendente em lugares concretos.
A arqueologia, quando lida com rigor e sem agenda ideológica, não resolve as disputas — ela as complexifica. Revela que Jerusalém foi muitas coisas diferentes antes de ser o que cada tradição afirma que sempre foi. Isso não torna as reivindicações menos reais para quem as faz; torna-as mais historicamente compreensíveis, o que é um passo diferente, e talvez mais honesto.
O que permanece, no fim, é uma cidade pequena na altura das colinas da Judeia, sem porto, sem rio navegável, sem recursos naturais extraordinários — e que, por isso mesmo, só pode explicar sua centralidade histórica pelo que os seres humanos decidiram que ela significava. Essa decisão, e suas consequências, é a história mais longa que a humanidade já escreveu em pedra.
Há, porém, um ângulo frequentemente negligenciado nas grandes narrativas de Jerusalém: a vida ordinária. Por trás das conquistas e destruições, das relíquias e das mesquitas, existiram gerações de padeiros, curtidores, comerciantes de especiarias, escribas, carpinteiros e parteiras que nasceram, criaram filhos e morreram em Jerusalém sem participar das batalhas que a história registrou. A documentação medieval da Genizá do Cairo — um arquivo acidental de manuscritos judeus medievais descoberto numa sinagoga do Cairo no século XIX — preserva centenas de cartas e contratos comerciais que revelam uma comunidade judaica em Jerusalém integrada às redes mercantis do Mediterrâneo e do Índico: comprando tecidos, enviando remessas de dinheiro a familiares, disputando dívidas em tribunal. Esses documentos, estudados pelo historiador Shlomo Dov Goitein em sua monumental obra A Mediterranean Society, mostram que Jerusalém, por toda a sua carga simbólica, era também um lugar onde pessoas comuns tentavam sobreviver e prosperar.
É essa camada — a vida que existe abaixo das narrativas de impérios e profecias — que frequentemente se perde quando Jerusalém é tratada apenas como arena de conflito sagrado. Compreender a cidade em sua plenitude histórica exige segurar simultaneamente a grandeza das disputas e a trivialidade da vida cotidiana que as atravessou. As pedras de Jerusalém guardam os dois registros.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre Jerusalém
O que significa o nome Jerusalém? A etimologia mais aceita deriva do nome semítico antigo Urusalim ou Uru-Shalem, provavelmente significando “fundação de Shalim” (divindade cananeia do entardecer) ou “cidade da paz” — interpretação favorecida pela tradição cristã, que associa shalom (paz em hebraico) ao nome. O nome aparece pela primeira vez nas Cartas de Amarna, documentos egípcios do século XIV a.C.
Quantas vezes Jerusalém foi conquistada ao longo da história? Estima-se que Jerusalém foi conquistada entre trinta e quarenta vezes ao longo de sua história documentada, dependendo de como se define “conquista”. Cercos documentados incluem conquistas egípcias, assírias, babilônicas, persas, macedônias, selêucidas, romanas (em 63 a.C. e 70 d.C.), sassânidas, islâmicas (637), cruzadas (1099), ayyúbidas (1187), cruzadas novamente (1229), khwarazmis (1244), mamelucos e otomanas.
Por que o Monte do Templo é sagrado para três religiões diferentes? Para o judaísmo, é o local onde Abraão quase sacrificou Isaque e onde os dois Templos de Jerusalém foram construídos. Para o islã, é o local da Isra e Miraj — a viagem noturna e ascensão do Profeta Muhammad aos céus. Para o cristianismo, Jesus pregou e expulsou os vendedores do Templo que existia no local. As três tradições derivam da mesma raiz abraâmica, razão pela qual o mesmo lugar geográfico adquiriu significados sagrados independentes e sobrepostos.
O que foi o Exílio Babilônico e qual seu impacto no judaísmo? O Exílio Babilônico (586–538 a.C.) foi a deportação da elite judaica de Jerusalém para a Babilônia pelo rei Nabucodonosor II, após a destruição do Primeiro Templo. Seu impacto foi transformador: sem o Templo, os judeus desenvolveram formas de prática religiosa portáteis (sinagoga, estudo da Torah, oração comunitária) que permitiram ao judaísmo sobreviver à diáspora. Muitos estudiosos argumentam que o judaísmo rabínico, tal como existe hoje, tem suas raízes essenciais no período do exílio.
Qual foi a diferença entre a conquista cruzada de 1099 e a conquista islâmica de 637? A diferença principal está no tratamento da população civil. Em 1099, os cruzados massacraram a maior parte da população muçulmana e judaica de Jerusalém. Em 637, o califa Omar permitiu que a população cristã e judaica permanecesse na cidade, garantindo proteção às suas vidas e lugares de culto mediante pagamento de tributos. Historiadores debatem se essa diferença reflete valores religiosos distintos ou circunstâncias políticas diferentes — ou ambos.
Saladino realmente foi tão magnânimo quanto a tradição diz? A historiografia moderna tende a confirmar a narrativa de moderação de Saladino em 1187, mas com nuances. Saladino proibiu o massacre e organizou o resgate dos cativos cristãos, sendo responsável pelo resgate pessoal de muitos pobres. No entanto, também manteve em cativeiro aqueles que não puderam pagar — uma prática completamente dentro dos padrões medievais. Sua “magnanimidade” era tanto política quanto ética: Saladino precisava de boa reputação com os cristãos para governar territórios mistos e manter relações com os estados cruzados restantes.
O Muro das Lamentações faz parte do Templo original? Não diretamente. O Muro Ocidental (popularmente chamado de Muro das Lamentações) é um dos muros de contenção da plataforma construída por Herodes o Grande para ampliar e estabilizar o Monte do Templo. É contemporâneo ao Segundo Templo herodiano, mas não faz parte da estrutura do Templo em si — é a fundação de pedra que sustentava a plataforma sobre a qual o Templo foi erguido. Para o judaísmo rabínico, o Muro é sagrado porque é o vestígio mais próximo do espaço sagrado do Templo destruído.
Por que Adriano renomeou Jerusalém de Élia Capitolina? O imperador Adriano, após a Revolta de Bar Kokhba (132–135 d.C.), tomou medidas deliberadas para apagar a identidade judaica do lugar. “Élia” era uma de suas família (Aelius Hadrianus); “Capitolina” referia-se à Tríade Capitolina romana (Júpiter, Juno e Minerva). A renomeação da cidade, combinada com a proibição de entrada de judeus e a construção de templos pagãos sobre locais sagrados judaicos, foi uma tentativa de erradicar o vínculo entre o povo judeu e o lugar — uma política que fracassou em seus objetivos de longo prazo.
Qual foi o papel de Suleimão, o Magnífico, em Jerusalém? Suleimão I reconstruiu as muralhas de Jerusalém entre 1537 e 1541 — as muralhas que ainda hoje delimitam a Cidade Velha. Também mandou restaurar o Domo da Rocha, recobrindo seu exterior com os azulejos de cerâmica de Iznique que hoje definem sua aparência. Embora Jerusalém não fosse a capital otomana (Istambul ocupava esse papel), Suleimão investiu na cidade como expressão de legitimidade islâmica e piedade dinástica.
O que os historiadores debatem sobre as origens de Jerusalém? O principal debate gira em torno da escala do “reino” davídico-salomônico no século X a.C. Arqueólogos como Israel Finkelstein argumentam que Jerusalém nesse período era uma aldeia modesta, e que a grandiosidade do Templo de Salomão é uma projeção literária posterior. Arqueólogos como Eilat Mazar e historiadores como William Dever sustentam que há evidências arqueológicas de uma cidade mais significativa nesse período. O debate é técnico, mas tem implicações políticas e religiosas que intensificam sua ressonância pública.
Leituras Recomendadas
ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: Uma cidade, três religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
ASBRIDGE, Thomas. As Cruzadas: A guerra das guerras. São Paulo: Leya, 2012.
FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003.
GOODMAN, Martin. Rome and Jerusalem: The clash of ancient civilizations. London: Allen Lane, 2007.
JOSEFO, Flávio. A guerra dos judeus. São Paulo: Editora das Américas, 2004.

