Novas sepulturas revelam mistério de Göbekli Tepe
Durante décadas, centenas de fragmentos de ossos humanos encontrados entre as estruturas monumentais de Göbekli Tepe alimentaram uma das questões mais intrigantes do sítio arqueológico. Alguns crânios apresentavam cortes, sulcos e até perfurações deliberadas, contribuindo para a hipótese de que seus habitantes realizavam complexos rituais envolvendo os mortos.
Agora, a descoberta das primeiras sepulturas relativamente intactas do local oferece outra explicação para pelo menos parte do mistério.

Segundo estudo de Julia Gresky e Lee Clare publicado na revista PLOS ONE, alguns dos ossos dispersos podem ter pertencido originalmente a pessoas enterradas sob os pisos das construções. Posteriormente, erosão e deslizamentos teriam transportado os restos das partes mais altas do assentamento para áreas inferiores.
Isso não significa que rituais envolvendo crânios não tenham existido. Há evidências claras de manipulação intencional de alguns restos humanos. A novidade é que provavelmente nem todos os ossos espalhados pelo sítio tiveram origem ritual.
As primeiras sepulturas de Göbekli Tepe
Localizado no sudeste da atual Turquia, Göbekli Tepe começou a ser ocupado por volta de 9600 a.C. e tornou-se mundialmente conhecido por suas construções monumentais e enormes pilares de calcário em forma de T.
Desde o início das escavações modernas, em 1995, arqueólogos encontraram numerosos restos humanos entre os sedimentos e escombros. Até agora, foram catalogados 928 fragmentos humanos isolados.
Faltava, entretanto, algo fundamental: sepulturas preservadas que permitissem comparar esses fragmentos com esqueletos enterrados no próprio assentamento.
Duas sepulturas datadas aproximadamente de 8700 a 8000 a.C. finalmente forneceram essa referência.
Uma delas continha pelo menos três pessoas: uma mulher com mais de 35 anos, um jovem adulto e uma adolescente entre 11 e 14 anos. Seus crânios estavam reunidos em uma extremidade da sepultura e outros ossos haviam sido deslocados, indicando que a cova provavelmente foi reaberta para receber novos mortos.
Na segunda sepultura estava uma jovem adulta, provavelmente entre 20 e 30 anos, enterrada de lado e em posição flexionada.
Apesar de permanecer relativamente preservado, seu esqueleto apresentava ossos fragmentados, depósitos calcários e possíveis marcas de roedores — alterações semelhantes às observadas nos restos humanos anteriormente encontrados espalhados pelo sítio.
Erosão pode explicar os ossos espalhados
Essa semelhança forneceu aos arqueólogos uma pista importante.
Muitos danos encontrados nos ossos dispersos não precisam ter sido provocados intencionalmente. Pressão do solo, depósitos minerais, animais e outros processos naturais ocorridos durante milhares de anos também podem fragmentar esqueletos.
A própria topografia de Göbekli Tepe fortalece essa hipótese. Algumas das estruturas monumentais estavam situadas abaixo de outras áreas do assentamento. Ao longo dos séculos, processos erosivos e movimentos do terreno transportaram sedimentos das partes superiores para as inferiores.
Sepulturas existentes nessas áreas poderiam ter sido destruídas durante esse processo, carregando ossos humanos junto com terra, pedras e outros materiais para o interior das construções.
Os pesquisadores consideram, portanto, plausível que pelo menos parte dos 928 fragmentos humanos tenha chegado aos locais onde foi encontrada dessa maneira.
E o chamado “culto aos crânios”?
A nova interpretação não elimina uma das características mais intrigantes de Göbekli Tepe.
Em 2017, pesquisadores identificaram fragmentos de crânios contendo profundas incisões feitas deliberadamente. Um deles também apresentava uma perfuração.
Essas marcas não podem ser explicadas pela erosão ou pela pressão do solo. Alguns mortos realmente receberam tratamentos especiais após a morte.
Práticas envolvendo crânios também são conhecidas em outros assentamentos neolíticos da região. Em Karahantepe foram encontrados crânios com sinais de cortes, raspagem e exposição ao fogo, enquanto em Sefertepe arqueólogos descobriram uma estrutura contendo mais de 21 crânios.
Portanto, o estudo não descarta práticas rituais relacionadas aos mortos ou mesmo alguma forma particular de culto aos crânios. O que muda é a interpretação de que todos os ossos dispersos seriam resultado dessas práticas.
Göbekli Tepe também era um lugar para viver
A descoberta também reforça uma transformação importante na maneira como os arqueólogos interpretam Göbekli Tepe.
Durante muito tempo, o sítio foi apresentado principalmente como um grande centro cerimonial visitado periodicamente por grupos de caçadores-coletores.
Essa visão vem sendo revista.
Escavações revelaram evidências de construções domésticas e atividades cotidianas. Agora, as sepulturas acrescentam outro elemento ao cenário. Enterrar mortos sob pisos ou próximo às residências era uma prática conhecida entre comunidades neolíticas da Anatólia e do Levante.
Göbekli Tepe, portanto, provavelmente não foi apenas um “templo” isolado. Monumentos, espaços domésticos e sepulturas parecem ter coexistido em um assentamento muito mais complexo.
Um mistério parcialmente resolvido
As novas descobertas mostram que provavelmente não existe uma única explicação para os restos humanos de Göbekli Tepe.
Algumas pessoas foram enterradas sob construções; certas sepulturas foram reabertas e os esqueletos reorganizados; alguns crânios foram deliberadamente modificados; e processos naturais provavelmente destruíram outras sepulturas, espalhando seus restos pelo assentamento.
Mais de dez mil anos depois, essas sepulturas ajudam os arqueólogos a reconstruir uma imagem cada vez mais complexa das comunidades que ergueram Göbekli Tepe — não apenas de como tratavam seus mortos, mas também de como viviam.

