Gawhar Shad: a rainha que construiu o império timúrida
Em 1417, nas margens do rio Hari, em Herat, uma multidão observava o levantamento de pilares de uma mesquita cujas cúpulas azuis ainda não existiam senão nos desenhos dos arquitetos. Não era o sultão quem supervisionava as obras, tampouco um vizir. Era Gawhar Shad, esposa do governante timúrida Shah Rukh, que caminhava entre os andaimes determinando o traçado dos arcos e a profundidade das fundações. Poucas mulheres na história da Ásia Central exerceram poder político e cultural tão duradouro quanto ela, e ainda assim seu nome permanece, para o público ocidental, quase desconhecido.
Quem foi, então, Gawhar Shad? Ela foi a principal esposa de Shah Rukh, filho de Tamerlão (Timur), e tornou-se uma das mais influentes patronas de arquitetura, literatura e política do mundo islâmico no século XV. Sua atuação não se limitou ao papel decorativo reservado a muitas consortes de dinastias pré-modernas: Gawhar Shad administrou recursos, financiou complexos monumentais inteiros, interferiu diretamente na sucessão dinástica e, ao final da vida, foi executada por ordem de um rival político — um destino que revela tanto sua relevância quanto os riscos do poder feminino em contextos dinásticos centralizados.
Este artigo reconstrói a trajetória de Gawhar Shad a partir de três eixos centrais: sua ascensão como esposa de Shah Rukh e a consolidação de seu papel político em Herat; seu legado como mecenas arquitetônica, com destaque para o Complexo de Gawhar Shad em Mashhad e a Madrassa de Herat; e sua participação nas disputas sucessórias que marcaram o declínio do império timúrida após a morte de Shah Rukh, culminando em sua morte violenta em 1457. Ao longo do texto, também se discute a historiografia produzida sobre ela, que oscila entre tratá-la como figura excepcional e investigá-la como produto de estruturas dinásticas mais amplas, como o sistemas de patronato feminino observado em outras cortes turco-mongóis.
O período em que Gawhar Shad viveu — entre aproximadamente 1378 e 1457 — corresponde ao apogeu cultural do Renascimento Timúrida, fase em que Herat, Samarcanda e outras cidades da Ásia Central se tornaram centros de produção artística, científica e literária comparáveis, em escala regional, ao que ocorria contemporaneamente na Itália. Compreender Gawhar Shad é compreender como o poder dinástico timúrida dependia não apenas de exércitos e tributos, mas de redes de patrocínio cultural em que mulheres da família real desempenhavam papéis centrais.
Origens e casamento com Shah Rukh
Gawhar Shad nasceu por volta de 1378, integrante da tribo turco-mongol Tarkhan, um dos grupos aristocráticos que compunham a elite militar e política associada a Tamerlão desde as primeiras campanhas de unificação da Transoxiana. Seu pai, Ghiyath al-Din Tarkhan, ocupava posição de destaque entre os comandantes leais ao conquistador, e o casamento da filha com um dos príncipes timúridas seguia a lógica política comum às dinastias da época: alianças matrimoniais como instrumento de coesão entre o clã dominante e as elites tribais subordinadas.
O casamento com Shah Rukh, quarto filho de Tamerlão, ocorreu provavelmente entre 1388 e 1389, quando ambos ainda eram bastante jovens. Shah Rukh não era, à época, o herdeiro mais evidente do trono — essa posição cabia a outros filhos e netos de Timur, em particular ao neto Pir Muhammad e, posteriormente, a Khalil Sultan. A ascensão de Shah Rukh ao governo de Herat, e depois ao trono imperial timúrida em 1409, alterou profundamente a posição de Gawhar Shad, que passou de esposa de um príncipe regional a consorte principal do soberano mais poderoso da Ásia Central e do Irã oriental.
A historiografia especializada, como os trabalhos de Maria Subtelny e Beatrice Forbes Manz sobre a sociedade timúrida, destaca que o título de khanum atribuído a Gawhar Shad não era meramente honorífico. Ele vinha acompanhado de domínio sobre recursos fiscais próprios — terras de waqf, rendas urbanas e patrimônios herdados — que permitiam às mulheres de alto status na corte timúrida atuar como agentes econômicos independentes, sustentando projetos de construção, doações religiosas e redes de clientela. Esse modelo, enraizado em práticas turco-mongóis anteriores ao Islã, diferia significativamente do padrão observado em outras dinastias muçulmanas contemporâneas, como os mamelucos egípcios, onde a participação econômica feminina na elite era mais restrita.
Shah Rukh, ao assumir o trono em Herat após a morte do irmão Miran Shah e a derrota de outros pretendentes, optou por manter a capital ali, em vez de Samarcanda, cidade icônica associada à memória de Timur. Essa decisão teve consequências diretas para Gawhar Shad: foi em Herat que ela desenvolveu, ao longo de quase quatro décadas, sua rede de patrocínio mais robusta, transformando a cidade em um dos polos urbanos mais sofisticados do mundo islâmico medieval.
O papel político de Gawhar Shad na corte de Herat
Ao contrário da imagem simplificada de consortes reais como figuras decorativas, Gawhar Shad participava ativamente das deliberações políticas da corte timúrida. Fontes persas da época, como a crônica Matla al-Sa’dayn, de Abd al-Razzaq Samarqandi, registram sua presença em conselhos e negociações dinásticas, frequentemente atuando como mediadora entre Shah Rukh e os múltiplos príncipes timúridas que governavam, com relativa autonomia, províncias como Samarcanda, Balkh e o Khorasan.
Esse sistema de governo, descrito por historiadores como ulus ou confederação de apanágios principescos, exigia constante arbitragem entre interesses regionais conflitantes. Shah Rukh governava por meio de uma estrutura descentralizada em que sobrinhos e filhos administravam territórios distintos, todos nominalmente subordinados ao soberano em Herat, mas com exércitos e tesouros próprios. Gawhar Shad funcionava como elo estabilizador nessa rede: suas relações de parentesco e patrocínio estendiam-se a múltiplas cortes provinciais, e sua intervenção era frequentemente solicitada em disputas de precedência ou herança.
Um exemplo concreto dessa atuação ocorreu nas tensões envolvendo Ulugh Beg, filho de Shah Rukh e governador de Samarcanda, famoso por seu observatório astronômico e por sua erudição científica. Quando surgiam atritos entre Ulugh Beg e outros membros da família — situação recorrente dado o caráter competitivo da sucessão timúrida — Gawhar Shad por vezes intercedia, buscando preservar o equilíbrio entre os apanágios sem comprometer a autoridade central de Shah Rukh. Essa função de mediadora não era automática nem garantida pelo título: dependia do prestígio pessoal acumulado por Gawhar Shad ao longo de décadas, alimentado tanto por suas alianças tribais de origem quanto pelos projetos de patrocínio que a tornaram uma figura pública reconhecida.
A historiografia recente, sobretudo após os trabalhos de Priscilla Soucek sobre mecenato feminino timúrida, evita romantizar esse poder como equivalente ao de um soberano formal. Gawhar Shad jamais ocupou cargo administrativo institucional, jamais comandou tropas e não emitia decretos como o sultão. Seu poder era relacional e patrimonial: derivava de redes de lealdade construídas por meio de doações, casamentos arranjados para parentes e clientes, e do controle de recursos econômicos que ela podia direcionar segundo seus próprios interesses. Esse modelo de autoridade feminina indireta, mas substantiva, foi recorrente entre dinastias de origem mongol e turco-mongol, ecoando práticas observadas também entre as esposas dos khans da Horda de Ouro e entre certas consortes do Ilkhanato.
O Complexo de Gawhar Shad em Mashhad
Entre os legados mais duradouros de Gawhar Shad está o complexo arquitetônico que leva seu nome, construído junto ao santuário do Imam Reza, em Mashhad, atual Irã. As obras tiveram início por volta de 1405-1406 — ainda no período em que Gawhar Shad consolidava sua posição como consorte de Shah Rukh — e prolongaram-se por quase duas décadas, sendo concluídas em 1418.
O conjunto incluía uma mesquita monumental, cuja cúpula azul-turquesa revestida de azulejos kashi tornou-se um dos exemplos mais celebrados da arquitetura timúrida, além de um pátio central, iwans (pórticos abobadados) ricamente decorados com caligrafia cúfica entrelaçada e padrões geométricos, e estruturas anexas voltadas ao ensino religioso. A mesquita foi projetada para integrar-se ao santuário xiita do Imam Reza, reforçando simbolicamente a ligação entre o patrocínio timúrida e a legitimidade religiosa, em um período de transição entre o predomínio sunita e a futura ascensão do xiismo safávida na região.
O arquiteto responsável pelo projeto, segundo inscrições e fontes textuais, foi Qavam al-Din Shirazi, um dos mestres construtores mais renomados do período, também associado a outras obras patrocinadas pela família timúrida. A escolha de Qavam al-Din não foi incidental: ele havia trabalhado anteriormente em projetos ligados à corte, e sua contratação por Gawhar Shad demonstra como ela operava dentro das mesmas redes profissionais de arquitetos e artesãos utilizadas pelo próprio Shah Rukh, em vez de constituir um círculo de mecenato paralelo e isolado.
Do ponto de vista historiográfico, o complexo de Mashhad é interpretado de duas formas complementares. Por um lado, especialistas em arquitetura islâmica, como Lisa Golombek e Donald Wilber, destacam sua importância técnica: as soluções estruturais empregadas nas cúpulas duplas e nos sistemas de abóbadas representam um refinamento em relação a modelos anteriores, influenciando construções posteriores no Irã safávida e na Ásia Central. Por outro lado, historiadores sociais enfatizam a dimensão política da obra: financiar um santuário xiita relevante, mesmo em uma corte de orientação majoritariamente sunita, ampliava a influência da família timúrida sobre comunidades religiosas diversas e consolidava o prestígio pessoal de Gawhar Shad como figura piedosa e generosa, atributo essencial à legitimidade de qualquer patrono na cultura islâmica medieval.
É importante notar que a função do mecenato religioso, neste contexto, não era puramente espiritual. Financiar mesquitas, madrassas e santuários gerava redes de dependência: professores, administradores de waqf, imãs e estudantes vinculados a essas instituições deviam sua posição, direta ou indiretamente, à generosidade da patrona. Gawhar Shad, ao multiplicar essas fundações por diferentes cidades, construiu uma base de apoio que transcendia a corte e alcançava setores religiosos e educacionais da sociedade timúrida.
A Musallah e a Madrassa de Gawhar Shad em Herat
Se o complexo de Mashhad consolidou a reputação inicial de Gawhar Shad, foi em Herat que sua atuação como patrona atingiu maior escala. Entre 1417 e 1438, ela patrocinou a construção do complexo Musallah, um conjunto monumental que incluía uma madrassa, uma mesquita congregacional e o próprio mausoléu onde, mais tarde, seriam sepultados membros da família timúrida, incluindo, possivelmente, ela mesma.
A Madrassa de Gawhar Shad, elemento central do complexo, distinguia-se pela escala monumental dos minaretes — que, segundo registros de viajantes europeus dos séculos XIX, ainda de pé em número reduzido antes de sua destruição parcial, ultrapassavam os quarenta metros de altura — e pela complexidade dos painéis de mosaico que cobriam suas superfícies externas. A instituição funcionava como centro de ensino jurídico e teológico, abrigando estudantes provenientes de diferentes regiões do Khorasan e da Transoxiana, o que reforça o papel de Herat como polo educacional de relevância supra-regional durante o reinado de Shah Rukh.
Lamentavelmente, boa parte do complexo Musallah foi destruída ao longo do século XIX, em parte por deterioração natural, mas sobretudo por demolições deliberadas conduzidas por forças britânicas durante a Segunda Guerra Anglo-Afegã, motivadas por considerações estratégicas de visibilidade militar na região. Apenas alguns minaretes isolados e fragmentos do mausoléu sobreviveram até o presente, hoje preservados como patrimônio histórico do Afeganistão, embora em estado de conservação precário, agravado pelas décadas de conflito armado no país.
A historiadora Lisa Golombek argumenta que a Madrassa de Gawhar Shad representa um ponto de maturidade da arquitetura timúrida tardia, caracterizada pela integração entre função educacional, espaço funerário e expressão estética, em um modelo que seria posteriormente reproduzido, com variações, em construções safávidas e mogóis. A justaposição entre madrassa e mausoléu, em particular, não era incidental: ao construir seu próprio local de sepultamento dentro de um complexo educacional que ela mesma financiava, Gawhar Shad inscrevia sua memória na paisagem urbana de Herat de maneira permanente, associando seu nome simultaneamente à piedade religiosa, ao saber jurídico-teológico e à continuidade dinástica.
Esse padrão de “complexo funerário-educacional” patrocinado por mulheres da elite turco-mongol e timúrida não era exclusivo de Gawhar Shad — sua contemporânea e parente Bibi Khanum, associada a Tamerlão, e outras princesas timúridas seguiram modelos similares —, mas poucas o executaram em escala comparável. A magnitude dos recursos mobilizados por Gawhar Shad para a Musallah evidencia o quanto seu patrimônio pessoal, derivado de terras, rendas comerciais e doações, equiparava-se, em certos aspectos, ao de príncipes territoriais.
Mecenato literário e científico
Embora a arquitetura constitua o aspecto mais visível do legado de Gawhar Shad, sua influência também se estendeu ao campo literário e científico, ainda que de maneira menos documentada por inscrições monumentais e, portanto, mais dependente de fontes textuais indiretas. A corte de Herat sob Shah Rukh tornou-se um dos ambientes mais produtivos do mundo persa para a composição de crônicas históricas, tratados teológicos e obras de caligrafia e iluminura.
O historiador Abd al-Razzaq Samarqandi, autor da já mencionada Matla al-Sa’dayn, beneficiou-se diretamente do ambiente cultural sustentado pela corte, no qual Gawhar Shad ocupava posição relevante como patrona de letrados. Fontes da época sugerem que ela mantinha correspondência e financiava copistas responsáveis pela produção de manuscritos iluminados, prática comum entre membros da elite timúrida que buscavam, por meio do patrocínio de obras escritas, reforçar sua reputação de piedade e refinamento cultural.
Esse investimento em produção textual deve ser compreendido dentro do projeto mais amplo da dinastia timúrida de se apresentar como herdeira legítima da tradição cultural perso-islâmica, em contraste com a reputação de devastação militar associada a Tamerlão durante suas campanhas. Shah Rukh, e por extensão Gawhar Shad, investiram deliberadamente em projetos que ressignificassem a imagem pública da dinastia, transformando os timúridas de conquistadores nômades em mecenas refinados de uma civilização urbana sofisticada — processo que os historiadores chamam, retrospectivamente, de Renascimento Timúrida.
A relação entre Gawhar Shad e o desenvolvimento da escola de miniatura persa, embora menos direta do que sua participação na arquitetura, integra-se a esse mesmo contexto. O ateliê real de Herat, que floresceria décadas depois sob a supervisão do pintor Kamal ud-Din Behzad, herdava práticas e recursos institucionais consolidados ainda durante o reinado de Shah Rukh, período em que a infraestrutura cultural da cidade — bibliotecas, ateliês de caligrafia, escolas jurídicas — recebeu investimentos substanciais, parte dos quais atribuível à rede de patrocínio mantida por Gawhar Shad.
A crise sucessória após a morte de Shah Rukh
A morte de Shah Rukh em 1447 inaugurou um dos períodos mais turbulentos da história timúrida, e foi nesse contexto que Gawhar Shad, então com quase setenta anos, desempenhou seu papel político mais decisivo — e, em última instância, fatal. Sem um sucessor incontestável, o império fragmentou-se rapidamente em disputas entre príncipes timúridas que governavam diferentes províncias, repetindo o padrão de guerras civis que já havia marcado a sucessão de Tamerlão décadas antes.
Gawhar Shad posicionou-se ativamente a favor de seu bisneto, Abu’l-Qasim Babur (não confundir com o fundador do Império Mogol, homônimo posterior), e principalmente contra a ascensão de Abu Sa’id, outro príncipe timúrida que disputava o controle de Herat e Samarcanda. Sua influência, construída ao longo de décadas de patrocínio e alianças, permitia-lhe ainda mobilizar apoio entre as elites de Herat, embora seu poder militar direto fosse, evidentemente, inexistente — ela dependia de comandantes e governadores aliados para traduzir sua influência em ação política efetiva.
O historiador Beatrice Forbes Manz observa que esse episódio ilustra os limites estruturais do poder feminino na sociedade timúrida: por mais que Gawhar Shad pudesse influenciar decisões, financiar exércitos indiretamente por meio de alianças e atuar como figura de legitimação dinástica, ela jamais poderia ocupar pessoalmente o trono ou comandar tropas. Sua autoridade dependia inteiramente de sua capacidade de persuadir ou cooptar homens armados, e essa dependência tornava sua posição vulnerável no momento em que as disputas sucessórias escalaram para confronto militar aberto.
A execução de Gawhar Shad em 1457
Em 1457, Abu Sa’id, tendo consolidado controle militar sobre boa parte do território timúrida, ordenou a execução de Gawhar Shad, então com aproximadamente 79 anos. A decisão refletia tanto a necessidade prática de eliminar uma figura capaz de continuar mobilizando oposição política, quanto um gesto simbólico de ruptura definitiva com a antiga ordem associada a Shah Rukh.
As fontes primárias sobre os detalhes exatos da execução são limitadas e, em alguns casos, contraditórias quanto ao método e ao local exato, mas há consenso historiográfico de que sua morte foi ordenada diretamente por Abu Sa’id como represália por seu apoio à facção rival. Esse desfecho é notável precisamente por sua raridade: a execução de uma matriarca dinástica de tamanho prestígio, com décadas de patrocínio religioso e cultural acumulado, evidencia o quanto as disputas sucessórias timúridas haviam se tornado, àquela altura, despidas de qualquer limite tradicional de deferência a figuras de autoridade moral estabelecida.
A morte de Gawhar Shad não encerrou imediatamente as guerras civis timúridas, que se prolongariam ainda por décadas, até a ascensão de Sultan Husayn Bayqara como governante relativamente estável de Herat no final do século XV. Mas sua execução marca, simbolicamente, o fim de uma era em que a corte timúrida combinava elevado refinamento cultural com razoável estabilidade política — equilíbrio que se mostraria cada vez mais difícil de sustentar nas décadas seguintes, à medida que o império se fragmentava em principados regionais cada vez mais autônomos, processo que culminaria, no início do século XVI, na conquista de Herat pelos safávidas e na ascensão dos timúridas remanescentes — entre eles, o já citado Babur — à fundação do Império Mogol na Índia.
Gawhar Shad na historiografia contemporânea
A reavaliação acadêmica da figura de Gawhar Shad acompanha um movimento mais amplo na historiografia da Ásia Central islâmica, voltado a recuperar a participação feminina em estruturas de poder tradicionalmente narradas a partir de protagonistas masculinos. Pesquisadoras como Maria Subtelny, Priscilla Soucek e Beatrice Forbes Manz têm reconstituído, a partir de fontes administrativas, inscrições arquitetônicas e crônicas dinásticas, o alcance real do patrocínio exercido por mulheres da elite timúrida.
Há, contudo, divergências interpretativas relevantes. Uma linha de leitura tende a destacar o caráter excepcional de Gawhar Shad, apresentando-a como figura singular cuja influência superou amplamente os padrões esperados para mulheres de sua posição. Outra linha, mais cautelosa, insiste em contextualizar sua trajetória dentro de práticas estruturais turco-mongóis de patronato feminino, observáveis também em outras dinastias da mesma tradição política, como a Horda de Ouro e o Ilcanato, nas quais esposas principais de cãs frequentemente administravam patrimônios próprios e financiavam fundações religiosas. Sob essa perspectiva, Gawhar Shad não seria uma anomalia, mas a expressão mais bem documentada — devido à riqueza das fontes timúridas e à sobrevivência parcial de seus monumentos — de um padrão mais amplo de autoridade feminina indireta.
Essa segunda interpretação não diminui sua relevância histórica, mas a redimensiona: Gawhar Shad importa não apenas como indivíduo extraordinário, mas como caso privilegiado para compreender como sistemas dinásticos turco-mongóis distribuíam poder econômico e simbólico entre homens e mulheres da elite, ainda que de formas assimetricamente limitadas pelo acesso ao comando militar e à autoridade jurídica formal.
Conclusão: arquitetura, poder e memória
A trajetória de Gawhar Shad sintetiza, de maneira incomum, as possibilidades e os limites do poder feminino nas dinastias turco-mongóis da Ásia Central islâmica. Ela exerceu influência política substantiva durante quase quatro décadas, mobilizou recursos econômicos comparáveis aos de príncipes territoriais, e deixou um legado arquitetônico — o complexo de Mashhad, a Madrassa e Musallah de Herat — que figura entre os exemplos mais sofisticados da arquitetura islâmica do século XV. Sua morte violenta, ordenada por um rival dinástico, revela, no entanto, que esse poder permanecia condicionado à boa vontade de homens armados capazes de revertê-lo a qualquer momento.
O legado de Gawhar Shad sobrevive de forma fragmentada: parte de seus monumentos foi destruída por séculos de guerra e negligência, parte permanece de pé como testemunho da grandeza arquitetônica timúrida. Sua memória histórica, por sua vez, foi sendo progressivamente recuperada à medida que historiadores especializados em Ásia Central islâmica passaram a investigar com mais rigor as estruturas de patronato feminino que sustentaram boa parte da produção cultural do chamado Renascimento Timúrida. Compreender Gawhar Shad, portanto, é compreender uma dimensão essencial — e por muito tempo subestimada — de como o poder dinástico timúrida efetivamente funcionava.
FAQ – Perguntas frequentes sobre Gawhar Shad
Quem foi Gawhar Shad? Gawhar Shad foi a principal esposa de Shah Rukh, governante timúrida e filho de Tamerlão. Atuou como figura política influente na corte de Herat e como uma das mais importantes patronas de arquitetura do século XV islâmico.
Por que Gawhar Shad é considerada importante na história timúrida? Porque combinou influência política direta na corte com um vasto programa de mecenato arquitetônico e cultural, financiando complexos monumentais em Mashhad e Herat que se tornaram referências da arquitetura timúrida.
O que é o Complexo de Gawhar Shad em Mashhad? É um conjunto arquitetônico construído entre 1405 e 1418 junto ao santuário do Imam Reza, incluindo uma mesquita com cúpula azul-turquesa, considerada uma das obras mais refinadas da arquitetura timúrida.
Qual foi o papel de Gawhar Shad na crise sucessória timúrida? Após a morte de Shah Rukh em 1447, ela apoiou ativamente seu bisneto Abu’l-Qasim Babur contra o príncipe rival Abu Sa’id, mobilizando sua influência política acumulada ao longo de décadas.
Como Gawhar Shad morreu? Foi executada em 1457 por ordem de Abu Sa’id, que havia consolidado controle militar sobre o território timúrida e via nela uma ameaça política persistente devido a seu apoio à facção rival.
Gawhar Shad teve poder comparável ao de um governante formal? Não no sentido institucional: ela não comandava tropas nem emitia decretos. Seu poder era relacional e patrimonial, baseado em redes de patrocínio, alianças tribais e controle de recursos econômicos próprios.
Qual a diferença entre o mecenato de Gawhar Shad e o de outras mulheres timúridas? A escala e a documentação. Embora outras princesas timúridas tenham patrocinado construções, os complexos financiados por Gawhar Shad em Mashhad e Herat destacam-se pela magnitude dos recursos mobilizados e pela sobrevivência relativa de fontes que documentam sua atuação.
O que resta hoje da Madrassa de Gawhar Shad em Herat? Apenas fragmentos, principalmente alguns minaretes isolados, já que boa parte do complexo Musallah foi destruída ao longo do século XIX, sobretudo por demolições associadas a operações militares britânicas na região.
Como a historiografia atual interpreta a figura de Gawhar Shad? Há duas linhas principais: uma que a trata como figura excepcional, e outra que a contextualiza dentro de práticas estruturais turco-mongóis de patronato feminino, comuns também em outras dinastias da mesma tradição política.
Qual a relação entre Gawhar Shad e o chamado Renascimento Timúrida? Seu mecenato arquitetônico e cultural integra-se diretamente ao projeto mais amplo da dinastia timúrida de se apresentar como herdeira refinada da tradição perso-islâmica, processo historiograficamente conhecido como Renascimento Timúrida.
Referências bibliográficas
GOLOMBEK, Lisa; WILBER, Donald. The Timurid Architecture of Iran and Turan. Princeton: Princeton University Press, 1988.
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